Jornal de Negócios

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05 junho 2012

Teresa Salgueiro, um álbum diferente

«A consciência do mistério, do sobrenatural, é o ponto de partida para ter a coragem de viver»É desta forma que Teresa Salgueiro, outrora voz dos Madredeus, explica o sentido e o conteúdo do novo rumo que tomou, como solista e autora, com o novo álbum O Mistério; exatamente, "mistério". 

Um disco de rara beleza que alterna procura, herança clássica e expressão popular para cantar o homem, os valores, a esperança e, sobretudo, a fé, sem retórica mas mantendo os olhos abertos. Ao ponto de misturar a exaltação dos ideais com a denúncia da guerra e da cultura da morte.

O que a lançou na aventura de ser solista?

Na verdade, o modo de sentir a música não mudou. Mesmo agora estou dentro de um grupo [Carisa Marcelino acordeão, Óscar Torres contrabaixo, André Filipe Santos guitarra e Rui Lobato percussão] porque é no confrontar-se que se cresce. Continuo a procurar um sentido para mim mesma, trabalhando com os outros e assim aumentar a possibilidade de me exprimir.

Mas desta vez exprime-se com textos escritos por si.

Sim, é um desafio e uma oportunidade. Todos os textos nasceram sobre melodias vocais das canções já escritas: a dificuldade estava em conseguir entender-me a mim mesma, ao ponto de transformar em palavras com sentido os pensamentos e os valores que tenho dentro de mim. E consegui-lo é uma grande alegria.

Para o conseguir gravou o cd num convento?

Também. Na hospedaria do convento da Arrábida, do século XVI, estivemos isolados do rumor do mundo. E poder pensar, dedicarmo-nos uns aos outros e todos juntos à música, foi decisivo.

O «mistério» é dominado pela espiritualidade. Considera que é, hoje, uma exigência viva?

Seguramente que o é para mim. Só compreendendo que existe sempre o mistério na nossa vida, e que não podemos saber nem compreender tudo, é que podemos mudar as coisas. Porque é esta consciência que nos ajuda a ser humanos: frágeis, sim, mas também fortes. Verdadeiramente capazes, cada um a seu modo. Para mim é a arte, de aprender a viver.

Não escreveu versos abstratos, mas partiu sempre das dores do mundo contemporâneo…

Absolutamente. Porque só olhando o mundo com realismo é que nasce uma verdadeira esperança de o modificar. E para mim a esperança é o centro. Nunca fugir.

Por isso canta até mesmo a morte, e sem receios ou anseios, sublinhando «Só o amor ficará»?

Sim, porque é uma condição do nosso viver e, aceitando-a, damos mais valor à própria vida. A música "A Partida" nasce refletindo sobre a obsessão do ter mais, em vez ser. Acho que devemos recuperar o essencial. No final, apenas o amor dado e recebido será a medida das nossas vidas.

Não tem pudor em declarar a fé, em revelar, nos versos de uma canção, que ela é a sua «arma»?

Pelo contrário. É importante falar dela. É precisamente a fé que nos faz entender até as dores, dando-nos força para acreditar num futuro que não seja apenas o medo de novos erros, novas guerras.

Guerras a que dedica «A Batalha», denunciando a cultura da morte…

Era necessário. O livre arbítrio é um valor saudável: digamos não à morte, ao homicídio.

Em que medida ser mãe influencia o caminho que decidiu percorrer fora dos Madredeus, indo à realidade com os seus valores?

Muito, e transformou-me logo desde o início. Mas agora que a minha filha tem 13 anos, ser mãe continua a ensinar-me modos de olhar o mundo diferentes, tornando-me sempre mais atenta e consciente da responsabilidade daquilo que faço.

Andrea Pedrinelli, no Avvenire, de 30 de Maio de 2012.