Jornal de Negócios

18 outubro 2010

antes era o capitalismo, agora é o "sistema"


(...) « não são muitos, são até muito poucos, mas tem um megafone cujo som se ouve mais do que devia pelo seu mérito. Essa megafone são os blogues e as caixas de comentários, que jornalistas e alguns políticos mais novos, tomam por “opinião pública”.

Não é, mas para quem desde a sua pre-adolescência vive de SMS, tweets, Facebook e blogues é difícl convencê-los de que há mundo lá fora. É certo que esse mundo é mais complicado, menos satisfatório do ego, mais hostil à nossa própria importância, demora mais tempo e implica mais conhecimento e estudo. Aqui não é preciso nada disso, um igualitarismo imbecil torna tudo igual e todos são grandes poetas e grandes analistas políticos, que só uma imensa conspiração do “sistema” impede o reconhecimento.

Até nisso é muito um mundo adolescente e, pior ainda, um mundo adolescente serôdio, em que muita gente que já tem idade para ter juízo fica eternamente na casa dos pais, ou seja na internet. Como no esquerdismo, o verbo basta e a encantação dos slogans substitui-se à realidade.

No passado, era tudo feito em folhas mal amanhadas, mas os esquerdistas também achavam que mudavam o mundo com elas e, se não mudavam, é porque uma sinistra conspiração dos “aparelhos de reprodução do poder de estado”, mantinha as massas alienadas. Hoje é o “sistema”, antes era a alienação.»

(...) «Neste contexto, o radicalismo manifesta-se com vigor na actual questão magna da política portuguesa – permite-se ou não a passagem do OE socialista. Também aqui o quadro da discussão que grassa em certos blogues e nas caixas de comentários é puramente esquerdista.

Antes era o capitalismo o inimigo, agora é o “sistema”, sendo que o “sistema” não é mais do que a democracia e o próprio capitalismo. Nada de novo. Contra o “sistema” só vale uma revolução pura e voluntariosa, que comece tudo a zero, certamente sobre os escombros do “mundo antigo”.

Onde é que eu já vi isto? Coloca-se o país em pantanas, mas não há problemas porque das chamas do incêndio da revolução nasce o “mundo novo”, ou uma qualquer variante da Fénix Renascida.» (...)
(JPP, no Abrupto)

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