Jornal de Negócios

26 setembro 2012

A liberdade de expressão justifica tudo?

«O cenário tem-se repetido periodicamente nos últimos anos.

Num país ocidental, alguém faz por conta própria um subproduto ofensivo -neste caso um vídeo sobre Maomé-; este subproduto chega ao YouTube e obtém uma difusão mundial suscitada pelos protestos que gera; nos países muçulmanos acontecem manifestações e grupos interessados agitam as massas populares a protestarem violentamente contra os países ocidentais atacando o que têm ao seu alcance, embaixadas ou empresas.


Protestos em Londres, frente à embaixada dos EUA
Os governos ocidentais condenam o subproduto e asseguram que nada tem a ver com eles, mas que tão-pouco podem proibí-lo para respeitar a liberdade de expressão; os países islâmicos pedem que seja retirado e se condene o ofensor, reclamando uma legislação internacional contra a blasfémia. No final, há mais alguns mortos e alguns amigos a menos.


Num mundo globalizado, no Ocidente custa a entender que outras culturas não vivem na era da irreverência. O conflito entre a liberdade de expressão e a liberdade religiosa, foi analisado por Rafael Palomino em El Derecho y la protección de los sentimientos religiosos.

Outras vezes, os protestos -não violentos- devem-se a produtos que invocam a liberdade artística para atacar as crenças cristãs: La libertad de creación artística y el respeto a las creencias.

O debate sobre os limites entre a liberdade de expressão e a incitação ao ódio a comunidades crentes discute-se em diversos países, como explica José María Sánchez--Galera em Cuando la libertad de expresión hiere susceptibilidades.» (...)

Um egípcio disse a Kirkpatrick: "Quando se ataca alguém, só se causa dano a uma única pessoa. Mas quando se insulta uma fé dessa maneira, insulta-se um país por inteiro". (...)

19 setembro 2012

O moralismo político

JPP, no Abrupto:

(...) «No meio disto tudo, Passos Coelho fornece outro produto, mais à sua dimensão de executante, mas que também transporta alguma desta raiva. É quando Passos Coelho diz que "não estamos a exigir de mais", como se fosse pouco o que se está a "exigir" e ainda não levaram em cima com a dose toda. 

É quando avança com mais uma comparação moral que mostra o imaginário onde estamos metidos; não podemos correr o risco de nos cruzar com os nossos credores "nos bons restaurantes e boas lojas". É mesmo isso que os portugueses andaram a fazer nos últimos anos, a comprar malas Vuitton e sapatos Jimmy Choo! 

Bla bla blaPassos dizia que as pessoas "simples" percebiam isto, porque de facto para ele as coisas são assim simples. Então como é que nos devemos "cruzar com os nossos credores"? De alpergatas, vestidos de chita, trabalhando dez horas por um salário de miséria? É que não é preciso andar muito tempo para trás para ter sido assim. Ainda há quem se lembre. Deve ser por isso que é preciso "ajustar".

(...)  Em alturas de mudança social profunda, neste caso associada à destruição da classe média e ao empobrecimento generalizado, quem não percebe isto, não percebe nada.» (...)

13 setembro 2012

"Ordenhar vacas magras como se fossem leiteiras"

(...) «Não é a derrapagem do défice que mata a união que faz deste um território, um país. É a cegueira das medidas para corrigi-lo. É a indignidade. O desdém. A insensibilidade. Será que não percebem que o pacote de austeridade agora anunciado mata algo mais que a economia, que as finanças, que os mercados - mata a força para levantar, estudar, trabalhar, pagar impostos, para constituir uma sociedade?»

(...) «Alternativas? Havia. Ter começado a reduzir as "gorduras" que o Governo anunciou ontem que vai começar a estudar para cortar em 2014 (!). Mesmo uma repetição do imposto extraordinário de IRS que levasse meio subsídio de Natal, tirando menos dinheiro aos trabalhadores e gerando mais receita ao Estado, seria mais aceitável. O aumento da TSU é uma provocação. É ordenhar vacas magras como se fossem leiteiras.»


(...) «Não foi a austeridade que nos falhou, foi a política que levou ao corte de salários transferidos para as empresas, foi a política fraca, foi a política cega, foi a política de Passos Coelho, Gaspar e Borges, foi a política que não é política.

Esta guerra não é para perder. Assim ela será perdida. Não há mais sangue para derramar. E onde havia soldados já só estão as espadas.»
(Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios)

06 setembro 2012

Verdades inconvenientes

(...) «À cultura da guerra civil só interessa transformar os adversários em demónios "fascistas", suspeitos, obrigados a autojustificarem-se no altar dos censores morais. (...) É a caricatura de um inimigo imaginário que estes órfãos da guerra civil perseguem. 

A democracia tem-nos providenciado uma aprendizagem das regras do debate democrático. Mas vivemos tempos perigosos. Se este sectarismo violento e falsificador vencesse na sociedade portuguesa, estaríamos a retroceder em muito do que construímos. Ficaríamos todos vulneráveis perante quem conseguisse fabricar uma "verdade ideológica" independentemente dos factos e da verdade» (...)

(Pedro Lomba, no Publico, de 4 de Setembro de 2012)