Jornal de Negócios

14 maio 2012

Mudar de vida (outra vez)

J César das Neves, no Diário de Notícias

(...) « boa parte da nossa economia é balofa, produzindo a preços exagerados coisas que ninguém quer.
Assim o que hoje se sofre não é apenas a travagem de consumo gerada pela austeridade financeira. 

Largas centenas de milhar de trabalhadores terão de mudar de vida, porque os seus empregos artificiais nunca vão voltar, mesmo que o crescimento retome. 

Milhares de empresas têm de fechar ou mudar de sector porque o negócio acabou. Importante percentagem da sociedade terá que encontrar actividades realmente úteis. Portugal sofre uma das crises mais dolorosas e exigentes: a forçada reestruturação de quase vinte anos de distorção produtiva.

O debate político passa ao lado. As vozes que se levantam a pedir programas de crescimento não compreendem a questão. Portugal não precisa de crescer, mas de corrigir a estrutura produtiva para permitir um desenvolvimento sustentável.» (...

11 maio 2012

"a valsa da mudança precisa de dois andamentos"

Leonel Moura, no Jornal de Negócios:
 
(...) «para além de sacrifícios a direita não tem mais nada a oferecer.

Como isto é evidente, nos próximos anos iremos assistir a uma alteração substancial no panorama político da Europa. Os promotores da austeridade irão cair uns atrás dos outros. Mas não basta. Falta claramente na Europa um pensamento alternativo e inovador. Para já, o tão citado "rassemblement" à esquerda vai-se fazendo em torno da anti-austeridade. A direita cai porque as pessoas são contra as suas políticas e não porque sejam a favor de alguma coisa em concreto. Por isso votam tão disperso.» (...)

«terá de se pensar na generalidade das pessoas e não nos interesses privados. Esta ideia, que se instalou como uma virose, de que só as empresas geram riqueza é falsa. Numa sociedade, a riqueza gera-se de muitas maneiras, desde os contributos individuais, através da iniciativa ou do trabalho, até ao conhecimento, ciência, cultura, inovação, criatividade, cooperação, solidariedade.» (...)

03 maio 2012

O moralismo iluminado


(...) «Quando ouço falar do "festim do crédito", quem é que é responsável pelo "festim"? 
Quem deu a festa para recolher lucros, ou participou nela para ter vida mais fácil? A resposta justa é: pelo menos os dois. 
A injustiça da resposta é que só um aparece como "culpado" do "festim", e só um lhe paga os custos. 
E se falarmos mesmo dos muitos milhares de milhões que constituem a dívida nacional, que hoje é apontada como um fardo moral para os pobres que "viveram acima das suas posses", com esse plural majestático do "nós", em "nós vivemos acima das nossas posses", eles não foram certamente para o bolso das pessoas comuns que hoje lhes pagam o custo. 
Não foram os pobres, nem os funcionários públicos, nem a classe média baixa que fez as PPP. 
O discurso do poder é todo feito para culpabilizar os de baixo, enquanto quase pede desculpa para moderar um pouco os de cima. A resposta dos de baixo é uma rasoira populista e igualitária, que também não promete nada de bom para o futuro.» (...)