
Há algum tempo atrás os casais sem filhos eram olhados com alguma compunção; presumia-se que teriam tido dificuldades insuperáveis, de carácter orgânico. Eram tratados com aquela deferencia que geralmente reservamos para os familiares de um defunto, com o objectivo de os confortar.
Actualmente sucede o contrário: aos casais com filhos atribuem-se comportamentos pouco responsáveis, sendo olhados com um misto de apreensão e desconfiança. Quanto aos pares sem descendencia são objecto de curiosidade fascinada e, até, de inveja. Tornaram-se um modelo social digno de imitação e credor de modernidade. Até beneficiam de um acrónimo risonho e "cool": "dinkies" (derivado de DINK: "Double Income, No Kids", dois ordenados, nenhum filho).
Demitem-se voluntariamente da procreação, acolchoados na sua cápsula de amor sem descendencia, tal como Narciso inclinado sobre o espelho da água. Não necessitam sequer de se justificar, mas caso alguém pergunte, respondem de forma previsível e com ar superior: querem "gozar a vida", prolongar a sua juventude; aguardam estabilidade no emprego; querem desfrutar dos momentos de pausa, dos tempos livres, das férias e do dinheiro. Dificilmente se apercebem de que a forma mais rápida de envelhecer é a compulsão pela maquilhagem "juvenil", ou que uma vez alcançado o lugar da carreira profissional, outro objectivo se lhe seguirá (até à exaustão final ...).
Há com certeza razões de indole económica, social, psicológica e até ideológica por trás dos hábitos ensimesmados de alguns dos nossos europeus de hoje. Mas a questão de fundo é o fastio existencial.
O amor que não extravasa, afoga-se na sua própria esterilidade. Este amor que consiste numa mera transacção fechada, acaba por se revelar como um intercambio de egocentrismos recíprocos. Sem talvez o pretenderem, estes "dinkies" são um emblema da Europa. Um continente que atravessa a fase mais próspera da história: dispõe de meios nunca sonhados para combater a doença, prolongar a vida, evitar as guerras, combater as catástrofes naturais e as epidemias, que noutros tempos a dizimaram. No entanto apresenta uma taxa de renovação da população abaixo do nível de substituição, apenas mitigada pela imigração.
Alguma coisa muito grave se passa quando os europeus se recusam a prolongarse no tempo. É aquilo a que Solzhenitsyn chamava "impulso de auto-mutilação". O suicídio demográfico, denuncia a crise de civilização:os europeus perderam a fé no futuro e a esperança de que a vida tenha sentido.
Por trás do desprezo sobre a família e seus laços, do alheamento da ecologia humana, paira o umbiguismo existencial, modelo de novas gerações que declinam a responsabilidade de transmitirem a vida e a cultura europeias. A Europa não carece de recursos para manter os seus valores: não tem é argumentos para manter a sua civilização, nem para prolongar a sua existência.
A este fastio vital que mata a imaginação, entorpece o desejo e nega o futuro, concede-se o lugar de modelo "moderno" a imitar.
Está a chegar o momento de fechar a loja e esperar a chegada dos bárbaros.













