Jornal de Negócios

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19 junho 2013

Filmes sobre fenómenos extraordinários ...

Os reclusos de Guantánamo vivem num espécie de limbo legal, sem os direitos dos prisioneiros de guerra nem os dos presos comuns: Murat Kurnaz, um jovem turco-alemão, esteve internado quase cinco anos no campo de prisioneiros de Guantánamo. 

Submetido a tortura e isolamento, Kurnaz reitere uma e outra vez a sua inocência; finalmente é libertado sem ter feito nenhuma confissão.

"Depois dessa época, aprendi a valorizar as coisas simples, como poder usar meias contra o frio." ...

Quem entra numa prisão destas, sem ser terrorista, pode sair terrorista. No entanto Murat Kurnaz,  não ficou com nenhum sentimento de vingança ... Porquê?


Realizador:Stefan Schaller. Argumento: Stefan Schaller. Intérpretes: Sascha Alexander Gersak, Ben Miles, Marc Hodapp.

06 junho 2013

IRS (Impossível Resistir nesta Situação) ...

Helena Sacadura Cabral, no seu blogue
: (...) «desse trabalho anual, sete meses vão para o Estado, governo, o que seja, sem sombra de retorno.
Finalmente a cigarra é que tinha, mesmo, razão e La Fontaine, cheio de boas intenções, só nos enganou. Qual formiga, qual carapuça! »

17 outubro 2012

Más companhias

(...) «Os povos só têm duas formas de se manifestar em democracia: pelo voto e pela palavra. Esta última, na rua, desde que seja isso mesmo, ou seja com a garantia de que é uma expressão colectiva de desagrado, de mal estar, sem recurso a qualquer tipo de violência.


Estou de acordo com Silva Lopes quando diz que uma boa parte do que nos está a acontecer é fruto da política europeia e que se houver manifestações contra elas irá para a rua. Eu também.


A enorme, diria mesmo, desbragada falta de solidariedade do velho continente é algo que a mim não surpreende. A construção do projecto de uma Europa Unida e não federada é uma utopia cujas consequências estão à vista. Nem esquerda, nem direita saem bem na fotografia.
E nós, que só pensamos em ser bons alunos, mesmo que a matéria não nos interesse, vamos pelo mesmo caminho. Este obtuso Orçamento como pano de fundo da crise interna é bem a prova disso!» (...) (Helena Sacadura Cabral, no Fio de Prumo)

Por outro lado, é o próprio FMI a reconhecer que a estratégia está errada para Portugal ...

25 julho 2012

África: promessas quebradas

Livro do médico e investigador da SIDA, Edward C. Green, Broken Promises explica com dados e números porque é que a epidemia de HIV / SIDA continua a grassar em África, apesar dos orçamentos milionários das campanhas de ajuda ...
Um resumo aqui, a propósito da conferência de Melinda Gates, em Londres.

It´s the economics :-(

19 junho 2012

Mudar de sistema

No i de economia:
«Muhammad Yunus, prémio Nobel da paz e mentor do microcrédito, deixou no Brasil, onde participa na conferência Rio+20, um alerta sobre o falhanço da luta contra a pobreza. «Tornámo-nos uma espécie de robôs de fazer dinheiro», acusa, numa altura em que ele próprio vê ameaçado o seu projeto mais emblemático, o Grameen Bank.

«A estrutura económica básica que temos hoje não contribui para acabar com a pobreza. Foi essa estrutura que criou a pobreza, e ela não pode solucioná-la.» (...)

«O sistema atual é fortemente baseado no dinheiro, tudo gira em torno de fazer dinheiro. Tornámo-nos uma espécie de robôs de fazer dinheiro. Esquecemos que somos seres humanos. O dinheiro é parte das nossas vidas, não é a nossa vida.» (...)

«Quando percebermos isso vamos ser capazes de resolver as coisas» (...)

"Quem quer matar o Serviço Nacional de Saúde?"


07 junho 2012

Como adaptar-se às novas formas de trabalho e emprego

A Mudança, ensaio de Lynda Gratton
A Mudança: O futuro do trabalho já chegou é um ensaio, escrito por Lynda Gratton, que coordenou a colaboração de cerca de duzentos participantes de todo o mundo, de 21 empresas. 

O livro descreve muitos casos práticos que refletem as variadísismas formas (de sucesso) no trabalho atual.
 Rigoroso e acessível mesmo ao leitor pouco habituado ao tema.

02 abril 2012

A "luta" da JSD ...

«a luta da JSD é contra quem tem emprego e a favor dos despedimentos, o resto é fantasia ideológica.» (...)
Escrito por J. Pacheco Pereira, e publicado na revista  Sábado.

Dava jeito que os j´s começassem a pensar (depressa). Há um enorme risco de que grande parte da vida política se reduza ao vácuo de tipo "socrático": muito ruído, muito foguetório e zero conteúdo.

05 março 2012

Para pensar

(...) «Os cortes atuais em educação ou saúde não são obra de um maléfico génio neoliberal que quer destruir as bases do Estado Social. São a consequência de não ter existido vontade de enfrentar realidades incómodas. Mas nesta conjuntura, já não pode haver desculpas para não nos interrogarmos sobre como gastar melhor, em vez de gastar mais.» 

(Em aceprensa.pt, "Os cortes como cura de emagrecimento")

06 fevereiro 2012

Escolhas coletivas

«O acordo de concertação social assinado no dia 18 é um documento decisivo da nossa história recente. Isto só se entende considerando a essência desta crise.


Muitos tomam a recessão mundial como financeira, acusando dela bancos e agências de rating. Têm razão, mas esquecem que países com crescimento sólido, como Irlanda, Bélgica e Reino Unido, não são incomodados apesar de dívidas maiores que a nossa. O fundo do problema é pois económico e social.


O desenvolvimento que o mundo vive desde a revolução industrial tem tido várias fases. Esta é dominada por dois choques principais, a expansão da China e Índia e a revolução informática. Estes avanços criaram um dos momentos mais maravilhosos da humanidade, com enorme progresso e redução espantosa da pobreza mundial. Como não há almoços grátis, este desenvolvimento tem custos, alargando o fosso de rendimentos no Ocidente, de onde sai a recessão e a dívida.


Os mecanismos são evidentes Os trabalhadores chineses concorrem com o trabalho não especializado na Europa e EUA, enquanto a sociedade da informação elimina empregos de escritório e beneficia efusivamente o talento na gestão, arte, finanças, desporto, computação, etc. Isto espreme os salários baixos, reduz os lugares intermédios e premeia alguns ricos. As dificuldades de crescimento vêm da reestruturação económica imposta pelo mercado global, enquanto o endividamento surge de políticas e expedientes para amaciar a vida dos m
ais atingidos. Foi o incentivo político à aquisição de casa pelos pobres que criou o subprime nos EUA.
A questão decisiva deste tempo é, portanto, social.

Portugal é um caso paradigmático. Na "década perdida", além da estagnação ser disfarçada pela dívida externa que agora nos arruína, íamos caindo numa das maiores desigualdades europeias, como mostram estudos recentes. Mas é preciso ver que esses estudos têm dados anteriores à troika, que está cá só há dez meses. O fosso entre ricos e pobres só pode resultar de quinze anos de políticas socialistas, que diziam defender os trabalhadores, combater a pobreza e construir a sociedade justa.

Este aparente paradoxo é compreensível ao notar que as tais políticas bem intencionadas acabavam por usar os impostos de todos (sobretudo pobres) para beneficiar certos grupos, próximos do Estado. Os últimos anos reforçaram o processo, pois a crise começou em 2008, com falências e desemprego, mas funcionários e pensionistas estiveram incólumes três anos, até à chegada da troika.


O terrível choque no Ocidente, como em Portugal, impõe difícil ajustamento para recuperar uma sociedade justa e dinâmica, adaptada ao novo mundo global. Isso exige medidas sérias e equilibradas das elites e governos, para eliminar privilégios, combater a corrupção, apoiar os pobres, flexibilizar a economia. Mas exige também da sociedade serenidade e solidariedade, suportando os inevitáveis sacrifícios sem perder o rumo.


Percebe-se perfeitamente a irritação das populações pela austeridade e perda de direitos exigida na flexibilização. Revoltas, greves e subida dos radicalismos, bom como sonhos de revoluções e sociedade ideal, são compreensíveis. Robespierre, Marx e Lenine viveram tempos destes e hoje a Grécia envereda pelo mesmo rumo violento. Mas a reacção brutal trouxe sempre o desastre.
Existem alternativas, como a serena "revolução dos cravos".

Comparada com casos paralelos, nacionais e estrangeiros, o 25 de Abril destaca-se pela sensatez. Em particular, na confusão revolucionária de 1974-75 os salários reais subiram 10% acumulados, estrangulando a economia. Em seguida aconteceu algo único na história: um país democrático, com sindicatos livres, teve o patriotismo de suportar uma queda acumulada de 12% nos salários reais de 1976-79, recuperando o equilíbrio.

O choque social destes anos será terrível. O nosso futuro depende de Portugal cair na revolta, como Marx sugeria e a Grécia mostra, ou enfrentar as dificuldades com força e serenidade. O acordo de dia 18 prova que ainda está vivo o espírito de Abril.» (J. César das Neves, DN dia 6)

16 novembro 2011

maniqueismos (social-democratas)

(...) «Se começamos a considerar que justos só são os absolutamente pobres, e que tudo por aí acima são privilegiados – um típico ponto de vista de quem está “por aí acima” - caminhamos para a visão da sociedade que tinha António de Oliveira Salazar. Que abominava as greves, como se sabe.»
(J. Pacheco Pereira, no Abrupto)

11 novembro 2011

Quem explica?

«transformar o empobrecimento numa perspetiva estratégica de solução para um País que precisa de mais riqueza é um absurdo» (Carvalho da Silva, secretario-geral da CGTP, ao Sol)

27 outubro 2011

Sair do armário

(...) «Afinal, os armários estavam cheios de esqueletos. Temos de pagar a factura de anos e anos de irresponsabilidade na utilização do nosso dinheiro. Por isso, quem realmente nos vai agora ao bolso não é o actual Executivo, mas aqueles que, no passado mais ou menos recente, gastaram o dinheiro dos contribuintes como se ele caísse das árvores» (...

«Acontece que, no próximo ano, em princípio, já não será permitido a Portugal o recurso a medidas extraordinárias, aquelas que só valem uma vez. Por isso o Orçamento para 2012 é muito mais violento do que a troika e o próprio Governo previam há três meses. É que ficar pelos 4,5% do PIB, a meta para 2012, significa baixar para quase metade o défice real de 2011.

Justifica-se a brutalidade? Não irá a recessão ser mais profunda do que o Governo prevê (queda de 2,8% do PIB), reduzindo a receita fiscal e provocando uma espiral austeridade/recessão/défice maior/mais austeridade, como acontece na Grécia e, em menor grau, já se nota por cá?

É, de facto, um risco a espiral austeridade/recessão. Mas não o correr – isto é, falhar em 2012 a meta do défice – não seria um risco, mas uma desgraça garantida. Perderíamos a confiança das instituições que nos apoiam (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), bem como dos mercados. O Estado ficaria imediatamente sem dinheiro.» (...)

«Tem sido apontado como exemplo negativo das receitas da troika o caso da Grécia, que o é, de facto. Mas a intervenção da troika na Irlanda está a resultar, apesar da forte austeridade a que os irlandeses foram sujeitos desde há quase dois anos. É certo que o problema irlandês não foi de falta de competitividade, mas de ‘bolha’ imobiliária e loucura bancária. Mesmo assim, serve para desmentir que as intervenções do FMI, do BCE e da CE estão necessariamente condenadas ao fracasso.» 

(Sarsfield Cabral, Sol)

20 outubro 2011

Governar "à Sócrates"

(...) «Lançar o odioso sobre os funcionários públicos é  uma política à Sócrates. 
 
Sócrates na sua fase de "controlo do deficit"  também fez o mesmo, colocando juízes e magistrados contra o "povo", professores contra o "povo", "médicos" contra o "povo". 
 
O caso dos professores  foi paradigmático: alienou os sectores da classe favoráveis à reforma, mesmo que minoritários, colocando-os do lado dos que recusavam qualquer alteração, gerou uma forte consciência corporativa e tornou as escolas ingovernáveis. Colocar os funcionários públicos como um alvo gera exactamente os mesmo efeitos.» (...) (J. Pacheco Pereira, Abrupto)

17 outubro 2011

Levar na cabeça

JPP, no abrupto
«O martelo-pilão abateu-se outra vez sobre os portugueses sob a forma habitual, impostos, aumentos de preços e reduções de salários.

De cada vez que se espera que seja a última, há sempre mais uma. Por isso, a coisa mais fácil de vaticinar é que esta não será a última, e se calhar nem será a mais gravosa.

Não só muitas marteladas estarão escondidas no que ainda se desconhece no Orçamento, como se está a caminhar para um ciclo de muito difícil saída.

O que de mais gravoso o primeiro-ministro escondeu na sua declaração, mas que o seu ministro das Finanças está a dizer sob reserva aos partidos, é que uma parte do descalabro orçamental deste ano e do previsível para o ano já não vem dos "buracos", mas da quebra de receitas do Estado, que torna o aumento dos impostos em grande parte ineficaz.

Ou seja, estamos a entrar num ciclo vicioso que se pode aguentar um ano ou dois e, em seguida, ficamos "gregos".» (...)

«Dito isto, a única margem de manobra previsível será ter cumprido a nossa parte de um acordo que nem é bom, nem virtuoso, mas que nos dá um espaço de sobrevivência e, se for cumprido, um espaço de negociação. Esse espaço não depende só de Portugal, mas aí é que se vai ver o que o Governo pensa e propõe sem ser em estado de absoluta necessidade. Só de necessidade.» (...)

08 setembro 2011

"Cada um acha que as suas acções não afectarão os demais"

Wolfgang Munchau, citado no Economia & Finanças (artigo original do Finantial Times, traduzido no Diário Económico):
 
 
(...)«E como é típico na zona euro, cada país comporta-se como uma qualquer pequena economia aberta no outro extremo do mundo. Cada um acha que as suas acções não afectarão os demais.

Mas quando a França, Espanha e Itália contraem as suas posições orçamentais ao mesmo tempo, juntamente com a Grécia, Portugal e Irlanda, o resultado é uma contracção orçamental coordenada. Apesar de alguns destes países terem um problema orçamental, a zona euro no seu todo não. O rácio da sua dívida face ao PIB é mais baixo do que o dos EUA, Reino Unido ou Japão. Se a zona euro tivesse passado para uma união orçamental há alguns anos atrás, o seu ministro das Finanças estaria agora em posição de agir. Em vez disso, o actual sistema de políticas não coordenadas conduziu a uma austeridade contagiosa e um abrandamento contagioso.

Isto porque, enquanto não houver união orçamental, os Estados membros da zona euro não terão outra opção que não seja coordenarem-se entre si. 
 
Eu iria mais longe e defenderia um estímulo orçamental na Alemanha, Holanda e Finlândia para compensar a austeridade no Sul da Europa. 
 
O que importa é a posição orçamental da zona euro no seu todo. Existe ainda pouco reconhecimento nas capitais da zona euro de que o abrandamento económico constitui uma ameaça à existência da mesma. E acho que este abrandamento económico vai atingir fortemente a zona euro sem que esta se possa defender. E quando isso acontecer, a crise da zona euro vai acentuar-se e as coisas vão ficar muito feias.”» (...)

21 agosto 2011

mais lucidez ...

No sitio do feroz Sindicato Independente dos Médicos, pode ler-se:

«19-08-2011 Por: Carlos Arroz
Durante meses fomos bombardeados com uma lógica ideológica causa efeito irrefutável: a esquerda defende o SNS, a direita, através da privatização, apenas pretende desmantelá-lo.
Durante anos assistimos a juras ao SNS e a um imobilismo estúpido. Qualquer tentativa de mudança por via de racionalização de recursos ou de oferta de serviços era entendido como um ataque ao âmago, ao sagrado. Venderam-se loas e martelaram-se números. Esconderam-se défices obscenos. Mentiu-se descaradamente sobre a falência dos Centros de Saúde e o avassalador crescimento de utentes sem acesso a Médico de Família. Chutou-se borda fora a experiência e a competência dos médicos portugueses em troca de indiferenciados da América Latina. Susteve-se reforma para não atrapalhar candidaturas a deputados de quem deveria ser executivo.

Agora um Governo de coligação de partidos à direita do espectro político e um Ministério da Saúde onde pontificam, segundo a imprensa, homens conotados com a Opus Dei, ambos zelosos no cumprir de compromissos rubricados com entidades financeiras e políticas internacionais, decidem, em dois singelos meses:
- acabar com a experiência das PPP na área da Saúde e reavaliar as existentes
- racionalizar a capacidade instalada no SNS quanto a Meios Complementares de Diagnóstico e Terapêutica, dando uma machadada de dimensões ainda difíceis de calcular nos convencionados
- fazer um cerco à prestação de serviços no SNS
- introduzir Normas de Orientação Clínica
- obrigar à redução das horas extra o que levará, obrigatoriamente, ao encerramento e fusão de serviços, incluindo Urgências
Não sabemos o que se seguirá embora o guião seja conhecido.
Todas as medidas listadas defendem objectivamente o SNS e foram tomadas por quem foi acusado de o ir destruir.
Conhecem, na História recente, maior ironia ideológica?»

08 agosto 2011

A UE na visão de JPP


(...) «A culpa não é da senhora Merkel, nem dos tenebrosos senhores da Moody"s, mas de todos os que fecharam os olhos a um alargamento rápido e que ninguém estava disposto a pagar (na Polónia, por exemplo), a fraudes consentidas como os mil e um truques que países como a Grécia e Portugal aplicavam nas suas contas públicas, na aplicação dúplice do critério dos 3% de défice, ou nas habilidades que a França fez e faz para manter o controlo nacional sobre as suas grandes companhias estatais e para-estatais. Nós vamos acabar com as golden shares, e abrir as privatizações completamente ao exterior, mas nem a França, nem o Reino Unido, nem a Alemanha o fazem. Todos sabiam que a dracma não estava em condições para entrar para o euro, mas fecharam os olhos. Todos sabiam que havia países no centro e leste da Europa que não tinham (e não têm) sólidas instituições democráticas, sistemas judiciais independentes, imprensa livre e independente do poder. Todos sabiam e sabem que não pode haver diplomacia que conte, sem forças armadas, mas avançaram com o Serviço Europeu de Acção Externa, e diminuíram drasticamente os seus orçamentos de defesa. Todos querem uma Europa "forte", mas nos momentos decisivos são os EUA e o braço transatlântico da OTAN que têm o músculo que faz a diferença. É por isso que a Europa acaba por ter que traduzir, muitas vezes mal, as opções dos EUA, que tendem a ser geoestratégicas, mas são difíceis de compatibilizar com a lentidão de um projecto que vai mais longe do que a segurança comum. Eles pensam OTAN, nós fazemos NAFTA. E, por fim, todos sabiam que o modelo de uma Europa que tende a corresponder às suas fronteiras geográficas tem que ter uma política para a Federação Russa, para a Turquia e para o Médio Oriente, e não tem. Só bavardage e asneiras, que tornaram a Europa anti-israelita, empurraram e empurram a Turquia para o instável mundo islâmico e convivem mal com uma Rússia que, pouco a pouco, retoma a diplomacia tradicional das suas áreas de influência.

A única salvação da UE é andar para trás, e não acelerar para a frente. É voltar, se ainda é possível, a um terreno mais sólido de equilíbrio e igualdade nacional, garantindo que todos os países possam ver os seus interesses nacionais vitais protegidos, abandonar a retórica do upgrade europeu (que agora calha bem para os países pobres que estão do lado do receber, se houver federalismo orçamental) e explorar os modelos de consenso que funcionaram bem até à década de 90, mas que se esfacelaram na engenharia política europeísta.» (JPP, no Abrupto)

13 abril 2011

Existir

Pascal afirmava, em estilo de provocação, que o ser humano é tão idiota que, se lhe repetirmos que é idiota, ele acabará por acreditar nisso ...

 Podemos dizer o mesmo de muitas outras etiquetas com que podemos rotular, não só os outros, como a nós próprios.

Olhando os últimos cem anos de história, veremos que houve quem se atrevesse a dizer que havia seres humanos "superiores" e "inferiores", e que, desgraçadamente, houve quem acreditasse. O desprezo pelas outras "raças" levou a guerras suicidas, na Alemanha e no Japão, e a derrotas terríveis.

Outros, com mais refinamento, e sem usar altifalantes para agitar as massas, convenceram os intelectuais, os médicos e os psicólogos, de que o homem não passava de uma estrutura com apenas dois instintos básicos: a morte e o sexo. Freud arrebanhou milhões de homens e mulheres que aceitaram ser apenas indivíduos fragmentados entre o Eu, o Inconsciente e o Super Eu, e que procuraram com determinação a "unificação" destas partes na libertação do sexo e do oculto que se escondia neles.


Outros ainda, com o volumoso livro de "O Capital" de Marx debaixo do braço, convenceram massas imensas de gente de uma única "grande verdade": a economia é o que determina todas as formas de pensamento, da arte à religião, passando pela política. Com este dogma procuraram criar um paraíso na terra e acabaram a semear o planeta de milhões de mortos,  entre guerras absurdas e assassinatos para eliminar os "reaccionários", ou simplesmente mortos de fome pelo mau funcionamento da economia comunista.

Houve ainda quem se empenhasse em exaltar a liberdade. Liberdade que, por si mesma, traria um maior poder de aquisição porque o que de melhor o homem poderia fazer - dizem eles - é consumir e desfrutar. Os defensores do liberalismo inundaram o mundo de ilusões, mas não eliminaram as enormes injustiças com que o novo século se continua a defrontar. Também não conseguiram saciar este ser humano inquieto que, contra todas as previsões, se mantém insatisfeito, caindo no desespero e até no suicídio, mais frequentes nos países ricos, carregados de prazeres e liberdades.


A neste momento, como nos vemos a nós próprios? O que é que nos dizem sobre o ser humano aqueles que carregam consigo a cultura, a ciência e os meios de comunicação de massas?

É difícil fazer uma síntese de todas as vozes que pretendem ter descoberto o segredo do nosso misterioso existir. Para alguns, somos simplesmente como um cancro do planeta que seria preciso eliminar (não falta quem esteja disposto a isso em muitas maternidades do mundo).

Para outros, somos apenas sedentos de prazer, e não faltarão cada vez mais produtos, novos e sofisticados (drogas incluídas) para nos satisfazer em tudo quanto peçamos (desde que tenhamos dinheiro, claro).

Há até quem diga que somos apenas um sistema computorizado que caiu na esparrela de julgar que pode decidir livremente. Por isso, para nos "corrigir" deste "erro", eles terão que nos ajudar (isto é, terão que nos programar) para que passemos a ser "bons", isto é, a obedecer ao programa e aos programadores.

Há ainda quem ache que somos apenas um absurdo: como dizia Sartre, nascemos por erro, vivemos por inércia e morremos de aborrecimento ...
 
Para a maioria das pessoas, somos um mistério, mas um mistério impossível de decifrar. Um mistério que começou porque um homem e uma mulher se amaram; que continuou, porque houve outros que nos acolheram e nos aceitaram. E agora continua. Continua, não porque o mero peso dos anos nos empurre para sobreviver, ou  apenas a ir e vir do emprego, ou a gastar tempo com a tv. Continua e caminha porque ama os que dele dependem, pais, filhos, mulher, marido, amigos, colegas de trabalho ... Só o amor consegue extrair o sentido de tantos momentos de cansaço, e de dor, que só valem na medida em que nos fazem crescer na capacidade de dar aos outros.

Às pessoas do milénio que acabou, e às do milénio que começou, é preciso repetir - hoje como sempre - que  o seu valor tanto quanto o amor que tiverem.

Se o repetirmos (aos outros, e a nós próprios), talvez consigamos entender que não somos apenas uns pobres idiotas, mas alguma coisa mais. 

Talvez então tenha, finalmente, aquele brilho que permite acolher todos os outros que, também, começaram a viver a partir do amor, e para o amor.»

.Comentarios para o autor fpa@arcol.org, do livro "Abrir Ventanas al Amor", de Fernando Pascual.