Jornal de Negócios

30 março 2012

"Não é o Estado que está mais fraco, é o cidadão que está mais débil."

 JPP, no Abrupto

(...) «o que se está  a passar é mais uma redistribuição do poder, do que uma libertação da sociedade,

O Estado está mais pobre, deixou de ter dinheiro para muito que fazia? Verdade, mas isso não significa que esteja mais fraco, significa apenas que tem menos dinheiro.
Está o Estado-providência a encolher, com uma progressiva retirada do Estado de muitas funções sociais? Verdade, mas a substituição de um Estado-Providência por um estado assistencialista não diminui o seu papel "providencial", apenas muda a concepção do seu lugar e função, substituindo-se um mundo regulado de direitos colectivos (e de expectativas) por um mundo mais pontual de protecção individualizada aos pobres.
Está o Estado a recuar de algumas das suas prerrogativas de decisão em matéria de economia, de sociedade, de vida das pessoas? Não está. Bem pelo contrário. Continua a ser impossível fazer um grande negócio em Portugal, sem o beneplácito do Governo, e, a um nível mais localizado, sem o apoio da autarquia, processos como as privatizações continuam a ser feitos de forma discricionária, ao mesmo tempo que a regulação não existe ou está subordinada aos interesses dos sectores regulados.
Mudou-se significativamente a subsidiodependência, em áreas como a cultura? Não, apenas não há dinheiro para manter os subsídios e mesmo assim não todos. Como acontece em muitas áreas, a falta de dinheiro impede a manutenção dos velhos hábitos de "encosto" ao Estado, principalmente para os pequeno e médio-subsidiados, mas o princípio não foi alterado. Quando tornar a haver dinheiro, ele correrá pelas mesmas valas para os mesmos campos.» (...)

«O Estado acabou com abusos de vencimentos e desigualdades escandalosas nos salários e prebendas que paga? Não, passou a haver "excepções" para regras cada vez menos gerais e isso ainda reforça mais o poder de quem decide.

Os exemplos são muitos e a continuidade com o Governo anterior uma regra, embora a crise acentue a fragilização do cidadão face ao Estado e essa seja uma diferença importante.

Não é o Estado que está mais fraco, é o cidadão que está mais débil. O navio-almirante continua a ser as Finanças, cujo poder vai muito para além da lei (para os remediados e pobres)» (...)

21 março 2012

O país encolhido

J Pacheco Pereira, sobre o atual governo: 
 
(...) «A deslocação à direita foi tão violenta, sem rigor nem memória, que hoje um moderado do PSD que tente reformular no actual contexto algumas preocupações que fazem parte do gene do PSD parece um adversário do capitalismo e da liberdade económicos.» (...)

20 março 2012

Teste de realidade

Raquel Abecasis, na RR em linha:

«É hora de alterar contratos, privilégios e subsídios que sorvem diariamente os recursos do país para servir um pequeno grupo que gravita em torno do poder político.

A hora da verdade está a chegar para o Governo de Passos Coelho. Até aqui, goste-se ou não, o roteiro da “troika” tem sido cumprido à risca, com consequências evidentes para a maioria dos portugueses, que tiveram que mudar de hábitos e de vida. 

Agora, é a hora de mudar o essencial, ou seja, de alterar contratos, privilégios e subsídios, que sorvem diariamente os recursos do país para servir um pequeno grupo que gravita em torno do poder político. 
Se não mexer nisto, o Governo não reforma nada no país nem altera a substância do que é a despesa do Estado. Logo, a crise e a austeridade que agora sofremos não têm verdadeiramente nenhuma utilidade, porque, no fim, tudo volta a ficar na mesma. 

Para já, os sinais que chegam do Governo não são os melhores: os processos de privatização em curso não são completamente transparentes e os casos recentes da Lusoponte e da substituição do secretário de Estado da Energia levantam as maiores dúvidas sobre a real determinação do Governo em tocar nos interesses instalados. 

Sinais à parte, a verdade é que os prazos estabelecidos no memorando da “troika” são claros e estão quase a ser atingidos e, se o Governo persistir em dizer que faz sem, na verdade, nada fazer, rapidamente se acaba o teatrinho do bom aluno e, por ter medo de enfrentar o poder de alguns, o Governo arrisca-se a hipotecar o futuro de todo um país.»

09 março 2012

Mais do mesmo ...

Na revista Visão, em 8 de Março:

«Respostas vagas, incompletas ou mesmo recusa de informação foi o que conseguimos da maioria dos ministérios. Tal como a Associação Sindical dos Juízes, que levou o caso a tribunal.

As instâncias judiciais deram-lhe razão, mas a atitude mantém-se: no que toca a despesas dos gabinetes, a palavra de ordem parece ser «quanto mais opaco, melhor».

Do gabinete do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, responderam prontamente que dispunham de um fundo de maneio de 30 mil euros mensais, com o qual se pagam coisas tão diversas como o papel ou as deslocações.

Dos 13 gabinetes contactados, dois - Saúde e Economia - não deram sequer resposta. Os restantes remeteram para legislação ou prestaram informação incompleta.»

08 março 2012

Constanza Miriano explica porque é que gosta dos homens

Constanza Miriano explica porque é que gosta dos homens:

«Gosto dos rapazes porque batem-se selvaticamente à espadeirada disputando o título de Supremo Soberando do Corredor, e cinco segundos depois de se terem matado dividem varonilmente uma garrafa de coca cola, para depois recomeçarem a brincar como se nada fosse.

Gosto deles porque nunca fazem um psicodrama, como as da sua idade, não descem aos abismos angustiantes do desespero só porque alguém "disse que eu sou máááá".

Gosto deles porque o máximo de vingança de que são capazes é um pontapé, e nunca se dedicam a fazer comentários perversos a meia voz sobre a cor da camisola da sua inimiga nas suas costas.

Gosto deles porque são o modelo utilitário, o Fiat 127 do género humano: sem opcionais, mas sólidos e imprescindíveis.

Gostos dos homens quando armam mesas, remendam as paredes com betume, encontram caminhos e desencantam soluções. Quando não querem parar para perguntar onde fica a rua e, apesar de darem seis voltas à praça, acabam por encontrá-la, mantendo uma atitude condigna.

Gosto deles mesmo se fazem perguntas e, quando ela começa a responder, saem da sala.

Gosto deles quando, interrogados com um "lembras-te do que te disse ontem sobre a Ana Luísa?", com o olhar perdido no vazio rebuscam afanosamente a memória e fingem lembrar-se perfeitamente e respondem com monossílabos que não os atraiçoem, que não denunciem 
que, do segredo sobre a amiga, esqueceram tudo no preciso momento em que você lho confiou solenemente.

Gosto do homem mesmo quando tem o olhar abstraído, se fecha no silêncio, e no breve tempo que você se convence, numa escalada de pessimismo, que acabará por lhe dizer que a vossa relação chegou ao fim, eles, na realidade, elaboraram complexos pensamentos do género: 
sou bem capaz de mandar vir uma pizza; este sofá é incómodo; esperemos que demitam o treinador.

Gosto dos homens porque sem as mulheres são totalmente inábeis para a vida social, andam no mundo perdidos e desadaptados. Gosto deles porque nos fazem sentir indispensáveis.

Gosto da forma como escrevem, como falam, como cantam. Gosto deles porque realmente têm gosto pela música, pela arquitectura, pela arte.

Gosto dos homens porque sabem manter uma visão do todo, e analisar lucidamente a economia global, mas não conseguem conceber um plano estratégico que consiga conciliar pediatra, aula de dança e lanche.

Gosto deles mesmo quando, conscientes do amor da sua predilecta – que gasta horas a tentar manter um aceitável nível estético, fazer manicure, perfurmar-se e depilar-se -, vagueiam pela casa em roupas desalinhadas.

Gosto deles mesmo quando deitam as chaves de casa no caixote do lixo, confundem os dias da semana e os amigos dos filhos, trazem para casa, orgulhosos, sacos de compras cheios de objectos inúteis.

Gosto deles porque não se perdem em minúcias, sabem manter a bússola direita, e permanecer lúcidos e razoáveis e confiáveis, quando nós nos precipitamos nos redemoinhos misteriosos que trazemos dentro.

Gosto deles porque fazem o trabalho pesado por nós, e quando complicamos demasiado as coisas, sabem parecer, no momento certo, o lacónico e sábio grande chefe Boi Sentado.

Gosto dos homens porque eles são a nossa prenda do dia 8 de março.»

07 março 2012

Fácil e difícil

(...) «"Fácil, fácil é aumentar impostos e cortar salários. Difícil, difícil é enfrentar os grupos económicos, os grandes poderes, que tem de ser enfrentados nas PPP (parcerias público-privadas) e na energia", afirmou ontem à SIC Notícias Manuela Ferreira Leite, ex-ministra das Finanças e ex-líder do PSD.» (...)

06 março 2012

Génios ...

«A cada dia, nos vários cantos da Terra, milhares de economistas distribuem palpites sobre a bancarrota de alguns países europeus, entre os quais Portugal. Os portugueses, ou pelo menos os portugueses que militam no PS e no Bloco, só prestam atenção aos palpites de um economista: o americano Paul Krugman. Porquê? Mistério.

É verdade que o sr. Krugman foi Nobel da Economia, mas nem o prémio é prova inquestionável de sensatez nem deixa de distinguir sujeitos com concepções bastante díspares. 

É verdade que o sr. Krugman se define como um discípulo de Keynes, mas, por incrível que pareça, "keynesianos" há às resmas, e a tese de que a economia depende de "investimentos" estatais para avançar já conheceu melhores dias, quase todos antes de os "investimentos" espatifarem diversas economias.

É verdade que inúmeros especialistas consideram o sr. Krugman um génio, mas qualquer leigo percebe que a sua genialidade não dispensa uma dose considerável de banalidades e contradições. 

É verdade que o sr. Krugman é um convicto defensor do Estado dito "social", mas essa crença mostra-se de escassa utilidade numa crise que, em larga medida, é a crise do próprio Estado dito "social". 

É verdade que o sr. Krugman tem sido um simpatizante crítico da administração Obama, mas por azar tende na maioria das vezes a simpatizar com os erros da administração e a criticar os raros acertos. 

É verdade que o sr. Krugman chegou a trabalhar no Banco de Portugal, mas um estágio de três meses em 1976 não habilita ninguém a conduzir a nação através de uma coluna no New York Times. 

É verdade que o eng. Sócrates chegou a citar favoravelmente o sr. Krugman, mas a realidade devia levar a que fugíssemos apavorados das referências do ex-primeiro-ministro, não a que as homenageássemos com três doutoramentos de três universidades públicas lisboetas conforme aconteceu esta semana. 

Em carne, osso e aura, o sr. Krugman veio a Lisboa recolher a vassalagem.

 Após recomendar que os salários dos indígenas caíssem 30% face à Alemanha (o que é curioso para um icónico adversário da austeridade), almoçar com Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar (o que é bizarro para um líder, mesmo que remoto, da oposição) e elogiar as políticas do Governo (o que é inaudito para quem, grosso modo, sempre prescreveu políticas opostas), o sr. Krugman admitiu que Portugal é um país "difícil de explicar". Se ele não consegue, imagine-se nós.»

05 março 2012

Para pensar

(...) «Os cortes atuais em educação ou saúde não são obra de um maléfico génio neoliberal que quer destruir as bases do Estado Social. São a consequência de não ter existido vontade de enfrentar realidades incómodas. Mas nesta conjuntura, já não pode haver desculpas para não nos interrogarmos sobre como gastar melhor, em vez de gastar mais.» 

(Em aceprensa.pt, "Os cortes como cura de emagrecimento")