Jornal de Negócios

30 junho 2009

Sem direcção

(...)

«Temos um Estado que ignora a linha estratégica do País e os grandes problemas nacionais. Não sabe o que quer no futuro nem como lá se chega, mas ocupa-se com embalagens de iogurtes, fumo nos edifícios, cadeirinhas nos automóveis e educação sexual. Os governantes tratam do que nos compete, sem fazerem o que lhes compete. Vivemos num equilibrismo mediático e em escaramuças pontuais, esquecendo os desígnios básicos. Assim, o debate eleitoral só pode passar ao lado dos grandes problemas nacionais.»
João César das Neves, no DN

Familias sanduiche

(...) «o estudo da TESE serve para revelar aquele que é, hoje, o principal estrangulamento da sociedade portuguesa: há um conjunto de famílias que beneficiando de recursos materiais que são suficientes para as excluírem do acesso às prestações sociais de combate à pobreza, têm contudo recursos insuficientes para fazer face às suas despesas e cumprir expectativas e aspirações naturais de vida.

Essas famílias são adequadamente descritas como "famílias sanduíche": estão fora da rede de apoios sociais de combate à pobreza, mas não deixam por isso de ser pobres.

Esta asfixia das classes médias baixas tem várias consequências. Com os fracos rendimentos não são só as famílias portuguesas que estão ensanduichadas, é a própria democracia.

Sem classes médias cooptadas para o sistema, a democracia vive uma permanente crise de legitimidade. E não há cooptação possível quando as classes médias vivem maioritariamente com menos de 900 euros por mês e, não menos grave, com a percepção que as trajectórias de mobilidade social ascendente que, ainda assim, tiveram, não se reproduzirão nos seus filhos.

Não por acaso, o estudo revela que 70% dos portugueses não confia nas instituições que nos governa» (...)

«O objectivo não pode apenas passar por continuar a responder às formas mais severas de pobreza, como revela este estudo, é urgente encontrar soluções para os que estando acima da linha de pobreza, não deixam por isso de ser pobres.»

(Pedro Adão e Silva, no Diário Económico.)

Discutimos o quê?

A propósito da discussão sobre educação sexual nas escolas, fui espreitar as estatísticas da OMS sobre abortos e gravidez na adolescência na Europa.

Pelos dados da OMS estamos melhor do que a Inglaterra, a Noruega, a Suécia e outros países "invejáveis", que apostaram neste tipo de educação há mais de uma década ...

Convinha não copiar o que os outros já não querem.


22 junho 2009

Ainda agora encerraram as urnas ...

No Abrupto ("o Abrupto feito pelos leitores"):

«O Conselho Europeu reuniu-se há alguns dias. Entre as decisões tomadas, os Chefes de Estado e de Governo reunidos no Conselho Europeu adotaram uma decisão que é suposta dar garantias sobre matérias que "preocupam o povo irlandês" e abrir caminho a um novo referendo do tratado de Lisboa. Essas matérias dizem respeito ao direito à vida, família e educação, à tributação, e à segurança e defesa. Até aqui parece-me bem, independentemente do que cada um de nós pensa do dito tratado.

Mas, nas suas conclusões, o Conselho afirmou que a dita decisão não era somente uma declaração política, mas que era "juridicamente vinculativa". E eu pergunto uma pergunta que até agora não vi, nem ouvi nenhum comentador, professor de Direito ou jornalista perguntar. Qual é a base legal dessa decisão "juridicamente vinculativa"? É que a decisão propriamente dita não o indica. De fato, tal base legal não existe. Ou seja a decisão é efetivamente juridicamente inexistente face o direito europeu em vigor, inexistente face aos direito nacionais e logo inconstitucional.

Não discuto o conteúdo da dita decisão; não é esse o ponto. Se fosse uma simples declaração política, nada eu teria a acrescentar. O problema é a afirmação que a decisão é "juridicamente vinculativa."

E o Conselho Europeu sabe bem que a sua decisão que se afirma "juridicamente vinculativa" não o é. Por isso se comprometeram (mas este compromisso é puramente político e não "juridicamente vinculativo") a que no momento da conclusão do próximo Tratado de Adesão, as disposições da dita decisão sejam incluídas num Protocolo a anexar ao Tratado da União Europeia e ao Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia. Ora, se a dita decisão é "juridicamente vinculativa" porque precisa ela de vir a ser incluída num protocolo a anexar aos tratados no futuro? Ou seja, a dita declaração não carece de nova ratificação, dizem eles; mas virá a ser ratificada disfarçadamente quando se discutir a adesão da Croácia ou da Islândia.

Mesmo a um europeísta e federalista como eu, isto cheira a esturro.»
«(Pedro Ferreira)»

Leituras

Aprender a escutar

Um livro sobre a mais acessível ferramenta das relações humanas, escrito por um psiquiatra e professor de medicina.

Como falar, como escutar.

Edições
DIEL, Lisboa 2009, 352 páginas.


Intelectuais


Do famoso historiador inglês, Paul Johnson. Um livro provocador
sobre a biografia de intelectuais de grande peso histórico, como Rousseau, Marx, Tolstoi, Russell, Edmund Wilson, entre outros.

Editora
Guerra e Paz, Lisboa 2009, 496 páginas.






Um Mundo sem pobreza.

Mais um livro de Yunus, com as histórias de sucesso de milhares de pessoas anónimas que sairam da pobreza para se tornarem empresários por conta própria.

Conta também a história do próprio Yunus e a de muitas mulheres que constituem não só 94% dos beneficiários do banco, como também grande parte dos "funcionários" da instituição, a quem se exige um trabalho no terreno, muito longe das burocracias e teorias dos G's da "grande" (e falida ...) economia global.


Editora Difel.



A epidemia do narcisismo: The narcissism epidemics, living in the age of entitlement, por Jean M. Twenge, W. Keith Campbell. Free Press. New York (2009).




Dois sociólogos norte-americanos exploram os determinantes desta nova epidemia - a obsessão pelo ego (egotismo) - que se difunde graças à proliferação dos recursos para a auto-promoção.



15 junho 2009

Maneiras de acabar com os pobres ... (mas não com a pobreza)


Vem no Times que o Clube de multimilionários Gates + 6 , resolveu dedicar-se a propor um modo de reduzir a população mundial.

Deste exclusivo clube, além do patrão da Microsoft, Bill Gates, fazem parte os mais ricos dos EUA: David Rockefeller Jr., Warren Buffet, George Soros, Michael Bloomberg, Ted Turner e Oprah Winfrey.

Reunidos em casa de Paul Nurse, Prémio Nobel de bioquímica e Presidente da Rockefeller University, tinham como objectivo definir qual a próxima causa filantrópica a apoiar, causa que lhes garantisse, ao mesmo tempo, cobrir eventuais riscos para as suas fortunas.


Há uns meses, Bill Gates já o tinha dito e com números: “Official projections say the world’s population will peak at 9.3 billion [up from 6.6 billion today] but with charitable initiatives, such as better reproductive healthcare, we think we can cap that at 8.3 billion”. (“As projecções oficiais dizem que a população do mundo chegará ao ponto máximo de 9,3 mil milhões [hoje, são 6,6 mil milhões]; mas com iniciativas caritativas, tais como melhores serviços de saúde reprodutiva, pensamos que poderemos estabilizar nos 8,3 mil milhões”)


No calão actual, “better reproductive healthcare” / "saúde reprodutiva", quer dizer negócios millionários, à escala global, vendendo produtos para contracepção e aborto, especialmente nos países pobres, vistos como uma ameaça para os países ricos ... De facto, o famoso e antigo Relatório Kissinger, continua bastante na moda: o aumento da população dos países menos desenvolvidos é considerado uma ameaça à prosperidade do mundo capitalista.

Gates e os seus multimilionários amigos não referem que o que está a acontecer à população é uma coisa bem diferente: como diz
Barry McLerran, autor do documentário Demographic Winter, a taxa de crescimento da população diminuiu cerca de 50% nos últimos 30 anos.

A fertilidade nos países desenvolvidos está abaixo do índice de renovação das gerações. Se as coisas não mudarem, a tendência indica que, em vez de excesso de população, a crise que virá a meados deste século será oposta: uma crise de subpopulação.


Mas para estes americanos ricos, geralmente conhecidos por WASP (White Anglo-Saxon Protestant), o mundo é, em última análise, um mercado.

Mas mesmo que o fosse – e não é – a ideia de aplicar as estratégias e tácticas de mercado de modo nenhum garante que isso favoreça o bem comum e a vida da humanidade.

Tem um sabor desagradável, a raiar a cultura do traficante, considerar as populações como números e agentes do mercado, em vez de as considerar como pessoas e cidadãos.

Mas a verdade é que, como diz no seu artigo Michael Cook, ("Governments have few tools to increase births"), é que analisando os dados disponíveis (...) "using every tool available, governments may be able to increase the number of children being born by a bit – but just a little bit. And nothing they do will stop population ageing".

(...) «usando todos os instrumentos disponíveis, os governos podem aumentar ligeiramente o número de nascimentos – mas só ligeiramente. E nada do que façam poderá parar o envelhecimento demográfico.»


Esta é uma verdade inconveniente que trará muitos dissabores às próximas gerações, tantos mais, quanto mais tarde começarmos a mudar de rumo.

10 junho 2009

Je suis noir et je n'aime pas le manioc


«existe uma exploração mediática do continente ou da sua miséria por parte de algumas personalidades do espectáculo e da política. Tornou-se quase uma moda fazer-se fotografar com os pobres, os doentes e os miseráveis do continente africano»
(...) mas há «pelo menos outros três modos nos quais se costuma falar da África e dos africanos, representados respectivamente por três autores contemporâneos. Enquanto Kuki Gallmann (Sognavo l’Africa, Milão, Mondadori, 1993) fala do continente com amor e nostalgia, Gaston Kelman (Je suis noir et je n'aime pas le manioc, Paris, Max Milo, 2003) usa o humorismo e uma série de anedotas, contos e argúcias para enfrentar vários preconceitos que as pessoas de ascendência africana encontram fora, mas também dentro da África (...) (Mons. Nwachukwu, Secretaria De Estado do Vaticano)

«Pourquoi me reconnaîtrais-je dans le malheur ? Jusqu'à
quand est-on descendant d'esclave ? Je n'ai pas vocation à me soucier des Noirs plus que des autres.
Si j'ai une communauté, c'est la France. »

(G Kelman)

01 junho 2009

células pluripotentes adultas tratam Anemia de Fanconi


Na Universidade Autónoma de Barcelona, cientistas do Centro de medicina Regenerativa e do Departamento de Genética, em parceria com o Instituto Salk, na California, usaram células da pele de doentes com Anemia de Fanconi, que depois de reprogramadas (células iPS), foram implantadas em doentes com anemia hereditária de Fanconi, com inicio da produção de células sanguíneas normais.

Embora este trabalho, publicado na edição online da Nature de 31 de Maio, ainda esteja na fase experimental, é a primeira vez que se consegue gerar células saudáveis a partir de células dos próprios doentes, ultrapassando os problemas da compatibilidade e da rejeição que surgem quando se usam células alheias.

"Ainda é cedo para se falar de cura de doentes", explica um dos investigadores. "Para já apenas «curámos» uma célula, mas se se provar que este método pode ser aplicado clinicamente", não haverá limites ao que poderemos fazer.