Jornal de Negócios

28 dezembro 2008

pontual, como os incêndios

Certinha, como os incêndios no verão, temos a "epidemia" mediático-política da "gripe". Este ano com a particularidade de que abriram nos Centros de Saúde de Lisboa, os mesmos serviços, que o Ministro anterior tinha encerrado por serem "desnecessários" e até "perigosos". Os mesmos serviços que a mesma ARS de Lisboa recusou aos nóveis centros de saúde, USF, na sua contratualização...

Mas afinal a gripe não é uma doença que não tem tratamento nem cura? E os únicos anti-víricos conhecidos (de eficácia tão limitada que não compensa geralmente usá-los) nem sequer são comparticipados (cerca de 25 € um "tratamento" de cinco dias, sem garantia de resultado ...)?

Claro que o Sr. Director Geral da Saúde apela a que o povo não vá à Urgencia, o que é lógico, visto ser tecnicamente inútil, mas esteve tão caladinho quando o nosso Primeiro Ministro foi à urgência do Hospital de Sto António, com uma " sindrome gripal" e ainda deu uma entrevista à saída. Pois é, mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo, diz o povo.

O mesmo povo que agora atulha as urgências.

23 dezembro 2008

O Natal não tem por que ser "mole" - Feliz Natal!

«Como disse Kierkegaard, a propósito de Sócrates e de Jesús, «a verdade será mortalmente espancada».

O filósofo não se referia a nenhuma época em especial. A arrogancia do poder, face à fraqueza da sabedoria, é de todas as épocas e lugares. Mas há momentos históricos em que esta realidade se torna mais visível.


O problema não é que se digam mentiras. É que se vive na mentira. A mentira recebe certificado de normalidade, instala-se na cultura dominante, e fica dona de todas as alavancas sociais, ridicularizando facilmente qualquer atitude a favor da evidência.

Um dos níveis extremos desta embriaguês é a negação da evidência, precedida geralmente de insultos ao clero e às instituições com autoridade.

A minha minoria social, geralmente formada por leitores dos jornais já com uma certa idade, fica boquiaberta quando descobre que a esquerda radical não admite que na história se faça menção da repressão contra os católicos em geral, ou contra os sacerdotes, bispos e religiosas, em particular.


Mas se todos sabem que foram milhares, liquidados de um dia para outro. Para quê negá-lo? Nem sequer é para estranhar muito. A novela de Vasili Grossman, Vida e Destino, traz recentemente à memória os milhões de vítimas da revolução bolchevique e do comunismo soviético.

Não é só o período de Estaline. Começa com Lenine e continua com os sucessores do estalinismo. O terror só acaba com a queda do Muro, em 1989. E ainda se prolonga por alguns anos depois, no bloco oriental. E continua actualmente na China, em outros países asiáticos, sem esquecer Cuba.

Hoje, com a esquerda radical intelectualmente liquidada nos países desenvolvidos, continua a brilhar - pela ausência - a autocrítica dos comunistas, e dos marxistas em geral.

Recordo vagamente que a universidade espanhola dos anos sessenta, setenta e oitenta estava povoada de revolucionários da esquerda. Mas não vi, nem ouvi, nenhum deles, pronunciar as palavras mágicas:«enganei-me».

Pelos vistos nem sequer cumprem o prescrito pelo seu manual de instruções. Pelo contrário, insultam todos aqueles que alertaram a tempo (sem serem escutados) contra as barbaridades desumanas dos fascistas e totalitários das várias linhagens.

Até se pode ler nalguns manuais de Educação Cívica que os comunistas foram minorias perseguidas. Aqui não foram, pelo menos recentemente.

Na universidade franquista os estudantes maltratados eram sobretudo social-democratas e cristão-democratas porque - assim o escutei da boca de uma dessas autoridades iluminadas - eram os mais perigosos para o regime de Franco.

O ponto mais forte, e fascinante, da esquerda foi sempre o seu clamor pela defesa dos humilhados deste mundo, dos pobres e dos marginalizados. Mas já nem disso se ouve falar.

Os progressistas assumiram as políticas neo-liberais e participam com entusiasmo na procissão do consumismo. Desprezam aqueles que tentam ajudar os emigrantes, os doentes incuráveis e os miseráveis, ao ponto de insultarem a Madre Teresa e João Paulo II, com mostras e exposições blasfemas, pagas com o dinheiro de todos.

Criticam Bento XVI por qualquer pormenor irrelevante, mas passam por alto as suas palavras duríssimas contra o capitalismo ("Jesus de Nazaré"), contra a globalização e a fome de milhões de crianças, o abandono a que estão votados os deserdados da economia.

Só ele se atreveu a dizer, não há muito tempo, que uma economia baseada apenas no principio do lucro é inumana. Mas se calhar é isto que não se perdoa à Igreja Católica: que continue na linha da frente, na defesa dos não nascidos, a favor da família, e não dos seus sucedâneos, contra a manipulação ideológica do ensino.

Os cristãos sabem que aquilo que o permissivismo moral permite é o domínio dos mais débeis, pelos mais fortes. Mas dizer isto, aqui e agora, é perigoso.

Mas não é possível ficar calado, mesmo sendo acusado de pessimista, romântico ou saudoso de outros tempos. Não me parece que algum tempo passado fosse melhor. Pelo menos não o foi na Espanha autoritária e classista.

Ainda bem que a têmpera de um país não é feita pela vontade da sua burocracia política, nem pela avidez da sua tecno-estructura económica. Mas sim pelos cidadãos, com palavras corajosas e actuações livres.»

(Alejandro Llano, Professor Universitário de Filosofia, in a esquerda e o Cristianismo, mal traduzido por mim. Escrevendo a propósito de Espanha, obviamente ...)

19 dezembro 2008

Um rapaz de titânio



«Olá, sou o Paolo, um rapaz de 95.» Diz que é fã do Juventus e adepto dos jogos em Playstation.

Criou um blog, aos 13 anos de idade, para se manter comunicável com os seus amigos e colegas, enquanto conta - como se fosse uma piada - a aventura dos tratamentos ao tumor da perna (osteosarcoma).

«Sou um homem biónico», comenta a propósito da prótese de titânio que substitui o joelho extirpado.«A partir de agora podeis chamar-me Paulo Titânio».

Quando o Paulo não pode escrever, é o pai que mantém o blog actualizado. O pai chama à luta do Paulo "o grande prémio da montanha". Na escola o blog é visto em tempo real, com uma webcam, que permite que o Paulo e os colegas conversem.
«Não vos preocupeis. Estou a curar-me, graças à quimio e à equipa médica.»

As mulheres que se cuidem


Hoje no Publico pode ler-se:
«A proporção de partos por cesariana voltou a aumentar em 2007, reforçando a tendência observada ao longo dos últimos anos.

Apesar das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e das metas traçadas no Plano Nacional de Saúde (PNS), o número de partos por acto cirúrgico não pára de crescer e representa agora mais de um terço (35,3 por cento) do total de nascimentos em Portugal.

É o segundo país da UE com maior taxa de cesarianas, de acordo com o relatório do projecto Euro-Peristat.» (...)

No entanto o relatório salienta que, entre outras causas, isto também se deve ao «facto de as mulheres pedirem cesarianas». Ou seja, para estes sábios a "opção da mulher" só é válida se ela quiser abortar o filho?

18 dezembro 2008

impacte visual


«O impacto visual de uma 'muralha de aço' de 1,5 km de comprimento e 12 metros de altura à beira-Tejo foi uma das razões que motivaram a polémica em torno do aumento do terminal de contentores de Alcântara, decidido pelo Governo e pela Administração do Porto de Lisboa (APL). Um impacto negativo, sobre a zona de lazer das Docas e a Gare Marítima de Alcântara, que a APL, o Executivo e a concessionária, Liscont, têm negado.

Mas se o volume dos contentores não impressiona a APL, um "outdoor" do CDS denunciando essa decisão provocou uma reacção enérgica dos responsáveis do Porto de Lisboa. A APL considerou que a iniciativa partidária tem um impacto visual inaceitável sobre a Gare Marítima de Alcântara e ordenou ao CDS que o retirasse - caso contrário, a APL faria essa remoção.» No Expresso

17 dezembro 2008

zig-zag atestado (e carimbado)


Secção: O Mirante dos Leitores
do Jornal O Mirante

«População da Ribeira e Meia-Via contra falta de médicos»

«Na notícia publicada na vossa edição de 6 de Novembro, sobre a falta de médicos de família no Centro de Saúde de Torres Novas, o porta-voz da Administração Regional de Saúde apela para que os utentes usem de forma racional os serviços, "só recorrendo aos serviços quando necessário".

Ora estas declarações são, no mínimo, bizarras, já que o próprio Ministério da Saúde promove esta a irracionalidade. Veja-se a quantidade de declarações e atestados que inundam os consultórios dos médicos de família. Ressalvando uns poucos que são necessários e úteis, na sua maioria são manifestamente irracionais e representam pura e simples perda de tempo, que é como quem diz, desperdício de recursos que se reconhecem ser escassos.



Vejam-se, a título de exemplo, as famigeradas declarações para os infantários. A própria Sociedade Portuguesa de Pediatria contestou publicamente, não só a racionalidade, como a própria legitimidade destas declarações. Que eu saiba, o Ministério nunca explicou a sua utilidade, mas não revogou a obsoleta legislação que as impõe.

O tempo dispendido não é assim tão pouco quanto isso porque estamos a falar de centenas de milhares de pais que anualmente se deslocam aos centros de saúde, onde vão engrossar as longas bichas de utentes que recorrem aos serviços e das consequentes horas de trabalho desviadas das tarefas efectivamente importantes. Mais do que inútil, trata-se dum documento verdadeiramente farisaico, que pode propiciar injustiças e mal-entendidos.


Outro efeito pernicioso da enxurrada de atestados e declarações inúteis é a mensagem que lhe está subadjacente: o Ministério da Saúde tem pouco respeito pelo trabalho dos médicos de família ou seja pouca consideração pelo dinheiro dos contribuintes. Qual a legitimidade do Ministério ao pedir racionalidade que ele próprio despreza?»

Acácio Gouveia (Médico de Família)
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Aqui, informação sobre crianças, febre e infantários, entrevista com o médico Pediatra, Manuel Salgado, do Hospital Pediátrico de Coimbra.
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E aqui, mais uma acção de propaganda e promoção do consumo de serviços de saúde...

14 dezembro 2008

Os pais nunca podem ganhar


«Nós pais nunca podemos ganhar, não é? Quando se trata de vencer, todos são melhores do que nós, incluindo os que nem sequer têm filhos.

Uma mãe recente aprende esta primeira lição quando sai pela primeira vez, para a rua, com o filho no carrinho (com a criança virada para si porque, felizmente, as investigações da psicologia confirmaram esta básica questão de bom senso...). O primeiro estranho bem-intencionado que encontra garante-lhe que a criança está irrequieta, por estar demasiado presa; o bem-intencionado seguinte, garante-lhe que a criança está em risco, por estar demasiado solta.



Lê-se muito, hoje em dia, sobre os chamados pais-helicóptero. Também já vimos atrás os chamados pára-quedistas bem intencionados ... Os pais-helicóptero envolvem-se pessoalmente em cada pormenor da existência dos seus filhos, permanentemente pairando, vôo circular, para protegerem as crianças não só do mal exterior, mas delas próprias. Se acham a Wikipédia credível, então a expressão "pais-helicóptero" é original do séc. XXI.


Claro que hoje em dia, os pais não têm grande alternativa senão planarem como helicópteros; de facto até é isso mesmo que a sociedade espera deles. Lembro-me logo dos trabalhos de casa (TPC's). Tendo acompanhado a ida para a escola de 10 crianças, ao longo dos últimos 16 anos, senti claramente a mudança no modo como as crianças são ensinadas a lidar com os deveres e os compromissos. A responsabilidade por estas tarefas foi transferida dos alunos, para os seus pais.»
(...) Num blogue aqui ao lado.

12 dezembro 2008

sociedade fragmentada


Em Espanha o Tribunal de Família obriga uma mãe a permanecer afastada do filho durante mais de um ano, por lhe ter dado uma "cachaçada". O filho tem 12 anos, e não quer ficar afastado da mãe.

Aqui a noticia (Publico.es)
(...)
«Muitas perguntas e bastante agitação é o resultado da sentença que condenou, na semana pasada, uma mãe de Jaén a 45 días de prisão mais uma pena de afastamento de 500 metros do seu filho, durante um ano e 45 dias. (...)

Será que para um menor é pior uma bofetada que recebeu há 2 anos ou o afastamento da mãe? Será que a protecção decretada pelo Tribunal não comete uma desprotecção maior? Se ouvirmos a criança, actualmente com 12 anos de idade, assim parece: "Não quero que a minha mãe se vá embora". Hoje, sexta-feira, esta família vem protestar para a rua, acompanhada pelos vizinhos, para que seja publicamente conhecida a sua situação.

O David tem um carácter difícil e entrou em conflito com a mãe por causa dos deveres. Assim está escrito na sentença do tribunal. Como a mãe se zangou com ele por não ter feito os deveres, o David atirou com um sapato à mãe e fugiu para a cada-de-banho, onde se trancou. Quando a mãe furiosa consegiu entrar, levantou-o do chão pegando-lhe pelo pescoço e deu-lhe uma bofatada. O menino bateu com a cabeça no lavatório e começou a sangrar do nariz. Na escola o professor notou o sangue e sinalizou a situação como sendo de maus-tratos. Foi levado ao médico que registou os hematomas presentes. Tudo aconteceu em Outubro de 2006.

Ambos os pais do David são surdo-mudos e têm outro filho com 6 anos. Ainda não sabem como irão conseguir arranjar alojamento para a mãe, caso o tribunal a obrigue a sair. O pai trabalha na construção civil, a 170 Km de casa, e não pode encarregar-se de levar consigo os filhos.
(...)

08 dezembro 2008

"Verdades como punhos"

No Público de 06 Dez., JPP
e no Abrupto:

«O que nunca chega aos jornais»
(Excerto - a versão completa aqui)


«No início desta semana João César das Neves publicou no Diário de Notícias um artigo muito crítico do jornalismo português. (...) Nele se escreviam estas verdades como punhos:


"(...) relatar o sucedido é o que menos interessa.
O jornalista vai ao evento para impor a agenda mediática que levou da sede.
(...) O público não é informado da orientação do meio que escolheu, porque todos dizem apenas a verdade. Todos os repórteres têm opinião, mas todos são isentos de orientações e partidarismos."

(...)

Esta semana tive ocasião de assistir em directo e, de algum modo, participar num evento que ilustra de forma exemplar como se faz informação em Portugal. Convidado a participar no 2.º Encontro Nacional de Centros Novas Oportunidades, pude assistir ao modo como as coisas funcionam e como chegam (ou não chegam) ao conhecimento público.(...)


Eu conhecia o programa oficial do encontro, onde participava num dos debates, só que, na verdade, o que aconteceu foi mais uma sessão preparada para que o primeiro-ministro tivesse a sua dose diária de televisão, num evento "positivo", com a vantagem de poder fazer um comício para 1500 pessoas, professores na sua esmagadora maioria, que tinham que lá estar por obrigação profissional.

No programa oficial não há qualquer menção à presença do primeiro-ministro, devendo o encontro ser aberto pela ministra da Educação e pelo ministro do Trabalho. Só que se percebia de imediato, pelo aparato na rua, que ia haver um participante não anunciado, José Sócrates.

Aliás, a comunicação social também fora prevenida, porque estava lá um batalhão de jornalistas, câmaras, carros de reportagem, etc. Este chegou com quase uma hora de atraso, sem qualquer pedido de desculpas, e tudo esperou por ele.

Eu, que não gosto de ser "levado", ainda hesitei se continuaria ou não na sala, mas decidi continuar, caminhando para a última fila. As intervenções dos ministros da Educação e do Trabalho foram sóbrias e correspondentes ao espírito de um encontro de trabalho, como era suposto este ser.

Só que depois veio o primeiro-ministro e, no meio da agitação dos jornalistas, fez o seu comício diário para a televisão, cheio de "paixões" e "desejos" e "intenções" e sentimentos vários a que, obviamente, só o seu Governo respondeu na história da nação. As Novas Oportunidades somaram-se a muitas outras "mais importantes" iniciativas do Governo.

Em cada uma ele diz que é "a mais importante", mas ninguém dá pelo contra-senso.(...)



Os nossos jornalistas não se apercebem, ou apercebem-se bem de mais, do seu papel de instrumentos de propaganda, sem qualquer conteúdo informativo, e acham natural o que se passa. Terminado o comício, Sócrates saiu e com ele os jornalistas todos (se algum ficou não dei por ela).

Quando resolvi ficar, decidi também que iria acrescentar à minha comunicação sobre as Novas Oportunidades, algo mais: uma referência à politização e governamentalização daquela iniciativa, e aos seus efeitos perversos bem visíveis, ouvindo-se o primeiro-ministro.

Foi o que fiz, referindo como sinais dessa politização, que pode pôr em causa os objectivos das Novas Oportunidades, a obsessão pelas estatísticas e os números redondos (por muitos números redondos que se atirem, o objectivo apontado para 2010 de um milhão de participantes está muito longe de ser alcançado), a condição básica de exigência na certificação, e, por fim, a necessidade de medir os resultados do programa por uma avaliação externa e pelo seu impacto na empregabilidade e no aumento da produtividade nacional.

Parece que referir esta necessidade de resultados mensuráveis, a prazo sem dúvida mais dilatado, incomoda muita gente, mas é inteiramente coerente com os objectivos da iniciativa, porque não se pode considerar que a "batalha da qualificação" se fica só pelos "saberes" mais ou menos intangíveis dos participantes ou por um diploma que não serve para nada.

Que estas preocupações são partilhadas pelos formadores presentes na sala, que também não devem ter gostado muito do comício a que foram obrigados a assistir, está o facto de eu ter sido o único participante a receber palmas em plena intervenção e exactamente nas partes mais críticas para a governamentalização da iniciativa.

Mas o que aconteceu foi mais um não-evento, como muitos outros que devem ocorrer pelo país fora, e que não encaixam no padrão comunicacional da subserviência ao poder.

Eu sei que este meu artigo traduzido em "jornalistês" dá qualquer coisa como isto: ele quer comparar-se ao primeiro-ministro de Portugal no "critério jornalístico", e está danado por ter ido lá dizer coisas a despropósito, ninguém lhe ter ligado e não vir nos telejornais. Nem sequer precisam de se esforçar, porque eu sei o que as casas gastam. Se isto não vier nos jornais, vem nos blogues dos jornalistas.

Mas, voltando ao sério, continuam para mim de pé as afirmações mais duras de César das Neves:

"O actual Governo goza de clara benevolência jornalística. Apesar da contestação e inevitáveis 'gaffes', o tratamento não se compara com o dos antecessores. (...) Muitos dos que relatam o jogo participam nas equipas. Quando o jogo se suja, avolumam-se as suspeitas. Isto ainda não afecta o poder da imprensa, mas já degrada a classe."

Os jornalistas sérios sabem que é assim, mas mesmo esses deviam fazer mais do que o que fazem para não pecarem por omissão. Também se vai para o Inferno por isso.

05 dezembro 2008

Realidade incómoda ...

...mas nem sequer recente.

«Aumenta a pobreza envergonhada» (No Jornal de Notícias, de 05-Dez)


«O presidente da União das Misericórdias, Manuel Lemos, revelou que o número de pessoas que, sob garantia de anonimato, procuram as instituições a pedir comida tem vindo a aumentar.

"As pessoas sabem que eu não vou dizer que é o senhor A ou o senhor B. Estamos perante a pobreza envergonhada", afirmou Manuel Lemos durante a tertúlia "Reacontece", subordinada ao tema "SOS Crise", que decorreu na noite de quinta para sexta-feira no Casino da Figueira da Foz.

Manuel Lemos frisou que "todos os dias" recebe pedidos por e-mail de pessoas que perguntam "como é que podem ter comida, como é que podem arranjar emprego", considerando a situação um reflexo da crise actual.

Questionado pelo jornalista Carlos Pinto Coelho, moderador da tertúlia, indicou ainda a busca de alojamento como outra das preocupações de quem procura ajuda.

(...) Exemplificou com o caso da Misericórdia do Barreiro, onde, revelou, citando o provedor da instituição, "o aumento exponencial das pessoas que vão lá comer é brutal".

(...) assinalou, por outro lado, a mudança no perfil das pessoas que recorrem às Misericórdias em busca de alimentos, frisando que "dantes era o idoso" que para além da refeição convive no local e agora "chegam outro tipo de pessoas, mais novos, que comem rapidamente".

Presente na sala, o provedor da Misericórdia-Obra da Figueira assumiu que a situação na Figueira da Foz é idêntica a outras zonas do país.

(...) O provedor aludiu, a exemplo de Manuel Lemos, à alteração de perfil das pessoas que recorrem à instituição, sublinhando o número crescente de pedidos oriundos da classe média e faixas etárias "cada vez mais baixas", disse.

Joaquim de Sousa explicou ainda o modo como a distribuição de alimentos é feita a partir da Misericórdia da Figueira da Foz, com garantia de anonimato dos destinatários, que classificou como "procedimento de bom senso".

"Há uma lista de 100 pessoas que eu não conheço, nem ninguém naquela casa conhece. Essa lista só conhece a encarregada dos serviços de aprovisionamento que todas as semanas distribui com a maior descrição possível, às vezes procuramos até que essa distribuição seja feita através de terceiros", declarou.»

02 dezembro 2008

para manter o equilíbrio ...


Para equilibrar o post anterior (ao gosto do modernismo jornalístico ...), esta notícia do Expresso:
"Fast food aumenta risco de Alzheimer"

"Ratos submetidos ao longo de nove meses a uma dieta rica em gordura, açúcar e coleterol desenvolveram alterações no cérebro semelhantes às que ocorrem nos doentes de Alzheimer." (...)

Pode sempre objectar-se que eram ratos, porque se fossem ursos ...

Já agora, continuando no registo gastronómico, temos ainda o "frango" de Quim, empatado na Luz ;-)

O desporto faz bem à saúde?

Em Barcelona aconteceu no mês passado o XXX Congresso Mundial de Medicina do Desporto.

Uma das comunicações diz (literalmente): "Durante la prática de exercício continuado, as aurículas direita e esquerda dilatam-se o que, a prazo, pode provocar arritmias importantes".

Isto de desporto e saúde ainda tem muito que esclarecer!

Como diz o MEC:
"Quanto tempo levam os ursos a compreender que não vale a pena andarem aí ao frio, a desperdiçar dez calorias de preciosa barriga por cada caloria nova a que conseguem dar o dente? Nenhum. Os ursos sabem que mais vale estar quieto.

Hibernar não é um hábito - é uma reacção. Não é uma modorra anímica em que os bichos se deixam tombar por serem umas bestas - é uma utilização económica do tempo e da energia. É inteligente. E é bom. Não é assim muito difícil perceber isto que qualquer urso percebe." (Pública, 30 Nov 2008)

28 novembro 2008

IRS 2009 e famílias com filhos: "Uma gigantesca aldrabice"


É como descreve a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), o que aconteceu com o anunciado "acabar com a discriminação fiscal dos pais casados ou viúvos relativamente aos pais com outros estados civis", do OE para 2009.

O comunicado aqui.
Comentado num blog vizinho, aqui.

27 novembro 2008

Os trapalhões continuam


«A maioria parlamentar (PS) apresentou na sexta-feira passada um pacote de alterações fiscais para o Orçamento do Estado 2009 (...)o imposto sobre salários e rendimentos, dos divorciados.

A proposta socialista elimina a actual dedução da pensão de alimentos no imposto, pela totalidade (ao rendimento colectável). Caso a maioria socialista aprove a proposta, em 2009 serão possíveis deduzir à colecta apenas 20% da pensão de alimentos. "
À colecta devida pelos sujeitos passivos", refere a proposta do grupo parlamentar do PS, "são deduzidas 20% das importâncias comprovadamente suportadas e não reembolsadas respeitantes a encargos com pensões de alimentos a que o sujeito esteja obrigado por sentença judicial» (Noticia no DN, 25 de Novembro)



(...)
« No actual quadro, a injustiça não está no lado de quem paga pensão de alimentos.

Com efeito, se um contribuinte pagar vários milhares de euros de pensão de alimentos, obviamente que deverá poder deduzir esse valor do seu rendimento, uma vez que fica sem ele.

A injustiça perante os contribuintes casados ou viúvos consiste em que, quem recebe essa pensão, pode deduzir até 6000 EUR dessa fonte de rendimento.

P
elo contrário, os casados ou viúvos não podem deduzir qualquer valor ao rendimento que recebem para suportar as despesas normais do "simples viver" - comer, vestir, calçar, porque não podem ser objecto dessa fonte de rendimento»

Comunicado da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (21 de Novembro de 2008)

Curioso como a imprensa geralmente ignorou este comunicado, ou - pior - aldrabou o conteúdo do comunicado para fazer o jeito ao governo.


Está na altura de assinar a Petição, aqui, contra a discriminação dos casados e viúvos em sede de IRS. (Discriminação dos viúvos? Sim, espantoso! Leia e assine.

25 novembro 2008

Novos desafios (o day after das eleições americanas)




(...) «Fazer da fronteira dos interesses da Rússia uma fronteira amiga dos europeus e dos ocidentais, e tecer com a fronteira dos interesses da China uma rede de acordos que dê crédito e viabilidade aos anúncios chineses de uma nova ordem pacífica, é tão exigente como anular as ameaças que a Administração republicana abrangeu num indefinido eixo do mal.» (...)

Adriano Moreira, no DN de 25 de Novembro

19 novembro 2008

Células adultas funcionam


...

"A história, a voz e o rosto de Cláudia Castillo correram mundo após a divulgação da notícia publicada ontem no The Lancet. Afinal, esta columbiana bonita de 30 anos e com dois filhos (um rapaz de quinze e uma menina de quatro anos e meio) é a figura central do primeiro transplante de traqueia conseguido com recurso às suas células estaminais." ... (no Público)

Em todo o mundo continuam a tratar-se doentes com recurso às células estaminais adultas. Mas nos media só se fala do mundo virtual das células embrionárias.

Curiosamente esta linha celular foi cultivada com tecnologia inglesa, o país onde existe um banco de células ,obtidas por morte de embriões humanos, que segundo o seu próprio director
"gastámos milhões num banco de células embrionárias que contém cerca de seis linhas celulares diferentes, e nenhuma delas serve para transplante".

Mas a saga da publicidade às células embrionárias, mantém-se tão certinha como o sub-prime americano antes do crash. As empresas que apostaram nesta estratégia não querem perder o seu dinheirito, Até percebo, mas em tempo de crise é curioso como sempre se arranja dinheiro para continuar a apoiar o que nunca funcionou ...

18 novembro 2008

E por falar em pedagogia


Pedagogias do modernismo: extractos de um único dia nas páginas de um jornal (Sol, 18 Nov).

1) "O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, garantiu hoje em Lisboa que a cooperação é a chave para a segurança na Europa, à saída de um encontro com o primeiro-ministro português, José Sócrates" (...)

2) "A PSP justificou não ter agido contra as pessoas [adeptos dos No Name Boys] que agrediram jornalistas e causaram distúrbios hoje junto ao Tribunal de Instrução Criminal (TIC) de Lisboa alegando que ninguém apresentou queixa" (...)

3) "Os actos violentos realizados no fim-de-semana pelos elementos do grupo apoiante do Benfica - No Name Boys - foram «muito bem programados» e não foram meras acções pontuais, disse hoje um oficial da PSP, em conferência de imprensa" (...)

Não admira que os cidadãos andem baralhados. Com estímulos destes ...

E continua ...


No semanário Sol, hoje:


"A directora-regional de Educação do Norte, Margarida Moreira, mandou uma equipa à Escola do Freixo, em Ponte de Lima, para perceber por que é que as crianças a quem Sócrates entregou computadores não os levaram para casa. Moreira concluiu que se tratou de uma «opção pedagógica» e que nos próximos dias os alunos poderão levar os Magalhães."
(...)

17 novembro 2008

Filhos de alguém


«Não conhecia o meu pai, nunca ouvira falar dele, nem tinha visto nunca uma fotografia sua. A minha mãe nunca me falou dele, porque não tinha qualquer pista que a levasse ao pai da sua filha»

É o relato na primeira pessoa de Katrina Clark, que passou grande parte dos seus actuais 18 anos, sem saber quem era, como ela própria diz.

Escreveu a sua história no Washington Post revoltada com o facto de as leis sobre fecundação artificial terem sido feitas pensando, apenas, nos desejos dos adultos, sem levar em conta os direitos, e os sentimentos, das pessoas concebidas desse modo.

Katrina luta para que seja reconhecido o direito de todos a saber quem são os seus pais.

«Não pedimos para nascer deste modo, com as limitações e as confusões que isso implica. É de uma hipocrisia muito grande que tanto os pais, como os médicos, pensem que os «produtos» dos bancos de sémen não se vão preocupar em querer conhecer as suas raízes biológicas; (...) o que faz com que os clientes recorram à inseminação artificial é, exactamente, o seu veemente desejo de ter descendentes biológicos."

Do ponto de vista emocional muitas das pessoas que nasceram desta maneira sofrem com a sua situação.
(...) «Dei-me conta que, em certo sentido, era rara. Na verdade eu nunca iria ter um pai. Finalmente interiorizei o que é ser concebida por um doador e odiei-o».

A história aqui, em Aceprensa.

circunavegação



«José Sócrates esteve na Escola do Freixo, em Ponte de Lima, a entregar computadores aos alunos do 1.º ciclo. Mas, depois de o primeiro-ministro ir embora, as crianças tiveram de devolver os Magalhães» (...) (No semanário Sol)



Já nem é tanto a navegação à roda (circum) do mundo, mas o mundo à roda do circo.

10 novembro 2008

É perigoso envelhecer na Holanda

O Lar Sint Pieters, em Amersfoort, na Holanda, foi objecto de uma investigação policial, depois de uma denuncia de que teriam decidido que os seus residentes assinariam um compromisso escrito de que não seriam reanimados caso tivessem uma paragem cardíaca depois dos 70 anos.

Houve reacções no Parlamento holandês e as autoridades de saúde informaram que iriam proceder a uma investigação.


Por fim, a residência geriátrica retirou a sua proposta, não sem afirmar que, num futuro próximo, a iria repor.

Em 2000, o Parlamento holandês aprovou a despenalização da morte provocada em doentes terminais adultos, tendo estendido esta lei também às crianças, em 2002.


Na Holanda existem casas para idosos, com diferentes propostas de assistência, conforme o nível de dependência, e também lares exclusivamente para idosos muito doentes. Nestes já funciona, há quatro anos, com a aprovação da Secretaria Geral da Saúde, a medida do «não desejo ser reanimado, a não ser que...», embora não associada à idade.


Contudo, na intenção manifestada recentemente pela Casa Sint Pieters em Blokland Gasthuis, trata-se de idosos em princípio, saudáveis.


O médico cardiologista Ruud Koster, membro do Conselho Europeu de Reanimação, descarta qualquer base científica para esta estratégia: «A política de não reanimar os idosos a partir dos 70 anos é um equívoco. Pessoas idosas vivem, normalmente, depois de serem reanimadas»

"doenças de pobreza"


Decorreu em Lisboa, no passado fim-de-semana, o I Congresso internacional da Associação Portuguesa Mãos Unidas, dedicado às novas formas de rastreio e cura da lepra no mundo e o aumento das situações de pobreza em Portugal. (noticia no semanário SOL, aqui)

Se em Portugal a doença está controlada, estimando-se que haja apenas entre 30 a 40 casos, relacionados com pessoas provenientes doutros países, a situação é ainda endémica em países como a Índia e o Brasil, os dois países com mais casos. No total, em todo o mundo estima-se a existência de 5 a 6 milhões leprosos.

Enquanto o Ocidente rico vive na ilusão da imortalidade, procurando cirurgias estéticas para "tratar" o normal processo de envelhecimento e "tratamentos" para os excessos de comida ou de bebida, os doentes com lepra vivem na «triste realidade do abandono e segregação que sofrem aqueles que têm a infelicidade de contrair a doença (...) São homens que vivem em extrema pobreza, devorados pela fome e em condições insalubres. Atingidos por uma doença que, ironicamente, só ataca os seres humanos, arrastam e suportam o peso de uma tradição milenária que os rotula de amaldiçoados, cúmplices e merecedores de castigo, pelo que são repelidos da convivência social.»

É uma doença tratável, mas é preciso que haja quem identifique os doentes, e lhes faça chegar os tratamentos.


27 outubro 2008

Ali ao lado


O Presidente do Parlamento da Catalunha, Ernest Benach, pediu desculpas públicas pelas modificações do do Audi 8 que lhe foi atribuído e que custou cerca de 83 mil euros, prometendo que vai retirar os "extras".

O sistema de aluguer dos carros foi aprovado pela Mesa da Câmara catalâ, onde têm assento todos os partidos excepto Ciutadans (partido não-nacionalista).



(noticia El Pais, 27-Out-2008)


O Estado "social"


(...)«Devo dizer que uma das coisas que me irrita um bocado é que o dinheiro dos contribuintes tenha ido para a Caixa, para esta o meter no BCP a perder dinheiro. Mas isso é uma coisa que em Portugal ninguém discute.

Em qualquer outro país dava artigos por todo o lado. Os contribuintes estão fartos de meter dinheiro na Caixa, para ela fazer operações financeiras que ninguém sabe bem o que são, nem para que servem.» (...)

Do economista e ex-ministro das Finanças, Silva Lopes, em entrevista ao Expresso.

26 outubro 2008

O fundo do bolso


(...) «O inferno tem fila à porta de financeiros americanos, mas ainda lá há espaço para as boas intenções dos portugueses.» Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios.

«Pegue num papel e escreva: "Eu estava aflito, não conseguia pagar a prestação de 500 euros ao banco. Mas agora vendi a minha casa a um fundo e tudo se resolveu: eu e o banco estamos radiantes por nos vermos livres um do outro, pago menos 100 euros por mês e os donos do fundo garantem que ainda vão lucrar."

Agora releia o que escreveu e pergunte-se: "Acredito?"

Acredite que é verdade, mas não é toda a verdade. Para explicar esta quadratura do círculo, pode já tirar daqui a compaixão. Não há caridade dos investidores para curar a carência dos aflitos: você deve, você paga. De uma forma ou de outra.

Chamam-se FIIAH mas não fiam nada. Os Fundos de Investimento Imobiliário para Arrendamento Habitacional compram-lhe a casa, livre de impostos, voltam a arrendar-lha e, no final, vendem-lha de novo, se você quiser. Ninguém cozeu aqui um ovo para pô-lo de pé, nem se inventaram alquimias financeiras. São contas simples que, quando houver informação, será fácil fazer: bastará comparar, a preços de hoje, tudo o que vai pagar em cada uma das situações, o empréstimo ao banco ou a renda ao fundo.»
(...)

«Poderão as famílias recusar? Dificilmente. Se estão aflitas, não estão em condições de negociar, têm de optar entre verem o património executado pelo banco ou aceitar a proposta do fundo.

Os fundos dão lucros aos investidores, limpam os balanços dos bancos e aliviam os bolsos dos aflitos. Mas é preciso garantir que a vulnerabilidade dos aflitos ou a indiferença dos contribuintes não esteja a ser explorada. Faça as contas antes de fechar negócio.» (...)

24 outubro 2008

Sem flores


Sem coroas, nem flores, relato de uma sobrevivente de Auschwitz. Odette Elina, nasceu París (1910). Filha de pai judeu e mãe católica, militante do Partido Comunista Francês, trabalhou para a Resistencia durante a ocupação nazi.


Os seus pais são mortos, após denúncia, pela Gestapo. Odette fica viva, com a ajuda do pároco da sua freguesia, mas é detida e deportada para Auschwitz em Abril de 1944.

Este livro, traduzido agora para espanhol, com desenhos seus que ajudam ao realismo da história, são as suas memórias imediatas ao chegar ao campo.

Um livro muito realista, escrito com sensibilidade.

Odette Elina sobreviveu até à libertação em 1945. Dedicou-se à pintura. Morreu em 1991.

23 outubro 2008

Continua a haver milagres

1) A Autoridade Europeia do Medicamento mandou suspender a comercialização do medicamento para emagrecer "Acomplia" (rimonabant), devido ao aumento do risco de doença mental e suicídio entre os doentes que o tomam. O medicamento em causa agia sobre os receptores canabinoides (pois ... os tais da marijuana e do haxe ...) e permitia grandiosas perdas de peso. (Tantas que algum perdiam peso ... de vez).

2) Os Gun N' Roses (aquilo que sobra deles) vão lançar (finalmente) um novo álbum. Chama-se (o álbum) "Chinese Democracy".

3) O. Stone vai lançar um filme sobre Bush, que não é muito crítico, segundo dizem os ... críticos.


para pior já basta assim ...


(...)

«há muito tempo que a Psiquiatria reconhece a importância da família no desenvolvimento do indivíduo e a sua ligação à psicopatologia.

Qualquer alteração legislativa radical - democraticamente legítima - no regime jurídico do casamento tem fortes implicações individuais, familiares e sociais, cujas consequências são imprevisíveis.

Porém, não se tem observado, por parte do legislador, a necessária prudência e o espírito dialogante que deveria acompanhar uma matéria tão sensível como esta. Resta esperar que a nova concepção de família não seja uma obsessão política invencível » (...)

(No Público, Pedro Afonso, Psiquiatra, artigo de opinião, A família volátil e a imaturidade.)

Depois da volatilidade dos mercados e do crash mundial, há quem queira repetir a receita com as questões da família.


14 outubro 2008

«Sistemas de rega vão deixar de pagar taxa de audiovisual»

«Sistemas de rega vão deixar de pagar taxa de audiovisual»

(Titulo de noticia no Publico)

Não sei como é que cidadãos estrangeiros conseguirão algum dia descodificar as nossas notícias. Até para um portuga é difícil!

Então as "mangueiras" de rega também pagavam taxa de TV e Rádio? E pretende-se que num país assim os cidadãos levem a sério o governo e as leis?

Publico, ultima hora, 14-10-2008
«Os sistemas de rega vão poder deixar de pagar taxa de audiovisual, como acontecia até agora, o que tem suscitado muitas críticas dos agricultores» (...)

Supremo diz que feto de nove meses não é pessoa

«Justiça: Recusada indemnização a grávida que abortou após acidente»

«O Supremo Tribunal de Justiça recusou o pedido de indemnização reclamado por uma mulher, pela "perda do direito à vida do seu filho".

Aos 20 anos, a mulher, grávida de nove meses, perdeu o bebé na sequência de um acidente de viação, ocorrido durante uma viagem em que seguia como passageira.» (...)
(No Correio da Manhã, 14-10-2008)


Era lógico e previsível...
Lembram-se? «Votar «não» a esta "opção da mulher" é abrir a porta à arbitrariedade, ao aborto forçado, ao aborto contra a opção da mulher, por imposição do pai, por pressão do marido, por ameaça do amante»(José Vítor Malheiros, no «Público», durante a campanha do referendo sobre o aborto).

O tribunal segue apenas a lógica que estava implícita na própria convocatória do referendo, como o reconhece tranquilamente este post antino num blog pelo sim.

Ou, como foi referido no pedido de fiscalização constitucional, «a Lei
assegura a liberdade da mulher mas despreza, de forma constitucionalmente intolerável, o cumprimento do dever que vincula o Estado à protecção da vida humana do nascituro, o que importa analisar».

O Tribunal apenas reconhece que o Estado, após a lei do aborto, já não está obrigado a garantir a protecção da vida humana ...

10 outubro 2008

casas assombradas


Tropeço num blog, com este curioso tema


«Um inquérito promovido realizado pela Gallup, nos EUA, dedicou-se a conhecer as respostas em torno de questões como:
- Os sonhos podem predizer o futuro?
- Existem casas assombradas?
- É possível comunicar com os mortos?

Os resultados foram divulgados em Setembro passado (What Americans really believe) e, de acordo com as primeiras leituras, parece que a religião é um bom antídoto contra tudo o que é irracional, desde "a ineficácia dos palm's, à inoperância da astrologia", como relatava o Wall Street Journal (suponho que um jornal insuspeito na matéria ...)

De facto, dos que se declaravam não crentes, 34% responderam sim às questões, contra 8% dos que disseram que frequentavam um qualquer "serviço religioso", pelo menos uma vez por semana.»
(...) aqui.

09 outubro 2008

Conversas Vadias: Igualdade e diversidade


Conversas Vadias: Igualdade e diversidade

Este é um post já com mais de 2 anos, mas tão actual ...

Sobretudo porque entretanto a poligamia tem marcado uma presença crescente no mundo ocidental.

Cerca de
30 mil famílias em França, 15 mil em Itália, um número não estimado no Reino Unido, bastantes dezenas ou centenas de milhar nos EUA, a Austrália a tentar lidar com a questão, os serviços sociais do Canadá sem saber bem o que fazer.

Se o casamento é apenas uma questão de "papel", "direitos", puramente convencional, o que dizer a todos os outros arranjos não conjugais entre adultos?

08 outubro 2008

O pai, a mãe e a mãe


O Supremo Tribunal de Ontário (Canadá) estabeleceu que uma criança pode ter, em simultâneo, três pais legais, naquilo que passou a ser conhecida como a "regra das duas mães".

Depois do reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo, os tribunais canadianos passaram a defrontar-se com os problemas relacionados com a tutela de menores, adoptados, fertilizados in vitro, ou em barrigas de aluguer.

Esta decisão foi despoletada pela mãe biológica da criança que vivia com uma mulher desde 1990 e decidiu, em 1999, que queria ter um filho, o que conseguiu, conforme relata, com a "ajuda" de um amigo do casal. Acontece que por um lado, acharam que o envolvimento do pai biológico seria benéfico para a criança, mas não queriam que a mãe não biológica fosse excluída, pelo que apelaram ao tribunal para que formalizasse a questão da parentalidade.

O assunto não é meramente académico atendendo a que já há casos de bebés in vitro obtidos com "mistura" de embriões.

O núcleo de um embrião fertilizado in vitro (ou seja, originado de 2 materiais DNA distintos), implantado num outro embrião ao qual foi retirado o núcleo (ou seja + 1 material DNA diferente), foi produzido em Newcastle (Reino Unido) mediante reprodução assisitida, pelo que a parentalidade biológica é tripartida.


07 outubro 2008

discutir o acessorio


No Diário de Notícias de 6-10-2008:

(...)

«Portugal tem gravíssimas dificuldades de vária ordem. Exactamente quais são e como se resolvem é assunto menor da actualidade, entretanto obcecada com temas laterais, fictícios ou simplesmente tontos, mas muito dramáticos: lutas internas do PSD, eleições americanas, um empolado surto criminal e, claro, o casamento dos homossexuais.


Este último é o mais curioso porque, falho de conteúdo, tem os contornos largamente determinados pelas formas cinematográficas. A questão é introduzida como um decisivo combate de civilização a favor da justiça e dos direitos fundamentais.

Mas a pose é oca e infundada, pois as mesmas forças políticas têm feito tudo o que podem para desqualificar o casamento como força válida na sociedade.

Além disso, se é indispensável regularizar a situação doméstica desses casais, porque não da miríade de outras circunstâncias familiares e relacionais que não possuem cobertura jurídica? Apesar de tudo o número de coabitações de irmãos, tios, sobrinhos ou amigos é maior que a dos gays, para não falar dos casos de poligamia, incesto e pedofilia, que a mesma sociedade (ainda) insiste em repudiar. Porquê esta obsessão com uma situação particular?



O Estado não regula o amor entre pessoas. Se o fizesse teria de criar muitos contratos além do casamento. A lógica da instituição matrimonial vem das implicações estruturais na sociedade da união fecunda entre mulher e homem, incomparáveis com as de qualquer outra. Escamotear isto e tratar o contrato como um direito do amor mútuo é uma tolice.» (...)

(J. César das Neves, Economista, Professor Universitário)

tiros nos pés


"Não estávamos a conseguir aguentar financeiramente a casa, estávamos a entrar em situação de ruptura e então resolvemos separar-nos, mas só no papel."

Num blogue aqui ao lado, a notícia do DN.

30 setembro 2008

A "morte cerebral" ainda está viva?


Quarenta e oito dias depois de ter sido declarado em "morte cerebral" o jovem Zack regressou a casa, pelo seu pé.


Tem uma enorme amnésia para o acidente de viação que lhe provocou o coma, mas ainda se lembra da voz do médico que o declarou em "morte cerebral". Poucos minutos depois iria iniciar-se a colheita de orgãos para transplante.


Não foi no 3º mundo, foi num sofisticado Hospital americano, com todos os critérios, tabelas e peritos...


Acontece que outros casos têm sido notícia (não de primeira página ...), e os pesos-pesados do mundo da medicina também têm manifestado as suas questões sobre o tema. Para complicar, há médicos que se queixam de que só são ouvidas as opiniões dos cirurgiões interessados em transplantes, mas não dos neurologistas e neurocirurgiões, especialistas na matéria...


Um debate a seguir com interesse (sabe-se lá quando precisaremos de um bom diagnóstico de morte encefálica?)





29 setembro 2008

"A Teoria de Tudo é uma ideia estúpida"


(Entrevista a Freeman Dyson, físico teórico e matemático, faz investigação na física, mecânica quântica e energia, e armas nucleares. No Expresso, a propósito da Conferência Internacional na Fundação Gulbenkian)

(...)

- E descobertas como a Teoria de Tudo?

Essa é uma ideia estúpida que está a iludir a opinião pública, pensar que é possível encontrar uma teoria maravilhosa que explique tudo.

- No seu último livro 'O Cientista como um Rebelde' (2006) constata que "a ciência é um mosaico de visões parciais e em conflito". Isto significa que é mesmo impossível descobrir a Teoria de Tudo?

Sim.

- Mas a Teoria das Supercordas, por exemplo, não é um bom esforço para lá chegar, para compreender o Universo?

Não sei. A única coisa que sei é que os matemáticos adoram esta teoria, porque tem uma boa base matemática. Na generalidade, os físicos não estão muito interessados nela, não a consideram útil. Mas pode ser que venha a ser útil dentro de cem anos por alguma razão que hoje não conseguimos imaginar.

- E outro tipo de descobertas como, por exemplo, a base fisiológica da consciência?

É certamente um dos grandes problemas a resolver até ao próximo século, pelo menos. Estamos mais perto da sua solução e temos neste momento as melhores ferramentas para observar o cérebro humano e o seu comportamento, mas ainda com uma resolução muito pobre. Precisamos de instrumentos que possam observar o interior do cérebro com mais detalhe e com melhor resolução no tempo e também no espaço.

- No seu livro 'Infinito em Todas as Direcções' (1988) não faz nenhuma distinção entre a mente humana e Deus. Isso quer dizer que os avanços da ciência na compreensão da mente nos irão conduzir à descoberta científica de Deus?

Não. Ao estudarmos a mente humana poderemos ter uma imagem mais realista de Deus mas não uma imagem científica. A ciência não trata da religião, para mim não há uma conexão entre as duas, gosto de as manter separadas. Quando falamos de Deus estamos certamente fora dos limites da ciência.

- Um cenário futurista de fusão entre a ciência e a religião faz algum sentido?

Para mim não. Mas para muitos dos meus amigos cientistas faz.

(...)

case com a mulher-a-dias e empregue a esposa

No Público, sábado, 20 de Setembro de 2008, Opinião ("Moral de uma história imoral")

«A possibilidade do despedimento do cônjuge, sem necessidade de nenhuma razão, não tem contudo paralelo na legislação laboral, onde se exige que a entidade patronal seja mais respeitosa dos direitos dos seus assalariados. Q

uer isto dizer, em poucas palavras, que o patrão pode agora mandar bugiar a sua patroa sem necessidade de se justificar e até mesmo depois de a ter sovado, mas já não pode despedir com a mesma liberalidade a sua secretária, pois, para um tal desatino, a lei exige-lhe uma justa causa.
A incongruência entre os dois regimes legais é de feição a concluir que o Estado prefere as empresas às famílias» (...)


«Quer uma relação para toda a vida?

Faça um contrato de trabalho, mas não case!

Quer uma relação precária, de que se possa desembaraçar quando quiser e sem necessidade de nenhuma causa justa?

Case, pois não há vínculo jurídico mais instável no sistema jurídico português!

Moral desta história imoral: empregue a pessoa que escolheu para parceiro de toda a sua vida e case com a sua mulher-a-dias!»

26 setembro 2008

contas de merceiro hospitalar

«Se a hora extra de um médico da carreira hospitalar custa, no máximo, 50 euros, porque é que se contratam tarefeiros a quem se paga uma média de 70 euros? Por causa da engenharia financeira.

As despesas com pessoal devem ter aumentado zero, mas as de fornecimento de serviços podem crescer quatro por cento. Como os tarefeiros são prestadores de serviços, não contam como recursos humanos.

Quem cumpre estes critérios tem uma vantagem – 30% da verba estatal atribuída a cada hospital depende do cumprimento destas metas.»


Revista Visão, 25.09.08

24 setembro 2008

A mentira como motor da recessão mundial


O Presidente da República discursou na ONU e na Bolsa de NY sobre a crise:

(...) no SOL on-line, ontem:

"A BNI [Bolsa de Nova Iorque] é o epicentro do ciclone financeiro», afirmou o chefe de Estado português, acrescentando que tem a sua ideia sobre aquilo que falhou: «Os reguladores, os supervisores, bancos centrais, a invenção que se fez de produtos financeiros».

«Permitiram-se todas as invenções. De tal forma que, agora, nem se consegue descortinar o que é que está dentro dos vínculos financeiros que foram inventados. Os produtos são tão complexos, nem os próprios reguladores entendem o que está dentro desses produtos», sublinha." (...)

Curiosamente continua a haver quem defenda que a verdade não existe ...

22 setembro 2008

Educação


Debate sobre educação (anúncio do blogue aqui ao lado).

"Para que serve o Ministério da Educação?" (boa questão ...)

again?!

«O presidente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico de Lisboa, Jean Barroca, considera "precipitada" a decisão do reitor Carlos Matos Ferreira de proibir as praxes académicas dentro dos recintos daquela instituição de ensino» (...) Publico, ultima hora

Para quem não sabe, a praxe é uma coisa velha, mas que tem piorado com o tempo (ao contrário do vinho bom ...) e nos tem tornado "famosos" até fora de portas.

hospitais estendem passadeira a médicos para sairem


«Lisboa, 21 Set (Lusa) - João é obstetra há nove anos num hospital público, com o qual acaba de rescindir o contrato por estar "farto das passadeiras vermelhas" que o Estado "estende aos médicos" para abandonarem o Serviço Nacional de Saúde. (...)

A Lusa tentou apurar junto do Ministério da Saúde quantos médicos deixaram o SNS nos últimos tempos, mas essa contabilidade ainda não está feita. Segundo as contas de António Correia de Campos, ex-ministro da Saúde e antecessor da actual ministra, Ana Jorge, só no ano passado foram mais de mil os clínicos que deixaram o serviço público, metade dos quais directamente para o sector privado.

Em 2007, o Ministério da Saúde tinha avançado à Lusa que, entre o início de 2006 e Abril de 2007, 943 médicos tinham deixado o SNS, entre reformas e rescisões. Sobre as medidas que a tutela conta levar a cabo para resolver a carência de médicos nos serviços públicos de saúde, fonte do gabinete de Ana Jorge remeteu o anúncio das mesmas para quando for "oportuno".

João, obstetra do Hospital S. Francisco Xavier, onde ajudou a nascer mais de mil crianças, já não acredita. Está desiludido. E decidiu que a sua vida "tem de mudar" e pediu a rescisão do Contrato de Provimento Administrativo que vem renovando há nove anos.


Este vínculo precário, que lhe tem fechado as portas a uma carreira médica, vem funcionando como garantia da presença de muitos médicos nos serviços, sem que efectivamente pertençam ao Estado ou às instituições que servem, acusa. Sem hipóteses de progressão na carreira, a ganhar cerca de 2.000 euros mensais por 47 horas semanais, João tem assistido à saída massiva dos clínicos do seu serviço neste hospital, que inclusive encerrou as portas no final do mês passado por falta de profissionais. (...)


A culpa? Para João, nem os directores de serviço nem os próprios administradores são os grandes responsáveis pela situação, mas sim as tutelas que, sucessivamente, têm como grande objectivo "a diminuição dos gastos com a Função Pública". E este nem é, para o médico, um mau propósito, mas desde que assumido com transparência e não "à custa de engenharias financeiras".


Na prática, os hospitais apresentam menos despesas com pessoal, mas depois gastam mais "ao contratarem outros (ou os mesmos) a preços mais elevados", desde que pagos através de outras rubricas. "Todos sabem o que se passa", disse, mas "ninguém faz nada", até porque, "bem ou mal, as coisas vão-se fazendo e os números até demonstram que se fazem mais consultas, mais partos, etc.", explicou.


Sobre o "assédio" das empresas de médicos e dos hospitais privados, este clínico alerta: "Com a falta de médicos, não é difícil estes encaixarem-se em qualquer lado" e a ganharem mais. O mais triste, disse, é que "as portas estão permanentemente abertas para os médicos saírem". Alguns aceitam o convite. João sai no fim do mês.»
*** Sandra Moutinho, da Agência Lusa ***