Jornal de Negócios

28 julho 2009

A economia não é neutra

«A última Encíclica Papal – Caridade na Verdade – merece ser lida e discutida. Quem escreve isto é um não crente que reconhece a influência da Igreja Católica e acha que a sua doutrina social continua a oferecer recursos para pensar criticamente a economia e as transformações necessárias para a tornar mais solidária.

(...) a configuração do mercado global emergente enfraqueceu sindicatos e erodiu direitos laborais e sociais ao favorecer a chantagem da deslocalização de empresas demasiado concentradas nos interesses dos accionistas e muito pouco no trabalho digno


(…) Mesmo que estes conceitos possam e devam ser debatidos, parece-me relevante a recusa de qualquer separação artificial entre economia e moralidade, a partir do reconhecimento de que as decisões económicas nunca são neutras.


Destaco ainda a defesa da coexistência de uma pluralidade de “formas institucionais de empresa” – das empresas privadas e públicas às experiências associativas – prosseguindo vários objectivos e favorecendo uma “hibridização dos comportamentos de empresa”.

Isto não está longe de algumas preocupações da economia solidária, um frutífero ponto de encontro de muitos socialistas e católicos. Trata-se no fundo de não desistir de buscar os arranjos que nos permitam “ir mais além da lógica da troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo”.

É uma pista promissora para quem deseja retirar todas as consequências do fracasso da construção neoliberal de uma economia divorciada do bem comum.»

(João Rodrigues, economista, no I online de 20 de Julho)

Fazer de conta(s)


(...) «O caso de um aluno que passou de ano (o 8.º) com nove negativas despertou por aí certos queixumes. É vontade de dizer mal.

Antes de mais, o aluno em causa não é uma excepção, é um exemplo: pelos vistos, "transitar" criancinhas com sete, oito, nove ou dez negativas já se tornou prática relativamente comum nas escolas nacionais. E o hábito não é tão negativo quanto aparenta. Muito pelo contrário (...)

Em primeiro lugar, acaba com a discriminação entre disciplinas. Até agora, inúmeros alunos saltitavam de ano em ano sem saberem nada de matemática. Agora, são livres de saltitar sem saberem nada de coisa nenhuma. Um ponto a favor da "interdisciplinaridade".»

(...) «o fim das "retenções" acaba com alguns traumas no Orçamento de Estado. Há tempos, a sra. ministra explicou: cada aluno custa ao erário público 3 mil euros por ano, logo um aluno reprovado fica por 6 mil.

Em 2007, os "chumbos" no ensino básico e secundário pesaram 600 milhões na despesa, uma enormidade que poderá perfeitamente ser aplicada no aprimoramento tecnológico da rede escolar, de modo a que os alunos que "transitam" na maior ignorância o façam nas melhores condições.» (...)

(Alberto Gonçalves, Dias Contados, no DN On-line, 26 Julho 2009)

27 julho 2009

falta de memória

«O tempo é uma coisa tramada» ( J. Pacheco Pereira na Sábado on-line)

“Seria uma grande irresponsabilidade construir estes estádios que depois não fossem utilizados” (José Sócrates, 1999, entrevista no programa Hermann99)


«O que impressiona nesta entrevista é ouvir Sócrates falar exactamente na mesma, usando as mesmas expressões, o mesmo tom enfático, as mesmas palavras, os mesmos argumentos, o mesmo apelo a que o nosso desejo corresponda ao dele, a que o acompanhemos, a mesma tensão discursiva, com que fala hoje.
Na altura falava dos estádios do Euro 2004, hoje fala do TGV ou do novo aeroporto ou das novas auto-estradas. E diz exactamente o mesmo, sem tirar nem pôr.» (JPP)

20 julho 2009

O que cada um pode fazer contra a gripe


A gripe é (será ...) um problema social, de organização de cada casa e de cada família, para atravessar um período em que parte do país e dos cidadãos não estarão em condições de garantir todas as respostas a que nos habituámos (água, luz, comida, transportes, etc.).


Este sítio contém informação do Centro de Análise da Resposta Social à Gripe Pandémica e os seus relatórios periódicos.

Por exemplo:

«
O primeiro passo a dar no planeamento pessoal e familiar para uma pandemia de gripe é estar-se informado. Um correcto planeamento na nossa rede familiar, prepara-nos para agir contra a Gripe. Devemos colocar questões fundamentais, para as quais temos a tarefa de procurar respostas: · Que fontes de informação temos disponíveis? · Temos garantidas as necessidades especiais (para os doentes crónicos, por exemplo)? · Quem tomará conta dos meus filhos, se eu adoecer? · Quem cuidará dos familiares que dependem de mim? · Que bens essenciais devo ter em casa? · Temos meios de comunicação suficientes? · Se a escola dos meus filhos fechar, quem tomará conta deles? · O que fazer em caso de sintomas? · O que fazer em caso de contacto com alguém que revele sintomas? Procurar respostas para estas questões ajuda-nos na preparação para enfrentar a Gripe»
(http://agircontraagripe.blogspot.com/)

O Centro de Análise da Resposta Social à Gripe Pandémica é uma parceria entre a Escola Nacional de Saúde Pública, a Fundação Gulbenkian e o Ministério da Saúde.

15 julho 2009

Tropeçando nos próprios pés


Pelos vistos agora há quem se queixe de que as mulheres optaram pelo aborto de modo habitual.

Pelos vistos agora há quem reclame que as mulheres "que fazem mais do que um aborto deviam começar a pagar pela segunda interrupção".

Ou seja, só é perigoso o aborto clandestino na 1ª vez. Nas vezes seguintes o aborto clandestino já será excelente!

Ou seja, a opção da mulher é de respeitar quando elimina o primeiro filho, passa a ser pouco respeitável nos seguintes.

Ou seja, criticar quem aborta é uma intolerância, no primeiro aborto, e um dever no segundo? (Será preciso pedir o registo clínico às senhoras antes de tomar posição?)


Por outro lado, os dados da Direcção Geral de Saúde já diziam que nos anos de 2003, 2004 e 2005, PRÉVIOS à liberalização do aborto, os registos de "perfurações do útero / outros órgãos", eram zero.

Em 2006, registam 1 caso, e em 2007, o ano da liberalização do aborto, registaram doze (12).

(Direcção Geral de Saúde, Episódios de Internamento por aborto espontâneo e IVG, Quadro III).

Portanto, esta gente tem agora ataques de moralismo público em nome de quê?

11 julho 2009

a pseudo ética - "não se trata de ser competente, mas competitivo"


Na sociedade actual "não se trata de ser competente, mas competitivo.

Não basta ter dinheiro, é preciso ter mais dinheiro que o cunhado.

Não é importante escrever um bom livro: é preciso é que venda mais do que o anterior."

Alejandro LLano, La vida lograda, Ariel: Barcelona, 2002. ->



"Vivemos no meio de uma ética de regras, não de bens ou de virtudes. O problema então é: como é que aplicamos estas regras? Porque, como disse Wittgenstein, (...) o uso das regras não pode estar, por sua vez, submetido a regras, até ao infinito.

O projecto ideal de uma mecanismo jurídico (...) instrumentalmente neutro, é um constructo (...) utópico.

Estas regras ou normas sempre terão que ser feitas, aplicadas e respeitadas por pessoas. E estas pessoas têm uma coerência de vida que depende dos valores e virtudes que forjam. "

Mas se estes valores e virtudes foram marginalizados do discurso público, não podemos recorrer a eles para conseguir que os cidadãos valorizem as normas ou as respeitem ...

Alejandro LLano, Humanismo Cívico, Ariel: Barcelona, 1999.

10 julho 2009

Estão preparados?


«Se ficar doente, permaneça em casa! Se estiver com sintomas de gripe, fique em casa e contacte a Linha Saúde 24, pelo número 808 24 24 24, de forma a proteger-se e evitar o contágio a outras pessoas.» (Ministério da Saúde, Portal da Saúde)

Ou seja, é preciso estar preparado para permanecer em casa até que passe a "trovoada" viral.

Pinceladas, sem rigor, mas com sentido prático:

1) Na epidemia de 1918, o pico de aceleração dos casos durou (grosso modo) 90 dias.
2 ) Na China, durante a epidemia da impropriamente chamada "pneumonia atípica", em 2003, foram precisos 8 meses para controlar a situação.
3) A OMS calcula que são preciso 12 semanas até que seja possível reduzir a transmissão da infecção, depois do início da epidemia da gripe.
4) Muitos dos problemas, em período de epidemia, não se devem à gripe, mas ao MEDO que leva a comportamentos perigosos e contraprodutivos.

Portanto, preparar para hibernar! (Se for preciso)

- Prever o que fazer de modo a que seja possível viver em casa sem sair à rua:

1) Ter em casa os medicamentos de uso mais comum, desde o paracetamol para a febre e dores, até àqueles que geralmente tomamos, de modo habitual ou ocasional. Lembre-se que em caso de doença leve, sair para ir ao médico, ou ao hospital pode ser a pior coisa a fazer. Sai com um doença leve, e regressa com um vírus mais grave ...
2) Água, comida, pilhas, rádio a pilhas, lanterna. (Temos que prever que o fornecimento de água e electricidade pode tornar-se mais irregular; também pode não ser seguro sair para fazer compras, durante cerca de 2 semanas).
3) Algum dinheiro em notas e moedas. Meia dúzia de máscaras para a eventualidade de ter um doente em casa, ou de ter que ir a algum local fechado. Na rua, como se sabe, a máscara é inútil.
4) Montes de gel para lavar as mãos (lavar de 2 em 2 horas), de preferência em recipientes que possam ser usados sem lhes tocar com as mãos. Toalhetes para limpar (diariamente) os puxadores das portas, os manípulos das torneiras, as superfícies de trabalho, etc.
4) Assegurar que as portas e janelas do exterior são seguras contra intrusões (nunca se sabe se os ladrões adoecem, ou não...)
5) Manter secas as toalhas de mãos e panos de cozinha: os vírus permanecem viáveis em ambientes húmidos. Ou seja, secar as mãos num pano húmido é uma péssima ideia (pode estar a contaminar as mãos acabadas de lavar).
6) Cumprimentar, só à distância: as mãos e a cara são locais de fácil contágio e contacto. MANTER AS DISTÂNCIAS (a 1 metro, é a recomendação).

Por último: manter a saúde mental - ouça apenas as notícias necessárias. No geral, desligar a TV é uma opção saudável!

07 julho 2009

auto-estima, mecânica e reparações


Não adianta pensar que «tudo está bem, só pelo facto de que fomos nós próprios a fazê-lo (e nós nunca falhamos) ...

Trata-se é de não nos tratarmos com uma dureza desproporcionada. Somos quem somos e, ao fim e ao cabo, somos o amigo mais próximo de nós próprios.


Não podemos fechar os olhos a tudo o que há em nós e que podia, ou devia, melhorar. Mas não nos obrigaremos a isso através do auto-desprezo ou da auto-punição. (...)

Reconheçamos o que há de bom em nós, sem foguetório, nem entusiasmos balofos. Mas se temos motivos para estar orgulhosos então caramba!, vamos estar orgulhosos.»

Transcrito de Paloma Gomez Borrero, . La Alegria. Ed. Martinez Roca, Barcelona, 2000)

06 julho 2009

É chato, mas é verdade!

(...)
«Não foi só dentro de alguns ministérios de Berlim que foram inventadas as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz e Treblinka. Elas foram sendo preparadas nos gabinetes, e salas de aula, de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam, e contam, Prémios Nobel.

De facto, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas compostas por proteínas, pouco importa que um deficiente mental seja eliminado, como inútil, e que ao deficiente se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: trata-se de um raciocínio perfeitamente lógico e consequente." (...)


Viktor E. Frankl, El hombre en busca de sentido, Editorial Herder, Barcelona,2004.

(Sobrevivente do campo de concentração de Dachau, Viktor E. Frankl foi catedrático de Neurologia e Psiquiatría da Universidade de Viena. Foi o fundador da logoterapia ou “terceira escola de psicoterapia” (as outras duas são a psicanálise e a psicologia individual). Ensinou em Harvard, Stanford, Dallas y Pittsburgh)

O livro é bastante positivo e lê-se bem. Esta é a tal parte dolorosa, mas realista e muito actual.
A wook vende o livro traduzido em português pela editora Vozes (1991, Brasil).


Este ainda não está traduzido (que eu saiba):
(...)
«quando se escreve, e age, como se o os dados clínicos da experiência comprovada, da genética, dos estudos sobre o cérebro, da biologia, da psicologia e da sociologia tivessem demonstrado que o espírito humano não é independente, temos que reparar que é precisamente o contrário que é evidente. Os resultados das investigações clínicas falam a favor da obstinação do espírito.

Ontem como hoje, hoje como há mais de 100 anos, quando foram escritas estas palavras por um personagem eminente da Escola de Medicina de Viena:


"À Medicina tem-se reprovado que favoreça a tendencia para o materialismo, isto é, para uma concepção do mundo que ignora o espírito. Mas esta crítica é injusta, pois ninguém tem mais motivos para reconhecer a caducidade da matéria e a força do espírito do que o médico.

Se ele não está convencido disto, a culpa não é da ciência, mas dele próprio porque não estudou o suficiente."»


(V. E. Frankl,
La Psicoterapia al alcance de todos, Herder: Barcelona, 2003)

"as batalhas antigas eram contra as proibições, não pela imposição de novas proibições"

J. César das Neves, no DN:

(...) «As autoridades muçulmanas ao imporem a burka mostram falta de tolerância. Tal como as autoridades francesas o farão se vierem a proibir a burka.

Mais irónico é este debate realizar-se à volta de uma questão de vestuário, precisamente o tema onde a liberdade de costumes se começou a expressar na contemporânea. Há cem anos não passava pela cabeça de ninguém que um homem sério saísse à rua sem chapéu e bengala ou que as damas mostrassem o tornozelo. Fardas e uniformes eram omnipresentes em todas as classes. Os filhos dessa geração afirmaram a sua autonomia precisamente pela sua aparência exterior. Cabelos compridos, roupa desalinhada, calças de ganga, minissaias pareceram como combates importantes no caminho da liberdade. Agora os franceses, ao proibirem a burka, pensam estar no mesmo combate»



(...) «as batalhas antigas eram contra as proibições, não pela imposição de novas proibições.

O problema é mais vasto do que parece. Como Sarkozy com a burka, o Parlamento Europeu e o Governo português estão empenhados, há anos, em limitar a vida a fumadores, automobilistas, pais e cidadãos com as melhores intenções. Esquecem que todas as ditaduras, mesmo ferozes, sempre se justificaram com o bem dos cidadãos.»