Jornal de Negócios

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16 maio 2011

o elo mais fraco


(...) «Os direitos dos cidadãos estão consagrados na Constituição e em leis. Mas isso não impediu a redução desses direitos, mais ou menos disfarçadamente.

Qualquer um de nós, incluindo até quem trabalha na Administração Pública, sabe que o despedimento ou é ou pode ser a breve prazo muito mais fácil, que a saúde não é gratuita, que a pensão de reforma está muito longe de ser garantida, que o subsídio de desemprego vai emagrecer cada vez mais... Tudo direitos dados como adquiridos, consagrados na Lei e na Constituição, que facilmente vão desaparecendo.

Há notícia de alguém ter recebido alguma indemnização por ter visto os seus direitos reduzidos? Claro que não.

Em contrapartida, os contratos - meros contratos entre duas partes - apresentam-se com a força que a teoria dá à Lei e à Constituição. Não se consegue rever um contrato sem que o Estado (diga-se, os cidadãos e contribuintes) tenha de pagar uma indemnização. » (...)

«Os alertas começam a chegar. Os contratos, como contratos que são, têm de ser cumpridos, dizem. Rever os contratos das PPP? Isso vai custar uma fortuna, avisa-se. Rever os contratos que o Estado tem com a EDP? Mais outra fortuna.

O que é interessante nesta realidade é a sua dimensão de absurdo. O mundo em que pensamos que vivemos é, afinal, um outro mundo completamente diferente.» (...)


(...) « tirar a quem tem apenas a Lei e a Constituição do seu lado, para dar a quem tem contratos.

Eis uma abordagem a roçar o esquerdismo, dirão alguns. Pois não é. A democracia capitalista de mercado tem na liberdade, igualdade e no Estado de direito - e não dos contratos - os seus pilares fundamentais. O que temos hoje é tudo menos mercado. Porque uns são manifestamente mais iguais que outros, porque uns têm manifestamente mais poder sobre o Estado que outros. Terá a troika o poder de curar esta ferida do capitalismo?» (...) Helena Garrido, no Jornal de Negócios.

06 fevereiro 2011

Baixar salários pode ser uma má ideia?

Entrevista no i a Keith Wade (Schroeders´s) em Novembro de 2010:
(..) «A possibilidade de redução de salários é uma discussão que está a ser tida em Portugal. Essa estratégia não resulta?

Há o perigo de se entrar num ciclo vicioso. A competitividade que se ganha por reduzir os custos de produção pode não chegar suficientemente depressa para cobrir os resultados negativos. Pode-se cortar nos salários, mas a economia vai atingir um novo equilíbrio, muito fraco, com taxas de desemprego elevadas e sem voltar necessariamente ao pleno emprego. Esta era uma das teorias de Keynes. Algumas pessoas acham que o poder de reconquistar competitividade é tão forte que se esquecem da importância do consumo interno. O problema é que a economia global não está suficientemente forte, caso contrário levantaria toda a gente. Enfraquecer o consumo interno não resolve o problema e, se resolver, demora muito tempo. Pode demorar até cinco anos.


E não é garantido que funcione?
Não. Pode ajudar, mas numa altura de fraco crescimento é perigoso e pode criar problemas de desemprego estrutural e défice estrutural.


Os países periféricos acabarão por ter de sair do euro para resolver os seus problemas estruturais e afastar as pressões do mercado?
A questão é se estes resgates vão continuar com base em vontade política. Agora há um ponto de interrogação em relação à vontade da Alemanha de continuar a fazer estas transferências. E países como a Grécia e Portugal vão aceitar a perda de soberania de ver o seu orçamento controlado? Isto pode levar os países a abandonarem o euro.


Mas acha que na prática isso vai mesmo acontecer?
Pode muito bem acontecer. A ideia de aumentar a competitividade através da deflação é um caminho muito difícil e não estou convencido que resulte. No final de tudo isto, o povo português pode dizer: “Tivemos cinco anos de austeridade e ainda não controlamos o nosso orçamento, então para quê estar no euro?”


É possível ter dois euros? Um para o Norte e outro para o Sul?
É possível. Mas já não seria uma zona euro. Seriam precisos dois bancos centrais para duas moedas.


Mas a solução seria melhor para os periféricos do que voltar às suas moedas?
Não sei. De certa forma é a mesma coisa. Seria uma moeda fraca, cuja desvalorização poderia ajudar a competitividade. Seria complicado, porque seria necessário organizar toda uma estrutura institucional.


Acha que o euro vai acabar?
Não consigo responder a isso com sim ou não. Mas há uma forte probabilidade de a composição do euro ser diferente daqui a alguns anos.» (...)

02 fevereiro 2011

Escolher entre a cura e a doença


«O prémio Nobel da Economia [Joseph Stiglitz] considera que as medidas de austeridade adoptadas por alguns países europeus são "excessivas" e "desastrosas" e vão provocar um forte abrandamento económico.

Joseph Stiglitz afirmou, numa conferência que está a decorrer hoje em Moscovo, que a Europa está a enfrentar a actual crise da dívida pública com políticas de austeridade "desastrosas".

O prémio Nobel da Economia considera que as medidas de austeridade adoptadas por alguns países europeus são "excessivas" e "desastrosas" e vão provocar um forte abrandamento económico.

Joseph Stiglitz afirmou, numa conferência que está a decorrer hoje em Moscovo, que a Europa está a enfrentar a actual crise da dívida pública com políticas de austeridade "desastrosas".
O economista defendeu que países como Reino Unido não precisam de medidas de austeridade tão "excessivas" como as que foram adoptadas. 

"Já estamos a assistir às consequências destas medidas de austeridade. A implicação mais óbvia é que o crescimento vai abrandar", afirmou Joseph Stiglitz. 

O economista não antecipa uma nova recessão económica mas garante que o crescimento económico vai ser mais lento. "As economias europeias vão ser afectadas pelos cortes públicos, que visam reduzir os défices orçamentais, e pela subida das taxas de juro", alertou o prémio Nobel. 

Além das medidas de austeridade, a Europa será ainda penalizada pelas pressões inflacionistas provocadas pela subida dos preços dos alimentos e das matérias-primas, acrescentou Joseph Stiglitz.» (...)

19 janeiro 2011

Já pediu o numero fiscal do seu bebé?

No Economia & Finanças, esta informação útil:
(...) «o Ministério das Finanças deu indicações de que será obrigatório identificar com número de identificação fiscal (número de contribuinte) todos os dependentes incluídos num agregado familiar que apresente declaração de rendimentos, já em 2011. 
 
Deste modo, e uma vez que o calendário de entregada IRS 2011 se inicia em Março, é conveniente precaver a situação de modo a evitar filas de espera e outros incómodos. De futuro, todas as facturas relevantes para efeitos fiscais que digam  respeito a dependentes, ainda que menores de idade, deverão conter a respectiva identificação fiscal.

Em suma: todas as crianças, bebés incluídos,  terão de ter obrigatoriamente atribuído um número de contribuinte (NIF ou Número de Identificação Fiscal) para que possam constar como dependentes nas declarações fiscais dos respectivos país e/ou tutores.» (...)

22 dezembro 2010

O euro não sobrevive com balões de oxigénio

Silva Peneda afirmou: (...)

«Cada vez estamos mais condicionados pelas opções que são tomadas a nível europeu. A nossa margem de manobra é cada vez mais estreita. Ou influenciamos as questões europeias para que a nossa vida seja facilitada ou a Europa decide como bem quer e lhe apetece»

E ainda:
 
(...) «O presidente do Conselho Económico e Social (CES) defende que a União Europeia enfrenta "um problema sistémico", que não se resolve socorrendo país a país, advogando que uma solução surgirá quando for atingido "um país com a dimensão da Espanha".

Em entrevista à Lusa, José Silva Peneda considera que, "mais tarde ou mais cedo, tem que haver uma resposta global para um problema que é global", revelando estar optimista em que será encontrada uma solução, que passa, defende, "pela emissão de títulos de dívida pública europeia (eurobonds)".

"Há pessoas que acreditam que socorrer país a país resolve, mas estou convencido de que não é assim e, um dia, quando um país com a dimensão da Espanha tiver um problema, a solução vai seguramente aparecer", antecipa.

O ex-ministro do Emprego e da Segurança Social diz que o euro está "numa encruzilhada", que "iniciou uma caminhada que tem que ser completada", considerando que a moeda única "não pode existir sem o apoio de outros instrumentos fundamentais e a criação dos eurobonds é um deles".

Silva Peneda, que hoje completa um ano na presidência do CES, considera que Portugal e Espanha deviam ter manifestado "apoio explícito" à emissão de dívida soberana pelo conjunto da União Europeia, em linha com o presidente do Eurogrupo e primeiro ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker.

"Os eurobonds são bons para a Europa, para salvar o projecto político europeu, porque se o euro soçobrar é o próprio projecto político europeu que está em causa e quando está em causa significa que está em causa a paz na Europa", acrescenta.

Para o ex-eurodeputado, ao dizer redondamente que não, "a Alemanha está a ter um comportamento anti-europeu", realçando que "mais federalismo" é "o caminho para continuar o projeto europeu". » (...)

22 novembro 2010

"não temos credibilidade nem margem de manobra"

No Público 2010-11-21, por José Manuel Fernandes (*)


«Metade da última semana foi passada a especular sobre se recorríamos ou não à ajuda do fundo de resgate europeu e do FMI ou se não precisávamos de o fazer. A outra metade foi a ouvir declarações piedosas sobre o apoio ao "esforço orçamental" português, manifestações de solidariedade e, por fim, proclamações de intenção sobre o rigor que não se teve no passado e se terá no futuro. Infelizmente, é tudo espuma. Com ou sem FMI, temos e teremos trabalhos de Hércules pela frente. Com mais palavras a enervar "os mercados" ou mais declarações a tentar acalmá-los, não deixámos de estar na corda bamba.

Deixemos de lado, por agora, saber como e com quem entrámos para o buraco em que nos encontramos - o tempo é sempre um juiz implacável, mesmo quando se faz esperar. Fixemo-nos antes nos problemas que temos e em como ultrapassá-los.

Comecemos por um breve recordatório dos problemas. Primeiro que tudo, uma economia anémica, incapaz de crescer, quase estagnada há dez longos anos, sinal do esgotamento dos factores que proporcionaram o nosso desenvolvimento nos últimos 50 anos. Depois, um Estado gordo, demasiado presente, demasiado burocrático, que asfixia a economia porque cobra demasiados impostos, porque produz regulamentos a mais, porque desconfia dos cidadãos, porque tem um défice crónico que gera uma dívida crescente. Por fim, um país que se habituou a viver acima das suas capacidades, com um número excessivo de dependentes do Estado e uma cultura avessa ao risco e ao empreendorismo, um país onde há demasiados particulares e demasiadas empresas sobrendividadas.

Boa parte destes problemas existe porque, como disse esta semana Fernando Ulrich, presidente do BPI, "aquilo que os países que entraram na Zona Euro fizeram foi aderir ao marco". Ora "a elite e os decisores políticos portugueses não perceberam isto. Não devíamos ter deixado subir os salários e a despesa pública como deixámos". Ou seja, ao contrário do que por aí se anda a dizer, o problema não é da Alemanha, que fez o seu trabalho de casa, mas de "Portugal, da Grécia e da Irlanda, que tinham de ter a capacidade para gerir a situação". Não tiveram e não vale a pena chorar sobre o leite derramado: ou fazemos agora o que já devia ter sido feito, ou arriscamos ficar sem crédito, sem investimento, na bancarrota e a sermos tratados como um simples protectorado. É certo que há por aí quem ainda vá ao Parlamento defender que não nos devíamos preocupar com a dívida (como sucedeu esta semana com o secretário de Estado do Orçamento), mas é tempo de acabar com tais "estados de negação".

Ora, romper com o "estado de negação" começa por assumir que o esforço que teremos de fazer não é passageiro - é estrutural e deverá exigir muitos e longos anos de correcção gradual se quisermos evitar uma ruptura brutal. Porque só há uma forma de sairmos do buraco onde estamos: sermos mais competitivos. E só há uma maneira de o conseguir: trabalhando mais, trabalhando melhor, começando por ganhar menos até conseguir ganhar mais, consumindo menos até voltarmos a equilibrar as contas. Poucos políticos têm dito isto preto no branco, mas reconheça-se que entre eles se contam Pedro Passos Coelho (no Facebook) e Manuela Ferreira Leite (na AR).

Um Governo que queira recolocar Portugal no mapa - isto é, um Governo que não se satisfaça com deitar foguetes cada vez que faz um novo acordo comercial com a Venezuela ou com a Líbia - tem que tomar muitas medidas estruturais. Tem de fazer emagrecer o peso do Estado e das regulamentações, única forma de diminuir o défice e, ao mesmo tempo, diminuir as contribuições que penalizam o trabalho (como a taxa social única) e as actividades económicas (como o IRC). Não vejo forma de isso acontecer sem, como vai fazer o Reino Unido, dispensar funcionários públicos. Isso mesmo: quebrar o tabu do "emprego para a vida" na administração pública.

Também não será possível aumentar a competitividade do país - e corrigir a enorme injustiça geracional que é o desemprego jovem - se não se liberalizar a lei laboral. Temos uma lei do despedimento individual de betão e uma lei de despedimentos colectivos que é manteiga, o que penaliza tanto os bons trabalhadores como as boas empresas. Ao mesmo tempo, será necessário quebrar o poder das corporações que se apoderaram de partes da administração pública, umas tomando-as por dentro, outras cercando-a por fora.

Em suma: mesmo que o "cadernos de encargos" não seja exactamente o que descrevi, o trabalho é imenso, implicará muitos sacrifícios, gerará temíveis resistências e, para ser absolutamente franco, não acredito que possa ser concretizado por um só partido, mesmo que este tivesse a maioria absoluta. Hoje por hoje, é evidente para todos que nunca será o actual Governo a levar por diante - mesmo que obrigado pelo exterior - um tal processo de reformas. Mas também não imagino que, após umas eventuais eleições antecipadas, uma nova maioria de centro-direita, se viesse a existir, pudesse concretizá-las tendo de enfrentar a resistência feroz de um PS regressado à oposição. Cairia o Carmo e a Trindade e não faltariam apelos a que se regressasse às trincheiras do "Estado social".

Não me surpreendeu, por isso, a entrevista de Luís Amado. Ele sabe o que dizem lá fora de Portugal, sabe que não temos credibilidade nem margem de manobra e sabe onde (não) nos leva a actual solução de governação e o seu primeiro-ministro. Da mesma forma que não me surpreenderam as reacções de Sócrates ou de Miguel Relvas, a não quererem sequer falar do assunto. Ou os textos, no PÚBLICO, de Vital Moreira e Luís Filipe Menezes, a reduzirem a temática ao simples cálculo partidário: Vital não quer que o PS fique com o ónus das medidas difíceis, Menezes quer que "quem comeu a carne roa agora os ossos". São duas faces da mesma moeda: gincana eleitoral de curto prazo.

É por tudo isto que me escuso de fazer previsões, juízos de valor ou mesmo a defender a formação agora ou depois de umas hipotéticas eleições de uma "grande coligação". Apenas fico por esta constatação: a situação do país é tão difícil que não vejo como poderá um Governo sem uma ampla maioria enfrentá-los. E nem sequer é garantido que, mesmo existindo essa ampla maioria, os partidos que temos corrijam os seus péssimos hábitos clientelares e tenham o sentido de Estado que há décadas desapareceu da governação e que tanta falta faz.

É por isso que também é fundamental existir na sociedade um forte movimento a exigir que se mude realmente de vida, mas isso é um outro problema.»
* Jornalista (twitter.com/jmf1957)