
Eduardo Cintra Torres
Jornal de Negócios on-line, 1 de Setembro 2006, opinião
Ministério da Administração Interna e Galp Energia
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«O anúncio televisivo está bem realizado, mas o seu tiro acertou totalmente ao lado. A agência jogou na metáfora – morrem tantas crianças por ano que daria para encher um avião – mas a metáfora está errada, triplamente, quadruplamente errada. Morrem menos crianças do que as que dariam para encher um avião, segundo a PRP; a aviação é o meio mais seguro de viajar; e da falta de qualidade dos textos dos desdobráveis distribuídos nos postos Galp e lido no spot televisivo resultam erros aflitivos.»
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Mário Cordeiro, Pediatra
Jornal de Notícias, 11 de Agosto de 2006
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« É portanto com pasmo que vejo a actual campanha com "um avião cheio de crianças". Alguém apanhou a frase mas ignorou o seu real significado e a ideia com a qual foi proferida há uma década. Misturar um meio de transporte seguro e com enormes exigências de rigor, com acidentes que se dão nas estradas, nas ruas, nas passadeiras e à volta das escolas parece-me extremamente infeliz.
Os números actuais nem sequer "valem" um avião cheio. E a alusão ao avião, além de injusta para a aeronáutica e para as companhias aéreas e todos os que lá trabalham, designadamente na manutenção, retira os portugueses do verdadeiro "local do crime". E retira-lhes a responsabilidade porque são eles quem pode (ou não) transportar uma criança em segurança, parar numa passadeira, respeitar os limites de velocidade nos meios urbanos e à porta das escolas, comprar capacete de bicicleta para o filho e exigir o seu uso.
Assim se esgotam os milhões do erário público. Muito ao contrário do que fez um Engenheiro chamado Sócrates, quando liderou a legislação sobre os parques infantis e a sua aplicação.»
João Borges de Assunção,
Publicidade Enganosa
Jornal de Negócios on-line, 14 de Agosto de 2006
«Há uma frase antiga em publicidade que diz que "metade do dinheiro gasto em publicidade é mal gasto, o problema é que ninguém sabe qual a metade que é mal gasta." O anúncio da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP), que foi para o ar este Verão, é a excepção a esta regra ao assegurar que todo o dinheiro está a ser mal gasto.Como é possível que tal anúncio se mantenha no ar?»
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«as pessoas não vão perceber o anúncio de forma benévola. Primeiro, não se percebe do anúncio que a mensagem é sobre estradas, automóveis ou condução pouco cuidadosa. O que é feito do eficaz "se conduzir não beba"? Segundo, as pessoas que vêem o anúncio de forma casual ficam a pensar que cai mesmo um avião cheio de crianças em Portugal. Porquê disseminar uma mentira tão óbvia? Em terceiro lugar, o suporte institucional dado pela Galp e pelo Ministério da Administração Interna (MAI) no final do anúncio reforça a ideia do que tudo o que é dito no anúncio é verdade, e não apenas uma metáfora ou forma criativa de comunicação. Ainda veremos o MAI, ou outra agência do Estado, a desmentir em comunicado aquilo que está a pagar para comunicar na publicidade.»
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«a obsessão com a comunicação só para aparecer na televisão; ou a dificuldade em impor restrições financeiras ao Estado (esta despesa não está no orçamento de Estado, mas é de facto uma despesa do Estado). Mas acima de tudo este episódio ilustra que é demasiado fácil em Portugal fazer despesas que não criam valor quando o Estado participa no processo.
Para as universidades sobra um caso que pode ser usado pedagogicamente em disciplinas de marketing. Quer sobre o conteúdo da mensagem publicitária quer sobre a importância da velocidade de decisão no cancelamento de campanhas que correm mal.»
Paula Sá,
Diário de Notícias - 4 Ago 06
«Governo mantém 'spot' considerado "abusivo"»
"O que me choca é o número de vítimas na estrada, o número de crianças que são vítimas", disse ontem o titular da Administração Interna, António Costa, interpelado em Viseu sobre a polémica. O ministro escusou-se a comentar o teor dos spots de rádio e televisão e dos outdoors. "Não sou técnico publicitário", argumentou.
O spot televisivo, que começou a ser divulgado a 28 de Julho, numa parceria MAI/Galp Energia, retrata a entrada de uma série de crianças num avião, a porta fecha-se, um rosto infantil surge na janela oval e o aparelho levanta voo. E a mensagem é lida: "Todos os anos a velocidade nas estradas vitima um avião cheio de crianças."
José Manuel Trigoso, director da Prevenção Rodoviária Portuguesa, insurgiu-se ontem contra o anúncio e considerou a ideia "muito infeliz", já que "não faz sentido comparar o transporte aéreo, o mais seguro do mundo, com o sistema rodoviário". O número de crianças evocado também lhe causou perplexidade. Segundo José Manuel Trigoso, "em 2004 morreram 42 crianças (dos zero aos 14 anos) vítimas de acidentes de viação, enquanto que em 2005 o valor baixou para as 25 vítimas mortais".
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"Sensibilizar é tempo perdido, pois o importante é o desenvolvimento de actividades que levam a acções concretas". Como a formação escolar, comunicação pedagógica e formação técnica.»









