Jornal de Negócios

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12 outubro 2011

Ninguém vai chorar pelos gestores dos hedge funds

«O mundo despediu-se do co-fundador da Apple como o empresário mais admirado nesta época da sociedade da informação. (...) O chefe com quem muitos gostariam de trabalhar. Com empresários como ele, o capitalismo mostra a sua força de inovação, o mercado consagra os produtos de mais qualidade e a liberdade de empresa é utilizada para estabelecer uma sintonia com os clientes como poucos conseguiram antes da Apple.

Pelo contrário, os convocados pelo "Ocupa Wall Street" e os indignados de outros países protestam contra os desmandos do capitalismo financeiro que está na origem da crise económica. Abrigado numa desregulação crescente, o sector financeiro assumiu riscos de crédito cada vez maiores, com "inventos" que aumentaram grandemente o volume de transacções com que os bancos podiam fazer dinheiro. 
 
 
Não era o risco do empresário que aposta num produto inovador. Era o risco do especulador, de quem procura um lucro máximo a curto prazo sem se preocupar com o que pode vir depois.

Steve Jobs soube dar ao público produtos que respondiam com novas soluções a necessidades reais, instrumentos fiáveis, bem feitos. E conseguiu que esses produtos fossem simples de utilizar, uma tecnologia "de rosto humano" e design atraente.

O capitalismo financeiro também fez gala de uma grande inovação na mesma época em que a Apple se desenvolvia. Até demasiada. 
 
Mas os seus produtos não estiveram ao serviço das necessidades do cliente, mas da multiplicação dos lucros dos financeiros, frequentemente com activos tóxicos. Tal como os produtos da Apple se caracterizavam pela simplicidade de utilização, os das finanças eram cada vez mais opacos e complexos, para disfarçar muitas vezes o engano. 
 
Com instrumentos financeiros sofisticados que entendiam cada vez menos (swaps, obrigações de dívida colaterizadas, derivados,...) faziam-se circular quantidades de dinheiro superiores ao PIB da economia real. Por fim, a "alavancagem" foi a pique, revelando a magnitude da ficção financeira.

O que mais dói e o que atiça a indignação é que muitos dos que levaram ao desastre o sector financeiro saíram muito bem parados, com bónus chorudos e indemnizações generosas, que não poucas vezes se concederam a si próprios. 
 
Steve Jobs também era um multimilionário, mas tinha feito o seu dinheiro vendendo produtos de excelência, não hipotecas sub prime. Se na última década as acções da Apple subiram uns 3.500% no Nasdaq não foi por simples manobras financeiras, mas pela confiança dos investidores em produtos reais que o público esperava com avidez.»  (...) (Em Aceprensa)

06 julho 2011

uma questão de poder

Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios:

(...) «Os mercados são um pagode, e nós as escamas dos seus despojos.

Isto não é uma reacção emotiva. Nem um dichote à humilhação. São os factos. Os argumentos. A Moody's não tem razão. A Moody's não tem o direito. A Moody's está-se nas tintas. A Moody's pôs-nos a render. E a Europa rendeu-se.

As causas da descida do "rating" de Portugal não fazem sentido. Factualmente. Houve um erro de cálculo gigantesco de Sócrates e Passos Coelho quando atiraram o Governo ao chão sem cuidar de uma solução à irlandesa. Aqui escrevi nesse dia que esta era "a crise política mais estúpida de sempre". Foi. Levámos uma caterva de cortes de "rating" que nos puseram à beira do lixo. Mas depois tudo mudou. Mudou o Governo, veio uma maioria estável, um empréstimo de 78 mil milhões, um plano da troika, um Governo comprometido, um primeiro-ministro obcecado em cumprir. Custe o que custar. Doa o que doer. Nem uma semana nos deram: somos lixo.

As causas do corte do "rating" não fazem sentido: a dificuldade de reduzir o défice, a necessidade de mais dinheiro e a dificuldade de regressar aos mercados em 2013 estão a ser atacadas pelo Governo. Pelo País.

Este corte de "rating" não diagnostica, precipita essas condenações. Portugal até está fora dos mercados, merecia tempo para descolar da Grécia. Seis meses, um ano.

Só que não é uma questão de tempo, é uma questão de lucro, é uma guerra de poder.» (...)