Jornal de Negócios

03 agosto 2006

Já teve o seu susto hoje?

Público, Segunda, 31 de Julho de 2006, CARTAS AO DIRECTOR de
Fernando Gomes da Costa (médico), Coimbra

O alarmismo sempre foi das armas das mais poderosas, lucrativas, e eficazes, valendo-se da ignorância, ingenuidade e atracção pelo fantástico da maioria do público para lhe incutir os mais absurdos conceitos, normalmente com o fito de, por exemplo, dirigir consumos, obter votos, vender movimentos políticos ditos humanitários, arregimentar marchas de protesto, publicar lucrativos artigos noticiosos e conquistar tempos de antena.
A saúde (...) presta-se de especial modo a esse tipo de manipulação. (...) Se houvesse o hábito de reflectir um pouco sobre os conceitos "pronto a pensar" que nos tentam impingir diariamente, teríamos todos a ganhar (...).
Dou dois exemplos recentes: diziam alguns jornais no passado fim-de-semana que "o paracetamol (medicamento para a febre e dores) provocou, nos últimos três anos, meia centena de reacções adversas em Portugal, segundo o Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed) e foi recentemente associado à destruição do fígado, mesmo quando tomado em doses recomendadas... Para o estudo foram utilizados 106 participantes, divididos por três grupos: dois tomaram diariamente quatro gramas de paracetamol ao longo de duas semanas, e o terceiro tomou apenas placebo... Entre quem tomou o "remédio falso" não houve problemas de fígado, mas cerca de 40 por cento dos restantes participantes revelaram indícios de danificação daquele órgão."
Comentário: quatro gramas de paracetamol são oito Benurons por dia; vezes duas semanas dá a módica quantia de 112 comprimidos. O facto de só haver "indícios" de lesão hepática (algo muito subjectivo de analisar em termos médicos, uma vez que existem muitas outras coisas, a começar pelo álcool e gorduras que o podem fazer) é antes de mais uma mostra da inocuidade do produto. Do mesmo modo, 50 reacções adversas em Portugal (...) (e nenhuma grave foi comunicada à classe médica) em três anos, e em cada dia são prescritas embalagens na ordem dos milhares (fora as adquiridas sem receita), mostra que as probabilidades de haver problemas são bem menores que as de ser, por exemplo, atropelado por um jornalista.
Nas recomendações de uso deste medicamento sempre constaram avisos sobre os cuidados a ter em caso de toma prolongada ou em altas doses, sobretudo em relação ao fígado e rins. Não se percebe bem o porquê desta notícia ou "estudo" sobre uma coisa que não é novidade nenhuma, mas que pode ser alguma preparação para um novo produto a chegar ao mercado...

Segundo exemplo: um conhecido jornal on-line na sua edição de ontem, e em relação a um dos grandes pânicos regularmente cultivados nesta época estival - o cancro da pele e o hábito obviamente suicidário que as sociedades (ocidentais, claro) têm em se expor ao sol -, o presidente da Associação Portuguesa do Cancro Cutâneo terá afirmado, sobre a necessidade de protecção solar, que a quantidade ideal de creme a aplicar é, nada mais, nada menos do que um grama por centímetro quadrado. (...)
Na sequência de um hábito, também saudável, que é o de fazer contas aos números com que, com tanto gosto como displicência, muitos senhores jornalistas gostam de nos alarmar: a superfície média do corpo humano anda por volta dos 1,80 metros quadrados para uma pessoa de 70 quilos e 1,70 metros.
São portanto 18.000 (dezoito mil) centímetros quadrados. A um grama cada, são dezoito quilos de creme (a aplicar de duas em duas horas, se também seguirmos as regras)! Mesmo descontando as partes não expostas (poucas, como sabemos), convenhamos que é uma bela besuntadela e um excelente negócio para as farmácias e fabricantes. Pode mesmo criar novos postos de trabalho para "carregadores balneares", uma vez que uma família de quatro indivíduos precisará de transportar, para cada duas horas de praia, qualquer coisa como 60 a 80 quilos de cremes. Não imagino com que aspecto ficará uma pessoa depois de aplicar o creme recomendado, mas calculo que não lhe ficaria mal colocar por cima meia dúzia de azeitonas e um raminho de salsa.»

2 comentários:

  1. de facto..quantas vezes me interrogo: será que aos doente de 80 anos, receitar um farmaco hipolipemiante lhes irá evitar um enfarte aos 100 anos? ou isso interessa essencialmente a quem os vende?
    Parabéns por este blogue. E já agora experimente o "3 homens e um cão". creio que ainda há outro que mete umas bicicletas.
    CF

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  2. Quem receita (o médico, naturalmente) hoje em dia segue protocolos razoavelmente rígidos nesta matéria. A questão é que o fulcro dos cuidados de saúde é o "utente", é ele que tem o poder de "exigir" o "serviço": é portanto para o cidadão (incauto) que a pressão de marketing se vira, transformando-nos a todos em ratos de laboratório (da psicossociolgia e das técnicas de vendas).

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