Jornal de Negócios

29 janeiro 2006

Correr atrás do chapéu



Do autor de "O homem que era quinta-feira" um livro com um peculiar sentido de humor, conforme relata o tradutor da edição espanhola, Alberto Manguel: (...) "uma peculiar sensação de felicidade. A sua prosa é o oposto do academismo: é alegre. As palavras resvalam e chispam, como um brinquedo mecânico que tivesse adquirido vida;ricocheteiam as ironias do sentido comum. Para ele a linguagem é como um jogo de construções em que se montam teatros e batalhas" (tradução minha, do tradutor que traduziu, etc...)

18 janeiro 2006

Dois estados, uma cultura?

«Arnie permitiu que um homem cego, numa cadeira de rodas, fosse executado», assim intitula o jornal alemão Bild a notícia da execução de Clarence Ray Allen, un preso de 76 años, cego, surdo e com diabetes.

Este preso cumpria uma pena de prisão perpétua por assassínio; em 1980, ainda na cadeia, ordenou a morte de três pessoas, pelo que foi condenado à pena de morte. É o preso mais idoso que se executou neste estado americano, desde que a pena de morte foi reinstaurada, em 1976.

Não faltaram pedidos e campanhas para a comutação da pena, incluindo do Conselho da Europa.
Muita gente sentiu-se levada a protestar pela idade e pelo estado de saúde de Allen.
O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, não comutou a pena pelo que foi executado, com uma injecção letal.

No estado vizinho - o Oregon - além da pena de morte, também está em vigor a eutanásia. Se alguém com uma doença incurável pedir que o matem, e o confirmar, pelo menos duas vezes em quinze dias, o médico pode prescrever uma dose letal.

Aqui os protestos são ao contrário: protesta-se se o médico for impedido de administrar doses letais, embora a idade e o estado de saúde de muitos dos que são mortos sejam idênticos ao de Clarence Ray Allen, e talvez merecessem a mesma compaixão.

Para lá caminhamos ...

13 janeiro 2006

O nono dia - o nazismo revisitado a partir da pequena história

"Há falta de valentia no cinema alemão, quando se trata de filmar campos de concentração. Felizmente que agora há uma geração nova que se atreve a fazê-lo sem inibições."

É o que diz Volker Schlondorff um realizador comprometido que, juntamente com Herzog e Fassbinder, é um dos novos nomes do cinema alemão desde a década de 70.

"Hoje em dia, com filmes de crítica social não se vai a lado nenhum", continua a dizer. Mas
Schlondorff diz que "continuarei a fazer arte, face ao cinema comercial".
"Na Europa, conseguir fazer hoje em dia um filme assim é um verdadeiro privilégio.".

"Tenho consciência de que os meusfilmes são um grão de areia dentro da grande indústria do cinema, mas são a razão porque gosto de fazer cinema".

'O rebelde', 'A honra perdida de Katharina Blum', são algumas das suas obras anteriores; "O Tambor", valeu-lhe a Palma de Ouro e o Óscar (1979) de melhor filme.

Com a película "O nono dia" ("el noveno dia" na tradução em espanhol) este realizador aproxima-se do tema tabu, para os alemães, do nazismo e dos seus campos de morte. O filme baseia-se em factos reais.

Realizador:Volker Schlöndorff. Guião: Eberhard Görner, Andreas Pflüger. Intérpretes: Ulrich Matthes, August Diehl, Hilmar Thate, Bibiana Beglau, Germain Wagner.

98 min. Classificado para jóvens e adultos. Algumas cenas são violentas, sobretudo do ponto de vista emocional.

10 janeiro 2006

Julián Marías sobre Ortega y Gasset - verdade e relativismo

Julián Marías, sociólogo, filósofo, ensaísta, pensador, morreu em Dezembro passado, com 91 anos. O seu olhar lúcido e bem humorado sobre a realidade atraíu-lhe admiradores (e alguns detractores também) de todos os quadrantes.

Nos 40 anos da morte de Ortega y Gasset, de quem foi amigo e discípulo, numa entrevista à revista "Espéculo", da Faculdade de Ciencias da Informação da Universidade Complutense de Madrid:
(...)
«P - Acha que Ortega acreditava na verdade?

- Claro, acredita que tudo o que é verdade, é absolutamente verdade. O que é relativo, não é a verdade, mas a realidade, porque é relativa em relação à perspectiva. Quando vejo uma coisa, vejo-a a partir de um ponto de vista e, isso que eu vejo, é absolutamente verdade. O que acontece é que não é toda a realidade. Verdade e perspectiva são inseparáveis. Aí reside a grande originalidade de Ortega.

P - Esta noção de perspectiva, que ele situa no indivíduo, leva ao relativismo?

- Não, pelo contrário. A verdade é absoluta: aquilo que vejo é absolutamente verdade; o que vejo é verdade para sempre, até para Deus. O que acontece é que enquanto Deus está em todo o lado, a minha verdade é parcial. A minha verdade não esgota a realidade. Portanto Ortega destroi o relativismo. » (...)

09 janeiro 2006

A utilização de embriões humanos como matéria prima

Reparei que tem havido algumas conversas em torno do tema. O último livro que li (já aviso que não sou um grande leitor...) foi este.

"Se Fabrican Hombres (informe Sobre la Genética Humana)", Francisco Ansón.
Informação e dados sobre engenharia genética, novas tecnologias de reprodução, experimentação com embriões. Reflexão crítica sobre o enquadramento ético e legal.
240 pág., Ed. Rialp, Madrid, 1988. ISBN 8432124346.


Apesar da data de edição, parece-me interessante porque está carregado de dados, números, estatísticas, etc. A leitura, por este motivo, fica um pouco lenta, mas é o preço a pagar por tentar ser objectivo.

06 janeiro 2006

Just like heaven


Um filme "bonito" daqueles que apetece ver, de vez em quando, para aligeirar os dias.

De Mark Waters, para fazer brilhar Reese Witherspoon e Mark Ruffalo.

Um jovem melancólico, David,
aluga um apartamento com vista para a baía de S. Francisco. A proprietária aparece, e então...

95 minutos. Classificado para adultos.
Baseado num romance de Marc Levy, "If Only It Where True".


Em português chamaram-lhe "Enquanto estiveres aí". É por isto que detesto que traduzam os títulos dos filmes. Já para não falar do cartaz horroroso que lhe pintaram.


02 janeiro 2006

As expectativas em torno das células embrionárias



James Sherley,

área: Engenharia biológica
local: Professor no MIT (Massachusetts Institute of Technology)

Entrevista no Boston Globe, Outubro, 20, 2004


Não é possível usar directamente as células embrionárias (células estaminais embrionárias) para tratar tecidos ou orgãos adultos.

  • Os tecidos e os orgãos do corpo humano estão em constante processo de destruição e renovação. As células humanas nascem por divisão de outras células, amadurecem transformando-se em células que funcionam (isto é, "diferenciam-se"), vão funcionado até que envelhecem, morrem e são retiradas do tecido ou do orgão em que estavam.
  • Isto quer dizer que para tratar tecidos ou orgãos doentes não basta dar-lhes células obtidas de embriões. Para obter algum resultado, teríamos que transformar estas células, em células maduras, adultas.
  • Estas células adultas, maduras, que têm capacidade de sustentar o processo de renovação / destruição dos orgãos, são células que residem nesses orgãos - células estaminais adultas.
  • Quando se usam células embrionárias em tecidos adultos, elas transformam-se em tumores (porque são células "indiferenciadas", isto é de tipo tumoral).
  • Neste momento, é completamente especulativo criar expectativas em torno da pesquisa baseada exclusivamente em células embrionárias.

29 dezembro 2005

Um dia na vida de um neurocirurgião


Sábado, Ian McEwan
(Gradiva)

Parecia um dia como outro qualquer, na vida de um próspero neurocirugião. Até que teve um pequeno acidente de automóvel. O outro condutor reage de uma forma desproprocionada. O seu treino de médico diz-lhe que está perante alguém com uma doença mental. Consegue fugir-lhe, mas as coisas vão-se complicar cada vez mais. Fugirde um pequeno delinquente pode ser tão difícil como evitar o 11 de Setembro ou a guerra do Iraque - assim acaba por descobrir o nosso personagem super moderno e super racionalista.

26 dezembro 2005

L´ Esquive - Como esquivar o amor

Óscar do cinema francês - L' Esquive (A Esquiva)

Arredores de Paris, alunos de uma escola, na maioria oriundos do Norte de África, ensaiam uma peça de Marivaux (Jogos de Amor e Fortuna). Krimo apaixona-se por Lydia e aproveita o personagem da peça para declarar o seu amor.
A adolescência revisitada. Cinema social do realizador tunisino Abdellatif Kechiche. Para sonhadores... Desempenho fresco das jovens actrizes Sara Forestier e Sabrina Quazani.
Prémio de melhor filme e melhor realizador, 2005. Prémio de melhor actriz revelação e melhor guião.
Realizador: Abdellatif Kechiche. Guião: Abdellatif Kechiche, Ghalya Lacroix. Intérpretes: Osman Elkharraz, Sara Forestier, Sabrina Quazani, Nanou Benahmou, Hafet Ben-Ahmed, Aurélie Ganito, Carole Franck, Hajar Hamlili, Rachid Hami, Meriem Serbah. 117 min. Classificado para jovens e adultos.

20 dezembro 2005

O top da sociedade de mercado: vender-se


Podemos considerar erradas as transacções efectuadas entre adultos capazes? Mesmo que as achemos degradantes?

Uma mulher tem preço. Em Londres, custa 150 a 400 libras. Este custo não depende só do tipo de "serviço": incorpora outros "investimentos" como, por exemplo, o dinheiro pago pelo chulo pela mulher (geralmente uma rapariga jovem).

O preço de uma mulher na Europa de Leste pode ir até às 1300 libras. Geralmente são compradas por organizações que lhes prometem emprego como empregadas de bar ou dançarinas.

Na Alemanha, país em que a prostituição se encontra legalizada, a Taça do Mundo está a criar grandes expectativas nas "empresas" de sexo. A polícia, e muitos cidadãos, preocupam-se com o que isso pode significar em relação ao tráfico de pessoas.

Têm sido detectada grande atividade criminosa, nesta matéria, em países como o Sudeste Asiático, o Japão, a Austrália, a China, Hong Kong, etc. Estima-se que existem cerca de 12 milhões de pessoas em trabalho escravo, em todo o mundo, e que 2 milhões e meio estão na posse de redes de tráfico de pessoas. Esta actividade movimenta anualmente cerca de 10 biliões de dólares. Metade destas pessoas são vítimas de prostituição forçada.


Nem todas as mulheres que se prostituem o fazem sob coacção física. Mas a questão do tráfico de pessoas, actualmente, representa apenas um problema do momento, ou é a continuação da cultura que encara a prostituição como uma actividade mais? Será que uma coisa resulta da outra?

Há quem diga (The Economist, por exemplo) que qualquer tentativa de ligar as duas coisas é apenas um terrível preconceito moralista: “Dois adultos entram num quarto, combinam entre si um preço, têm sexo. Onde está o crime? O sentido comum diz que não existe crime: o sexo não é ilegal; o facto de ter havido troca de dinheiro não transforma um acto privado numa ameaça pública. Se ambas as partes estão de acordo, não se consegue ver onde está a vítima."
O jornal acrescenta que isto é apenas mercado livre. Assim pensam por exemplo, os holandeses.

Para quem aprecia o liberalismo económico isto parece evidente. Há até quem sugira que assim se controlaria melhor a violência e a exploração das mulheres.

Mas é precisamente aqui que esta estratégia tem falhado. Não só aumentou o crime organizado e o tráfico de pessoas, como outras actividades marginais (como o tráfico de droga) floresceram nas zonas de prostituição legalizada da Austrália, bem como o abuso de menores.


Os defensores do modelo dizem que o problema foi que não se avançou o suficiente na liberalização: é preciso mais abertura. Exigências tais como o registo das prostitutas estragam o mercado.

Esta nova visão levou ao aparecimento de bordeis "de marca". Em Berlim, um empreendimento de 5 milhões de €, 3000 metros quadrados de contrução, com capacidade para uma centena de prostitutas e cerca de meio milhar de clientes, publicita que apenas mulheres inscritas na Segurança Social aí poderão "trabalhar". Apenas a três paragens de autocarro, ficam as instalações que acolherão o Mundial. "Sexo e futebol, pertencem-se", diz o empresário.


Mas a prostituição "livre" é uma frase contraditória. A prostituição é uma forma de escravatura: o tráfico apenas o torna mais óbvio.
Grande parte destas mulheres são imigrantes que fogem da pobreza nos seus países de origem. Para o Partido Feminista espanhol, a legalização da prostituição é como legalizar o abuso sexual. Quando se tenta eliminar o assédio nos locais de trabalho e a violência doméstica, não se pode legalizar uma prática em que tudo isso acontece, diz Sílvia Cuerdas.

Segundo esta feminista, a maioria das mulheres não quer estar nesta situação. Isto mesmo está também expresso em investigações que mostram a maioria destas pessoas presas numa teia de coacção, abuso, desespero e toxicodependência. Na Holanda, 79% das prostitutas desejariam abandonar a actividade.

O perfil da prostituta mostra geralmente alguém com reduzidos graus de liberdade: provêm de famílias com níveis elevados de abuso físico e sexual, baixa escolaridade, absentismo escolar, fugas de casa, toxicodependência. Falar da "livre escolha" destas pessoas é demasiado cínico.


E os "clientes" são apenas gente que escolhe uma relação "livre" numa sociedade aberta?
Não será que estamos perante uma relação em que predomina o domínio, em vez do respeito mútuo entre iguais? Não é verdade que o cliente obtém, por dinheiro, o poder e controle sobre outra pessoa, por algum tempo? Muitos clientes preferem "gente jovem e em situação de dependência, porque são mais dóceis". Assim o referem alguns estudos.


Alguns países que lideraram o processo de descriminalizar a prostituição, como a Suécia, estão actualmente a rever a situação, face ao falhanço da solução.

A legalização não ajudou estas mulheres a libertarem-se, condenou-as a serem exploradas. Como geralmente olhamos para o norte da europa no que se refere a modelos de liberdade sexual, talvez consigamos inspirar-nos.
Se os suecos conseguem perceber que uma mulher que atribui um preço ao seu corpo não é livre, talvez também nós o entendamos.

06 dezembro 2005

"Beware of Sugar Daddies"

Em África, sobretudo a sul do Saara, as taxas de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) são francamente superiores nas raparigas, em vez dos rapazes, ao contrário do que costuma acontecer no resto do mundo.

Grande parte destas adolescentes são infectadas por homens bastante mais velhos, que lhes oferecem dinheiro e presentes, em troca de relações sexuais. São conhecidos por "sugar daddies".

O país africano que, até agora, conseguiu mais êxitos na luta contra a infecção pelo VIH é o Uganda. De facto as taxas de novas infecções têm vindo a descer de uma forma ímpar, como o reconhece a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Fundo para a População e Desenvolvimento das Nações Unidas (UNFPA), a USAID , a UNAIDS ou o AIDS Children´s Fund.
Vale também a pena (re)ler as questões relacionadas com o marketing social e a liderança política (ou a falta dela) no relatório "Missing the message", patrocinado pela OSIDEV (Open Society for Institute Development Foundation), NORAD (Norwegian Agency for Development Cooperation) e pela S.I.D.A. (Swedish International Development Corporation Agency).


Mesmo assim, cerca de 10,3% das raparigas, entre os 15 e os 25 anos, estão infectadas com o VIH. Dos rapazes, do mesmo grupo etário, apenas estão infectados 2,8%.
Para tentar combater esta situação os programas actuais, dirigidos para adolescentes, focam o desenvolvimento de competências para saber dizer não às propostas sexuais dos adultos. Como primeira medida, as escolas apareceram carregadas de cartazes em que um personagem sinistro oferece caramelos a uma rapariga. "Beware of Sugar Dady!", pode ler-se em legenda.

Se queremos realmente travar a epidemia, precisamos de estratégias que lidem com as questões da desigualdade entre homens e mulheres, refere P. Piot, director executivo da UNAIDS. "Precisamos de acções concretas para evitar a violência contra as mulheres, assegurar-lhes questões básicas como serem proprietárias e poderem herdar; oportunidades de acesso à educação e ao emprego, quer para as mulheres, quer para as raparigas".

Em simultâneo as escolas arrancam com programas para desenvolver competências em assertividade, criar expectativas de longo prazo, estabelecer metas profissionais e pessoais nas alunas. O programa é conhecido como "Go-Getters Club" - clube para gente ambiciosa. É um trocadilho com a frase "go ahead" usada habitualmente pelos "sugar daddies".

É também este pequeno país que recebe um rasgado elogio do Alto Comissário para os Refugiados das Nações Unidas, pelo modo como acolhe os seus vizinhos sudaneses que fogem da guerra; ou de Nelson Mandela, pelo modo como encaram o desenvolvimento social.



"O teu melhor amigo não é o que te convence a ires para a cama com ele: é o que se preocupa com a tua educação, o teu emprego e outras coisas da tua vida" - esta frase foi aplaudida nos Camarões, no arranque oficial da campanha "Cross Generation Sex". É mais um país a tentar lutar contra a "cultura do silêncio" em que se considera "normal" que os pais aceitem a relação das suas filhas com os "sugar daddies".

24 novembro 2005

Pois é...

O Mundo ralha de tudo,

Tenha ou não tenha razão,

Quero contar uma história

Em prova desta asserção.

Partia um velho campónio

Do seu monte ao povoado,

Levava um neto que tinha

No seu burrinho montado:

Encontra uns homens que dizem:

"Olha aquela que tal é!

Montado o rapaz que é forte,

E o velho trôpego a pé."

"Tapemos a boca ao mundo",

O velho disse: "Rapaz,

Desce do burro, qu'eu monto,

E vem caminhando atrás."

Monta-se, mas dizer ouve:

"Que patetice tão rata!

O tamanhão, de burrinho,

E o pobre, pequeno, à pata."

"Eu me apeio", diz prudente

O velho de boa-fé,

"Vá o burro sem carrego,

E vamos ambos a pé."

Apeiam-se, e outros lhe dizem:

"Toleirões, calcando lama!

De que lhes serve o burrinho?

Dormem com ele na cama?"

"Rapaz", diz o bom do velho,

"Se de irmos a pé murmuram,

Ambos no burro montemos,

A ver se inda nos censuram".

Montam, mas ouvem de um lado:

"Apeiem-se, almas de breu,

Querem matar o burrinho?

Aposto que não é seu."

"Vamos ao chão", diz o velho,

"Já não sei qu'ei-de fazer!

O mundo está de tal sorte,

Que se não pode entender.

É mau se monto no burro,

Se o rapaz monta, mau é,

Se ambos montamos, é mau,

E é mau se vamos a pé:

De tudo me têm ralhado,

Agora que mais me resta?

Peguemos no burro às costas,

Façamos inda mais esta."

Pegam no burro: o bom velho

Pelas mãos o ergue do chão,

Pega-lhe o rapaz nas pernas,

E assim caminhando vão.

"Olhem dois loucos varridos!",

Ouvem com grande sussuro,

"Fazendo mundo às avessas,
tornados burros do burro!"


A propósito dos comentários à notícia de que a Igreja Católica
não pode "admitir no seminário e nas ordenações sagradas aqueles que pratiquem a homossexualidade, que estejam enraizados em tendências homossexuais ou que apoiem a chamada cultura 'gay"

O velho então pára e exclama:

"Do qu'observo me confundo!

Por mais qu'a gente se mate

Nunca tapa a boca ao mundo.

Rapaz, vamos como dantes,

Sirvam-nos estas lições;

É mais que tolo quem dá

Ao mundo satisfações."

17 novembro 2005

Os olhos do pai e os pulmões da mãe

Celebra-se hoje o dia do não fumador.
Os homens vão (lentamente) deixando de fumar, as mulheres vão (mais rapidamente) aumentando o número de fumadoras. O local principal da iniciação é a escola. A motivação principal é a curiosidade, seguida de "ter algum amigo que fume".

50% das crianças pequenas que estão expostas ao fumo do tabaco são-no em casa ou em locais frequentados pelos pais e amigos (cafés, restaurantes, etc.).
O fumo secundário, o fumo que sai do cigarro pela extremidade acesa - ou mal apagada no cinzeiro - contém ainda mais substâncias tóxicas que a corrente primária de fumo que é retida parcialmente pelo filtro. São uns milhares de produtos, dos quais 40 estão envolvidos no cancro, 2 são radioactivos e 2 são metais pesados. A revista Pediatrics (Joseph diFranza and Robert Lew, Morbidity and Mortality in Children Associated with the Use of Tobacco Products by Other People, Paediatrics, 1996, 97:560-568) considera que esta exposição é responsável por: 13% de otite, 26% de operações ao ouvido , 24% de cirurgias ORL, 13% de casos de asma, 16% de excesso em consultas por tosse, 20% de pneumonias em crianças abaixo de 5 anos.
Cerca de 20 mortes por ano por pneumonia em crianças (dados do Canadá), 15 mortes de crianças por queimaduras em incêndios provocados pelo tabaco (dados do Canadá), cerca de duas centenas e meia de mortes por sindroma de morte súbita do lactente,(id.).
Mesmo que já estejamos anestesiados para tanto sofrimento que grassa no mundo, pelo menos podíamos fazer contas ao défice que irá afundar o Serviço Nacional de Saúde. Talvez não seja isto que resolve tudo, mas qualquer ajuda seria boa. E sempre seria mais produtivo do que dar apenas beijinhos às crianças...