Jornal de Negócios

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15 setembro 2011

Um homem coerente ...


«Os fundamentalistas religiosos têm razão numa coisa: sem Deus, não há moralidade. Acontece porém que, do meu ponto de vista, não têm razão noutra: a existência de Deus. Daí que, em minha opinião, não haja moralidade.»

Escrito em 21 de Agosto de 2011, pelo Prof. Joel Marks, da Universidade de New Haven e membro do Centro Interdisciplinar de Bioética da Universidade de Yale, aqui.

18 agosto 2011

É difícil ser mais claro ...


JPP, no Abrupto:

(...) «com Sarkozy balbuciando umas coisas que parece notoriamente não conhecer bem, e Merkel ameaçando Portugal e a Grécia; e o conteúdo, um diktat de dois países da União com um anúncio de medidas à margem de qualquer dos tratados que regem a União Europeia. Dizem o que vão fazer os dois, criam uma instituição (uma a mais que não vem nos Tratados), nomeiam o seu presidente e fazem imposições constitucionais a todos os membros da União.

Bastava esta última imposição, que atinge o coração da soberania dos estados membros, para percebermos que já não há União, mas uma Europa servil a amos mais fortes. O que está em causa, tenho-o dito, é a soberania.

Estas imposições constitucionais já não atingem somente a soberania, mas também a liberdade. É que a autonomia constitucional, na sua raiz parlamentar, está no cerne da liberdade dos povos.» (...)

18 julho 2011

Porque será que este diagnóstico é verosímil?

JPP, no Abrupto:

(...) «O PS abandonou o marxismo frentista com que vinha de antes do 25 de Abril, "meteu o socialismo na gaveta", virou católico envergonhado e depois voltou à Maçonaria, passou dos militantes históricos de 1974-6 para os ex-MES, tentou tirar o socialismo da gaveta e logo a seguir meteu-o ainda mais fundo na gaveta e fechou-a à chave, que Sócrates engoliu num acesso de fúria.

Criou uma central sindical e deixou-a ir a uma semivida própria, sem fulgor nem papel. Em todos estes casos, nem com Soares, nem Constâncio, nem Sampaio, nem Guterres, nem Sócrates, se discutiu nada sobre o que se passava dentro e fora de portas. Ficou-se preso, nos últimos anos, numa vulgata de "Estado" e "sector público" que permanecia como um retórica pobre e era contrariada em cada acção prática.

O PS já nem tem socialismo nem social-democracia, nunca teve reformismo nem se sobressalta quando a liberdade é ameaçada, na maioria dos casos por si próprio. Permaneceu anticomunista, mas namorou o Bloco de Esquerda, como antes tinha namorado todas as esquerdas "independentes", dos pintassilguistas aos antigos MRPP e aos ex-comunistas.

É hoje tão socialista como o PSD, que ainda há pouco tempo era mais socialista que o PS, mas agora já não é, sem por isso passar a ser liberal. O PS está numa confusão ideológica total, e ninguém quer saber disso para nada.» (...)

09 julho 2011

Que tipo de integridade moral exigimos aos nossos líderes

«Ninguém é perfeito. Todos podemos ser fracos quando a ocasião se apresenta. Mesmo os transgressores que regularmente infringem a moral vigente podem ser tratados com indulgência; afinal, eles são apenas humanos e, além disso, são geralmente divertidos ou admiráveis em certas facetas, ou tiveram um passado difícil, ou... 

Algumas pessoas pensam assim sobre o temperamental e eticamente instável Mel Gibson; bastantes californianos votaram em Arnold Schwarznegger para o fazerem governador, embora sabendo da sua abordagem hollywoodesca sobre o amor e a união; e Dominique Strauss-Kahn era reconhecido como um notório mulherengo muito antes dos chefões europeus o porem à cabeça do FMI.


Então porque é que os lapsos morais dos Gibsons, Schwarzneggers e Dominique Strauss-Kahns continuam a fazer manchetes de primeira página e causar debates públicos, investigações de alto nível e - muitas vezes - demissões? Estas figuras públicas estão a portar-se pior do que os inúmeros cidadãos comuns? O que se poderia esperar que eles fizessem?  (...) 

«Enquanto a tinta quase secou a escrever histórias sobre a suite do chefe do FMI no hotel de luxo em Nova York, os britânicos estão irados devido aos gastos perdulários da Comissão Europeia em jactos, festas, resorts e todo o tipo de despesas - 8 milhões de libras nos últimos anos -, tudo isto agravado pelo pedido de aumento do orçamento.

A mensagem desta indignação moral é que - à parte as celebridades - esperamos mais dos nossos representantes e funcionários públicos do que se fossem personagens de folhetins televisivos ou de filmes sobre ditadores obcecados pelo poder, e esperamos que se nivelem por padrões éticos. Mas quais são esses padrões?» (...)

«O resto da sociedade, no entanto, terá de dar uma ajuda a situações como a do FMI. As organizações (que se pressupõem democráticas) são pelo menos tão boas eticamente, como as pessoas que representam. Cada um de nós é capaz dos maiores males; da mesma maneira, os povos que elegem os Schwarzneggers e os Berlusconis, bem como os governos que apoiam os Strauss-Kahn. Tudo isto nos deve causar uma profunda preocupação. E nessa frente ética há muito trabalho a fazer.

Uma nova sondagem do instituto Gallup sobre as questões morais mostra que, embora a grande maioria dos americanos se oponha a relações extra-conjugais (o dano é demasiado pessoal para ignorar), há uma considerável tolerância de comportamento que prejudica o matrimónio e a família - incluindo pornografia, sexo e parentalidade fora do casamento. Além disso, a tolerância para essas matérias é maior entre os jovens adultos do que nos grupos etários mais velhos. É duvidoso que as coisas sejam muito diferentes nos outros países ricos.

Também é difícil ver como podemos ter líderes com altos padrões de ética, quando o terreno em que eles assentam se está a desmoronar»

18 maio 2011

Intolerâncias

«Colin Atkinson está a passar as passas do Algarve em terras da sua graciosa majestade britânica. Com efeito, foi-lhe instaurado um processo disciplinar pela Wakefield and District Housing, de que é, desde 2006, funcionário. 

O motivo é insólito, porque este electricista não falta ao trabalho, não é incompetente, não desrespeita os patrões, não implica com os colegas, não é indelicado com os clientes. O crime de Atkinson é ser cristão e ter o atrevimento de usar uma singela cruz no parabrisas do carro de serviço. Se fosse uma figa, uma ferradura ou um peluche, ninguém se incomodaria, mas uma cruz é, pelos vistos, intolerável e, por isso, Colin Atkinson corre sérios riscos de ser posto na rua, mas desta vez sem a viatura.

É da praxe, em certos veículos pesados, a exibição de «posters» de muito mau gosto, mas ninguém fica perturbado pelo facto, nem é razão para uma sanção laboral. Que uma pessoa ande escandalosamente trajada na via pública – seja uma mulher de barriga ao léu, ou um rapaz de cuecas à mostra – não é tido por indecente. Mas se um crente usar um discreto símbolo religioso, é logo acusado de agredir o próximo, nomeadamente quantos não professam a sua religião.

 Para a responsável Jayne O’Connell, a pequena cruz que Colin Atkinson usa no seu carro poderia ofender as pessoas e é política da Wakefield and District Housing «ser respeitosos com todas as confissões e pontos de vista». Menos o cristão, claro. 

Diga-se de passagem que tem o seu quê de absurdo este dogma laicista. Porque carga de água uma cruz há-de ser insultuosa para os não cristãos, se nenhum cristão se sente ultrajado por um crescente, ou por uma estrela de David? E porque não entender que um amuleto é também ofensivo, não apenas para a fé, mas também para a razão? E as orquestras, não serão acintosas para os surdos? E os museus, não são também, vistos por esse prisma, desrespeitosos para com os invisuais? Será que as fotografias dos familiares do anfitrião são indelicadas para os seus convidados, só porque não são os parentes deles? Ou seria desejável que o dono da casa retirasse todos os retratos de família, cada vez que recebe alguém?» (...
(Gonçalo Portocarrero, Público, 16 de Maio)

16 maio 2011

o elo mais fraco


(...) «Os direitos dos cidadãos estão consagrados na Constituição e em leis. Mas isso não impediu a redução desses direitos, mais ou menos disfarçadamente.

Qualquer um de nós, incluindo até quem trabalha na Administração Pública, sabe que o despedimento ou é ou pode ser a breve prazo muito mais fácil, que a saúde não é gratuita, que a pensão de reforma está muito longe de ser garantida, que o subsídio de desemprego vai emagrecer cada vez mais... Tudo direitos dados como adquiridos, consagrados na Lei e na Constituição, que facilmente vão desaparecendo.

Há notícia de alguém ter recebido alguma indemnização por ter visto os seus direitos reduzidos? Claro que não.

Em contrapartida, os contratos - meros contratos entre duas partes - apresentam-se com a força que a teoria dá à Lei e à Constituição. Não se consegue rever um contrato sem que o Estado (diga-se, os cidadãos e contribuintes) tenha de pagar uma indemnização. » (...)

«Os alertas começam a chegar. Os contratos, como contratos que são, têm de ser cumpridos, dizem. Rever os contratos das PPP? Isso vai custar uma fortuna, avisa-se. Rever os contratos que o Estado tem com a EDP? Mais outra fortuna.

O que é interessante nesta realidade é a sua dimensão de absurdo. O mundo em que pensamos que vivemos é, afinal, um outro mundo completamente diferente.» (...)


(...) « tirar a quem tem apenas a Lei e a Constituição do seu lado, para dar a quem tem contratos.

Eis uma abordagem a roçar o esquerdismo, dirão alguns. Pois não é. A democracia capitalista de mercado tem na liberdade, igualdade e no Estado de direito - e não dos contratos - os seus pilares fundamentais. O que temos hoje é tudo menos mercado. Porque uns são manifestamente mais iguais que outros, porque uns têm manifestamente mais poder sobre o Estado que outros. Terá a troika o poder de curar esta ferida do capitalismo?» (...) Helena Garrido, no Jornal de Negócios.

14 abril 2011

A ditadura mole

Henrique Raposo, no Expresso:
(...) «Portugal, 2011: uma jornalista da Lusa foi saneada depois de ter recusado cumprir uma ordem de um assessor de José Sócrates. 
O meu país em 2011: uma jornalista foi demitida por não ter noticiado uma coisa que, vejam bem, ainda não tinha acontecido. Este é o último episódio de uma longa lista que comprovam uma coisa: José Sócrates é um perigo para a liberdade de imprensa. 

Mas o que é ainda mais perigoso é o silêncio dos jornalistas em relação a estes casos. Ontem, os telejornais não colocaram este caso em destaque (e, se calhar, nem sequer falaram do caso), e os jornais de referência (no online) não falaram do assunto. O dito assunto só circulou nas redes sociais. 

Ora, uma jornalista é saneada por razões políticas, e os outros jornalistas não falam disto? O que se passa aqui? Expliquem isto como se eu fosse muito burro.» (...)

30 março 2011

Ainda a tempo

«Portugal vive a maior crise económica e social das últimas décadas. E não é verdade que na sua génese esteja essencialmente uma crise internacional perante a qual pouco ou nada podíamos fazer. Nas próximas semanas não é sequer certo que consigamos fugir ao pedido de ajuda internacional.
 
De qualquer modo, este é o momento para fazer exame de consciência colectivo com um forte propósito de emenda de vida. É inútil pensar que o faremos sozinhos ou uns contra os outros. Ou nos mobilizamos todos para uma acção comum, dispondo-nos a escutar e aprender até dos adversários ou, em democracia, talvez já não tenhamos uma segunda oportunidade. Os totalitarismos os populismos e os anarquismos espreitam. E todos eles proliferam com o caos. É mentira que 48 anos nos tenham vacinado.» (...)

«Na campanha eleitoral de 2009 à esquerda e à direita foram muitas as vozes independentes que chamaram a atenção para a necessidade de conter, enquanto ainda era tempo, o rolo compressor da dívida (pública e externa), alertando para a necessidade de pôr travão aos planos megalómanos dos grandes investimentos públicos devoradores do pouco crédito ainda disponível para a economia. Não as quisemos ouvir.» (...)

«A máquina de propaganda governamental conseguiu, com inegável sucesso e profissionalismo, fazer da mentira um sonho que o povo preferiu escutar como o canto da sereia em alternativa ao apelo à mudança de vida» (...)

«Acresce a perigosa crise social traduzida num disparo da taxa de desemprego para mais de 11 por cento fazendo que o balanço da promessa eleitoral de 2005 (criação de mais 150 mil postos de trabalho) se tenha traduzido numa fatídica criação de mais 180 mil novos desempregados. E cresceu também, de forma exponencial, a precariedade do emprego. Hoje 55 por cento do emprego abaixo dos 24 anos é precário.» (...)

«Nos últimos dias , como Mário Soares no DN, Maria João Rodrigues, no i , e João Carlos Espada no Público (a quem roubei a ideia inicial deste texto) foram muitas as vozes a apelar ao bom senso e à VERDADE, e a uma cidadania activa e não resignada, vale a pena por uma vez ouvi-las. Se não for agora não nos poderemos queixar de já não ir a tempo.» 
Graça Franco, na RR.

Pátio dos gentios

(...) «Fala-se muito em manifestações, mas a mais poderosa que vi, nos últimos anos, em Lisboa, foi quando esteve cá Bento XVI. Costumo dizer aos meus amigos católicos: “Se vocês estão em crise, deixem-se estar em crise… Porque se isso é a vossa crise – meio milhão de pessoas na baixa de Lisboa – eu não vos quero ver com força”» (Henrique Raposo, politólogo, no Pátio dos gentios)

23 março 2011

Crescer ou desaparecer (mesmo a propósito)

Alfonso Aguiló, professor, artigo em Hacer Familia:

«W. Shakespeare escreveu que o único caminho para chegar à maturidade, é aprender a aguentar os golpes da vida.

Porque a verdade é que a vida, gostemos ou não, dá-nos sempre alguns golpes. Dá egoísmo, maldade, mentiras, faltas de reconhecimento; assistimos com assombro ao mistério da dor e da morte; verificamos os defeitos e limitações dos outros, e também os verificamos em nós, todos os dias..

Toda esta experiência, dolorosa, pode fazer-nos crescer e amadurecer, se o soubermos assumir. A chave da solução é saber aproveitar as pancadas para lucrar com o valor - oculto - que encerra tudo aquilo que nos contraria; conseguir que a nós nos melhore, aquilo que a outros provoca desalento e tristeza.

E porque será que aquilo que afunda algumas pessoas, faz outras crescer e amadurecer? Depende de como se recebem estes revezes. Quando não se consegue reflectir sobre eles, ou se reflecte sem senso, sem os abordar correctamente, não só se perde uma excelente ocasião para crescer, como até pode ter o efeito contrário.


A falta de auto-conhecimento ou de capacidade de reflexão, o vitimismo, a revolta inútil, tornam as pancadas da vida mais dolorosas e delas não retiramos nenhuma aprendizagem, apenas más experiências.


A experiência de vida é inútil, se não soubermos como aproveitá-la. Só a mera passagem do tempo não transforma ninguém em sábio.  (...)


Aprender a enfrentar a realidade pressupõe aprender que há coisas que nos frustram, desejos intensos que nunca se cumprirão, amigos que são desleais, tristezas que nos caiem em cima por causa dos nossos defeitos e limites, ou dos defeitos alheios.


Por mais que os outros nos ajudem, é a nós que cabe suportar a dor destas situações e produzir o esforço necessário para superar estas frustrações.


Uma típica manifestação de imaturidade é o desejo descompensado de ser admirado. A pessoa que tem como objectivo de vida receber demonstrações de apreço, que faz disso o centro, e a angústia, dos seus dias, torna-se num dependente psicológico, cada vez mais afastado do sentido real do afecto e da amizade.


(...) Saber encaixar as pancadas da vida não significa ser insensível. Tem a ver com a aprendizagem de saber não pedir à vida mais do que ela pode dar, de saber respeitar os outros, estimando aquilo que os torna diferentes de nós, em saber ceder, e ser paciente. Isto não significa ser conformista, ou abdicar das nossas convicções. (...) 
Simplesmente é preciso ter os pés na terra para entender quer tudo o que tem valor resulta de um esforço continuado, que demora tempo. Temos que ter paciência também connosco, porque senão nunca amadureceremos. 


Mas sobretudo é preciso desenvolver uma paciência muito especial para com com o atrito da realidade que nos cerca. Se queremos que à nossa volta as coisas melhorem, precisamos se suportar muitos contratempos, sem cair na amargura. É pela paciência que nos tornamos donos de nós próprios, que conseguimos permanecer serenos, porque temos visão de futuro e conseguimos manter a alegria no meio das tempestades.»

18 março 2011

«Só as ditaduras se justificam pelo "conteúdo"» ...

«O eng. Sócrates comprometeu Portugal em Bruxelas com o PEC IV, sem comunicar coisa alguma ao Parlamento, ao Presidente da República, aos partidos da oposição e aos parceiros sociais.

Quando umas tantas pessoas protestaram, o eng. Sócrates respondeu, indignadamente, que o que lhe importava não era a "forma", era o "conteúdo" do que fizera.

Só em Portugal esta explicação poderia ter passado sem um escândalo maior, ou mesmo sem a demissão imediata do primeiro-ministro. (...) A democracia é "forma". Só as ditaduras se justificam pelo "conteúdo".» (...) Vasco Pulido Valente, no Público.


14 março 2011

O "pagador-utilizador"


É uma questão em aberto: quem deve pagar os serviços públicos, quando (quanto?) e porquê ...
Aqui, uma perspectiva.

09 março 2011

Para ler

JPP, no Abrupto, irritante como de costume, mas realista: 

(...) «As condicionantes que hoje existem para Sócrates serão as mesmas que terá Passos Coelho na governação, as mesmas ou piores. Basta pensar um pouco, exercício que não faz muita gente no PSD que acha que as portas dos ministérios estão escancaradas à sua frente a cada sondagem favorável e que não percebe por que é que não se entra já por aí dentro para ocupar os gabinetes e os carros do Estado e acrescentar um título pomposo aos cartões-de-visita novos em folha para distribuir na terra.
Pensando-se, chega-se à conclusão de puro bom senso que, mesmo que haja algum estado de graça num novo Governo e alguma distensão sem Sócrates, e, na possibilidade de haver uma maioria absoluta de dois partidos, um passo muito positivo para a governação, tudo o resto que condiciona a governação hoje continuará na mesma. 
Em particular continua na mesma a necessidade de fortes programas de austeridade, com as consequentes efeitos de agitação e perturbação social, potenciados por uma esquerda ainda mais enraivecida e um PS ressabiado pela queda. Ou será que alguém pensa, no PSD, que se vai mentir nas eleições, prometendo qualquer "esperança" virtual no fim próximo do túnel? Pelo contrário, a única linguagem séria é falar verdade aos portugueses, essa palavrinha que tanto irritava Sócrates e os seus aliados no PSD contra Ferreira Leite.

A única alteração qualitativa neste cenário seria um acordo consistente, duradouro, firmemente ancorado no voto popular e parlamentar, que comprometesse PSD, PS e CDS, algo hoje muito improvável, mesmo na situação desesperada actual. 
Por isso, este vosso autor que sempre se opôs a qualquer variante de "bloco central" (e que obviamente entende que não é isso que está a propor), tem poucas dúvidas de que, sem um entendimento desta natureza de boa-fé e sólido que compreenda questões constitucionais, de governação, de reorganização administrativa do país, de mudanças profundas na justiça, na legislação do trabalho, na fiscalidade e nos impostos, ou seja, em quase tudo o que pode ser bloqueado ou pelo PS ou pelo PSD na oposição, não vamos lá. Nem nós, nem eles, nem todos. 
Xeque-mate em meia dúzia de jogadas, ou alguém atira os tabuleiros ao chão e a parte democrática do jogo soçobrará na demagogia e depois na anarquia. Já estivemos mais longe»

Nem tudo vale no Carnaval

(...) »Na 2ª feira, confrontado com a entrada de um grupo de jovens da "geração à rasca" na sala onde decorria um encontro com militantes do PS, José Sócrates, surpreendido, ainda conseguiu dizer: "É Carnaval, ninguém leva a mal".

(...) revelam miopia face a problemas graves da sociedade. No caso da "geração à rasca", a tentação da classe política (não apenas o PS) tem sido para desvalorizar os protestos.

Com excepção do BE, que percebeu a oportunidade mas não tem sabido surfar a onda.Voltemos à "geração à rasca". A tentação é não ligar a uma força difusa, cuja "cola" que a une é a contestação aos políticos que construíram uma sociedade onde eles não têm emprego e onde vão viver pior que as gerações anteriores. O alheamento da classe política é preocupante. Porque aos poucos começa a notar-se um crescendo, acelerado pela canção dos "Deolinda".

E embora estejamos num país onde os jovens mais radicais são meninos de côro quando comparados com os seus congéneres franceses, gregos e até espanhóis, um dia a corda parte. Com estrondo. Porque o problema é tão grave que não há "quick fixes" que o resolvam.»

08 março 2011

Comemos o que nos dão

JPP, no Abrupto
«Os jornais de hoje são um completo espectáculo da submissão acrítica às modas. Manifestam-se por um lado, como um excelente amplificador da moda que está; e por outro,  como um considerável obstáculo a que se pense para além da moda que está. Seguem sem hesitar todos os slogans, rodriguinhos, lugares comuns, "mensagens" que lhes aparecem em frente e, como nunca reflectem sobre o que estão a fazer, continuam na mesma até ao absurdo. Exemplos: a revolta árabe, o "deolindismo" militante, etc., etc.

Depois, muda a moda e tudo fica esquecido. Exemplos: a história do urânio empobrecido. Já ninguém se lembra...»

23 fevereiro 2011

financiamento da saúde

Um tema pouco falado, a necessitar de ampla discussão de todos os cidadãos.

Aqui, um texto do actual Director-Coordenador de Financiamento e Contratualização da ACSS: 

(...) « entre o ano 2000 e 2008, verificamos que todos os Países da OCDE viram a despesa em saúde crescer a um ritmo superior ao seu crescimento económico.

   Em alguns Países, como Portugal, o recente abrandamento ou recessão económica, com a descida do PIB e o crescimento da despesa em saúde, implicou um crescimento da despesa em saúde como parte do PIB.

   Face a este crescimento acentuado da despesa, nas duas últimas décadas, as políticas públicas no campo da saúde tiveram como objectivo a contenção de custos e a redefinição dos limites da prestação de cuidados de saúde. As reformas variam entre os diferentes países, mas todas reflectem uma cada vez maior percepção da realidade de mercado e necessidade de justificação das intervenções médicas com base na efectividade e eficiência, bem como a redefinição do papel dos serviços de saúde e da forma como os cuidados são prestados às populações.

(...)  a forma como oferecemos os serviços de saúde ao cidadão. Ou seja, importa discutir para além do financiamento, do pagamento, e da propriedade dos prestadores. Até porque, a forma de organização da prestação pode-nos elucidar sobre os caminhos a seguir nestas matérias.

   Comummente, têm sido propostos três pilares para a redefinição da prestação de cuidados com vista à melhoria da sua efectividade:

Planeamento de cuidados e gestão da doença crónica na comunidade;
Racionalização e especialização nos cuidados agudos;
Melhoria da experiência do cidadão pela gestão mais efectiva dos cuidados.
   
Esta alteração à prestação de cuidados apenas é conseguida através de alavancas, nomeadamente:

mais informação clínica e melhor utilização das tecnologias;
recursos humanos mais flexíveis e eficientes;
reconfiguração dos cuidados agudos;
novos contratos (incentivos) à deshospitalização”, e alocação de recursos de base populacional.

   Neste último ponto, importa entender os diferentes efeitos das modalidades de pagamento, e promover o desenvolvimento da compra de cuidados de saúde qualificada e estratégica. (...)

14 fevereiro 2011

Weimar

JPP no Abrupto
 
(...) «o ar começa a ser o mesmo, mais moderno e tecnológico, mas o mesmo. Como nos anos de Weimar, os grandes partidos moderados estão muito fragilizados, PS e PSD alimentam-se cada vez mais das suas oligarquias internas e menos da influência pública. "Eles são todos iguais". Como nos anos de Weimar, a democracia e as suas instituições estão desgastadas e impotentes, a começar pelo Parlamento. Existe a percepção (e a realidade) que o país é mandado do exterior, seja por "agiotas", na versão do BE, seja pelos "mercados" na versão da direita. A crise económica e social não se revela nas notas de 1.000.000 de marcos, nem nos selos com sobrecargas sucessivas para resistir à inflação galopante, mas num euro cada vez mais forte para o cidadão comum.

A prostituição cresce nas páginas dos jornais e nos espíritos. A fome é muita, os bens são escassos, os empregos não abundam, e somos todos primos uns dos outros. O reino das cunhas mantém-se intacto. Cunhas, patrocinato, obediência, silêncios, respeitinho, "gestão de carreiras". Nos partidos políticos que têm lugares para oferecer, é a lei de ferro. As oligarquias partidárias e os grandes interesses estão demasiados habituados ao tráfico de influências e à corrupção, que arrastam atrás de si a imagem da gente honesta para a mesma lama. "Eles são todos uns ladrões".» (...)

07 fevereiro 2011

sexos há 2, "géneros", 5

No Público de sábado, 5 de Fevereiro, Pedro Vaz Patto:

(...) «O sexo representa a condição natural e biológica da diferença física entre homem e mulher. O género representa uma construção histórico-cultural. Há apenas dois sexos: o masculino e o feminino. Há cinco géneros (ou até mais, de acordo com outras versões): o heterossexual masculino e feminino, o homossexual masculino e feminino e o bissexual. 

O sexo é um facto empírico, real e objectivo que se nos impõe desde o nascimento. A identidade de género constrói-se através de escolhas psicológicas individuais, expectativas sociais e hábitos culturais, e independentemente dos dados naturais. Para estas teorias, o género assim concebido deve sobrepor-se ao sexo assim concebido. 

E como o género é uma construção social, este pode ser desconstruído e reconstruído. As gender theories sustentam a irrelevância da diferença sexual na construção da identidade de género e, por consequência, também a irrelevância dessa diferença na relações interpessoais, nas uniões conjugais e na constituição da família. 

Daqui surge a equiparação entre uniões heterossexuais e uniões homossexuais. Ao modelo da família heterossexual sucedem-se vários tipos de "família", tantos quantas as preferências individuais e para além de qualquer "modelo" de referência.» (...)

«Pretende-se impor esta ruptura desde cima, desde as instâncias do poder. Ela não surge espontaneamente da sociedade civil e da mentalidade corrente. 

Pretende-se transformar através da política e do direito essa mentalidade. E o que está em causa não é um aspecto secundário, mas referências culturais fundamentais relativas à relevância da dualidade sexual. 

Admitir que a Lei sirva propósitos destes, numa pretensa engenharia social, revela tendências mais próprias de um Estado totalitário do que de um Estado respeitador da autonomia da sociedade civil.» (Público, 5 de Fevereiro)

06 fevereiro 2011

Fazer

 


O problema da maior parte dos nossos políticos que enchem a boca com o discurso do "estado social" é que não sabem o que é prestar um serviço gratuitamente a quem está ao seu lado. Esta é talvez a maior diferença entre os políticos de agora, com grande dificuldade em aderir à realidade, e a primeira geração de políticos do pós 25 de Abril, como Ernâni Lopes, Sá Carneiro, Amaro da Costa ou António Guterres, com uma enorme sensibilidade social.

(...) «Dedicar livremente uma parte do nosso tempo a prestar um serviço, seja ele qual for, à comunidade é uma experiência fundamental para qualquer homem ou mulher.
O desafio que este ano propõe é para todos e devia ser mais do que um discurso para a classe política.
 
 
O voluntariado que fizeram, tal como o que fez Obama, dá aos homens políticos um outro olhar sobre a realidade, permite-lhes falar de coisas que as pessoas reconhecem e tomar medidas mais adequadas. Não é por acaso que nas sociedades mais Nas sociedades evoluídas o voluntariado é uma parte integrante do curriculum.
 
Seria uma aposta ganha se, este ano, em vez de discursos, a nossa classe política decidisse arregaçar as mangas e dedicar algum do seu tempo, gratuitamente, a ajudar quem mais precisa. Quem sabe não encontrariam mais facilmente resposta para a crise.» (Raquel Abecassis, na RR on-line 31-01-2011)

17 janeiro 2011

Elogio do voto coerente

No Público de hoje, Gonçalo Portocarrero:


«O voto numa candidatura sem possibilidades reais de vitória ou a abstenção afiguram-se ser as opções mais coerentes.

Em tempos de eleições presidenciais, legislativas ou autárquicas, é recorrente o recurso ao argumento do voto útil. Na gíria política, entende-se por voto útil a escolha do candidato ou do partido que, mesmo não reunindo as condições que o eleitor desejaria sufragar, é, no entanto, o menos mau dos candidatos com hipóteses de ganhar. Na perspectiva eleitoral, o voto num partido ou candidato que nunca poderá vencer é sempre um voto perdido ou, pior ainda, um voto nas candidaturas que ficariam beneficiadas com a inutilidade prática desse voto idealista.

À medida que se aproxima um acto eleitoral, esfumam-se os axiomas éticos e os princípios, que cedem o seu lugar à pressão das sondagens e das conveniências do momento, quase sempre apresentadas como inadiáveis exigências de salvação nacional. À conta desses pretensos imperativos de ordem pública, engolem-se não poucos sapos e conspícuos cavalheiros travestem-se ideologicamente, em malabarismos de rara acrobacia e discutível moralidade. E quem não se disponibilizar para uma tal cambalhota eleitoral e decidir não vender, nem hipotecar, o seu voto, é certo e sabido que pagará cara a factura da sua verticalidade: à partida é, pelo menos, um utópico e, à chegada do desastrado resultado eleitoral que a sua atitude propiciou, é um cúmplice do inimigo, um traidor.

É sabido que a história do voto útil tem barbas. Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o voto útil funcionou a favor de duas grandes forças extremistas. Quando a Alemanha se encontrava numa muito delicada situação interna e externa, os nazis apareceram como a força mais eficaz para deter o triunfante bolchevismo, que ameaçava a liberdade alemã e europeia. É certo, em termos históricos, que muitos dos apoiantes de Hitler o fizeram à conta do voto útil: mesmo não concordando com as teses nazis, entenderam que essa era a única força política capaz de deter o comunismo internacional e, por isso, deram-lhe o seu voto. Em sentido contrário, o voto útil também funcionou a favor do bolchevismo que, para muitos antinazis, parecia ser o mal menor ou, pelo menos, a única estrutura partidária com força suficiente para se opor, com eficácia, ao nacional-socialismo. Mas é óbvio que tanto uns como os outros, quer votando de olhos fechados em Hitler, quer dando o seu contrariado voto aos seguidores de Estaline, favoreceram as respectivas tiranias e votaram contra a liberdade, a democracia e o bem comum. Os seus votos foram úteis, sem nenhuma dúvida, mas para o mal.

Não é só na vida privada que o crime não compensa, porque também na vida política essas leviandades pagam-se caras, como sabem os que sofreram a ditadura nazi na Alemanha, ou os que padeceram os horrores do comunismo na Rússia e nos outros países que também viveram, ou ainda vivem, sob a ditadura do proletariado. Na realidade, tanto os que sufragaram Hitler como os que apoiaram Estaline perderam, porque a vitória moral e política foi daqueles "inúteis" que souberam privilegiar uma atitude de coerência ética, sem se deixarem intimidar pelos falsos argumentos de uma suposta utilidade nacional ou internacional.

Se, por absurda hipótese, houvesse que escolher entre Estaline e Hitler, seria caso para dizer que venha o diabo e que escolha porque, por mais útil que fosse votar em Hitler, para que Estaline não pudesse ganhar, ou votar em Estaline, para que Hitler não saísse vencedor, seria sempre uma escolha dos diabos. E a quem o não seja, só lhe resta uma hipótese digna: não votar em nenhum dos dois, por mais inútil que uma tal atitude pudesse parecer.

Em Portugal, Hitler e Estaline não vão a votos, felizmente, e portanto é moralmente lícita a votação num candidato que, mesmo sendo defectível, é o menos mau dos possíveis ganhadores. Mas o voto numa candidatura sem possibilidades reais de vitória ou a abstenção, quando são escassas as garantias de idoneidade moral dos prováveis eleitos, afiguram-se ser as opções mais coerentes para quem, na sua vida pessoal e na sua actuação pública, não se pauta por conveniências contingentes, mas por princípios e valores permanentes.»
(Gonçalo Portocarrero, Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia. Vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF))