Jornal de Negócios

17 julho 2006

"Tutela quer ensinar profissionais de saúde a desinfectar as mãos"



Notícia deste domingo:
(...) "formação da esmagadora maioria (90 por cento) dos profissionais de saúde em lavagem de mãos"
(...) "Até ao próximo ano prevê-se ainda que 70 por cento dos serviços disponham de soluções de base alcoólica para desinfecção das mãos"

Deixa ver se entendi: vão demorar um ano para fornecer o desinfectante, mas entretanto a malta lá vai treinando a lavagem "a seco".

Como sou ignorante na matéria, não consigo perceber muito mais, mas suspeito que os micróbios não costumam ler os jornais, e se transmitem quer o ministério actue com lógica, ou sem ela. Já agora, os locais em que não há lavatórios (ou em que falta a água) vão fechar como as maternidades?

16 junho 2006

Lila, lila: mentiras (pós) modernas...


Um livro que se lê de um fôlego (para quem lê espanhol, porque ainda não existe tradução portuguesa).
Uma paixão assolapada à mistura com uma mentira romântica: um empregado de bar apaixona-se por uma cliente e resolve ganhar a admiração da amada entregando-lhe um livro plagiado, como se fosse escrito por si.
O livro, uma novela, acaba por confundir-se com a realidade e os personagens do livro, com os nossos apaixonados, como que re-escrevendo o romance plagiado na vida real.

13 junho 2006

American Dreamz

Uma fita de Paul Weitz.
Fita mesmo - o "z" é, segundo o próprio diz, da sonolência de uma sociedade entorpecida pela TV. Um país em que a malta se esforça mais por votar numa pop star do que nas eleições . Mais ou menos o que irá acontecer à velha - e gorda - Europa ...

19 maio 2006

Vítimas da Moda





Livro de Guillaume Erner.
Editor : La Découverte


Porque seguimos a moda? Como é criada a moda?
Este sociólogo, propõe-se espreitar a máquina que nos obriga a comprar as mesmas peças de roupa, que apenas variam na largura e nas cores, ano após ano. Com duas gerações de familiares ligados ao vestuário, mostra-nos como as escolhas da moda seguem um percurso desenhado pelo marketing que usa (é o termo certo) personagens que funcionam como modelo.
Estes "profetas da moda"são omnipresentes: vão a festas, aparecem em exposições, dão entrevistas.
"Basta que um objecto seja decretado 'tendência' por um destes personagens qualificados, para que se converta em tal". Os que dominam a produção não querem correr riscos - se alguém deste grupo afirma uma tendência, seguem-no para optimizar as vendas.

Os gostos do consumidor não são, portanto, irracionais. São o resultado de uma oferta limitada e de uma imposição - muito bem manuseada - de "tendências".

A moda é cada vez mais uma questão empresarial. Não só na roupa, como nos carros, na comida e ... nas ideias?

Traduzido em brasilês pela editora Senac, e em castelhano pela Ed. Gustavo Gilli.

17 abril 2006

Hollywood necessita carne fresca, feminina, constantemente


Quem o diz é António Banderas - Hollywood trata com grande crueldade as mulheres, sobretudo se forem actrizes com mais de 40 anos. "Repare em Jessica Lange e na Michelle Pfeiffer: são actrizes excelentes mas não trabalham com os grandes estúdios já há algum tempo. Embora sejam talentos espantosos, não as chamam." Já os homens, duram um pouco mais (mesmo gordos e carecas...) Hollywood segue a moda.

"O sexo inspira. Karolina Kurkova é a modelo mais desejada. Descubra com ela as tendências mais quentes da temporada que começa", é esta a proposta de um conhecido jornal internacional.

"A erotização da moda demonstra que a dimensão sexual da sociedade está bastante adoentada e desorientada. Seria preciso levá-la aos Cuidados Intensivos da racionalidade, a ver se conseguimos que nela volte a brilhar a dignidade da espécie humana" (Luis Olivera, jornalista) Fugir da "manada" de que fala Luis Buñuel, a propósito da moda.

13 abril 2006

"os fetos têm direito a reclamar indemnização por actos ilegais"


Em 1999, na Prefeitura de Toyama, no Japão, um carro embateu contra outro veículo, conduzido por uma mulher grávida, por não ter respeitado a prioridade num cruzamento.
A mulher foi conduzida ao hospital, e teve o parto algum tempo depois. Mas a criança tinha ficado privada de oxigénio, como consequência do acidente, e nasceu com várias dificuldades motoras e mentais.

A Seguradora -
a Mitsui Sumitomo - foi condenada ao pagamento da indemnização, não só da mãe, como dos danos da criança, uma vez que a apólice abrangia os familiares transportados.

A companhia de seguros recorreu, argumentando que a apólice não cobria "fetos", mas o Supremo Tribunal confirmou a sentença, afirmando que o feto é um membro da família e, portanto, também sujeito do direito de indemnização.

03 abril 2006

Sarah Peck

Sarah e Chris esperavam o nascimento da sua terceira filha. Vivem no Reino Unido. Juntamente com a confirmação da gravidez, Sarah recebeu a notícia de que tinha leucemia. Foi informada das alternativas: abortar e iniciar o tratamento da leucemia, ou adiar o tratamento - permitindo a gravidez - correndo o risco do agravamento da doença.
Com o apoio do médico hematologista, Simon Rule, do Plymouth's Derrifor Hopsital, decidiu apostar em conseguir chegar à 30ª semana de gravidez (o limite previsto para conseguir um nascimento viável).
Teve um parto normal: às 37 semanas de gravidez, no dia 19 de Março de 2005, nasceu Charlotte.
Iniciou tratamento com células estaminais adultas (a dadora foi a sua irmã, Vichy) - um procedimento que tem demonstrado uma eficácia superior a 70%.
Sarah festejou, no mês passado, o primeiro aniversário da sua filha, teve alta da consulta de hematologia e regressou ao seu trabalho de assistente social.


16 março 2006

Colette Kitoga Habanawema


É um nome quase impronunciável para um europeu, mas foi premiada pela UNICEF italiana pelo seu trabalho junto das crianças vítimas da guerra civil no Congo. É médica, formou-se na Europa, mas regressou à sua terra natal onde pôs em marcha um método de reabilitação psicosocial adapatado à realidade que encontrou: uma população traumatizada pela guerra.
A Unicef premeia o seu trabalho em favor das meninas e do meninos, da República Democrática do Congo, especialmente "a intensa obra orientada para a recuperação das crianças-soldado que viveram a dolorosa experiência das sangrentas guerras dessa terra africana".

10 março 2006

O petróleo (que nós consumimos)

Syriana

Mudar governos, trocar de aliados, fazer dos inimigos, amigos (e vice-versa), usar as pessoas como se fossem guardanapos...
O mundo da engenharia financeira ligada ao negócio do petróleo, inspirado no livro de Robert Baer, um ex-agente da CIA, See No Evil. Um filme de
Stephen Gaghan, com nomeação para Melhor Guião Original e Melhor Actor Secundário(George Clooney).
O filme segue o estilo trepidante de Traffic (2000), tentando mostrar o que de pior têm os sistemas capitalistas.

Realizador e guião: Stephen Gaghan. Intérpretes: Matt Damon e George Clooney (de novo juntos), Amanda Peet, Chis Cooper, Jeffrey Right.
140 min.
Classificado para jovens-adultos.

08 março 2006

injecção letal


Os 4 países onde se executam 97% das penas capitais são a China, os EUA, o Irão e o Vietname.
Nos Estados Unidos, a recusa dos médicos em participar nas execuções por injecção letal, levou à intervenção do Supremo Tribunal - sob a égide do juiz "conservador" Jeremy Fogel - que considerou a execução por injecção letal uma violação da Constituição.
A revista médica, The Lancet, de cariz liberal, ecoa as palavras deste juiz que considera que a 5ª emenda da Constituição Americana proibe as punições que sejam "incompatíveis com os padrões evoluídos de decência que marcam o progresso das sociedades maduras".

Pergunta o editor da revista: "qual destes países maduros irá abolir a atrocidade das execuções capitais?"

Um debate a seguir com atenção, sobretudo pelas repercussões no debate sobre a execução sumária dos doentes incuráveis e dos bebés antes do parto.

24 fevereiro 2006

Truman Capote enfrenta Truman Capote


A prova de que é possível fazer arte em torno da (homo)sexualidade sem enxurradas de melaço. Um filme forte, glosando o autor de "A Sangue Frio". Um olhar sóbrio sobre a biografia de Capote: a infância torturada, a ascensão social, os seus devaneios hollywoodianos... Philip Seymour Hoffman evita os estereotipos e interpreta as mil e uma facetas do personagem.


Realizador: Bennett Miller.
Guião: Dan Futterman, baseado no livro de Gerald Clarke.
Intérpretes: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins, Chris Cooper, Bruce Greenwood.
114 min.
Classificado para Jovens e adultos. Filme com alguma violência.

amizade

Esta casca de ovo foi esculpida com laser:



"A true friend is someone who knows you're a good egg even if you're a little cracked."

17 fevereiro 2006

Referendo sobre Reprodução Artificial?


Um grupo de cidadãos pede que se discuta a procriação medicamente assistida (PMA).
As questões estão assim enunciadas:

"1) Concorda que a lei permita a criação de embriões humanos em número superior àquele que deva ser transferido para a mãe imediatamente e de uma só vez?

2) Concorda que a lei permita a geração de um filho sem um pai e uma mãe biológicos unidos entre si por uma relação estável?

3) Concorda que a lei admita o recurso à maternidade de substituição permitindo a gestação no útero de uma mulher de um filho que não é biologicamente seu?"

A lei anterior foi vetada pelo Presidente da República, por ter sido escassamente discutida. É uma questão que diz respeito a todos.


13 fevereiro 2006

O novo "modelo social" europeu dos jovens franceses


Há algum tempo atrás os casais sem filhos eram olhados com alguma compunção; presumia-se que teriam tido dificuldades insuperáveis, de carácter orgânico. Eram tratados com aquela deferencia que geralmente reservamos para os familiares de um defunto, com o objectivo de os confortar.

Actualmente sucede o contrário: aos casais com filhos atribuem-se comportamentos pouco responsáveis, sendo olhados com um misto de apreensão e desconfiança. Quanto aos pares sem descendencia são objecto de curiosidade fascinada e, até, de inveja. Tornaram-se um modelo social digno de imitação e credor de modernidade. Até beneficiam de um acrónimo risonho e "cool": "dinkies" (derivado de DINK: "Double Income, No Kids", dois ordenados, nenhum filho).

Demitem-se voluntariamente da procreação, acolchoados na sua cápsula de amor sem descendencia, tal como Narciso inclinado sobre o espelho da água. Não necessitam sequer de se justificar, mas caso alguém pergunte, respondem de forma previsível e com ar superior: querem "gozar a vida", prolongar a sua juventude; aguardam estabilidade no emprego; querem desfrutar dos momentos de pausa, dos tempos livres, das férias e do dinheiro. Dificilmente se apercebem de que a forma mais rápida de envelhecer é a compulsão pela maquilhagem "juvenil", ou que uma vez alcançado o lugar da carreira profissional, outro objectivo se lhe seguirá (até à exaustão final ...).

Há com certeza razões de indole económica, social, psicológica e até ideológica por trás dos hábitos ensimesmados de alguns dos nossos europeus de hoje. Mas a questão de fundo é o fastio existencial.

O amor que não extravasa, afoga-se na sua própria esterilidade. Este amor que consiste numa mera transacção fechada, acaba por se revelar como um intercambio de egocentrismos recíprocos. Sem talvez o pretenderem, estes "dinkies" são um emblema da Europa. Um continente que atravessa a fase mais próspera da história: dispõe de meios nunca sonhados para combater a doença, prolongar a vida, evitar as guerras, combater as catástrofes naturais e as epidemias, que noutros tempos a dizimaram. No entanto apresenta uma taxa de renovação da população abaixo do nível de substituição, apenas mitigada pela imigração.

Alguma coisa muito grave se passa quando os europeus se recusam a prolongarse no tempo. É aquilo a que Solzhenitsyn chamava "impulso de auto-mutilação". O suicídio demográfico, denuncia a crise de civilização:os europeus perderam a fé no futuro e a esperança de que a vida tenha sentido.


Por trás do desprezo sobre a família e seus laços, do alheamento da ecologia humana, paira o umbiguismo existencial, modelo de novas gerações que declinam a responsabilidade de transmitirem a vida e a cultura europeias. A Europa não carece de recursos para manter os seus valores: não tem é argumentos para manter a sua civilização, nem para prolongar a sua existência.

A este fastio vital que mata a imaginação, entorpece o desejo e nega o futuro, concede-se o lugar de modelo "moderno" a imitar.

Está a chegar o momento de fechar a loja e esperar a chegada dos bárbaros.

(in: Artigo de Juan Manuel Prada, no ABC, 23 de Janeiro