Jornal de Negócios

28 abril 2008

E esta, hein?



No "early release" online da revista de Neurologia, Archives of Neurology, vem um artigo interessantíssimo.

Depois de seguir, durante cerca de 2 anos, mais de 800 doentes com Parkinson, os que tinham ácido úrico mais alto, tinham melhor prognóstico e um início mais tardio da doença!
Sobretudo se fossem homens, gordinhos e com hipertensão...

Claro que isto só é verdade, se entretanto não morrerem de enfarte do miocárdio ou acidente vascular :-(

Sistema Europeu de Navegação - Galileo




Foi hoje de madrugada, no Cazaquistão. O segundo satélite do sistema europeu de navegação, da Agencia Espacial Europeia.

verde


No Diário de Notícias
(21-04-2008)

«Os outros verdes»
FERREIRA FERNANDES

«Verde ecologista é o tipo de termo que abafa os restantes, mesmo os outros verdes mais antigos. Este verde tem o efeito do eucalipto (paradoxalmente, tão criticados na propaganda ecológica): os outros verdes à volta definham. Um ecologista diz "os verdes" como um comunista diz "o partido" referindo-se ao PCP, como se, totalitariamente, não houvesse outros verdes e outros partidos. Aqui se vão lembrar, a contracorrente, os outros verdes tão esquecidos desde que a ecologia ficou dona do nome.

Desde logo, o verde que está na bandeira nacional . Aliás, também conhecida por verde-rubra. Deixemos o rubra e ocupemo-nos da parte junto a pau de bandeira: o verde escuro. Apareceu na República (1910) e é quase uma novidade: antes, só uma bandeira nacional (nos cem anos entre D. João I e D. João II) teve verdes: quatro pequenas flores-de-lis, que pertenciam à Ordem de Avis. As bandeiras monárquicas preferiram azul e branco (outro paradoxo: o pai da ecologia portuguesa, o arquitecto Ribeiro Teles, é monárquico). E o verde da bandeira republicana nem apareceu por vagas razões ecológicas (as paisagens minhotas, o esmeralda do mar algarvio...), mas porque o verde e o vermelho eram as cores da loja maçónica republicana que fez a revolta de 31 de Janeiro de 1890.

O verde é a cor simbólica do Islão. O profeta Maomé usava um turbante verde e o Paraíso para os muçulmanos é verde. Os azulejos verdes são comuns nas mesquitas. Por isso também muitos países muçulmanos têm verde na bandeira. Mas nenhum ganha a palma à Líbia , cuja bandeira é uma só faixa de verde.

Outro povo marcado pelo verde são os irlandeses , com o seu culto ao trevo nacional. No dia de St. Patrick, a comunidade irlandesa imigrada nos Estados Unidos desfila nas cidade onde é importante (como Nova Iorque, Boston e Chicago). As ruas americanas, nesse dia, são verdes, dos fatos, chapéus altos e até sapatos. Em Nova Orleães, na parte velha da cidade (French Quarter), atiram-se missangas verdes das varandas. Dos dois clubes rivais escoceses, o Celtic, católico e apoiado pelos emigrantes irlandeses, é o que tem, naturalmente, a cor verde.

No futebol português, equipamento verde é o do Sporting, embora outros clubes (Setúbal, Naval...) também o usem. O outro verde, o dos relvados, só em 1973 se tornou obrigatório na I Divisão. Embora dois clubes, o Belenenses (no campo das Salésias) e o FC Porto (no campo da Rua da Rainha), reivindiquem terem tido o primeiro com relva. Ainda no desporto, o verde é associado ao golfe, embora aí se esconda em palavra inglesa (green). E verde era tradicionalmente o forro das mesas de jogo nos casinos.

Verde é permissão, como ficou simbolizado nos semáforos. E o verde progressista dos ecologistas já foi a cor da camisa da Mocidade Portuguesa, nos tempos de Salazar. Em grego diz-se "chloro", como os mais curiosos já tinham dado conta nas pastas dentífricas com clorofila. Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda, cancioneiros antigos, cantavam "os verdes prados". E o pai da poesia moderna portuguesa, dono de uma granja na bucólica Linda-a- -Pastora, trazia a cor no nome: Cesário Verde.

Vinho verde e caldo verde vão bem um com o outro e, com a sobremesa, pode-se beber um verdelho madeirense. Nas verduras é a cor que se quer mas, na fruta, verde traduz o que ainda não está bom, não está maduro. O que permitiu que saltasse da literatura (fábulas de Esopo e La Fontaine), uma frase para a linguagem comum. "Ah, mas estão verdes!" Na alma, traduz maus estados: "verde de inveja" e "verde de raiva". Já a liturgia lê o verde como esperança e põe-no nos paramentos em épocas com esse significado.

Em Branca De Neve e os Sete Anões, Dunga tem os olhos azuis, de ingénuo, Zangado tem os olhos negros, de mau, e a madrasta tem os olhos verdes, traiçoeiros. Isso são histórias velhas: o Shrek é todo verde e é simpático. Também o eterno Robin dos Bosques tem o colete e o chapéu verdes. E, na vida irreal (oh, quanto!), três pares de olhos verdes: Hedy Lamarr, Ava Gardner e Vivien Leigh.»

23 abril 2008

A nova (r)evolução dos países comunistas


DOIS SUCESSOS COMUNISTAS
Diário de Notícias

(...)
«Goste-se ou não, China e Vietname estão a fazer notáveis inovações no campo socioeconómico, possivelmente realizando o sonho revolucionário de criar uma alternativa credível à sociedade ocidental.

O mais notável é a apatia dos especialistas, em particular da esquerda. Havendo finalmente um desenvolvimento económico espantoso em sociedades comunistas, seria de esperar que os partidos revolucionários estivessem hoje a estudar intensa e cuidadosamente essas experiências, como fizeram nos tempos em que elas destruíram as respectivas sociedades.

Parece que os nossos activistas só se interessam por revoluções falhadas.» (...)

J. César das Neves, economista, Professor Universitário, no DN de 21.04.2008

Temas de sempre


Edith Stein, executada na câmara de gás em Auschwitz em 9 de Agosto de 1942.

Até lá, a sua luta contra o nazismo fê-la figurar no rol das mulheres a quem devemos muita da resistência às ideias de totalitarismo (que ainda hoje permanecem).

É provável que tenha sido a sua carta a Pio XI (1933)
que deu origem à encíclica do Papa Pío XI «Mit brennender Sorge».

Publicada em alemão a 14 de março de 1937, o documento
denunciava a incompatibilidade entre o catolicismo e os pressupostos ideológicos, racistas e pagãos, do nazismo.

(Ver o livro do Biógrafo de Churchill, Martin Gilbert, The Righteous
: The Unsung Heroes of the Holocaust” (Os Justos: Heróis anónimos do Holocausto), e também Ensinar o Holocausto no séc. XXI)

Uma mulher forte. Um livro forte.

22 abril 2008

Mãe


A foto já correu a internet. Augusto Brázio, o fotógrafo do grupo Kameraphoto, ganhou a oitava edição do prémio Visão / BES de fotojornalismo. (Pois ... eu sei que a Visão é uma revista que ... coitada, etc. ) Mas esta foto (eu serei apenas mais um a mostrá-la) é um tributo ao fotógrafo (que é capaz de olhar com a objectiva, respeitando a intimidade) e à protagonista.

"Para mim, este trabalho foi mais importante enquanto pessoa do que enquanto fotógrafo" (Augusto Brázio, portfolio no P2, 19.03.2008)




18 abril 2008

Umberto Eco

É uma entrevista já antiga de Umberto Eco, mas pareceu-me em sintonia com o momento. Provocadora como sempre:

«O crescimento da informação e da cultura aumentam a credulidade. Os médicos positivistas do século XIX eram precisamente os mesmos que frequentavam sessões de ocultismo. Razão tinha Chesterton: quando as pessoas deixam de crer em Deus, não deixam de acreditar em tudo; passam é a crer em tudo.

Os ateus são mais supersticiosos do que os crentes.
A
New Age, que é uma religião para não-crentes, tem mais deuses do que qualquer religião revelada.»

(Corriere della Sera, 24 de Outubro de 1998)

a favor do ensino á distância ...


«Aluno apertou pescoço a professora

Docente tinha-o advertido para parar de pontapear uma porta




Um rapaz de 12 anos apertou o pescoço a uma professora de Matemática na escola Bissaya Barreto, em Castanheira de Pêra, depois de a docente o ter advertido para parar de dar pontapés numa porta.

O incidente ocorreu cerca das 13:10 de quinta-feira, quando a docente de matemática foi para a sala dar uma aula de substituição de informática. A professora advertiu o jovem, que provém de uma família desestruturada e apresenta sinais de hiperactividade, e este reagiu apertando-lhe o pescoço, injuriando-a e tentando dar-lhe um pontapé na face.

Segundo o presidente do Conselho Executivo, António Alves, o caso foi já sinalizado pela direcção mas falta ainda o relatório da professora.

"Houve qualquer coisa mas só me posso pronunciar depois de ter a exposição da professora", disse o mesmo responsável, embora salientando que se trata de um "aluno difícil".

No entanto, António Alves não esclareceu se o aluno irá ser punido disciplinarmente, tudo dependendo do relatório da docente.

Fonte da GNR confirmou a ocorrência mas negou que tenha sido apresentado qualquer queixa por parte da docente.»

Magdi não vai a Espanha



O governo espanhol não garantiu a Magdi Allam, jornalista do Corriere de la Sera, a segurança necessária para estar presente no lançamento do seu livro "Vencer o medo: a minha vida contra o terrorismo islâmico e a inconsciência do Ocidente".

Egípcio, muçulmano, jornalista em itália, sub-director de um diário de grande difusão, Allam causou espanto aquando da sua conversão ao catolicismo, tendo sido baptizado por Bento XVI na Vigilia Pascal de 2008, juntamente com outros seis adultos.

Allam, de 55 anos, vive em Itália há 35 anos. Nas páginas do diário italiano, este jornalista que ficou com o novo nome, Magdi Cristiano Allam, escolhido, segundo ele próprio, por ser «o mais simples e explícito» – sempre apoiou propostas reformadoras para questões tão controversas como a imigração, a integração de civilizações e o respeito pela liberdade religiosas. Allam sempre se manifestou com posições abertamente críticas em relação ao extremismo islâmico, o que o obrigou a viver sob protecção policial desde há cinco anos. Sobre ele pesa (mais) uma condenação à morte por "heresia".

Também defendeu a integração, no Ocidente, de um islamismo moderado e a liberdade religiosa nos países europeus em relação aos crescentes fenómenos migratórios. Pediu, de um modo muito especial, que fosse respeitada a reciprocidade aos líderes religiosos muçulmanos.

Desde o primeiro artigo que escreveu no Corriere, em 2003, Allam interrogava-se: «Por que razão é que o cristão que se converte à religião muçulmana pode manifestar tranquilamente a sua fé e se exibe publicamente sem arriscar nada, enquanto que um muçulmano que se converte em cristão vive num medo, num pavor absoluto?»

«
em Itália, há milhares de convertidos aos islamismo que vivem serenamente a sua nova fé. Todavia, também há milhares de convertidos ao cristianismo, que se sentem obrigados a ocultar a sua nova fé com medo de serem assassinados pelos extremistas islâmicos, que se infiltram entre nós».

09 abril 2008

Adopção paga, aborto gratuíto

(Diário de Notícias, 4 de Abril)

(...)
«imoral e socialmente injusto»(...)«
"o Estado não tem o direito de cobrar a quem está disponível para ser família". (...) "dinheiro não rima com adopção".»


(Público, 9 de Abril de 2008)

(...)
«"É impensável que o aborto seja gratuito e a adopção seja paga. Ou, então, já se perdeu a noção", afirmou o deputado do CDS-PP Nuno Melo, numa declaração política no plenário da Assembleia da República.

Numa intervenção bastante crítica ao fim da isenção de custas judiciais nos processos de adopção inicialmente prevista para Setembro, mas que o Governo já anunciou que irá ser revista, Nuno Melo rejeitou as justificações de que "só as famílias ricas é que pagarão custas",

"No regulamento das custas judiciais que este Governo quer pagam todos quantos queiram adoptar. Ricos, remediados, pobres", sublinhou.»(...)


Entretanto o Parlamento Europeu continua preocupado com a falta de natalidade nos estados membros ("Quem tem medo das crianças?" - relatório PE). O Parlamento propõe aos parlamentos nacionais que facilitem os procedimentos de adopção de crianças oriundas de outros países e instam aos países de origem a que não ponham obstáculos à adopção de crianças vítimas de maus-tratos e órfãs.

Enquanto houver portugueses o governo não descansará ...
Logo que se extinga o último ... será o paraíso!

Ao fim e ao cabo não são os portugueses um povo de malandros, preguiçosos, falhos nos impostos, corruptos, absentistas, inimigos da lei, poluidores, maus condutores, etc. Como diz o povo, mata-se o bicho, acaba-se a peçonha. Deviam era agradecer a pachorra do governo (composto por pessoas limpas, civilizadas, inteligentes, honestas ...) em nos aturar!

08 abril 2008

decidir


No Canadá, um homem de 84 anos que necessita suporte de ventilação artificial, está no centro de uma polémica em que os médicos, e o hospital, querem desligar o ventilador, mas a família recusa.(Adapatdo do blog, mercatornet, 13 Março, original escrito por Margaret Somerville *)

Quando se trata de suspender tratamentos, convém distinguir entre "decisão médica" e "decisão em contexto médico", que implica uma avaliação mais alargada, com recurso a questões que ultrapassam a medicina.

Este homem, internado num hospital de Vinipegue, depende de ventilação artificial para se manter vivo. Apesar do ventilador, a sua saúde tem vindo a piorar. Os médicos, e o hospital, acham que o aparelho deve ser desligado. A família não, inclusive por motivos religiosos.

Recorreram ao tribunal.

O tribunal de Manitoba, promulgou uma primeira decisão de que o ventilador deve ser mantido até que todos os pontos em debate sejam dirimidos, "para o bem das partes [envolvidas] e do interesse público".

Noutros casos semelhantes, de conflito entre decisões médicas e o doente, ou a sua família, a questão foi o excesso de tratamentos (o chamado "encarniçamento terapêutico" ou "distanásia"). As pessoas ficam assustadas quando pensam que podem ficar entregues apenas à decisão do médico e das suas máquinas, sobretudo se estiverem em agonia.

Foi o caso dos (mediáticos) Karen Anne Quinlan (EUA), Tony Bland (Reino Unido) e Nancy B. (Canadá). Nestes casos o tribunal reconheceu o direito legal do doente, ou das famílias caso o doente não o possa exprimir, recusar tratamentos.

Daqui nasceram as chamadas "directivas antecipadas" ou "testamentos vitais", documentos em que os doentes manifestam as suas decisões sobre o que fazer nestas circunstâncias de fim de vida, nomeando um "procurador" para, em seu nome, as fazerem cumprir.
Este tipo de acções tem levado a um reconhecimento progressivo de que, em circunstancias em que o benefício do tratamento não excede os danos, poderá não ser ético prolongar a vida.

O princípio base é o respeito pelo indivíduo e pela sua autonomia, autodeterminação e inviolabilidade - o direito a não ser tocado, nem sequer para tratamento, sem o seu consentimento.

Nalguns destes casos, a religião era uma das dimensões em presença. O exemplo mais conhecido é o das pessoas que aderiram à corrente protestante das Testemunhas de Jeová e que, à luz destes princípios, adquiriram o direito legal de recusar transfusões, mesmo que isso signifique maior risco de morrer.

Mas este caso é exactamente o oposto. Aqui trata-se de omitir tratamentos por decisão do médico / hospital. Se aplicarmos os mesmos princípios legalmente expressos acima, será que ele (ou nós, no seu caso) tem direito ao tratamento?

Tentemos responder.

A principal obrigação do médico é o cuidado do seu doente concreto, individual. O médico não pode colocar interesses de terceiros à frente dos interesses do seu doente, nem pode ter conflitos de interesse que ponham em causa as decisões que afectem o seu doente.

Por exemplo, tentar poupar recursos para outros doentes, à custa do seu doente, é anti-ético.

A lei obriga o médico a oferecer ao seu doente o leque de tratamentos que um médico competente e cuidadoso prescreveria em circunstancias idênticas. Isto pode implicar, ter que levar em consideração a situação religiosa e as expectativas do doente. Em caso de conflito, ou de dúvida insanável, poderá ser necessário esperar por uma decisão legal.

Embora os tribunais valorizem a opinião do peritos, estas por si só, não são determinantes do leque de opções terapêuticas que o juiz entenda considerar.

Se um tratamento tem indicação médica, só poderá ser omitido / interrompido se o doente (ou o seu procurador) emitirem uma recusa informada (um consentimento informado).

Por outro lado, quer a lei, quer a ética, obrigam o médico a informar os doentes sobre tratamentos que estejam medicamente indicados, mesmo que não estejam disponíveis. Isto cria situações difíceis para os clínicos.

Os hospitais, por seu lado, também têm obrigações éticas e legais para o uso eficiente e efectivo dos recursos disponíveis, no sentido de beneficiar, com equidade, todas as pessoas. Ou seja, podem decidir, por exemplo, que um determinado tratamento (uma Unidade de Cuidados Intensivos) não estará disponível na instituição, mas não podem discriminar doentes no acesso aos tratamentos disponíveis com base na idade. Como não podem ter uma política geral de não reanimar os doentes graves. Estas decisões serão sempre individuais, com peso obrigatório, legal e ético.


Então? (Futilidade ...)

O conceito de futilidade (tratamento com pouco valor) é bastante escorregadio. Implica juízos de valor sobre "qualidade de vida". Um tratamento é considerado "fútil", quando se pretende omiti-lo ou interrompê-lo, na previsão de que a vida daquele doente não é valiosa, nem merecedora de ser vivida e, portanto, não seria "custo-efectivo" manter a pessoa viva.

Um dos problemas desta visão é que, geralmente, os profissionais de saúde tendem a valorizar menos a qualidade de vida dos doentes terminais, do que os próprios doentes.

Outra questão é a "futilidade médica" ou tratamento fútil - tratamento que não está medicamente indicado ou que não tem benefício. Por exemplo, fazer uma transfusão de sangue a quem não precisa, seria fútil (e errado).

Mas neste caso concreto, o ventilador mantém o doente vivo. Portanto não se pode considerar um acto medicamente fútil. Isto não implica necessariamente que não poderá ser desligado. Significa é que não pode ser interrompido com base no argumento da futilidade.

Outro caso ...

No caso de Herman Krauz, o médico que o tratava desligou o ventilador. É bastante parecido com este caso.

Houve um inquérito do Delegado de Saúde Pública. Este reconheceu que o ventilador que mantinha vivo o doente não era medicamente fútil; que o doente não tinha emitido nenhum consentimento informado; que a retirada do ventilador foi a causa de morte. Mas também certificou que o ventilador era "terapeuticamente fútil", isto é, que não curaria o doente e que este morreria, com ou sem ventilador, sendo que com a retirada do ventilador se determinou o momento da morte.

(Confusos? Eu também ...)

O problema é que isto (que todos morreremos de um modo, ou de outro, não sabemos é quando) é verdade para todos os que necessitam de tratamento médico ...


Então o que se passa?

Quando há conflito de valores, desencadeia-se uma enorme pressão (mediática, mas não só), para que haja uma "ética da conjuntura" que no futuro justifique a quebra de valores com base na casuística. Estes casos individuais tornam-se importantes na medida em que se pretende, com base nestas decisões, influenciar decisões gerais para todos os outros casos, criando precedentes.

Os que acham que se podem retirar / omitir tratamentos tentam justificar a questão criando um cenário medicamente degradado. Por exemplo, durante o inquérito, uma enfermeira afirmou ao tribunal que o doente "tinha 45 litros de fluidos em excesso, retidos no seu corpo, e estava a rebentar de edemas". A linguagem afecta muito o modo como olhamos para a ética, condicionando de forma emocional as nossas respostas.

Outro dos argumentos expostos em tribunal foi o de que o "doente não fala, nem sai da cama" e "portanto o seu cérebro não estará acima do estado vegetativo". O problema é que isto nem foi demonstrado e, além disso, pode aplicar-se a uma infinidade de doentes com deficiência profunda!

E as razões podem continuar por aqui:

- "garantir um morte digna e sem dor";
- "é raro que um doente que esteve tanto tempo numa Unidade de Cuidados intensivos sobreviva";
- "os sistema público não possui recursos que permitam estes internamentos tão prolongados" (o que é verdade para muitíssimos outros tratamentos, também ...);
- "o tratamento em questão não tem vantagem" (esta é, precisamente, a questão que necessita ser demonstrada e discutida ...);
- "este tratamento pode ser doloroso e incómodo" (o que é verdade para muitos outros tratamentos);
- "o recurso ao tribunal custa dinheiro aos contribuintes";
- "o atraso que o esperar a decisão do tribunal acarreta, provoca stress nos profissionais de saúde que querem suspender o tratamento";
- "um tribunal não pode ordenar um tratamento médico" (o que é um erro legal ...),
- ...

A infinidade de argumentos faz temer que nenhum deles - ou o seu conjunto - seja suficiente.

Há evidentemente modos de justificar - sob o ponto de vista ético e legal - a omissão de tratamentos, sem sequer ser necessário abrir nenhum precedente excepcional. Mas nenhum deles foi invocado.

Um desses argumentos é, precisamente, o consentimento informado, do paciente ou da sua família.

Então, em caso de conflito, que valor deve prevalecer?

O doente, a família, ou o médico?

Uma coisa é a "decisão médica", por exemplo, qual a dose correcta de um medicamento. Este é um campo estrito do médico. Outra coisa são decisões "em meio, ou contexto, médicos". Aqui estamos confrontados com valores, incluindo os valores religiosos.

Decisões em contexto médico não são somente do domínio do médico. Nestas questões, devem prevalecer os valores do doente, ou da sua família se ele não for competente. A menos que o médico possa demonstrar que, naquele caso concreto, se trata de uma situação de excepção.

* Margaret Somerville é directora do Centre for Medicine, Ethics and Law, na McGill University. Escreveu "The Ethical Imagination: Journeys of the Human Spirit".


04 abril 2008

"ter fome não é contra os regulamentos do consumidor"


«Os pobres estão proibidos»

J Cesar das Neves, in Diário de Notícias

(...)
«O nosso tempo acaba de conseguir uma grande vitória na vida dos pobres. Não acabou com a miséria. Limitou-se a proibi-la. É que, sabem, a pobreza viola os direitos do consumidor e as regras higiénicas da produção.

A nova polícia encarregada de vigiar a interdição da indigência é a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, ASAE. Segundo as regras por que se rege, grande parte dos pequenos negócios, empresas modestas e produt
os tradicionais, bem como as vendas, bens e esmolas de que vivem as pessoas carenciadas ficam banidas. É pena, mas não há lugar para pobres na sociedade asséptica que pretendemos.» (...)

«A 14 de Janeiro passado, a ASAE visitou o Centro de Dia de Póvoa da Atalaia, Fundão. Aí impôs obras caras, destruiu a marmelada que tinha sido oferecida pelos vizinhos e levou frangos e pastéis dados como esmola (Lusa, 06.03.2008).

O jejum a que a Autoridade condenou aqueles pobres velhos foi feito em defesa da sua higiene alimentar.

Parece que ter fome não é contra os regulamentos do consumidor.»

(...)
« Será que alguém pode ser tão estúpido, insensível e maldoso? Esta hipótese nunca deve ser descartada, sobretudo nos tempos que correm. Mas a explicação é capaz de ser outra. Só um iluminado pode fazer erros tão crassos. O que realmente se passa é que a ASAE não se considera uma polícia nem se vê a perseguir malfeitores. A sua missão suprema é educar o povo para a segurança alimentar. A finalidade é mudar o mundo. O seu objecto são, não os criminosos, mas toda a população. O que temos aqui é um conjunto de fanáticos com meios para impor às gentes ignaras o que julga ser o seu verdadeiro bem. Desta atitude saíram as maiores catástrofes da história.»

(...)
«Ao promover o consumidor esquece o produtor, ao favorecer o investimento ignora o ambiente, ao cuidar do mercado desequilibra a saúde. Quem queira cumprir à risca o estipulado não sobrevive. Nem sequer quem o impõe: "Sede da ASAE
[no Porto] não cumpre regras impostas pela ASAE" (JN, 17 de Fevereiro)."»
(...)




01 abril 2008

Câmara de Amesterdão subsidia habitação para famílias numerosas


A Cãmara Municipal de Amesterdão criou um programa de parceria com empresas de construção civil para a criação de moradias que alberguem famílias com três ou mais filhos, com renda controlada.

Em simultâneo, é concedido um subsídio para a mudança de habitação, bem como facilidades especiais para as famílias que tenham pelo menos cinco filhos.


Nesta cidade viem cerca de 16 mil famílias com três ou mais filhos.


É parecido com Portugal, ;-)