Jornal de Negócios

19 junho 2012

Mudar de sistema

No i de economia:
«Muhammad Yunus, prémio Nobel da paz e mentor do microcrédito, deixou no Brasil, onde participa na conferência Rio+20, um alerta sobre o falhanço da luta contra a pobreza. «Tornámo-nos uma espécie de robôs de fazer dinheiro», acusa, numa altura em que ele próprio vê ameaçado o seu projeto mais emblemático, o Grameen Bank.

«A estrutura económica básica que temos hoje não contribui para acabar com a pobreza. Foi essa estrutura que criou a pobreza, e ela não pode solucioná-la.» (...)

«O sistema atual é fortemente baseado no dinheiro, tudo gira em torno de fazer dinheiro. Tornámo-nos uma espécie de robôs de fazer dinheiro. Esquecemos que somos seres humanos. O dinheiro é parte das nossas vidas, não é a nossa vida.» (...)

«Quando percebermos isso vamos ser capazes de resolver as coisas» (...)

"Quem quer matar o Serviço Nacional de Saúde?"


18 junho 2012

A Oeste nada de novo




JPP. no Abrupto
(...) «O que é que move isto tudo? A resposta é a mais estandardizada que há: o dinheiro. Nem sequer é o poder, porque os poderes em Portugal, fora das vantagens que deles podem vir, são fraquinhos. 


Nesta altura em que estou a escrever e na altura em que me estiverem a ler, coisas semelhantes estão a ser feitas por todo o lado. É como se fosse uma respiração tão habitual, que quem assim respira não dá por ela, nem se apercebe bem do que está a fazer. Só quando subitamente se dá um desastre, como seja tudo isto aparecer num computador ou telefone errado, então é que cai o Carmo e a Trindade. 



Mas cai por pouco tempo, porque será sol de pouca dura. Nem há forte condenação social, nem institucional, pelo que, passados os apertos destes dias, tudo voltará à normalidade. 




A qualidade dos mandantes e dos mandados, a nossa claustrofobia social, o amadorismo e facilitismo de uma sociedade sem exigência, as carreiras feitas de favores e obediência aos poderosos, a escassez de bens e empregos para muita fome e ambição, criam um sólido cimento que ninguém quebra.» (...)

08 junho 2012

O futuro da União Europeia

(...) «Habermas entende a UE como um importante passo no caminho para uma comunidade cosmopolita democrática em que, paulatinamente, os interesses particulares dão lugar a outros mais universalistas. 
 
Uma comunidade política mundial é hoje uma possibilidade mais real que nunca, graças à globalização e ao maior fluxo comunicativo que corroeu o protagonismo do Estado-nação.

Mas existem impedimentos a este desenvolvimento pós-nacional. 
 
Por um lado, o mercado opõe-se obstinadamente e por princípio às possíveis reivindicações políticas de uma sociedade civil que quer domesticar a economia; por outro, a lógica do poder administrativo, burocratizado e anquilosado, está cada vez mais separada da dinâmica de uma rede cívica formada por cidadãos responsáveis.» (...) Resenha em  Aceprensa.pt

07 junho 2012

Como adaptar-se às novas formas de trabalho e emprego

A Mudança, ensaio de Lynda Gratton
A Mudança: O futuro do trabalho já chegou é um ensaio, escrito por Lynda Gratton, que coordenou a colaboração de cerca de duzentos participantes de todo o mundo, de 21 empresas. 

O livro descreve muitos casos práticos que refletem as variadísismas formas (de sucesso) no trabalho atual.
 Rigoroso e acessível mesmo ao leitor pouco habituado ao tema.

05 junho 2012

Teresa Salgueiro, um álbum diferente

«A consciência do mistério, do sobrenatural, é o ponto de partida para ter a coragem de viver»É desta forma que Teresa Salgueiro, outrora voz dos Madredeus, explica o sentido e o conteúdo do novo rumo que tomou, como solista e autora, com o novo álbum O Mistério; exatamente, "mistério". 

Um disco de rara beleza que alterna procura, herança clássica e expressão popular para cantar o homem, os valores, a esperança e, sobretudo, a fé, sem retórica mas mantendo os olhos abertos. Ao ponto de misturar a exaltação dos ideais com a denúncia da guerra e da cultura da morte.

O que a lançou na aventura de ser solista?

Na verdade, o modo de sentir a música não mudou. Mesmo agora estou dentro de um grupo [Carisa Marcelino acordeão, Óscar Torres contrabaixo, André Filipe Santos guitarra e Rui Lobato percussão] porque é no confrontar-se que se cresce. Continuo a procurar um sentido para mim mesma, trabalhando com os outros e assim aumentar a possibilidade de me exprimir.

Mas desta vez exprime-se com textos escritos por si.

Sim, é um desafio e uma oportunidade. Todos os textos nasceram sobre melodias vocais das canções já escritas: a dificuldade estava em conseguir entender-me a mim mesma, ao ponto de transformar em palavras com sentido os pensamentos e os valores que tenho dentro de mim. E consegui-lo é uma grande alegria.

Para o conseguir gravou o cd num convento?

Também. Na hospedaria do convento da Arrábida, do século XVI, estivemos isolados do rumor do mundo. E poder pensar, dedicarmo-nos uns aos outros e todos juntos à música, foi decisivo.

O «mistério» é dominado pela espiritualidade. Considera que é, hoje, uma exigência viva?

Seguramente que o é para mim. Só compreendendo que existe sempre o mistério na nossa vida, e que não podemos saber nem compreender tudo, é que podemos mudar as coisas. Porque é esta consciência que nos ajuda a ser humanos: frágeis, sim, mas também fortes. Verdadeiramente capazes, cada um a seu modo. Para mim é a arte, de aprender a viver.

Não escreveu versos abstratos, mas partiu sempre das dores do mundo contemporâneo…

Absolutamente. Porque só olhando o mundo com realismo é que nasce uma verdadeira esperança de o modificar. E para mim a esperança é o centro. Nunca fugir.

Por isso canta até mesmo a morte, e sem receios ou anseios, sublinhando «Só o amor ficará»?

Sim, porque é uma condição do nosso viver e, aceitando-a, damos mais valor à própria vida. A música "A Partida" nasce refletindo sobre a obsessão do ter mais, em vez ser. Acho que devemos recuperar o essencial. No final, apenas o amor dado e recebido será a medida das nossas vidas.

Não tem pudor em declarar a fé, em revelar, nos versos de uma canção, que ela é a sua «arma»?

Pelo contrário. É importante falar dela. É precisamente a fé que nos faz entender até as dores, dando-nos força para acreditar num futuro que não seja apenas o medo de novos erros, novas guerras.

Guerras a que dedica «A Batalha», denunciando a cultura da morte…

Era necessário. O livre arbítrio é um valor saudável: digamos não à morte, ao homicídio.

Em que medida ser mãe influencia o caminho que decidiu percorrer fora dos Madredeus, indo à realidade com os seus valores?

Muito, e transformou-me logo desde o início. Mas agora que a minha filha tem 13 anos, ser mãe continua a ensinar-me modos de olhar o mundo diferentes, tornando-me sempre mais atenta e consciente da responsabilidade daquilo que faço.

Andrea Pedrinelli, no Avvenire, de 30 de Maio de 2012.

01 junho 2012

Que corra mal, e acabe bem

Miguel Esteves Cardoso, no Público de 14 de Maio: 

«São dias de levanta e cai. Distraímo-nos, pensamos e caímos; afundamo-nos e esticamos as cabeças para apanhar ar e outra ideia da vida que não a pior.

Ser optimista é pensar que vai tudo correr bem. As coisas nunca correm bem - podem acabar bem, temporariamente, ou serem bem interrompidas, durante muito tempo. Mas o correr das coisas está cheio de quedas e levantamentos, de intervalos de espera e de desilusão, de esperança e desespero.

Há três atitudes para com o futuro, para as culturas que erradamente perdem tempo a considerá-lo. A mais irritante e improvável é a portuguesa: vai tudo correr bem.

Mesmo quando se vive até aos 120 nunca tudo corre bem. E acaba sempre mal. Na morte. Mesmo imaginando que tudo corre bem para uma criança de 12 anos que, por milagre, não sofre de nenhuma das doenças ou tormentos infantis e, sem dar por isso, morre de prazer com uma overdose de morfina.

A segunda mais irritante, mas menos improvável, é a hippie-americana: "Acaba tudo bem. Se ainda não está bem, é porque ainda não acabou." Aparece em muitos filmes. A versão clássica, não menos ilusória, é o all's well that ends well.

A menos irritante, mas mais deprimente, é a sufista: "Também isto há-de passar." Sim, passará. Mas a vida também passa. E não há nada que não passe nem se deixe de transformar. "Que corra tudo o menos mal possível e nunca acabe, mas continue, o mais bem possível" é o desejo que mais se deve dizer e desejar.»