
Público, 10 de Agosto de 2006
«Obsessões glandulares
Carla Machado (Professora universitária)»
«Há uns anos atrás, uma nova marca a querer lançar-se no mercado anunciava que "Maria Elisabete é uma lasca. Dá vontade de comer". Referia-se - obviamente (?!) - a uma lata de atum. Hoje, após a remoção do vergonhoso spot em que um jovem recém-casado devolvia a mulher ao pai, queixando-se de que a devia ter experimentado antes, assistimos à inundação dos ecrãs televisivos e espaços públicos de publicidade por anúncios e cartazes de análogo bom gosto, desde o wonder beer, à playbock, passando pelo inenarrável spot dos melões, publicidade de uma dada marca de água. A quem desenvolve este tipo de estratégias publicitárias apetece fazer algumas perguntas: - se já pensaram que mais de 50 por cento das consumidoras são mulheres, que talvez não achem piada a ser descritas na publicidade como objecto consumível e descartável, ou redutível a um par de... glândulas; - se ponderaram que talvez a piadinha de caserna e a boçalidade sejam apanágio de parte da população, mas dificilmente representam o ideal estético a que a publicidade - que pode atingir uma dimensão artística ou, pelo menos, criativa - procura aludir; - se lhes ocorreu que a Maria Elisabete pode perfeitamente ser a colega, mulher, patroa, mãe, filha, médica ou juíza com quem um dia vão ter que lidar; - se o Verão tem mesmo que ser apanágio de esvaziamento mental e de desertificação da imaginação no campo da publicidade; - se a representação da sexualidade no campo publicitário tem necessariamente que ser alarve e sexista e situar-se nos antípodas do pensamento inteligente; - se a obsessão mamária dos autores poderá sinalizar alguma perturbação precoce, daquelas que trata a classe "psi", quem sabe - com alguma sorte - até alguma coisa curável... Não, não acordei de mau humor e estou bem longe de ser uma feminista radical, daquelas que provocam alergias a quem não se incomoda com o tipo de coisas de que estou a falar. Mas ofende-me, como pessoa e mulher, a continuada degradação e objectificação com que se persiste em tratar mais de metade da humanidade. Como ser pensante, objecto sobretudo à falta de imaginação e ao persistente mau gosto. Como consumidora, tenho pena, porque até consumia alguns dos produtos de que falei. Consumia, sublinho... »
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A questão não é nova, começa logo nos infantários e na pré-escola, com os profissionais a quererem forçar os "casalinhos". Os miúdos que não têm "namorada" para exibir perante os adultos - educadores, pais, vizinhos - são coitadinhos ... Depois temos o velho probema dos balneários, na maioria das escolas: todos são coagidos a uma exposição de intimidade que geralmente não desejam, e violenta o que sabe da biologia, da psicologia e da afectividade destes grupos etários. Mais uma vez se impõe a violação da intimidade, a exibição forçada ...
Se alguém protesta, é "retrógrado". A sexualidade corporal tem que ser exibida, porque "é assim que se usa", é moda. O grau de violência interior e exterior que tudo isto constrói, ano após ano, é ignorado.
Acontece que muitos dos que não estão de acordo com isto são ridicularizados; os intelectuais e bem-pensantes, têm medo de serem considerados "obscurantistas"; a elite cultural tem medo de ser "castradora".
E quase todos têm vergonha de intervir, não vá alguém acusá-los de "intolerância".
Tal como nos acidentes na estrada, criticam-se as vítimas, pelo seu comportamento, mas não se actua perante os (múltiplos) promotores da agressividade rodoviária.
Vejam-se, por exemplo, alguns dos materiais que circularam em algumas escolas no âmbito da "educação" sexual e que foram recolhidos pos alguns pais.
«A nossa geração não lamenta tanto os crimes dos perversos, quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos.»
Martin Luther King












