Jornal de Negócios

30 setembro 2009

«A dignidade humana não torna o mal impossível, torna-o injusto. »

Entrevista a Robert Spaemann (Professor de Filosofia, na univ. de Munique, eticista):

(...)

«E o diagnóstico pre-implantatório? Existe o direito a ter um filho saudável?

Existe o desejo justo a ter um filho saudável. O direito, propriamente, não existe. Está-se a usar uma linguagem torcida. "Direito a um filho saudável" é uma fórmula sugestiva que se usa como se fosse possível converter uma criança doente, numa saudável. Isto soa fantasticamente. Mas a questão é outra: é permitido matar uma criança doente, para obter uma criança sã? Naturalmente, este direito não existe.»

(...)

«Os médicos não estão em perigo de entrar num dilema moral persistente, se se opuserem a determinados procedimentos?

A questão, hoje em dia, é a seguinte: como é que os médicos vêem o seu próprio trabalho? Continuam firmememte sujeitos à ética tradicional, na qual devem ajudar a promover a vida, e não a destruí-la?

Falar de dilema induz em erro. Não se trata de saber se o médico é, ou não, culpado. Não existe uma culpa automática e inevitável: se não presto uma ajuda que não posso prestar, não sou culpado.
Se só posso ajudar uma pessoa matando outra, não posso ajudá-la. Não sou culpado por não matar alguém. Nenhum de nós é Deus, ninguém pode ser responsável por tudo.

(...)

«O apelo à ética é , hoje em dia, mais sonoro do que nunca. Mas não falta quem diga que a ética está presa ao passado ...

Penso inclusivamente que este apelo constante à ética é até perigoso. Na realidade está-se apelar é para os especialistas em ética. São eles que dizem até onde se pode ir. Parece-me que se produziu uma certa perversão do que entendemos por ética.

O ethos faz parte do homem, sustenta os seres humanos e as suas comunidades. O ethos não se pode construir. Parecem-me sem sentido as fórmulas como, por exemplo, a usada por H. Kung "projecto de ética mundial" (Projekt Weltethos).

O ethos não pode ser um projecto, porque para elaborar qualquer projecto já é preciso ter um ethos. O problema hoje é que o ethos tradicional compoem-se de normas que não parecem adequar-se às actuais novas situações. Nestes casos, precisamos de regressar àquelas intuições fundamentais que servem de base à nossa actuação.
Nem sempre é necessário um novo ethos, mas sim novas normas de aplicação daquilo que sempre nos serviu para discernir entre o que era bom e o que era mau.

Não precisamos de médicos e peritos em moral; o que precisamos é de médicos com moralidade»

(...)
«Que recomendações gostaria de dar aos que fazem leis?

Há regras muito simples. O legislador precisa de se colar ao princípio fundamental de que não se deve matar a uns seres humanos para que outros vivam melhor.

O argumento de que isto já se faz há muito tempo em muitos lugares do mundo, está gasto. Pelo facto de que se faça mal , não se pode concluir que nós também o devamos fazer.

A dignidade humana não torna o mal impossível, torna-o injusto.» (...)

21 setembro 2009

Como o Estado trata as famílias com filhos a estudar ...

«Os custos de um filho no ensino superior público ainda não são suportáveis para muitas famílias portuguesas», no Diário de Notícias:

«As famílias portuguesas, mesmo as de classe média, têm dificuldades em suportar os custos de um filho no ensino superior. Algumas, nem com apoios do Estado conseguem fazer face às despesas. A distância das universidades do meio familiar é um dos factores que contribui para a situação. E, por vezes, só a ajuda de um filho pode fazer com que outro possa terminar uma licenciatura.


É o que se passa na família Ivo Gomes. "Com três filhos e um rendimento familiar que não ultrapassa os 1300 euros por mês não poderíamos suportar as despesas da Patrícia na universidade e mais as da Andreia, que está a acabar uma disciplina do 12.º ano e a frequentar um curso profissional para poder começar a trabalhar. Só com a ajuda do meu filho mais velho temos conseguido. Este ano foi ele quem pagou os 1002 euros de propinas da Patrícia", confessa» (...)

«Sai de manhã de casa para a faculdade e regressa à noite. Paga pelo passe mensal 50 euros e leva dez euros diariamente no bolso para almoçar e lanchar. Mesmo assim faz uma hora de transportes públicos e mais meia de caminhada em cada viagem de ida e volta.


Por isso, quase não compra livros. "Em cada semestre fotocopio os que necessito", conta a jovem. Como sabe que todos estão a dar uma ajuda para que termine a licenciatura não quer depois disso sobrecarregar mais a família. E, além da faculdade, este ano está a frequentar um curso técnico numa escola profissional,» (...)

Vêm aí as comemorações da República: boa oportunidade para voltar a falar em liberdade de escolha no ensino.


18 setembro 2009

o multiculturalismo

Helena Matos, no Publico, 17 de Setembro:

«O Bloco de Esquerda declara que a sua sede, no Porto, tem sido atacada por neonazis.

Começo por não conseguir perceber como chegou o BE a esta conclusão pois os ataques, ainda segundo o BE, "são perpetrados por pessoas que passam de carro e atiram pedras".

Mesmo dando de barato que com um simples olhar para viaturas em movimento o BE consegue avaliar a ideologia dos respectivos ocupantes, resta-me ainda um outro mistério. Mais propriamente o da linguagem. Em primeiro lugar, caso os agredidos fossem simples cidadãos ou um partido que não o BE estes factos teriam sido descritos com aquela linguagem politicamente correcta que é tão do agrado do BE.

Assim os ataques começariam por ser alegados. Os atacantes não seriam neonazis nem o quer que fosse. Quando muito dir-se-ia que as vítimas, provavelmente sem grande fundamento, suspeitavam de determinados grupos, sendo certo que logo se faria um enquadramento socio-económico sobre o desemprego, falta de expectativas e outros problemas que explicassem que umas criaturas se entretivessem a atirar pedras para as janelas dos outros. Para finalizar, as vítimas dos alegados ataques seriam descritas como estando imbuídas duma certa paranóia securitária que as levava a pedir mais policiamento e não acções de integração para os jovens e demais excluídos.

Creio que esta semana algo mudou no BE.

E não, não me estou a referir à possibilidade de Louçã vir a integrar um futuro governo de Sócrates. O que mudou mesmo é que o BE doravante e para o futuro terá de explicar como é que atirar pedras aos outros é crime em Portugal e acto de resistência na Palestina.

Por fim, mas não menos importante, o BE não só chamou a PSP como passou a considerar que faz falta polícia na rua. Ou mais precisamente faz falta na rua da sua sede do Porto.

Tenhamos paciência: há grandes mudanças que começaram mais discretas. Espero apenas que os alegados atacantes autores dos alegados ataques não tenham lido o programa do BE, nomeadamente as poucas linhas que na sua página 99 são dedicadas à segurança e onde são sugeridas como medidas de combate ao crime "a intervenção activa das populações, através de conselhos municipais e de freguesia em que estejam representadas todas as comunidades e em particular os mais jovens"; e a "intermediação cultural".

Por que não dá o BE o exemplo e começa já com a "intermediação cultural", convidando os alegados atiradores de pedras que certamente ainda são jovens para falarem na Assembleia Municipal do Porto? Quem sabe não sofrem dum trauma que os remeteu para as margens da sociedade por não terem tido fisgas quando eram pequeninos?!»

15 setembro 2009

Política engripada


Entrevista com o Prof. J. R. Laporte, Catedrático de Farmacologia na Universidade Autónoma de Barcelona, Chefe de Serviço de Farmacologia do Hospital Vall' Hebron em Barcelona. Dirige o Instituto Catalão de Farmacologia, que é um dos centros colaboradores da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Publicada no elperiodico.com em 13 de Setembro. Mesmo a propósito.

(...)

– A Conselheira da Saúde [ministra da província de Barcelona] disse que é provável que não tenhamos vacina para o Inverno.

– Não vamos mesmo ter vacina. De momento não há vacina. Arranjaram um nó cego impressionante.

E se houvesse vacina, o Senhor ir-se-ia vacinar?

– Não. Em princípio não tenho intenção de me vacinar, embora ao pessoal de saúde se recomende a vacina. Se me chegarem dados convincentes de ensaios clínicos que indiquem que a vacina é realmente protectora, então pensarei no assunto.
Também o faria no caso, muito improvável, de que a epidemia fosse gravíssima. Mas os dados que nos chegam da Austrália, onde ainda é Inverno, indicam o contrário.

A vacina que está a ser preparada não lhe inspira confiança?

– Não tenho provas de que não se esteja a trabalhar bem. Normalmente as vacinas contra a gripe elaboram-se com uma certa rapidez porque existe uma base prévia comum às vacinas anteriores. Mas esta vacina nova é um pouco diferente, por causa da origem porcina do vírus A/H1N1. As bases de conhecimento de que dispomos são inferiores. Os ensaios que vão ser feitos medem as quantidades de anticorpos que a vacina gera nas pessoas, medem a resposta imunitária, mas não medem o grau de protecção que a comunidade vacinada terá perante o vírus. Isso só se saberá quando a vacina seja administrada a milhões de pessoas.

– Acha que foi precipitado o anúncio de que iria haver uma vacina?

– Tudo isto faz parte da maneira de funcionar dos políticos que necessitam de transmitir aos cidadãos a mensagem de que: "Está tudo sob controle. Estou a trabalhar no assunto. Não se preocupem. Estamos a fazer tudo o possível." Além disso, a Ministra da Saúde mostrou o seu desejo de protagonismo.

– É incorrecto transmitir calma?

–Não. Mas se lhes perguntarem como é que têm tudo sob controle, respondem que é porque pagaram 300 milhões de euros a este e àquele laboratório para que nos vendam vacinas da Gripe A, ou que compraram ainda mais antivírico Tamiflu, além do muito que já tínhamos. Isto é, fizeram uma série de coisas em que não existe forma de demonstrar que sirvam para alguma coisa.

– E o que é que deveriam ter feito?

– A mim parece-me muito mais sensato que se quiserem dizer alguma coisa tranquilizadora (porque acham que devem), o digam, mas que acrescentem que, sobretudo, o que se está a fazer é investigar. Perante uma doença provocada por um vírus desconhecido, não se pode dizer que está tudo sob controle.

–Disse que essa política de tranquilização passou pela aquisição de antivíricos?

–Os antivirais, em concreto o Tamiflu que foi o que foi comprado, não é uma arma médica, nem sanitária, nem farmacológica. Talvez se pudesse usar em pessoas com pneumonias muito graves, mas é um fármaco pouco eficaz. Talvez reduza a duração da infecção gripal de 4-5 dias para 2-3 dias. É muito delicado usá-la como arma preventiva em toda a população. Antes disso seria preciso avaliar tanto a sua eficácia, como os seus efeitos adversos.

– E que efeitos são?

– São potencialmente muito graves. Digestivos e neuropsiquiátricos. No Japão, onde foram administrados a uma grande quantidade de população, foram descritos suicídios muito violentos. Aqui fala-se em dá-lo a grávidas, quando nem sequer sabemos que efeitos têm no feto. Só se pensa em dar, e dar, quando o que é preciso é investigar.

– Acha que houve excesso de expectativas em relação ao perigo da gripe A?

– Houve exagero. Há muita gente interessada em exagerar os riscos da gripe A: todos os que vendem alguma coisa relacionada com ela, desde medicamentos antivirais, até vacinas ou máscaras. A face aparente disto tudo são os meios de comunicação social. Corre demasiada informação não seleccionada, e as pessoas estão intoxicadas.

E porque é que se exagerou?

–Porque estamos perante uma doença que afecta os países ricos. A OMS encontrou nesta gripe uma forma de recuperar o protagonismo perdido, embora ainda seja a entidade mundial com mais autoridade moral. Há 15 anos atrás, era a única instituição que actuava nas políticas sanitárias, mas agora apareceram outras que têm mais recursos. A gripe A é a sua panaceia.

O que julga que vai acontecer com a gripe A, neste Inverno?

– Terá uma repercussão menor que a gripe do Inverno passado, e haverá menos mortos. Tenho muito medo de que os serviços de saúde colapsem devido à política exagerada da Administração. Basta ver os documentos que a Saúde e a Educação elaboraram.

Refere-se ao plano de contingência escolar contra a gripe?

– Sim. Um dos itens diz: "Perante uma criança com sintomas de gripe, será isolada e avisa-se a sua família e as famílias dos seus colegas". Isto é, os professores vão passar o dia a telefonar para os pais, que deverão abandonar os seus trabalhos e ir à escola buscar os filhos. E mantê-los em casa! Ou isto não se aplica, ou o sistema vai colapsar e, através da escola, pára-se toda a sociedade. É um regulamento impossível de cumprir.»