«Marine Le Pen surpreendeu nas eleições em França. Os 20% da candidata da Frente Nacional deixaram a generalidade da imprensa europeia em choque. Mas será que este choque higiénico nos serve alguma coisa para compreendê-la? Dizer que Marine Le Pen significa o regresso da "extrema-direita", da "ameaça fascista" ou da "xenofobia" na Europa pode funcionar como dramatização e apelo à memória. Mas passa ao lado das verdadeiras causas. Os trabalhadores votaram em Marine Le Pen. Porquê? (...)
Foi a França que criou as categorias políticas a que nos últimos 200 anos temos vindo a chamar esquerda e direita. Mais, foi em França que as múltiplas correntes da esquerda e da direita se encontraram num laboratório de ideias e experiências.
Foi a França que criou as categorias políticas a que nos últimos 200 anos temos vindo a chamar esquerda e direita. Mais, foi em França que as múltiplas correntes da esquerda e da direita se encontraram num laboratório de ideias e experiências.
Por isso, quando ouvimos Marine Le Pen dizer "nós explodimos o monopólio dos dois partidos, dos bancos, das finanças e das multinacionais", só por falta de cultura política se pode pensar que este pensamento contra as finanças e contra as multinacionais é apanágio das esquerdas
(...) no pensamento continental, a direita francesa foi sempre a que mais activamente recusou a economia como categoria fundante do político.
A recusa do "império da economia" permite-lhe mais facilmente conquistar o voto dos jovens precários, dos insatisfeitos e dos trabalhadores.
A recusa do "império da economia" permite-lhe mais facilmente conquistar o voto dos jovens precários, dos insatisfeitos e dos trabalhadores.
(...) o apelo ao patriotismo económico e a formas de proteccionismo hábil contra a concorrência desleal dos países com mão-de-obra barata e empresas deslocalizadas é exactamente aquilo que os trabalhadores querem ouvir. Entra num território importante para a esquerda. Nenhum político lhe pode ser indiferente.
Além disso, este foi o discurso de uma mulher divorciada, mãe de três filhos, que conhece o mundo do trabalho e nunca se desviou de uma linguagem simples e eficaz.
Além disso, este foi o discurso de uma mulher divorciada, mãe de três filhos, que conhece o mundo do trabalho e nunca se desviou de uma linguagem simples e eficaz.
O sucesso de Marine Le Pen representa a ascensão de uma direita radical de colarinho branco que, por todas as formas sofisticadas, tentará tirar partido da enorme ânsia de protecção e segurança dos cidadãos nacionais.
Aquilo que estes dramaticamente pedem ao Estado é que os proteja. Da economia, da Ásia, dos outros. Ausente algumas décadas, o proteccionismo está de volta.» (Pedro Lomba, no Público, de 24 de Abril)