Jornal de Negócios

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04 julho 2012

os incêndios do costume

(...) «Se um executivo de um banco é corrupto, é um mau executivo. Ponto final!
E portanto o conselho de administração deve despedi-lo.
Se não o faz,  é porque o conselho também é corrupto.

Então terão que ser os acionistas a despedir o conselho de administração.

Se não o fizerem, deve ser a sociedade a reclamar que o façam.» (...)

Pode acontecer que seja necessário despedir toda uma geração de líderes viciados em corrupção.

19 junho 2012

Mudar de sistema

No i de economia:
«Muhammad Yunus, prémio Nobel da paz e mentor do microcrédito, deixou no Brasil, onde participa na conferência Rio+20, um alerta sobre o falhanço da luta contra a pobreza. «Tornámo-nos uma espécie de robôs de fazer dinheiro», acusa, numa altura em que ele próprio vê ameaçado o seu projeto mais emblemático, o Grameen Bank.

«A estrutura económica básica que temos hoje não contribui para acabar com a pobreza. Foi essa estrutura que criou a pobreza, e ela não pode solucioná-la.» (...)

«O sistema atual é fortemente baseado no dinheiro, tudo gira em torno de fazer dinheiro. Tornámo-nos uma espécie de robôs de fazer dinheiro. Esquecemos que somos seres humanos. O dinheiro é parte das nossas vidas, não é a nossa vida.» (...)

«Quando percebermos isso vamos ser capazes de resolver as coisas» (...)

18 junho 2012

A Oeste nada de novo




JPP. no Abrupto
(...) «O que é que move isto tudo? A resposta é a mais estandardizada que há: o dinheiro. Nem sequer é o poder, porque os poderes em Portugal, fora das vantagens que deles podem vir, são fraquinhos. 


Nesta altura em que estou a escrever e na altura em que me estiverem a ler, coisas semelhantes estão a ser feitas por todo o lado. É como se fosse uma respiração tão habitual, que quem assim respira não dá por ela, nem se apercebe bem do que está a fazer. Só quando subitamente se dá um desastre, como seja tudo isto aparecer num computador ou telefone errado, então é que cai o Carmo e a Trindade. 



Mas cai por pouco tempo, porque será sol de pouca dura. Nem há forte condenação social, nem institucional, pelo que, passados os apertos destes dias, tudo voltará à normalidade. 




A qualidade dos mandantes e dos mandados, a nossa claustrofobia social, o amadorismo e facilitismo de uma sociedade sem exigência, as carreiras feitas de favores e obediência aos poderosos, a escassez de bens e empregos para muita fome e ambição, criam um sólido cimento que ninguém quebra.» (...)

08 junho 2012

O futuro da União Europeia

(...) «Habermas entende a UE como um importante passo no caminho para uma comunidade cosmopolita democrática em que, paulatinamente, os interesses particulares dão lugar a outros mais universalistas. 
 
Uma comunidade política mundial é hoje uma possibilidade mais real que nunca, graças à globalização e ao maior fluxo comunicativo que corroeu o protagonismo do Estado-nação.

Mas existem impedimentos a este desenvolvimento pós-nacional. 
 
Por um lado, o mercado opõe-se obstinadamente e por princípio às possíveis reivindicações políticas de uma sociedade civil que quer domesticar a economia; por outro, a lógica do poder administrativo, burocratizado e anquilosado, está cada vez mais separada da dinâmica de uma rede cívica formada por cidadãos responsáveis.» (...) Resenha em  Aceprensa.pt

14 maio 2012

Mudar de vida (outra vez)

J César das Neves, no Diário de Notícias

(...) « boa parte da nossa economia é balofa, produzindo a preços exagerados coisas que ninguém quer.
Assim o que hoje se sofre não é apenas a travagem de consumo gerada pela austeridade financeira. 

Largas centenas de milhar de trabalhadores terão de mudar de vida, porque os seus empregos artificiais nunca vão voltar, mesmo que o crescimento retome. 

Milhares de empresas têm de fechar ou mudar de sector porque o negócio acabou. Importante percentagem da sociedade terá que encontrar actividades realmente úteis. Portugal sofre uma das crises mais dolorosas e exigentes: a forçada reestruturação de quase vinte anos de distorção produtiva.

O debate político passa ao lado. As vozes que se levantam a pedir programas de crescimento não compreendem a questão. Portugal não precisa de crescer, mas de corrigir a estrutura produtiva para permitir um desenvolvimento sustentável.» (...

11 maio 2012

"a valsa da mudança precisa de dois andamentos"

Leonel Moura, no Jornal de Negócios:
 
(...) «para além de sacrifícios a direita não tem mais nada a oferecer.

Como isto é evidente, nos próximos anos iremos assistir a uma alteração substancial no panorama político da Europa. Os promotores da austeridade irão cair uns atrás dos outros. Mas não basta. Falta claramente na Europa um pensamento alternativo e inovador. Para já, o tão citado "rassemblement" à esquerda vai-se fazendo em torno da anti-austeridade. A direita cai porque as pessoas são contra as suas políticas e não porque sejam a favor de alguma coisa em concreto. Por isso votam tão disperso.» (...)

«terá de se pensar na generalidade das pessoas e não nos interesses privados. Esta ideia, que se instalou como uma virose, de que só as empresas geram riqueza é falsa. Numa sociedade, a riqueza gera-se de muitas maneiras, desde os contributos individuais, através da iniciativa ou do trabalho, até ao conhecimento, ciência, cultura, inovação, criatividade, cooperação, solidariedade.» (...)

03 maio 2012

O moralismo iluminado


(...) «Quando ouço falar do "festim do crédito", quem é que é responsável pelo "festim"? 
Quem deu a festa para recolher lucros, ou participou nela para ter vida mais fácil? A resposta justa é: pelo menos os dois. 
A injustiça da resposta é que só um aparece como "culpado" do "festim", e só um lhe paga os custos. 
E se falarmos mesmo dos muitos milhares de milhões que constituem a dívida nacional, que hoje é apontada como um fardo moral para os pobres que "viveram acima das suas posses", com esse plural majestático do "nós", em "nós vivemos acima das nossas posses", eles não foram certamente para o bolso das pessoas comuns que hoje lhes pagam o custo. 
Não foram os pobres, nem os funcionários públicos, nem a classe média baixa que fez as PPP. 
O discurso do poder é todo feito para culpabilizar os de baixo, enquanto quase pede desculpa para moderar um pouco os de cima. A resposta dos de baixo é uma rasoira populista e igualitária, que também não promete nada de bom para o futuro.» (...)

27 abril 2012

avisos à navegação

«Marine Le Pen surpreendeu nas eleições em França. Os 20% da candidata da Frente Nacional deixaram a generalidade da imprensa europeia em choque. Mas será que este choque higiénico nos serve alguma coisa para compreendê-la? Dizer que Marine Le Pen significa o regresso da "extrema-direita", da "ameaça fascista" ou da "xenofobia" na Europa pode funcionar como dramatização e apelo à memória. Mas passa ao lado das verdadeiras causas. Os trabalhadores votaram em Marine Le Pen. Porquê? (...)


Foi a França que criou as categorias políticas a que nos últimos 200 anos temos vindo a chamar esquerda e direita. Mais, foi em França que as múltiplas correntes da esquerda e da direita se encontraram num laboratório de ideias e experiências. 
 Por isso, quando ouvimos Marine Le Pen dizer "nós explodimos o monopólio dos dois partidos, dos bancos, das finanças e das multinacionais", só por falta de cultura política se pode pensar que este pensamento contra as finanças e contra as multinacionais é apanágio das esquerdas 
(...) no pensamento continental, a direita francesa foi sempre a que mais activamente recusou a economia como categoria fundante do político.

A recusa do "império da economia" permite-lhe mais facilmente conquistar o voto dos jovens precários, dos insatisfeitos e dos trabalhadores.
(...) o apelo ao patriotismo económico e a formas de proteccionismo hábil contra a concorrência desleal dos países com mão-de-obra barata e empresas deslocalizadas é exactamente aquilo que os trabalhadores querem ouvir. Entra num território importante para a esquerda. Nenhum político lhe pode ser indiferente.

Além disso, este foi o discurso de uma mulher divorciada, mãe de três filhos, que conhece o mundo do trabalho e nunca se desviou de uma linguagem simples e eficaz. 
O sucesso de Marine Le Pen representa a ascensão de uma direita radical de colarinho branco que, por todas as formas sofisticadas, tentará tirar partido da enorme ânsia de protecção e segurança dos cidadãos nacionais. 
Aquilo que estes dramaticamente pedem ao Estado é que os proteja. Da economia, da Ásia, dos outros. Ausente algumas décadas, o proteccionismo está de volta.» (Pedro Lomba, no Público, de 24 de Abril)

20 março 2012

Teste de realidade

Raquel Abecasis, na RR em linha:

«É hora de alterar contratos, privilégios e subsídios que sorvem diariamente os recursos do país para servir um pequeno grupo que gravita em torno do poder político.

A hora da verdade está a chegar para o Governo de Passos Coelho. Até aqui, goste-se ou não, o roteiro da “troika” tem sido cumprido à risca, com consequências evidentes para a maioria dos portugueses, que tiveram que mudar de hábitos e de vida. 

Agora, é a hora de mudar o essencial, ou seja, de alterar contratos, privilégios e subsídios, que sorvem diariamente os recursos do país para servir um pequeno grupo que gravita em torno do poder político. 
Se não mexer nisto, o Governo não reforma nada no país nem altera a substância do que é a despesa do Estado. Logo, a crise e a austeridade que agora sofremos não têm verdadeiramente nenhuma utilidade, porque, no fim, tudo volta a ficar na mesma. 

Para já, os sinais que chegam do Governo não são os melhores: os processos de privatização em curso não são completamente transparentes e os casos recentes da Lusoponte e da substituição do secretário de Estado da Energia levantam as maiores dúvidas sobre a real determinação do Governo em tocar nos interesses instalados. 

Sinais à parte, a verdade é que os prazos estabelecidos no memorando da “troika” são claros e estão quase a ser atingidos e, se o Governo persistir em dizer que faz sem, na verdade, nada fazer, rapidamente se acaba o teatrinho do bom aluno e, por ter medo de enfrentar o poder de alguns, o Governo arrisca-se a hipotecar o futuro de todo um país.»

09 março 2012

Mais do mesmo ...

Na revista Visão, em 8 de Março:

«Respostas vagas, incompletas ou mesmo recusa de informação foi o que conseguimos da maioria dos ministérios. Tal como a Associação Sindical dos Juízes, que levou o caso a tribunal.

As instâncias judiciais deram-lhe razão, mas a atitude mantém-se: no que toca a despesas dos gabinetes, a palavra de ordem parece ser «quanto mais opaco, melhor».

Do gabinete do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, responderam prontamente que dispunham de um fundo de maneio de 30 mil euros mensais, com o qual se pagam coisas tão diversas como o papel ou as deslocações.

Dos 13 gabinetes contactados, dois - Saúde e Economia - não deram sequer resposta. Os restantes remeteram para legislação ou prestaram informação incompleta.»

07 março 2012

Fácil e difícil

(...) «"Fácil, fácil é aumentar impostos e cortar salários. Difícil, difícil é enfrentar os grupos económicos, os grandes poderes, que tem de ser enfrentados nas PPP (parcerias público-privadas) e na energia", afirmou ontem à SIC Notícias Manuela Ferreira Leite, ex-ministra das Finanças e ex-líder do PSD.» (...)

06 março 2012

Génios ...

«A cada dia, nos vários cantos da Terra, milhares de economistas distribuem palpites sobre a bancarrota de alguns países europeus, entre os quais Portugal. Os portugueses, ou pelo menos os portugueses que militam no PS e no Bloco, só prestam atenção aos palpites de um economista: o americano Paul Krugman. Porquê? Mistério.

É verdade que o sr. Krugman foi Nobel da Economia, mas nem o prémio é prova inquestionável de sensatez nem deixa de distinguir sujeitos com concepções bastante díspares. 

É verdade que o sr. Krugman se define como um discípulo de Keynes, mas, por incrível que pareça, "keynesianos" há às resmas, e a tese de que a economia depende de "investimentos" estatais para avançar já conheceu melhores dias, quase todos antes de os "investimentos" espatifarem diversas economias.

É verdade que inúmeros especialistas consideram o sr. Krugman um génio, mas qualquer leigo percebe que a sua genialidade não dispensa uma dose considerável de banalidades e contradições. 

É verdade que o sr. Krugman é um convicto defensor do Estado dito "social", mas essa crença mostra-se de escassa utilidade numa crise que, em larga medida, é a crise do próprio Estado dito "social". 

É verdade que o sr. Krugman tem sido um simpatizante crítico da administração Obama, mas por azar tende na maioria das vezes a simpatizar com os erros da administração e a criticar os raros acertos. 

É verdade que o sr. Krugman chegou a trabalhar no Banco de Portugal, mas um estágio de três meses em 1976 não habilita ninguém a conduzir a nação através de uma coluna no New York Times. 

É verdade que o eng. Sócrates chegou a citar favoravelmente o sr. Krugman, mas a realidade devia levar a que fugíssemos apavorados das referências do ex-primeiro-ministro, não a que as homenageássemos com três doutoramentos de três universidades públicas lisboetas conforme aconteceu esta semana. 

Em carne, osso e aura, o sr. Krugman veio a Lisboa recolher a vassalagem.

 Após recomendar que os salários dos indígenas caíssem 30% face à Alemanha (o que é curioso para um icónico adversário da austeridade), almoçar com Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar (o que é bizarro para um líder, mesmo que remoto, da oposição) e elogiar as políticas do Governo (o que é inaudito para quem, grosso modo, sempre prescreveu políticas opostas), o sr. Krugman admitiu que Portugal é um país "difícil de explicar". Se ele não consegue, imagine-se nós.»

05 março 2012

Para pensar

(...) «Os cortes atuais em educação ou saúde não são obra de um maléfico génio neoliberal que quer destruir as bases do Estado Social. São a consequência de não ter existido vontade de enfrentar realidades incómodas. Mas nesta conjuntura, já não pode haver desculpas para não nos interrogarmos sobre como gastar melhor, em vez de gastar mais.» 

(Em aceprensa.pt, "Os cortes como cura de emagrecimento")

27 fevereiro 2012

Qiu Shi

"Devemos ter muito presente que forças hostis internacionais estão a intensificar o complot estratégico de ocidentalizar e dividir a China, e os âmbitos ideológicos e culturais são as áreas principais da sua infiltração a longo prazo." Palavras do atual presidente da China, Hu Jintao, numa revista oficial do Partido Comunista Chinês, chamada Qiu Shi.

E continua Hu Jintao: "Devemos entender em profundidade a seriedade e complexidade do combate ideológico, fazendo soar os alarmes e permanecendo vigilantes, e tomar poderosas medidas para estar de guarda e responder". (...)

Pois é ...

06 fevereiro 2012

Escolhas coletivas

«O acordo de concertação social assinado no dia 18 é um documento decisivo da nossa história recente. Isto só se entende considerando a essência desta crise.


Muitos tomam a recessão mundial como financeira, acusando dela bancos e agências de rating. Têm razão, mas esquecem que países com crescimento sólido, como Irlanda, Bélgica e Reino Unido, não são incomodados apesar de dívidas maiores que a nossa. O fundo do problema é pois económico e social.


O desenvolvimento que o mundo vive desde a revolução industrial tem tido várias fases. Esta é dominada por dois choques principais, a expansão da China e Índia e a revolução informática. Estes avanços criaram um dos momentos mais maravilhosos da humanidade, com enorme progresso e redução espantosa da pobreza mundial. Como não há almoços grátis, este desenvolvimento tem custos, alargando o fosso de rendimentos no Ocidente, de onde sai a recessão e a dívida.


Os mecanismos são evidentes Os trabalhadores chineses concorrem com o trabalho não especializado na Europa e EUA, enquanto a sociedade da informação elimina empregos de escritório e beneficia efusivamente o talento na gestão, arte, finanças, desporto, computação, etc. Isto espreme os salários baixos, reduz os lugares intermédios e premeia alguns ricos. As dificuldades de crescimento vêm da reestruturação económica imposta pelo mercado global, enquanto o endividamento surge de políticas e expedientes para amaciar a vida dos m
ais atingidos. Foi o incentivo político à aquisição de casa pelos pobres que criou o subprime nos EUA.
A questão decisiva deste tempo é, portanto, social.

Portugal é um caso paradigmático. Na "década perdida", além da estagnação ser disfarçada pela dívida externa que agora nos arruína, íamos caindo numa das maiores desigualdades europeias, como mostram estudos recentes. Mas é preciso ver que esses estudos têm dados anteriores à troika, que está cá só há dez meses. O fosso entre ricos e pobres só pode resultar de quinze anos de políticas socialistas, que diziam defender os trabalhadores, combater a pobreza e construir a sociedade justa.

Este aparente paradoxo é compreensível ao notar que as tais políticas bem intencionadas acabavam por usar os impostos de todos (sobretudo pobres) para beneficiar certos grupos, próximos do Estado. Os últimos anos reforçaram o processo, pois a crise começou em 2008, com falências e desemprego, mas funcionários e pensionistas estiveram incólumes três anos, até à chegada da troika.


O terrível choque no Ocidente, como em Portugal, impõe difícil ajustamento para recuperar uma sociedade justa e dinâmica, adaptada ao novo mundo global. Isso exige medidas sérias e equilibradas das elites e governos, para eliminar privilégios, combater a corrupção, apoiar os pobres, flexibilizar a economia. Mas exige também da sociedade serenidade e solidariedade, suportando os inevitáveis sacrifícios sem perder o rumo.


Percebe-se perfeitamente a irritação das populações pela austeridade e perda de direitos exigida na flexibilização. Revoltas, greves e subida dos radicalismos, bom como sonhos de revoluções e sociedade ideal, são compreensíveis. Robespierre, Marx e Lenine viveram tempos destes e hoje a Grécia envereda pelo mesmo rumo violento. Mas a reacção brutal trouxe sempre o desastre.
Existem alternativas, como a serena "revolução dos cravos".

Comparada com casos paralelos, nacionais e estrangeiros, o 25 de Abril destaca-se pela sensatez. Em particular, na confusão revolucionária de 1974-75 os salários reais subiram 10% acumulados, estrangulando a economia. Em seguida aconteceu algo único na história: um país democrático, com sindicatos livres, teve o patriotismo de suportar uma queda acumulada de 12% nos salários reais de 1976-79, recuperando o equilíbrio.

O choque social destes anos será terrível. O nosso futuro depende de Portugal cair na revolta, como Marx sugeria e a Grécia mostra, ou enfrentar as dificuldades com força e serenidade. O acordo de dia 18 prova que ainda está vivo o espírito de Abril.» (J. César das Neves, DN dia 6)

23 janeiro 2012

«Qual é o teu valor de mercado?»

«Qual é o teu valor de mercado, mãe? Desculpa escrever-te uma pequena carta, mas estou tão confuso que pensei que escrevendo me explicava melhor.

Vi ontem na televisão um senhor de cabelos brancos, julgo que se chama Catroga, a explicar que vai ter um ordenado de 639 mil euros por ano na EDP, aquela empresa que dava muito dinheiro ao Estado e que o governo ofereceu aos chineses.

Pus-me a fazer contas e percebi que o senhor vai ganhar 1750 euros por dia. E depois ouvi o que ele disse na televisão. Vai ganhar muito dinheiro porque tem o seu valor de mercado, tal como o Cristiano Ronaldo. Foi então que fiquei a pensar. Qual é o teu valor de mercado, mãe?

Tu acordas todos os dias por volta das seis e meia da manhã, antes de saíres de casa ainda preparas os nossos almoços, passas a ferro, arrumas a casa, depois sais para o trabalho e demoras uma hora em transportes, entra e sai do comboio, entra e sai do autocarro, por fim lá chegas e trabalhas 8 horas, com mais meia hora agora, já é noite quando regressas a casa e fazes o jantar, arrumas a casa e ainda fazes mil e uma coisas até te deitares quando já eu estou há muito tempo a dormir.

O teu ordenado mensal, contaste-me tu, é pouco mais de metade do que aquele senhor de cabelos brancos ganha num só dia. Afinal mãe qual é o teu valor de mercado? E qual é o valor de mercado do avozinho? Começou a trabalhar com catorze anos, trabalhou quase sessenta anos e tem uma reforma de quinhentos euros, muito boa, diz ele, se comparada com a da maioria dos portugueses. Qual é o valor de mercado do avô, mãe? E qual é o valor de mercado desses portugueses todos que ainda recebem menos que o avô? Qual é o valor de mercado da vizinha do andar de cima que trabalha numa empresa de limpezas?

Ontem à tardinha ela estava a conversar com a vizinha do terceiro esquerdo e dizia que tem dias de trabalhar catorze horas, que não almoça por falta de tempo, que costumava comer um iogurte no autocarro mas que desde que o motorista lhe disse que era proibido comer nos transportes públicos se habituou a deixar de almoçar. Hábitos!

Qual é o valor de mercado da vizinha, mãe? E a minha prima Ana que depois de ter feito o mestrado trabalha naquilo dos telefones, o “call center”, enquanto vai preparando o doutoramento? Ela deve ter um enorme valor de mercado! E o senhor Luís da mercearia que abre a loja muito cedo e está lá o dia todo até ser bem de noite, trabalha aos fins de semana e diz ele que paga mais impostos que os bancos?

Que enorme valor de mercado deve ter! O primo Zé que está desempregado, depois da empresa onde trabalhava há muitos anos ter encerrado, deve ter um valor de mercado enorme! Só não percebo como é que com tanto valor de mercado vocês todos trabalham tanto e recebem tão pouco! Também não entendo lá muito bem – mas é normal, sou criança – o que é isso do valor de mercado que dá milhões ao senhor de cabelos brancos e dá miséria, muito trabalho e sofrimento a quase todas as pessoas que eu conheço!

Foi por isso que te escrevi, mãe. Assim, a pôr as letrinhas num papel, pensava eu que me entendia melhor, mas até agora ainda estou cheio de dúvidas. Afinal, mãe, qual o teu valor de mercado? E o meu?» (Francisco Queirós)

18 dezembro 2011

Até eu percebo

(...) « A ideia de que um país consegue melhorar a sua balança comercial através de zero importações, é uma ideia tão estranha como a de que um governo  consegue pagar as dívidas sem ter receitas.

Vai ficar contente quando eu lhe disser que - tecnicamente - não estamos em recessão.
O consumo de uns, é o ganho de outros. A sra. Merckel, ao continuar a insistir em que os seus  principais parceiros comerciais cortem nas despesas, está a cortar à Alemanha as principais fontes do seu crescimento.» (...)
(Robert Skidelsky, Professor Economia Política, na Universidade de Warwick)

05 dezembro 2011

O governo central

(...) «Podemos discutir a falta de bons líderes europeus nos dias que passam, mas não podemos nem devemos tomar como modelos os líderes do passado que nos meteram no actual imbróglio. Eu sei que isto que estou a dizer é uma grande heresia, mas é bom que fique claro que chegámos onde chegámos porque criámos uma moeda única sem lhe darmos condições económicas e políticas para triunfar, o que aconteceu por responsabilidade desses líderes bem-amados.

Nigel Lawson, que na época do lançamento do projecto do euro era ministro das Finanças de Margaret Thatcher, recordou recentemente num artigo da Spectator que logo nessa altura defendeu aquilo que hoje todos dizem: não seria possível construir uma união monetária sem um governo económico conjunto, e isso em democracia exigiria sempre uma união política. Lawson, naturalmente, estava contra uma união política (que também considerava impraticável) e, por isso, opôs-se ao projecto do euro. 

Mesmo assim esses "queridos líderes" do passado, Delors, Mitterrand e Kohl, decidiram avançar com a construção de um castelo sem alicerces. 

Foi isso mesmo que ainda há poucas semanas defendeu também Joschka Fischer, alguém que está nos antípodas políticos de Lawson. Segundo o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, quando o euro foi criado "a ideia de um governo central tinha poucos apoiantes". 

Foi por isso que "essa fase da construção da união monetária foi adiada, deixando este impressionante edifício sem os sólidos alicerces necessários à manutenção da estabilidade em tempos de crise". Ou seja, tanto à direita como à esquerda se admite hoje que esses "grandes líderes" não fizeram, em tempos mais prósperos e mais fáceis, o que se pede aos líderes de hoje para serem eles a fazer, isto é, a união política. 

Pelo menos é o que pessoas como Fischer pedem abertamente. Outros, como Lawson, continuam a achar que tal não pode ser feito sem sacrifício dos princípios da democracia. É também o que eu penso, e só estranho que tantos desvalorizem este importante detalhe.» (...)
(José Manuel Fernandes, Público 2 de dezembro de 2011)

04 dezembro 2011

"Dar gás"


O Presidente Obama pede ao Congresso americano que aprove mais uma baixa de impostos para relançar a economia: "agora é tempo carregar no pedal do combustível, não de de pisar no travão". ( ... mais no Wall Street Journal)

25 novembro 2011

Austeridade sozinha não nos vai tirar da crise

Quem o diz é um prémio Nobel da Economia e antigo Presidente do Banco Mundial:
«Temo que se centrem na austeridade, que é uma receita para um crescimento menor, para uma recessão e para mais desemprego. A austeridade é uma receita para o suicídio», afirmou. (...)

O antigo vice-presidente do Banco Mundial disse que as reformas estruturais europeias «foram desenhadas para melhorar a economia do lado da oferta e não do lado da procura», quando o problema real é a falta de procura." (No Publico em linha)

- escrito no telefone, com BlogPress.