Jornal de Negócios

29 novembro 2009

«A OMS foi incompetente em termos científicos»

No Público, de 24 de Novembro:

(...) «acho que esta doença não tem gravidade suficiente que justifique a vacina a vacinação maciça. Entendo que, como neste momento o impacto global da doença na população portuguesa, comparando com outras, não é tão importante como isso, então a despesa envolvida não se justifica. É só nesta altura que uso o argumento do dinheiro. Há quem calcule que o gasto [todos os custos com a doença] já ascende a 67 milhões de euros. Não é razoável.


Então os portugueses continuam a morrer tranquilamente de doenças cardiovasculares e estamos todos preocupados com a gripe?»


(...) «a OMS, na minha opinião, sai muito chamuscada desta situação. A posição da OMS é insustentável, errada.

O impacto desta doença é pequeno e os recursos são escassos. Então vou eleger como prioritário, como problema central da minha política, o problema da gripe?

Agora, quando todos os governos decidem comprar maciçamente vacinas é muito difícil que o Governo português não o faça também. A minha crítica é que isto vai provocar uma disrupção na comunidade, o que é inaceitável.»


(...) «As autoridades não foram capazes de desdramatizar a situação, entraram num comboio que não conseguiram parar e neste momento há problemas fascinantes como o da França - que encomendou 90 milhões de doses - e está a tentar desesperadamente colocar no mercado mundial 45 milhões de doses, porque só 50 por cento dos franceses se vão vacinar. Entraram por um caminho sem retorno.»

(Prof. António Vaz Carneiro, director do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa)

18 novembro 2009

a esquerda que parou em 68 ... (III)

... continuação da adaptação do artigo do Prof. Francisco Contreras, Catedrático de Filosofia do Direito, Universidade de Sevilha.


(...) A aceitabilidade de quaisquer relações sexuais é a pedra angular, o dogma intocável deste supostamente novo progressismo.

A par disto, a chamada "idade de consentimento" para relações sexuais, isto é o limite que a lei estabelece entre menores e adultos, tende a baixar progressivamente. Em Espanha, por exemplo, é de 13 anos, desde 1995, na Holanda, as propostas são para que desça até aos 11 anos.

(Não é por acaso que a Europa se enfrenta com um problema crescente de pornografia infantil.)

O "mundo feliz" pansexualista desta esquerda, é a sua nova utopia. "Uma utopia no sentido próprio do termo porque se baseia na ideia de que os seres humanos podem encontrar a felicidade na realização dos seus impulsos sexuais, sem limite de nenhum tipo (biológico, social, moral) e sem qualquer responsabilidade na procriação. (...) Uma utopia velha, dos anos 60, mas que continua intolerantemente protegida de qualquer crítica, embora não tenha cumprido nenhuma das suas promessas. (Rocella, E., Scaraffia, L.).


Actualmente, para esta esquerda "sessentaeoitista" todas as reivindicações políticas se relacionam com liberdade sexual. Isto vê-se bem no caso do aborto: não é casualidade que o movimento pro-aborto tenha crescido nos anos 70, na esteira dos movimentos de liberalismo sexual dos anos 60.

Uma sociedade em pleno liberalismo sexual precisa do aborto livre, como rede de segurança para as - inevitáveis - falhas da contracepção.«Atendendo à probabilidade de falência contraceptiva, um mundo sem aborto é um mundo em que as pessoas ou praticam uma auto-regulação sexual, ou arriscam verem as suas vidas dramaticamente alteradas pelas responsabilidades ligadas a uma "criança indesejada". Esta situação é inaceitável, do ponto de vista liberacionista.» (George, R.P., "Religious Values and Politics")

Leyre Pajín, secretaria do Partido Socialista Espanhol (PSOE) diz claramente, em entrevista a um diário, que "a lei do aborto permitirá desfrutar da sexualidade de uma forma segura" (http://www.libertaddigital.com/sociedad/pajin-sobre-la-nueva-ley-del-aborto-permitira-disfrutar-de-la-sexualidad-de-forma-segura-1276359557/)

(continua ...)

13 novembro 2009

Experiências em crianças - o simplex!


«A 'coisificação' da criança»

Maria José Nogueira Pinto, no DN 2009-11-12



No recente estudo de opinião efectuado pela Eurosondagem, 45,5% dos inquiridos concordam com o casamento homossexual, contra 49,5%, que se opõem. Contudo, à pergunta "E com a adopção por casais homossexuais?", o resultado do "não" (68,4%) mais que triplica o do "sim" (21,8%).

Um número significativo dos inquiridos - embora não maioritário - concorda que a união de duas pessoas do mesmo sexo possa ser integrada na categoria de um casamento civil, porque, julgam eles, o contrário significaria uma discriminação. Não têm tempo, paciência ou liberdade de espírito para pegar na questão e pô-la no seu lugar certo, nem que seja por um mero exercício intelectual: não há discriminação quando se trata diferentemente o que é diferente, nem o que é diferente passa a ser igual através da alteração de alguns artigos do Código Civil.


A única consequência será destituir de qualquer sentido o casamento civil, que, ao perder os seus pressupostos e objectivos, fica reduzido a um contrato subtraído à liberdade contratual das partes, por uma inexplicável ingerência do Estado.

Porque se duas pessoas do mesmo sexo se podem casar não há razão para proibir o casamento a termo certo (5, 10, 20 anos) ou o casamento poligâmico (um homem e três mulheres, uma mulher e dois homens). Fazia mais sentido a devolução deste contrato às partes, hetero ou homossexuais, permitindo que cada um estabelecesse livremente o modelo da sua união.


Quanto à segunda pergunta, isto é, se concorda ou não que casais homossexuais adoptem crianças, quase metade dos que antes diziam "sim" ao casamento dizem, agora, "não" à adopção.

É que enquanto o casamento só envolve os próprios, a adopção implica terceiros, crianças que não têm capacidade de exprimir a sua vontade e, por isso, precisam de quem as represente. Ora, sendo ao Estado que compete esta função, e sendo o Estado, ele próprio, o legislador, na prática as crianças ficam sem representante que defenda o seus superiores interesses. Aqui a situação complica-se e, à cautela, quem antes dizia sim passa a dizer não.


A ausência de debate permitiu que uns ocultem, e muitos desconheçam, um inexorável nexo de causalidade: o casamento dos homossexuais acarretará, automaticamente, o direito a adoptarem. Também aqui, basta um mero exercício intelectual.

De facto, assentando a iniciativa legislativa no princípio da igualdade, uma vez esta estabelecida por lei, não poderá manter-se uma capitis diminutio em nome da diferença. Porque é ela - a diferença - que cria dúvidas quanto à adopção, dúvidas que terão de ser engolidas após a aprovação da lei sob pena de se estar a consagrar casamentos de primeira e casamentos de segunda, ao arrepio de todo o discurso oficial e, julgo mesmo - agora sim -, da Constituição.


É esta a verdadeira questão. Não estamos perante um mero exercício intelectual, nem no âmbito restrito da contenda política. É mais grave, é mais sério. As crianças adoptáveis são crianças privadas, por diversos motivos, dos seus pais biológicos. Vêm de famílias tão ausentes que se tornaram inexistentes e são entregues à tutela do Estado, a quem compete providenciar um novo projecto de vida que passa pela realização do direito de cada criança a ter um pai e uma mãe adoptivos, na falta dos biológicos.

A tarefa é enorme e só quem nunca lidou com estas crianças, os seus percursos, as dúvidas e angústias na construção de um novo destino assente no respeito absoluto pelo melhor interesse de cada uma delas, pensa que uma promessa eleitoral transformada em lei pelo Parlamento, sem um maior escrutínio da sociedade, pode varrer todos os valores e princípios que enformam o sistema de protecção dos menores.


Esta lei pode ser a consagração da "coisificação" das crianças, a sua utilização como uma coisa, um adorno de uma mera simbologia. Uma irresponsabilidade atroz para a qual ninguém recebeu mandato.»

05 novembro 2009

ainda os "bónus" dos gestores


«Se os bancos estão a ter lucros, pois então que usem esse dinheiro, como reserva, para melhorarem a sua situação e poderem emprestar mais à economia»

Ditas por Jean Claude Trichet, actual Presidente do Banco Central Europeu. (no Jornal de Negócios)

04 novembro 2009

a esquerda que parou em 68 ... (II)


... continuação ... (do artigo de J. Contreras, Univ. de Sevilha)

... Esta pós-esquerda do século XXI orbita em torno do orgasmo, de W. Reich e também de Gramsci. António Gramsci, já nos anos 30, tinha teorizado sobre a necessidade da esquerda conquistar a hegemonia cultural ("a guerra de tomar posição"), antes de tentar o assalto ao Estado e às relações de produção ("a guerra das manobras").

Para facilitar a revolução político-económica, era preciso fazer primeiro a revolução dos costumes, das crenças e dos códigos morais. Esta missão corresponderia aos "intelectuais do aparelho" que deveriam trabalhar, de modo coordenado, para ganhar o imaginário social.

Era preciso substituir a visão tradicional do mundo, pela visão marxista. Para Gramsci, o rival natural destes "intelectuais do aparelho" é a Igreja. Esta esquerda precisa de centrar a sua guerra no combate às crenças religiosas. (cfr. De Mattei, A Ditadura do Relativismo)


Na verdade, na esquerda clássica, tanto W. Reich, como Gramsci, eram figuras de segunda linha. Reich conseguiu inclusive ser expulso, sucessivamente, da URSS (1929), do SPD Alemão (1930) e finalmente do PC Alemão, em 1934, acusado de "transformar o Partido num bordel".

Hoje seria surpreendente que alguém fosse expulso de um partido da esquerda por mau comportamento sexual, o que significa que esta esquerda , pós-68, é bastante diferente da de então.



Além disto, em Marcuse e Gramsci o ataque à moral "tradicional" é apenas um meio para atingir o fim supremo da revolução socialista. Mas nesta esquerda pós-moderna, que já não acredita na revolução socialista, a subversão da moral sexual e dos costumes ligados à família, converteu-se num fim. O único fim que esta esquerda céptica e acomodada consegue arvorar como bandeira.

A liberdade sexual (a própria libertinagem sexual) perderam já o seu potencial subversivo. A reivindicação de uma liberdade sexual ilimitada e promíscua, é o modo actual de ir ao sabor da corrente, de mostrar submissão ao poder dominante. Nas circunstâncias actuais, o comportamento promíscuo é a atitude integrada e convencional. (Josep Miró, O Fim do Estado de Bem-Estar)


Em 1968 ainda estavam presentes os "grandes relatos" do marxismo, pelo menos nas livrarias das Universidades, e nos tanques do Pacto de Varsóvia. Sempre era possível alguém deixar-se convencer de que o sexo era uma arma de subversão, ou que "fazendo amor, se faz a revolução".

Mas passaram os anos ... A década de 70 mostrou como o modelo de bem-estar do pós-guerra não era sustentável. O gigantismo do sector público, o custo das nacionalizações, do ensino e da saúde estatais mostraram as fragilidades dos modelos económicos socialistas e social-democratas. Esta esquerda fica sem referenciais económicos. Aparece um Frideman. Sucede-lhe Keynes. (Tortella, As Origens do Capitalismo)

Na década de 80 afundam-se os regimes do bloco soviético. É a vez da esquerda mais radical ficar sem modelo económico.

A partir de 90, este vazio fica apto a ser preenchido pelo "sessentaeoitismo".. Esta esquerda já não precisa de desculpas anti-capitalistas para defender a liberdade sexual sem limites. Esta liberdade irrestrita passa a ser, por si mesma, a meta, o valor supremo. (Haaland, Janne. Os direitos humanos desprezados e a ditadura do relativismo)

(continua ...)

Back to USA


«Os eleitores do estado do Maine, no nordeste dos Estados Unidos, rejeitaram uma lei do estado que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo, segundo resultados parciais de um referendo local realizado terça-feira»



(...) « Com 87 por cento dos votos contados, o 'não' vencia com 55 por cento, o que constitui um revés para o movimento dos direitos da comunidade homossexual na zona do país mais favorável ao casamento gay.

Desde que começou a ser submetido ao voto popular, o casamento entre pessoas do mesmo sexo perdeu até agora em todos os estados onde os eleitores se pronunciaram, num total de 31.»

Deve ser por isto que há quem tenha medo dos referendos.
(Noticia no Sol, 4 Nov)

02 novembro 2009

capitalismo socialista ...

A maioria dos países da zona euro rejeitou a possibilidade de cobrança de taxas no pagamento feito com cartões, mas o governo português transpôs essa directiva para a lei nacional, diz o Diário Económico.

Ou seja, a menos que haja alguma novidade posterior, a partir de agora convém andar bem recheado de notas, ou os custos vão sentir-se no fim do mês...

É interessante reparar como as vantagens do capitalismo só se tornam "boas" com governos socialistas ...

O outro lado do "avanço" do país ...

No Expresso (31 Out 2009), Ricardo Costa:

«Confesso o meu espanto com o silêncio a que a política e a banca se remeteram quando a operação 'Face Oculta' lhes caiu em cima. (...) o caso envolve pressões a ministros, empresas do Estado, gestores públicos, advogados espertos e o vice-presidente do maior banco privado português.

O enredo não tem offshores, milhões de euros a circular, almoços no Ritz ou gente com gravatas Hermès. Tem sucata, envelopes em dinheiro vivo, carros de sonho de patos-bravos e almoços em que o fato fica a cheirar a peixe pela tarde fora.

(...) Em Portugal ganha-se muito mais dinheiro em médios negócios feitos à sombra do Estado e longe dos holofotes do escrutínio público do que nos negócios de que todos falamos.

No TGV, nos contentores, nas pontes e auto-estradas há somas monstruosas envolvidas, mas também há (felizmente) muita gente a ver tudo o que corre mal. Noutras áreas, como o Ambiente, circula imenso dinheiro e favores sem qualquer escrutínio ou atenção.

Só isso é que explica o à-vontade com que Manuel Godinho terá montado uma "rede tentacular integrada" para ser favorecido em concursos públicos. Tudo se passava num sector de que ninguém fala. Godinho estava tão à vontade como os beneficiários. Quem é que liga à sucata?

(...) A rede de sucata de Godinho está a mostrar outra face do nosso país. Longe das grandes concessões trocam-se favores, manobram-se ministros e gestores. Tudo isto com pouco dinheiro e nenhum esforço.

Em poucos meses, o fio de um sucateiro levou a uma meada que põe em causa a gestão de algumas das maiores empresas, lançou mais uma bomba no BCP e remeteu o PS a um silêncio catatónico. Só se pede que a Justiça seja rápida. O país não aguenta outra 'operação Furacão'.»

O problema é que o país "aguenta" tudo, inclusive premiar eleitoralmente quem aldraba ...