

O Senhor Doutor Protocolo
Artigo do Prof. José Manuel Silva, Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos,
publicado no jornal Tempo Medicina
«Finalmente, o Senhor Doutor Protocolo, doutorado lá para os lados de Manchester, começou a trabalhar na triagem e orientação dos doentes que recorrem à urgência dos HUC. Impressionado pela forma como é apresentado na comunicação social, parece que vinha resolver todos os problemas das urgências em Portugal (!…), estava extraordinariamente curioso para o conhecer pessoalmente!
Hélas, de imediato fui confrontado com alguns desvios que, em boa verdade, não se podem imputar ao Doutor Protocolo mas a quem ainda não o conhece bem, como aquela obesa que, porque há dois meses não conseguiria aceder ao seu médico de família, veio à urgência queixar-se que se sentia inchada (…) e me apareceu com o diagnóstico de ascite no local onde deveria ter sido colocado o número do fluxograma. É claro que não tinha ascite nenhuma…
A maioria das situações, porém, tem mesmo a ver com os conhecimentos britânicos do Doutor Protocolo!...
[...]
Claro que as «faltas de ar», os tremeliques, os choros fáceis e as ansiedades, basta um singelo «peso» no coração, foram todas promovidas a dor pré-cordeal! Tunga, laranja! [...]
E os desgraçados que têm pequenas feridas a necessitar de sutura na pequena cirurgia mas têm um coração mais estóico? Ou aprendem depressa a dizer que a dor é, pelo menos, moderada, e são amarelados, ou chupam com um verde e têm de esperar horas até que todos os falsos amarelos sejam observados! Pelo menos, à frente de medrosos e mariquinhas ninguém passará!...
Podíamos continuar nesta senda, mas não vale a pena. Todos os que já foram apresentados ao colega de Manchester terão as suas histórias para contar. Como aquele doente com icterícia que foi parar à Oftalmologia com «problemas oftalmológicos».
Pecar por excesso
O problema da triagem de Manchester, como há muitos anos afirmei, é que, ao tentar reduzir milhares de doentes a poucas dezenas de protocolos mais ou menos rígidos, tem forçosamente de colocar situações díspares no mesmo saco e pecar por excesso. Dois exemplos são suficientemente paradigmáticos:
— Síndroma gripal com dois dias de evolução e 38,5° C de temperatura timpânica, que, recorde-se, pode ser até 1,0° C mais alta que a temperatura axilar. É evidente que deveria ir ao médico de família, mas como não o conseguiu e foi triado pelo Senhor Doutro Protocolo, é imediatamente obsequiado com uma fita amarela. Uma gripe com um ou dois dias que apenas necessita de um antipirético qualquer, é classificado como situação urgente! Ridículo.
— Para o Doutor Manchester, o limiar da hipoglicemia são os 80 mg/dl! Todavia, segundo o Current Medical Diagnosis & Treatment, 2005, os sintomas de hipoglicemia apenas surgem por volta do 60 mg/dl e a perturbação da função cerebral pelos 50 mg/dl! Com o ritmo de trabalho que lhes é imposto, não duvido que se fizéssemos glicemias ocasionais às nossas enfermeiras do serviço de urgência, a maioria passaria num ápice para a sala de emergência, com um soro glicosado a 5% e enfeitadas com uma pulseirinha vermelha novinha em folha… Não é muito difícil, bastava terem algumas alteraçõezitas do comportamento. É evidente que, depois disso, teriam seguramente direito a 15 dias de baixa para repouso e recuperação (ao fim e ao cabo tinham sido doentes emergentes!)!
Os habitantes de Manchester devem ser diferentes dos outros [...]
Sistema diferente
Mais grave é o facto da Triagem de Manchester ter sido aferida num sistema de saúde completamente diferente do nosso, numa cultura diferente da nossa e, provavelmente, com um acesso mais simples de cada doente ao seu GP [Médico de Família].
Outro exemplo: não têm neurologistas de serviço à urgência nem a principal causa de morte são os AVC, demasiado desvalorizados pelo sistema, o que pode ter implicações na janela terapêutica para intervenção aguda nos AVC isquémicos. Paradoxalmente, num país que está a criar uma via verde dos AVC, os sinais neurológicos focais estão em terceira linha e apenas conseguem um amarelito!
Depois de lidar de perto com o Senhor Doutor Protocolo, fiquei mais descrente dos doutoramentos protocolizados em Manchester e um mais consistente defensor da verdadeira Triagem Médica (informatizada, treinada e com condições). Mas era preciso vir alguém de Manchester dizer-nos que o compromisso da via aérea, a respiração ineficaz, a hemorragia exsanguinante e o choque são situações de emergência? E não bastaria a mão de um jovem médico para distinguir os quadros abdominais médicos dos cirúrgicos e orientar correctamente os doentes? Etc., etc. Depois desta experiência posso garantir que nunca ninguém me ouvirá dizer que um protocolo é melhor que um médico. Por alguma razão, a seguir à triagem de Manchester, o Hospital de Viseu colocou uma triagem médica, uma experiência que se revelou extraordinariamente positiva.
Não há a menor dúvida que a triagem de Manchester devia sofrer algumas adaptações. A primeira coisa que proporia era que a escala de dor fosse retirada do sistema. Para os latinos portugueses, decididamente não serve! Orientar doentes com base na dor percebida é um erro crasso que apenas prioriza os mais histriónicos. É a total subversão do único objectivo da Triagem de Manchester, a definição de prioridades reais! Além do mais, os doentes facilmente apreendem que, queixando-se com convicção, passam à frente dos outros (basta ligarem a intensidade das dores com a cor da pulseirinha!)…

Algumas vantagens
De qualquer forma, a Triagem de Manchester trouxe algumas vantagens. Desde logo a informatização e organização da triagem em alguns hospitais (já existia nos HUC). Depois, pela primeira vez, há que reconhecê-lo, a triagem de doentes é feita num espaço físico condigno e reservado (o que não acontecia nos HUC). Por último, agora a culpa de doentes mal triados não é de ninguém, é do sistema (o que é excelente para todos), e o sistema não pode ser condenado! Sem esquecer o marketing; funcionar bem, não é notícia, mas contratar o Doutor Manchester dá direito a comunicação social (como se alguma coisa se resolvesse por milagre)!! No entanto, quando as condições físicas não são as ideais, até parece que o funcionamento piora, a avaliar pela notícia publicada no Expresso de 22/07/06 sobre o Hospital de Fafe.
[...] não se esqueça de dizer que a sua dor torácica é mesmo pré-cordeal ou muito severa, caso contrário corre o risco de ser apenas amarelado e morrer antes de ser observado… É que os suores frios, a palidez, a sensação de morte iminente, o sentido clínico (que só os médicos podem ter), não contam para nada… Mesmo que tenha vómitos evite dizer que a dor é ligeira, ou vai parar aos verdes e aventura-se a esperar horas por um ECG (o que já aconteceu…). Quanto aos doentes com enfarte que apenas tenham dor no membro superior esquerdo, vão para a Ortopedia…»
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