Jornal de Negócios

13 fevereiro 2006

O novo "modelo social" europeu dos jovens franceses


Há algum tempo atrás os casais sem filhos eram olhados com alguma compunção; presumia-se que teriam tido dificuldades insuperáveis, de carácter orgânico. Eram tratados com aquela deferencia que geralmente reservamos para os familiares de um defunto, com o objectivo de os confortar.

Actualmente sucede o contrário: aos casais com filhos atribuem-se comportamentos pouco responsáveis, sendo olhados com um misto de apreensão e desconfiança. Quanto aos pares sem descendencia são objecto de curiosidade fascinada e, até, de inveja. Tornaram-se um modelo social digno de imitação e credor de modernidade. Até beneficiam de um acrónimo risonho e "cool": "dinkies" (derivado de DINK: "Double Income, No Kids", dois ordenados, nenhum filho).

Demitem-se voluntariamente da procreação, acolchoados na sua cápsula de amor sem descendencia, tal como Narciso inclinado sobre o espelho da água. Não necessitam sequer de se justificar, mas caso alguém pergunte, respondem de forma previsível e com ar superior: querem "gozar a vida", prolongar a sua juventude; aguardam estabilidade no emprego; querem desfrutar dos momentos de pausa, dos tempos livres, das férias e do dinheiro. Dificilmente se apercebem de que a forma mais rápida de envelhecer é a compulsão pela maquilhagem "juvenil", ou que uma vez alcançado o lugar da carreira profissional, outro objectivo se lhe seguirá (até à exaustão final ...).

Há com certeza razões de indole económica, social, psicológica e até ideológica por trás dos hábitos ensimesmados de alguns dos nossos europeus de hoje. Mas a questão de fundo é o fastio existencial.

O amor que não extravasa, afoga-se na sua própria esterilidade. Este amor que consiste numa mera transacção fechada, acaba por se revelar como um intercambio de egocentrismos recíprocos. Sem talvez o pretenderem, estes "dinkies" são um emblema da Europa. Um continente que atravessa a fase mais próspera da história: dispõe de meios nunca sonhados para combater a doença, prolongar a vida, evitar as guerras, combater as catástrofes naturais e as epidemias, que noutros tempos a dizimaram. No entanto apresenta uma taxa de renovação da população abaixo do nível de substituição, apenas mitigada pela imigração.

Alguma coisa muito grave se passa quando os europeus se recusam a prolongarse no tempo. É aquilo a que Solzhenitsyn chamava "impulso de auto-mutilação". O suicídio demográfico, denuncia a crise de civilização:os europeus perderam a fé no futuro e a esperança de que a vida tenha sentido.


Por trás do desprezo sobre a família e seus laços, do alheamento da ecologia humana, paira o umbiguismo existencial, modelo de novas gerações que declinam a responsabilidade de transmitirem a vida e a cultura europeias. A Europa não carece de recursos para manter os seus valores: não tem é argumentos para manter a sua civilização, nem para prolongar a sua existência.

A este fastio vital que mata a imaginação, entorpece o desejo e nega o futuro, concede-se o lugar de modelo "moderno" a imitar.

Está a chegar o momento de fechar a loja e esperar a chegada dos bárbaros.

(in: Artigo de Juan Manuel Prada, no ABC, 23 de Janeiro

10 fevereiro 2006

Olhar para fora

Retirado do Daily Star, edição em Beirute, artigo do editor, Rami Khouri.

(...)
«Isto não é um mero choque cultural. É uma forma nova da luta colonial que dominou as relações entre a Europa e a Ásia / Arábia, durante o século 19. A diferença, agora, é que já não estamos perante nativos, indefesos e apáticos, frente aos canhões do Ocidente, à sua retórica paternalista ou à troça insultuosa. Muçulmanos, árabes, asiáticos e outros têm, hoje em dia, uma grande consciencialização do que são as políticas do ocidente, estão empenhados nos seus próprios objectivos, zangados com as "políticas de dois pesos e duas medidas", e são capazes de resistir através do uso dos meios de comunicação, dos canais políticos, ou outros; têm vontade de resistir e retaliar por aquilo que julgam ser o seu direito a viver em liberdade e dignidade. A mensagem que chega do coração da terra árabe - islâmica é que o século 19 terminou.» (...)

07 fevereiro 2006

A Alemanha, o Tráfico de Mulheres e o Futebol


A Coligação Contra o Tráfico de Mulheres para a Europa (CATW) lança uma petição internacional contra a organização da prostituição por ocasião do Campeonato do Mundo de Futebol em Junho e Julho de 2006.

Esta preocupação já tinha sido expressada, mas agora, o Parlamento Europeu pediu, em Janeiro, à Alemanha que tome medidas em relação à prostituição durante o Mundial de Futebol próximo. A Resolução foi aprovada por 622 votos, 12 contra e 19 abstenções.

A iniciativa partiu de Christa Prets, socialista austríaca, com base num relatório americano sobre o tráfico de seres humanos.

Vai sendo aceite que a prostituição aparece como mais uma forma de exploração das mulheres, com ramificações no tráfico e exploração sexual de menores.

A Resolução aprovada propõe que o dia 25 de Março seja declarado Dia Contra o Tráfico de Seres Humanos. O Parlamento estima que na UE 100 mil mulheres são vítimas desta prática.

Na Alemanha, a prática da prostituição está legalizada o que, por exemplo, pode levar uma mulher a perder o subsídio de desemprego por não querer prostituir-se, conforme revelou Clare Chapman, uma activista do movimento Sísifo.

No Brasil, as campanhas da Unicef contra o abuso sexual de menores anunciam-se como: "Quem cala, consente!". Parece óbvio, mas não para todos.

"Geração precária"

Em França existe, há algum tempo, uma "nova profissão": estagiário. Em média, um jovem diplomado demora cerca de 8 a 11 anos a encontrar um emprego estável. As empresas multiplicam os estágios, os empregos temporários e os contratos a termo. Alguns voltam à escola, não para melhorar a sua formação, mas apenas como expediente para manter o estatuto de "aprendiz", o único que lhe permite ser aceite pelas empresas de trabalho temporário. É caro e difícil alugar uma casa. Os filhos adultos eternizam-se em casa dos pais. No dizer de uma deputada, a juventude francesa é uma promessa sem futuro, e toda a França é, ela própria, uma dúvida.
Cerca de um ano depois de concluída a formação profissional, 1 em cada 5 jovens continua desempregado. Os jovens organizam-se em torno de uma associação a que chamaram "geração precária" para denunciar os abusos do mercado de trabalho, sobretudo no que respeita ao eternizar dos "estágios" gratuítos, ou pagos simbolicamente, como forma de reduzir os custos de mão-de-obra.

Vem-me à memória aquela frase popular que fala em "pôr as nossas barbas de molho, quando o vizinho tem as dele a arder"; ou em economês, "empresas socialmente responsáveis" precisam-se (se o governo permitir, e os políticos não se distraírem...)

05 fevereiro 2006

PACS (contrato civil de solidariedade)


A comissão parlamentar francesa encarregada de fazer propostas para actualizar o Direito de Família e a Protecção de Menores, propõe aumentar os direitos dos signatários do Contrato Civil de Solidariedade (PACS). Este contrato regula a vida em comum de pares não casados, do mesmo ou de sexo diferente. É proposto um contrato intermedio, entre o casamento e as uniões de facto. No que toca ao regime de bens, direitos sociais, sucessões e deveres de ajuda mútua, este contrato é semelhante ao do casamento. A pensão de viuvez é reconhecida a quem tenha vivido nesta situação durante, pelo menos, 5 anos.

O contrato apenas pode ser assinado em tribunais de primeira instância.

Esta comissão elaborou cerca de uma centena de propostas, das quais metade dizem respeito à protecção de menores e cerca de 40 ao direito de família. Há 7 propostas sobre a questão dos casamentos forçados.

É criada a figura da "responsabilidade parental delegada", que recai sobre um parente da criança que a acompanhe regularmente, permitindo-lhe facilidades em questões do dia-a-dia: visitas em hospitais, falar com a escola, autorizar saídas, etc.

Em materia de inseminação artificial, ou no caso de doação de óvulos, requer-se que a criança possa vir a conhecer a sua origem, em certos casos e se o desejar. Também é proposto que a criança possa ser ouvida em todas as questões judiciais que lhe digam respeito.


02 fevereiro 2006

Igualdade e diversidade


No Público (Quarta, 1 de Fevereiro de 2006), espaço público, artigo de Alexandra Teté (Associação Mulheres em Acção)

(...)
«A heterossexualidade é uma nota essencial do casamento, que se funda na conjugabilidade homem-mulher e na fecundidade potencial dessa união. O casamento é uma instituição reconhecida pela sociedade como fundamental por ser o lugar natural da geração, formação da personalidade e educação das crianças. É a fonte primária do capital social. É por serem socialmente valiosos que o Estado regula e protege o casamento e a família (heterossexual monogâmica): a função do direito não é dar cobertura jurídica a todas as relações afectivas (sexuadas ou não) que possam dar-se, mas só àquelas que são socialmente relevantes. E só a relação homem-mulher está nos alicerces da sociedade. "Eu amo quem quiser!", dizem. É verdade. Mas o Estado não tem nada a ver com isso.
De resto, qualquer pessoa pode casar, independentemente da sua orientação sexual. O Código Civil não proíbe o casamento dos homossexuais, mas sim o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como disse Jospin, a este propósito, "a humanidade não se divide entre homossexuais e heterossexuais, mas entre homens e mulheres". Aliás, a lei estabelece outras restrições: exclui o casamento poligâmico, exige uma determinada idade, proíbe o casamento entre pessoas com laços de consanguinidade de certo grau, etc. Serão também discriminações inconstitucionais, uma vez que contrariam algumas orientações sexuais?»
(...)

Por outro lado,
o presidente da Federación Española de Entidades Religiosas Islámicas, Mansur Escudero, manifestou o seu apoio à atitude do Governo Espanhol sobre o "casamento homossexual", mas pediu que também seja legalizada a "opção matrimonial" da poligamia. Segundo ele, "a poligamia é mais praticada em Espanha, do que nos países muçulmanos", pelo que lhe parece coerente que tal realidade social seja reconhecido pela lei espanhola. Coisa em que, aliás, tem o apoio de juristas que dizem que, depois da lei reconhecer que o casamento pode não ser heterossexual, deve abrir a porta a todas as outras formas de convivência sexual, sob pena de se criarem bolsas de discriminação.




29 janeiro 2006

Correr atrás do chapéu



Do autor de "O homem que era quinta-feira" um livro com um peculiar sentido de humor, conforme relata o tradutor da edição espanhola, Alberto Manguel: (...) "uma peculiar sensação de felicidade. A sua prosa é o oposto do academismo: é alegre. As palavras resvalam e chispam, como um brinquedo mecânico que tivesse adquirido vida;ricocheteiam as ironias do sentido comum. Para ele a linguagem é como um jogo de construções em que se montam teatros e batalhas" (tradução minha, do tradutor que traduziu, etc...)

18 janeiro 2006

Dois estados, uma cultura?

«Arnie permitiu que um homem cego, numa cadeira de rodas, fosse executado», assim intitula o jornal alemão Bild a notícia da execução de Clarence Ray Allen, un preso de 76 años, cego, surdo e com diabetes.

Este preso cumpria uma pena de prisão perpétua por assassínio; em 1980, ainda na cadeia, ordenou a morte de três pessoas, pelo que foi condenado à pena de morte. É o preso mais idoso que se executou neste estado americano, desde que a pena de morte foi reinstaurada, em 1976.

Não faltaram pedidos e campanhas para a comutação da pena, incluindo do Conselho da Europa.
Muita gente sentiu-se levada a protestar pela idade e pelo estado de saúde de Allen.
O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, não comutou a pena pelo que foi executado, com uma injecção letal.

No estado vizinho - o Oregon - além da pena de morte, também está em vigor a eutanásia. Se alguém com uma doença incurável pedir que o matem, e o confirmar, pelo menos duas vezes em quinze dias, o médico pode prescrever uma dose letal.

Aqui os protestos são ao contrário: protesta-se se o médico for impedido de administrar doses letais, embora a idade e o estado de saúde de muitos dos que são mortos sejam idênticos ao de Clarence Ray Allen, e talvez merecessem a mesma compaixão.

Para lá caminhamos ...

13 janeiro 2006

O nono dia - o nazismo revisitado a partir da pequena história

"Há falta de valentia no cinema alemão, quando se trata de filmar campos de concentração. Felizmente que agora há uma geração nova que se atreve a fazê-lo sem inibições."

É o que diz Volker Schlondorff um realizador comprometido que, juntamente com Herzog e Fassbinder, é um dos novos nomes do cinema alemão desde a década de 70.

"Hoje em dia, com filmes de crítica social não se vai a lado nenhum", continua a dizer. Mas
Schlondorff diz que "continuarei a fazer arte, face ao cinema comercial".
"Na Europa, conseguir fazer hoje em dia um filme assim é um verdadeiro privilégio.".

"Tenho consciência de que os meusfilmes são um grão de areia dentro da grande indústria do cinema, mas são a razão porque gosto de fazer cinema".

'O rebelde', 'A honra perdida de Katharina Blum', são algumas das suas obras anteriores; "O Tambor", valeu-lhe a Palma de Ouro e o Óscar (1979) de melhor filme.

Com a película "O nono dia" ("el noveno dia" na tradução em espanhol) este realizador aproxima-se do tema tabu, para os alemães, do nazismo e dos seus campos de morte. O filme baseia-se em factos reais.

Realizador:Volker Schlöndorff. Guião: Eberhard Görner, Andreas Pflüger. Intérpretes: Ulrich Matthes, August Diehl, Hilmar Thate, Bibiana Beglau, Germain Wagner.

98 min. Classificado para jóvens e adultos. Algumas cenas são violentas, sobretudo do ponto de vista emocional.

10 janeiro 2006

Julián Marías sobre Ortega y Gasset - verdade e relativismo

Julián Marías, sociólogo, filósofo, ensaísta, pensador, morreu em Dezembro passado, com 91 anos. O seu olhar lúcido e bem humorado sobre a realidade atraíu-lhe admiradores (e alguns detractores também) de todos os quadrantes.

Nos 40 anos da morte de Ortega y Gasset, de quem foi amigo e discípulo, numa entrevista à revista "Espéculo", da Faculdade de Ciencias da Informação da Universidade Complutense de Madrid:
(...)
«P - Acha que Ortega acreditava na verdade?

- Claro, acredita que tudo o que é verdade, é absolutamente verdade. O que é relativo, não é a verdade, mas a realidade, porque é relativa em relação à perspectiva. Quando vejo uma coisa, vejo-a a partir de um ponto de vista e, isso que eu vejo, é absolutamente verdade. O que acontece é que não é toda a realidade. Verdade e perspectiva são inseparáveis. Aí reside a grande originalidade de Ortega.

P - Esta noção de perspectiva, que ele situa no indivíduo, leva ao relativismo?

- Não, pelo contrário. A verdade é absoluta: aquilo que vejo é absolutamente verdade; o que vejo é verdade para sempre, até para Deus. O que acontece é que enquanto Deus está em todo o lado, a minha verdade é parcial. A minha verdade não esgota a realidade. Portanto Ortega destroi o relativismo. » (...)

09 janeiro 2006

A utilização de embriões humanos como matéria prima

Reparei que tem havido algumas conversas em torno do tema. O último livro que li (já aviso que não sou um grande leitor...) foi este.

"Se Fabrican Hombres (informe Sobre la Genética Humana)", Francisco Ansón.
Informação e dados sobre engenharia genética, novas tecnologias de reprodução, experimentação com embriões. Reflexão crítica sobre o enquadramento ético e legal.
240 pág., Ed. Rialp, Madrid, 1988. ISBN 8432124346.


Apesar da data de edição, parece-me interessante porque está carregado de dados, números, estatísticas, etc. A leitura, por este motivo, fica um pouco lenta, mas é o preço a pagar por tentar ser objectivo.

06 janeiro 2006

Just like heaven


Um filme "bonito" daqueles que apetece ver, de vez em quando, para aligeirar os dias.

De Mark Waters, para fazer brilhar Reese Witherspoon e Mark Ruffalo.

Um jovem melancólico, David,
aluga um apartamento com vista para a baía de S. Francisco. A proprietária aparece, e então...

95 minutos. Classificado para adultos.
Baseado num romance de Marc Levy, "If Only It Where True".


Em português chamaram-lhe "Enquanto estiveres aí". É por isto que detesto que traduzam os títulos dos filmes. Já para não falar do cartaz horroroso que lhe pintaram.


02 janeiro 2006

As expectativas em torno das células embrionárias



James Sherley,

área: Engenharia biológica
local: Professor no MIT (Massachusetts Institute of Technology)

Entrevista no Boston Globe, Outubro, 20, 2004


Não é possível usar directamente as células embrionárias (células estaminais embrionárias) para tratar tecidos ou orgãos adultos.

  • Os tecidos e os orgãos do corpo humano estão em constante processo de destruição e renovação. As células humanas nascem por divisão de outras células, amadurecem transformando-se em células que funcionam (isto é, "diferenciam-se"), vão funcionado até que envelhecem, morrem e são retiradas do tecido ou do orgão em que estavam.
  • Isto quer dizer que para tratar tecidos ou orgãos doentes não basta dar-lhes células obtidas de embriões. Para obter algum resultado, teríamos que transformar estas células, em células maduras, adultas.
  • Estas células adultas, maduras, que têm capacidade de sustentar o processo de renovação / destruição dos orgãos, são células que residem nesses orgãos - células estaminais adultas.
  • Quando se usam células embrionárias em tecidos adultos, elas transformam-se em tumores (porque são células "indiferenciadas", isto é de tipo tumoral).
  • Neste momento, é completamente especulativo criar expectativas em torno da pesquisa baseada exclusivamente em células embrionárias.