Jornal de Negócios

29 dezembro 2005

Um dia na vida de um neurocirurgião


Sábado, Ian McEwan
(Gradiva)

Parecia um dia como outro qualquer, na vida de um próspero neurocirugião. Até que teve um pequeno acidente de automóvel. O outro condutor reage de uma forma desproprocionada. O seu treino de médico diz-lhe que está perante alguém com uma doença mental. Consegue fugir-lhe, mas as coisas vão-se complicar cada vez mais. Fugirde um pequeno delinquente pode ser tão difícil como evitar o 11 de Setembro ou a guerra do Iraque - assim acaba por descobrir o nosso personagem super moderno e super racionalista.

26 dezembro 2005

L´ Esquive - Como esquivar o amor

Óscar do cinema francês - L' Esquive (A Esquiva)

Arredores de Paris, alunos de uma escola, na maioria oriundos do Norte de África, ensaiam uma peça de Marivaux (Jogos de Amor e Fortuna). Krimo apaixona-se por Lydia e aproveita o personagem da peça para declarar o seu amor.
A adolescência revisitada. Cinema social do realizador tunisino Abdellatif Kechiche. Para sonhadores... Desempenho fresco das jovens actrizes Sara Forestier e Sabrina Quazani.
Prémio de melhor filme e melhor realizador, 2005. Prémio de melhor actriz revelação e melhor guião.
Realizador: Abdellatif Kechiche. Guião: Abdellatif Kechiche, Ghalya Lacroix. Intérpretes: Osman Elkharraz, Sara Forestier, Sabrina Quazani, Nanou Benahmou, Hafet Ben-Ahmed, Aurélie Ganito, Carole Franck, Hajar Hamlili, Rachid Hami, Meriem Serbah. 117 min. Classificado para jovens e adultos.

20 dezembro 2005

O top da sociedade de mercado: vender-se


Podemos considerar erradas as transacções efectuadas entre adultos capazes? Mesmo que as achemos degradantes?

Uma mulher tem preço. Em Londres, custa 150 a 400 libras. Este custo não depende só do tipo de "serviço": incorpora outros "investimentos" como, por exemplo, o dinheiro pago pelo chulo pela mulher (geralmente uma rapariga jovem).

O preço de uma mulher na Europa de Leste pode ir até às 1300 libras. Geralmente são compradas por organizações que lhes prometem emprego como empregadas de bar ou dançarinas.

Na Alemanha, país em que a prostituição se encontra legalizada, a Taça do Mundo está a criar grandes expectativas nas "empresas" de sexo. A polícia, e muitos cidadãos, preocupam-se com o que isso pode significar em relação ao tráfico de pessoas.

Têm sido detectada grande atividade criminosa, nesta matéria, em países como o Sudeste Asiático, o Japão, a Austrália, a China, Hong Kong, etc. Estima-se que existem cerca de 12 milhões de pessoas em trabalho escravo, em todo o mundo, e que 2 milhões e meio estão na posse de redes de tráfico de pessoas. Esta actividade movimenta anualmente cerca de 10 biliões de dólares. Metade destas pessoas são vítimas de prostituição forçada.


Nem todas as mulheres que se prostituem o fazem sob coacção física. Mas a questão do tráfico de pessoas, actualmente, representa apenas um problema do momento, ou é a continuação da cultura que encara a prostituição como uma actividade mais? Será que uma coisa resulta da outra?

Há quem diga (The Economist, por exemplo) que qualquer tentativa de ligar as duas coisas é apenas um terrível preconceito moralista: “Dois adultos entram num quarto, combinam entre si um preço, têm sexo. Onde está o crime? O sentido comum diz que não existe crime: o sexo não é ilegal; o facto de ter havido troca de dinheiro não transforma um acto privado numa ameaça pública. Se ambas as partes estão de acordo, não se consegue ver onde está a vítima."
O jornal acrescenta que isto é apenas mercado livre. Assim pensam por exemplo, os holandeses.

Para quem aprecia o liberalismo económico isto parece evidente. Há até quem sugira que assim se controlaria melhor a violência e a exploração das mulheres.

Mas é precisamente aqui que esta estratégia tem falhado. Não só aumentou o crime organizado e o tráfico de pessoas, como outras actividades marginais (como o tráfico de droga) floresceram nas zonas de prostituição legalizada da Austrália, bem como o abuso de menores.


Os defensores do modelo dizem que o problema foi que não se avançou o suficiente na liberalização: é preciso mais abertura. Exigências tais como o registo das prostitutas estragam o mercado.

Esta nova visão levou ao aparecimento de bordeis "de marca". Em Berlim, um empreendimento de 5 milhões de €, 3000 metros quadrados de contrução, com capacidade para uma centena de prostitutas e cerca de meio milhar de clientes, publicita que apenas mulheres inscritas na Segurança Social aí poderão "trabalhar". Apenas a três paragens de autocarro, ficam as instalações que acolherão o Mundial. "Sexo e futebol, pertencem-se", diz o empresário.


Mas a prostituição "livre" é uma frase contraditória. A prostituição é uma forma de escravatura: o tráfico apenas o torna mais óbvio.
Grande parte destas mulheres são imigrantes que fogem da pobreza nos seus países de origem. Para o Partido Feminista espanhol, a legalização da prostituição é como legalizar o abuso sexual. Quando se tenta eliminar o assédio nos locais de trabalho e a violência doméstica, não se pode legalizar uma prática em que tudo isso acontece, diz Sílvia Cuerdas.

Segundo esta feminista, a maioria das mulheres não quer estar nesta situação. Isto mesmo está também expresso em investigações que mostram a maioria destas pessoas presas numa teia de coacção, abuso, desespero e toxicodependência. Na Holanda, 79% das prostitutas desejariam abandonar a actividade.

O perfil da prostituta mostra geralmente alguém com reduzidos graus de liberdade: provêm de famílias com níveis elevados de abuso físico e sexual, baixa escolaridade, absentismo escolar, fugas de casa, toxicodependência. Falar da "livre escolha" destas pessoas é demasiado cínico.


E os "clientes" são apenas gente que escolhe uma relação "livre" numa sociedade aberta?
Não será que estamos perante uma relação em que predomina o domínio, em vez do respeito mútuo entre iguais? Não é verdade que o cliente obtém, por dinheiro, o poder e controle sobre outra pessoa, por algum tempo? Muitos clientes preferem "gente jovem e em situação de dependência, porque são mais dóceis". Assim o referem alguns estudos.


Alguns países que lideraram o processo de descriminalizar a prostituição, como a Suécia, estão actualmente a rever a situação, face ao falhanço da solução.

A legalização não ajudou estas mulheres a libertarem-se, condenou-as a serem exploradas. Como geralmente olhamos para o norte da europa no que se refere a modelos de liberdade sexual, talvez consigamos inspirar-nos.
Se os suecos conseguem perceber que uma mulher que atribui um preço ao seu corpo não é livre, talvez também nós o entendamos.

06 dezembro 2005

"Beware of Sugar Daddies"

Em África, sobretudo a sul do Saara, as taxas de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) são francamente superiores nas raparigas, em vez dos rapazes, ao contrário do que costuma acontecer no resto do mundo.

Grande parte destas adolescentes são infectadas por homens bastante mais velhos, que lhes oferecem dinheiro e presentes, em troca de relações sexuais. São conhecidos por "sugar daddies".

O país africano que, até agora, conseguiu mais êxitos na luta contra a infecção pelo VIH é o Uganda. De facto as taxas de novas infecções têm vindo a descer de uma forma ímpar, como o reconhece a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Fundo para a População e Desenvolvimento das Nações Unidas (UNFPA), a USAID , a UNAIDS ou o AIDS Children´s Fund.
Vale também a pena (re)ler as questões relacionadas com o marketing social e a liderança política (ou a falta dela) no relatório "Missing the message", patrocinado pela OSIDEV (Open Society for Institute Development Foundation), NORAD (Norwegian Agency for Development Cooperation) e pela S.I.D.A. (Swedish International Development Corporation Agency).


Mesmo assim, cerca de 10,3% das raparigas, entre os 15 e os 25 anos, estão infectadas com o VIH. Dos rapazes, do mesmo grupo etário, apenas estão infectados 2,8%.
Para tentar combater esta situação os programas actuais, dirigidos para adolescentes, focam o desenvolvimento de competências para saber dizer não às propostas sexuais dos adultos. Como primeira medida, as escolas apareceram carregadas de cartazes em que um personagem sinistro oferece caramelos a uma rapariga. "Beware of Sugar Dady!", pode ler-se em legenda.

Se queremos realmente travar a epidemia, precisamos de estratégias que lidem com as questões da desigualdade entre homens e mulheres, refere P. Piot, director executivo da UNAIDS. "Precisamos de acções concretas para evitar a violência contra as mulheres, assegurar-lhes questões básicas como serem proprietárias e poderem herdar; oportunidades de acesso à educação e ao emprego, quer para as mulheres, quer para as raparigas".

Em simultâneo as escolas arrancam com programas para desenvolver competências em assertividade, criar expectativas de longo prazo, estabelecer metas profissionais e pessoais nas alunas. O programa é conhecido como "Go-Getters Club" - clube para gente ambiciosa. É um trocadilho com a frase "go ahead" usada habitualmente pelos "sugar daddies".

É também este pequeno país que recebe um rasgado elogio do Alto Comissário para os Refugiados das Nações Unidas, pelo modo como acolhe os seus vizinhos sudaneses que fogem da guerra; ou de Nelson Mandela, pelo modo como encaram o desenvolvimento social.



"O teu melhor amigo não é o que te convence a ires para a cama com ele: é o que se preocupa com a tua educação, o teu emprego e outras coisas da tua vida" - esta frase foi aplaudida nos Camarões, no arranque oficial da campanha "Cross Generation Sex". É mais um país a tentar lutar contra a "cultura do silêncio" em que se considera "normal" que os pais aceitem a relação das suas filhas com os "sugar daddies".

24 novembro 2005

Pois é...

O Mundo ralha de tudo,

Tenha ou não tenha razão,

Quero contar uma história

Em prova desta asserção.

Partia um velho campónio

Do seu monte ao povoado,

Levava um neto que tinha

No seu burrinho montado:

Encontra uns homens que dizem:

"Olha aquela que tal é!

Montado o rapaz que é forte,

E o velho trôpego a pé."

"Tapemos a boca ao mundo",

O velho disse: "Rapaz,

Desce do burro, qu'eu monto,

E vem caminhando atrás."

Monta-se, mas dizer ouve:

"Que patetice tão rata!

O tamanhão, de burrinho,

E o pobre, pequeno, à pata."

"Eu me apeio", diz prudente

O velho de boa-fé,

"Vá o burro sem carrego,

E vamos ambos a pé."

Apeiam-se, e outros lhe dizem:

"Toleirões, calcando lama!

De que lhes serve o burrinho?

Dormem com ele na cama?"

"Rapaz", diz o bom do velho,

"Se de irmos a pé murmuram,

Ambos no burro montemos,

A ver se inda nos censuram".

Montam, mas ouvem de um lado:

"Apeiem-se, almas de breu,

Querem matar o burrinho?

Aposto que não é seu."

"Vamos ao chão", diz o velho,

"Já não sei qu'ei-de fazer!

O mundo está de tal sorte,

Que se não pode entender.

É mau se monto no burro,

Se o rapaz monta, mau é,

Se ambos montamos, é mau,

E é mau se vamos a pé:

De tudo me têm ralhado,

Agora que mais me resta?

Peguemos no burro às costas,

Façamos inda mais esta."

Pegam no burro: o bom velho

Pelas mãos o ergue do chão,

Pega-lhe o rapaz nas pernas,

E assim caminhando vão.

"Olhem dois loucos varridos!",

Ouvem com grande sussuro,

"Fazendo mundo às avessas,
tornados burros do burro!"


A propósito dos comentários à notícia de que a Igreja Católica
não pode "admitir no seminário e nas ordenações sagradas aqueles que pratiquem a homossexualidade, que estejam enraizados em tendências homossexuais ou que apoiem a chamada cultura 'gay"

O velho então pára e exclama:

"Do qu'observo me confundo!

Por mais qu'a gente se mate

Nunca tapa a boca ao mundo.

Rapaz, vamos como dantes,

Sirvam-nos estas lições;

É mais que tolo quem dá

Ao mundo satisfações."

17 novembro 2005

Os olhos do pai e os pulmões da mãe

Celebra-se hoje o dia do não fumador.
Os homens vão (lentamente) deixando de fumar, as mulheres vão (mais rapidamente) aumentando o número de fumadoras. O local principal da iniciação é a escola. A motivação principal é a curiosidade, seguida de "ter algum amigo que fume".

50% das crianças pequenas que estão expostas ao fumo do tabaco são-no em casa ou em locais frequentados pelos pais e amigos (cafés, restaurantes, etc.).
O fumo secundário, o fumo que sai do cigarro pela extremidade acesa - ou mal apagada no cinzeiro - contém ainda mais substâncias tóxicas que a corrente primária de fumo que é retida parcialmente pelo filtro. São uns milhares de produtos, dos quais 40 estão envolvidos no cancro, 2 são radioactivos e 2 são metais pesados. A revista Pediatrics (Joseph diFranza and Robert Lew, Morbidity and Mortality in Children Associated with the Use of Tobacco Products by Other People, Paediatrics, 1996, 97:560-568) considera que esta exposição é responsável por: 13% de otite, 26% de operações ao ouvido , 24% de cirurgias ORL, 13% de casos de asma, 16% de excesso em consultas por tosse, 20% de pneumonias em crianças abaixo de 5 anos.
Cerca de 20 mortes por ano por pneumonia em crianças (dados do Canadá), 15 mortes de crianças por queimaduras em incêndios provocados pelo tabaco (dados do Canadá), cerca de duas centenas e meia de mortes por sindroma de morte súbita do lactente,(id.).
Mesmo que já estejamos anestesiados para tanto sofrimento que grassa no mundo, pelo menos podíamos fazer contas ao défice que irá afundar o Serviço Nacional de Saúde. Talvez não seja isto que resolve tudo, mas qualquer ajuda seria boa. E sempre seria mais produtivo do que dar apenas beijinhos às crianças...

15 novembro 2005

França encurta escolaridade obrigatória


Fiquei a saber por este artigo.
Aguardam-se os próximos capítulos.

Associação de ?estudantes? de Medicina



Num ciclo de conferências, no Porto, o recém-nomeado coordenador nacional da luta contra a sida, o Professor de medicina Henrique Barros, intervém a propósito do tema. O ciclo é organizado pela Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

« O facto de o evento ser patrocinado por uma marca de cerveja mereceu um "puxão de orelhas" aos organizadores. Notando que o consumo de álcool é um dos vários factores de risco relativamente à infecção VIH/sida, Barros considerou "miserável" que a associação de estudantes tivesse admitido tal patrocínio.» (Público, 15 Novembro 2005)

Esta "associação de estudantes" terá algum estudante?! (Sabem o que é? Tipos que estudam?)

14 novembro 2005

Pais inconformistas



Pais responsáveis


Em Madrid, no passado sábado, 1,5 a 2 milhões de pessoas, pais e famílias na maioria, manifestam-se contra o insucesso escolar e a favor da livre escolha da escola pelos pais. É caso para dizer que estes pais prestaram atenção à crítica (habitual) de que os pais se envolvem pouco na escola...

10 novembro 2005

Dois pesos e duas medidas


Pacheco Pereira, Público, 10 Nov. 2005
(...)
«Que a explicação "social" circulante é um passe-partout simplista, torna-se evidente quanto ela se centra na condenação da acção policial, na recusa da criminalização dos actos de destruição e violência, na ênfase na culpabilização do Estado, do Governo e dos políticos, na sucessão até ao infinito das desculpas para o que acontece, como se fosse inevitável que acontecesse. Abra-se um jornal, ouça-se uma rádio ou uma televisão, assista-se a um debate e é desculpa sobre desculpa, tudo isto culminando com a conclusão que os "jovens" têm razão em "revoltar-se". Ora isto tem mais a ver com a política do que com a sociologia.
É por isso que nenhuma desta mecânica explicativa se usaria se os tumultos tivessem origem em grupos racistas da extrema-direita, ou de grupos neonazis. Aí, o que se ouviria de imediato era o apelo à repressão, a criminalização ideológica, a exigência de acções punitivas drásticas. Ora, tanto quanto eu saiba, a proliferação de grupos neonazis, na Alemanha de leste, por exemplo, também traduz a mesma "falta de esperança" de uma juventude que tem elevadas taxas de desemprego. Só que aí ninguém avança ou aceita explicações "sociais", e ai de quem minimizasse qualquer violência desses "jovens" que nunca teriam direito a este tratamento tão simpático, mesmo quando também são jovens...»
(...)

09 novembro 2005

Coisas simples (e que funcionam)


Carta de um médico britânico ao British Medical Journal a propósito da gripe das aves:

(...)«Tal como a maioria dos colegas que conheço, sigo com atenção as notícias sobre gripe aviária. Se, mais tarde ou mais cedo, se desenvolverá uma pandemia de gripe é irrelevante porque pandemias sempre existirão.

O que eu não me lembro de ter visto, quer nos media generalistas, quer naqueles que são dirigidos aos médicos, é o tipo de conselhos que o Centro para o Controle de Doenças (CDC) americano divulga (em http://www.cdc.gov/flu) em relação a, por exemplo, o lavar frequente das mãos como forma de prevenção da epidemia, ou da pandemia, de gripe.

Embora não esteja completamente seguro sobre o grau de evidência científica em relação a esta questão, parece-me intuitivo uma vez que as partículas que contêm o vírus não estão confinadas apenas ao que se inala do espirro de alguém.

De resto, a evidência [sobre a eficácia destas medidas simples] não é pior do que aquela que temos sobre a efectividade do Tamiflu!

Não acham que seria adequada a divulgação de conselhos simples, quer para os médicos, quer para os não-médicos, de medidas praticáveis que as pessoas podem aplicar? Não seria isso também uma boa medida para o medo que se sente em certos sectores?»
(...)

Tradução livre, minha.

08 novembro 2005

Livros mágicos

Uma história de magia e amizade, de Susanna Clarke, em que se mistura o real e o imaginário, num enredo de tipo policial... na europa napoleónica. Lê-se de um fôlego!

07 novembro 2005

Bono e o Karma


Entrevistado para uma revista de hip rock, Bono comenta o que lhe diz o jornalista (Michka Assayas) de que a religião pode ser assustadora ("apalling"):
(...)
«
- É um conceito chocante a ideia de que o Deus criador do Universo poderia andar à procura de companhia, de uma relação verdadeira com pessoas, mas o que verdadeiramente me mantém de joelhos é a diferença entre a Graça e o Karma.»

«-E o que vem a ser isso?

-No centro de todas as religiões está a noção de Karma. Estás a ver? Aquilo que fazes retorna para ti: olho por olho, dente por dente? Ou, se quiseres, nas leis da física, cada acção desencadeia uma reacção, igual ou oposta. Entretanto surge esta ideia chamada a Graça que acaba com tudo isto... Se quiseres, o amor interrompe as consequencias das tuas acções, o que no meu caso realmente é uma boa notícia porque fiz muitos disparates.

-Que disparates?

-Essa é uma questão entre mim e Deus. Mas digo-te que teria sérios problemas se o meu juiz fosse o tal Karma. Não estou a fugir dos erros que cometi, simplesmente acolho-me à Graça. Refugio-me em Jesus que carregou com os meus pecados sobre a Cruz porque sei quem sou e, portanto, não espero depender da minha própria religiosidade.

-O Filho de Deus que lava os pecados do mundo ... Gostava muito de poder acreditar nisso (comenta Assayas).

-O sentido da morte de Cristo é que Cristo assumiu todos os pecados do mundo, de forma que aquilo que fazemos não regressa contra nós de ricochete. A nossa natureza pecadora já não acarreta a morte de modo inevitável: não são as nossas boas obras o que nos abre as portas do Céu.

-Não se pode negar que essa é uma ideia grandiosa. Uma esperança assim é maravilhosa, mas está perto da loucura na minha opinião (diz Assayas). Cristo tem certamente o seu lugar entre os grandes homens, pensadores do mundo, mas ... Filho de Deus... não é excessivamente difícil de crer?

-Repara que isso foi sempre, mais ou menos, o que responderam os laicistas à história de Cristo... "Era um grande profeta, um tipo muito interessante, disse umas coisas com conteúdo tal como outros profetas desde Isaías a Maomé, Buda ou Confúcio".
Mas a realidade é que é o próprio Cristo que te desautoriza nisto, não consegues safar-te assim. Ele diz: não, Eu não digo que sou um Mestre, não me chameis Mestre. Não estou a dizer que sou um profeta. Digo: "sou o Messias". Digo: "Eu sou o Deus Encarnado". De modo que ficas nesta situação: ou Cristo era quem dizia ser, ou era completamente chalado. A ideia de que o curso da civilização de metade do planeta mudou, deu uma reviravolta total, por causa de um chalado... Para mim isso é que é difícil de crer.» (...)