Jornal de Negócios

22 março 2007

Levar a Europa ao médico?


Krzysztof Zanussi é geralmente conhecido pela sua carreira de cineasta. Licenciado em Física e Filosofia, foragido da Polónia durante o regime de Jaruselski, ganhou notoriedade com a sua primeira longa-metragem "A Estrutura do Cristal" (1969). Depois disso outras obras premiadas, como O Ano do Sol Tranquilo (Leão de Ouro, em Veneza 1984) e Constants (Prémio Especial do Júri em Cannes, 1980), foram definindo um estilo que se caracteriza pela inquietação existencial.

Zanussi começou sua carreira na Televisão, e radicou-se na Alemanha, no início dos anos 80. Foi entrevistado recentemente, a propósito do X prémio Luka Brajnovic, que lhe foi atribuído pela sua defesa dos direitos e da dignidade humana.

"P- É conhecido por defender o predomínio do pensamento e arte europeus face ao norte americano. Que leitura faz da sua posição, no momento em que assisitimos ao império quase absoluto dos EUA?

R - Não é bem assim. Pode parecer isso, se o olhamos na perspectiva de uma certa crise do cinema europeu. É verdade que há 20 ou 30 anos atrás, os oscares tinham uma importância mais restrita. Hoje em dia, com a debilidade do cinema e da cultura europeias, o cinema americano parece mais forte. Mas isto não é um facto imutável. A prova é que o cinema indiano e chinês multiplicam as suas produções.

— Mas afinal o que se passa com a cultura europeia?

Se a Europa fosse uma pessoa, eu levá-la-ia ao psicólogo. Não ao psiquiatra, ao psicólogo. Não me parece que a debilidade europeia seja um caso clínico. Mas o seu estado de ânimo apresenta sintomas muito objectivos de desequilíbrio: não tem entusiasmo, nem confiança em si mesma. Já disse algumas vezes que a Europa padece de melancolia. Para a ultrapassar precisa de confiar em si própria e na sua missão no mundo. Tal como uma equipa que quer ganhar, precisa de determinação, abnegação e educação. Todo o mundo tem beneficiado das ideias da Europa, e continuarão a beneficiar. Mas ninguém virá salvá-la de si mesma: só a Europa pode curar-se a ela própria. Para isso é preciso que reconehça o seu próprio valor"

20 março 2007

E agora?

Do Boletim da Ordem dos Advogados, nº 45

«Julgo que poucos terão dúvidas que o último referendo teve subjacente uma vontade legítima de tentar dar resposta a problemas muito sérios e reais da nossa sociedade, sendo certo, também, que da solução encontrada emergem novas questões de difícil resolução. para melhor se perceber o que se demonstrar, nada melhor do que recorrer a uma situação ficcionada:


- António diz-se vítima da obsessão de uma amiga que, aproveitando-se do seu estado de embriaguez decorrente de uma festa em que ambos estavam, o induziu a com ela manter relações sexuais;

- Sendo certo que, caso não estivesse nesse estado nunca teria tido relações com a dita amiga, a qual, segundo me afirma, sempre teve por ele uma enorme obcecação tendo sido sempre rejeitada;

- Dessa situação resultou uma gravidez e o nascimento de uma criança;

- O António só em estado muito avançado da gravidez é que dela teve conhecimento;

- Nunca aceitou que a criança fosse sua filha, ainda que biologicamente assim viesse a ser decretado, o que veio a suceder após o decurso de uma acção de investigação da paternidade;

- A verdade é que sempre se sentiu traído e vítima de uma manobra pouco leal e transparente perpetrada pela mãe da criança; sempre aceitou que a filha não tinha qualquer culpa pela situação, não sendo essa razão, no entanto, suficiente para o levar a agir como Pai e, consequentemente, a aceitar o vínculo da paternidade, apesar de existir uma sentença judicial que o obrigue formalmente a tal;

- Não quer ser pai, nunca desejou tal condição, nem sente essa criança como sua filha.


E agora? Será que perante o resultado deste último referendo, pode este cidadão (homem), vir a exigir, à sombra do princípio constitucional da igualdade de tratamento entre homens e mulheres, que a lei não o obrigue a ser pai?

Dito de outra forma: podendo a mãe, por sua exclusiva vontade e por razões da sua estrita conveniência desejar, nas condições da lei, não ser mãe, não poderá o pai reivindicar um direito similar, com a vantagem, em caso de colisão de direitos, de não existir necessidade, sequer, de se fazer terminar com o processo biológico que, caso a natureza não seja contrariada, terminará no nascimento de um ser humano? Não deverá o Estado ter de respeitar esta sua decisão, substituindo-o naquilo que seriam os seus deveres, nomeadamente, o de ali alimentos, quanto à menor?

A questão que agora me suscita algumas dúvidas é, pois, a da (in)constitucionalidade de todas as normas que impõe a um pai que o seja, isto face ao dito princípio constitucional da igualdade de tratamento entre mulheres e homens e a possibilidade que agora é aberta à mulher pelo resultado do referendo de, por sua exclusiva vontade e atendendo, tão só, a razões de sua conveniência (as quais nem necessitará de explicitar), não querer ser mãe. O pai não terá um direito similar?

Será que o António não poderá ter alguma razão quando reivindica o direito, malgré o odioso que a situação sempre suscita nas consciências dos outros, de não querer ser pai, de nunca ter sido tido nem achado na questão da interrupção, ou não, da gravidez, de só ter contribuído de forma totalmente inconsciente para que a filha nascesse, não se sentindo pai, nem o querendo ser.

As mães, agora, vão passar a ter do direito de dispor, sem constrangimentos de espécie alguma, sobre o fruto de uma relação sexual, e o pai não tem, no que a isso diz respeito, direito rigorosamente a nada? Só lhe cabe o dever de arcar com as consequências e responsabilidades do seu acto?

Qual a razão que leva as mulheres a abortar? Não é uma questão de (in)conveniência (seja ela qual for, ninguém terá nada com isso), de direito a entenderem, pelas razões que só a si dizem respeito, que não querem aquele filho? O que é que isto verdadeiramente tem a ver com o facto de a natureza ter escolhido a mulher para ser nela que se desenvolva e dê o milagre do nascimento, ainda por cima agora que o Homem, em Portugal, decidiu que lhe é possível interferir e fazer terminar esse processo? O homem tem de aceitar e resignar-se com aquilo que a natureza lhe impõe, ao invés da mulher que a pode contrariar?

É tudo isto mera tolice ou poderá ser esta "provocação" entendida como singelo contributo destinado a mexer as águas e tentar dar ainda mais expressão ao princípio da igualdade entre homens e mulheres, seja através do redesenhar do conteúdo dos direitos emergentes desse princípio, seja através do reequacionar de toda a problemática subjacente a estas questões, obrigando o Estado, de uma forma ou de outra, a comportar-se como tal e a não se demitir, nunca, das suas responsabilidades sociais?

Será que estamos a abrir a caixa de Pandora?
Ou, ao invés, teremos a serenidade e lucidez suficientes para, através de uma justa e adequada ponderação de tudo o que está em causa darmos expressão a um quadro valorativo que defenda, acima de tudo, o Homem em todas as suas dimensões? »

João Folque (Advogado)


O relativismo não é relativo?


Apresento-vos o meu amigo relativista: é uma pessoa muito humilde e tolerante. Diz que é "humildemente" incapaz de conhecer a verdade absoluta. Afirma, muito rotundamente, que a verdade absoluta não existe: a verdade apenas existe naquele tempo, ou naquele espaço cultural. Não há verdades universais, mas apenas de cada época ou cultura. Mudemos a época, ou a cultura, e as "verdades" mudam.

Aqui chegado, faço notar ao meu amigo relativista que, talvez por distracção, acaba de pronunciar uma longa lista de verdades absolutas e autoritárias. Tão absolutas, que me classifica de intolerante se eu não concordar com as suas verdades.

De facto, o que acabou de fazer, é uma verdadeira profissão de fé: fé no valor (absoluto) do relativismo; fé no monopólio (absoluto) do valor moral da sua posição; fé, no valor (absoluto) de que as posições contrárias, serão intolerantes. Ora se tudo é relativo, por que é que a tolerância seria melhor do que a intolerância? No máximo, deveríamos dizer, "não sei se é melhor ser tolerante do que intolerante" ...

Para se ser um bom relativista, é preciso auto-atribuir-se o monopólio moral da tolerância e negá-lo (de modo absoluto) a todos os que discordam. Não conseguem tolerar que outros possam ser tolerantes, sem serem relativistas.

A verdade é que eles também não conseguem sequer ser relativistas, porque ao afirmar que tudo é relativo, estão a afirmar uma verdade absoluta, negando o seu próprio relativismo.



13 março 2007

Não sabe escrever correctamente? Então pode guardar o mestrado no bolso!


Na era da escrita simplificada e dos sms, as empresas continuam a dar lugar de destaque à expressão oral e escrita. O Director da Escola Central de Electrónica (França), Pascal Brouaye, diz que a empregabilidade dos alunos depende muito da sua capacidade de comunicar. Esta escola superior exclui, mediante provas de acesso específicas sobre expressão escrita, cerca de 5 a 8 % de candidatos todos os anos.

As empresas querem que, mesmo em áreas técnicas, os funcionários não se limitem a saber manejar ferramentas. É preciso saber falar com clientes, redigir notas e informações, organizar e participar em reuniões, ler e entender um contrato de trabalho ...

Em 2005, em França, foi aplicado a 2767 alunos, entre os 12 e os 15 anos, um teste que consisitia em ditar uma curta passagem de Fenelon (83 palavras). Este teste já tinha sido aplicado, palavra por palavra, em 1987 a um grupo semelhante. Em 1987, o número dos que cometeram menos de 6 erros foi cerca de 50%; em 2005, desceu para 22%. (Le Monde)


28 fevereiro 2007

A "roda" reinventada em Itália no século XXI


«Itália reinventa sistema da roda para salvar bebés da morte»
in Publico,27.02.2007

«A Itália recuperou um sistema medieval para tentar impedir o abandono de bebés em sacos de plástico, noticiou ontem a Reuters. A ministra da Família, Rosy Bindi, quer que os hospitais do país passem a ter uma versão moderna da roda, equipamentos em madeira ou pedra, em conventos e igrejas, onde desde a Idade Média eram deixadas as crianças indesejadas sem que a pessoa que os deixava fosse identificada.»

«No formato italiano, a roda é uma incubadora de vidro instalada num quarto de hospital que é directamente acessível a partir do exterior.
Este fim-de-semana no Hospital Casilino, nos arredores de Roma, uma pessoa entrou, depositou o bebé na incubadora aquecida e saiu. Quando estava na sala, os sensores de movimento instalados detectaram a sua presença e fizeram soar o alarme. Quarenta segundos depois chegaram os médicos e levaram o menino, a quem decidiram chamar Stefano.
Segundo a Reuters, quase todos os meses são encontrados bebés abandonados em caixas ou sacos de plástico, à beira das estradas ou nos caixotes de lixo das cidades. Só alguns sobrevivem.

No Hospital Casilino há cartazes com um apelo em várias línguas: "Não abandone o seu bebé - deixe-o connosco."»

E em Portugal? ...

27 fevereiro 2007

Depois dos filhos descartáveis, os pais ...

«Quando as crianças se tornam pequenos ditadores»

in Publico, 26.02.2007, Bárbara Wong

«Já há denúncias de filhos que agridem os progenitores. Esse número não é maior por vergonha e desculpabilização

Eles não são muito difíceis de identificar. Encontramo-los na escola, no café, no supermercado, em casa dos amigos... É o menino de seis anos que dá o pontapé à mãe e esta sorri, ao mesmo tempo que diz "isso não se faz". é a menina de três anos que faz uma fita tremenda, porque não quer comer a sopa, entorna o prato e é recompensada com um bolinho, para, "coitadinha, não ficar com fome".

Aos olhos dos pais, os seus meninos são "pequenos tiranos adoráveis", com "personalidades muito vincadas", enquanto para os demais não passam de uns "intrometidos malcriados". quem o diz é o psicólogo espanhol Javier Urra, que os apelida de "manipuladores" e "caprichosos".

"O pequeno ditador: da criança mimada ao adolescente agressivo" é o título de Javier Urra, publicado pela Esfera dos Livros. O pequeno ditador é o "príncipe da casa", é o filho caprichoso que dá ordens aos pais, mas que, com o passar do tempo, se pode transformar num adolescente agressivo, alerta o psicólogo clínico. "Este tipo de comportamentos faz temer uma adolescência conflituosa", alerta urra, que foi o primeiro provedor de menores em Espanha (entre 1996 e 2001).

Em casa, estes filhos podem bater nos pais, roubar-lhes dinheiro, mas também podem entrar nos circuitos de delinquência. o fenómeno está bem identificado em espanha, onde o ano passado houve sete mil denúncias de pais agredidos por filhos.
Á Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) chega um número reduzido de queixas de que jovens agridem os pais e não têm qualquer perturbação psíquica, informa Daniel Cotrim, psicólogo clínico. "São jovens, de todas as classes sociais, que os pais colocaram no centro do seu mundo e eles põem e dispõem na estrutura familiar", retrata.

"As crianças maltratadoras, que insultam os pais, que agridem física e psicologicamente, são produto de uma sociedade que, quando considerou o século xx o século da criança, provocou profundas alterações no modelo educativo", e os resultados nem sempre foram os esperados.

"Não se prepararam as crianças para os "nãos da vida", analisa Manuel Coutinho, psicólogo e secretário-geral do instituto de apoio à criança. "em geral, são crianças muito bem cuidadas", descreve Javier Urra, porque as famílias dão-lhes tudo. "Costumo dizer que há uma geração que nunca comeu o peito do frango, porque os seus pais comiam a melhor parte. Quando cresceram e se tornaram pais, deram o melhor do frango aos filhos", continua Manuel Coutinho.

O problema é os pais não estabelecerem limites e regras, concordam os especialistas. quando vão à consulta, os adultos "chegam sem forças", porque os filhos "exigem, testam-nos até ao limite e nunca percebem quais são os limites, porque os pais não os estabelecem", diz Maria João Santos, do espaço para a saúde da criança e adolescente, em Lisboa
.
"Psiquiatras, psicólogos infantis e professores enfrentam um problema educativo, para cuja solução se requer em primeiro lugar que os pais aprendam a sê-lo", escreve Javier Urra.

"A família é um termómetro do sistema, o seu fracasso antecipará uma desordem geral", alerta. "os pais têm de perceber que os limites são necessários", afirma Maria João Santos.

Infelizmente, muitas crianças que cresceram sem regras acabam nos tribunais e são os juízes quem lhes marca a fronteira entre o que é permitido e o que é proibido", acrescenta manuel coutinho. Mas se forem devidamente acompanhados poderão "transformar-se em bons cidadãos", observa Daniel Cotrim.»

Lembrei-me, a propósito, do artigo do Dr. Daniel Sampaio, na Pública do Domingo passado, quando diz que não se podem "impôr" comportamentos... Pois não, sobretudo se se puder pagar a um guarda-costas (permanente)!

24 fevereiro 2007

Revolta na Suécia


«Durante décadas a elite sueca tentou fazer com que as mulheres esqueçam que também são mães.
São os estereotipos do costume: não nos dão liberdade de escolher [ser mães] porque escolhemos mal. Por isso impoêm-nos cortes fiscais pesados, quer nas receitas dos pais, quer das mães, que nos devolvem em pequenos bocadinhos, em subsídios. Assim nos mantêm sob controle.»


Quem assim escreve é Elise Claeson, jornalista, num dos principais jornais suecos, o Svenska Dagbladet. Foi em Setembro passado. A campanha eleitoral sueca estava no seu auge. A maioria das mulheres, na Suécia, têm uma profissão remunerada fora de casa, mas não se revêem em políticas que as excluem da maternidade. "Se escolhemos os filhos", continua, "dizem que é uma má escolha, um engano feminino". "Mas quando são os homens a dizer que querem dedicar-se aos filhos, aparecem como herois nacionais".

Esta jornalista acaba de publicar em livro - mamma@home - a sua visão de um feminismo que pretende a valorização da maternidade. "Já basta da visão paternalista que pretende que a mulheres são livres por se sujeitarem a um patrão, mas escravizadas se decidirem serem esposas".

21 fevereiro 2007

Tal como previsto ...

«Aconselhar, escolher, o mal e a caramunha»
Editorial no jornal Público de 18.02.2007, José Manuel Fernandes


«Quando escrevi sobre as prioridades do dia seguinte à vitória do "sim", parti do princípio que o que se tinha dito durante a campanha era para valer e que, de uma forma geral, todos consideravam o aborto um mal a combater. A nova fórmula legal não traduziria, pois, nem a velha versão "mulheres para a prisão", nem o radicalismo expresso em palavras de ordem como "a barriga é minha". Ter-se-ia em conta os direitos diferentes em confronto: o direito da mulher à liberdade de escolha, o direito da vida em gestação a um futuro. A síntese traduzir-se-ia na fórmula da maternidade consciente (que não é exactamente a da maternidade planeada ou mesmo desejada). Haveria, pois, a preocupação em chegar, na AR, a fórmulas legais que, nos termos do votado no referendo, permitissem que a mulher escolhesse, mas estando na posse de toda a informação (efeitos sobre a saúde, alternativas possíveis, por aí adiante). Ou seja, que escolhesse de forma consciente, e também aconselhada, tanto mais que é sabido que a legislação terá, por exemplo, de definir se se tem ou não o direito de abortar aos 13, 14 ou 15 anos sem autorização, ou mesmo sem o conhecimento dos encarregados de educação.
Não por acaso defensores do "sim", como Vital Moreira, escreveram, e neste jornal, que haveria "menos abortos e mais nascimentos porque, com o "sim", vai haver aconselhamento médico para todas as mulheres, incluindo as pobres e pouco informadas" (23 de Janeiro) ou que "a despenalização e legalização proporcionarão condições para um aconselhamento prévio, que a lei deve, aliás, tornar obrigatório, como parece ser consenso dos defensores da despenalização" (30 de Janeiro). O mesmo tipo de posições foi defendido por figuras de proa que foram o rosto do PS na campanha, como Maria de Belém.
É por isso algo surpreendente o que se passou nos últimos dias quando, de repente, a palavra "aconselhamento" foi proscrita pela direcção do PS e da sua bancada parlamentar, ao mesmo tempo que, por entre declarações contraditórias e alguma trapalhada, surgiam informações diferenciadas a propósito do que pretendem fazer os socialistas, havendo agora indicações que procurarão um acordo à esquerda, isto é, com os que nunca consideraram a necessidade de aconselhamento.
Na verdade, o PS, neste domínio, está, e vai continuar a estar, dividido e basta olhar para as propostas que já fez desde que ganhou as eleições para o comprovar. Ainda com Sampaio na Presidência, quando tentou precipitar um referendo no Verão que Belém vetaria, o PS avançou com um projecto de lei, o 19/X, onde se escrevia que "deve ser desenvolvida na rede pública de cuidados de saúde a valência de aconselhamento familiar, a qual deve ser composta por, pelo menos, um Centro de Aconselhamento Familiar (CAF) por distrito", (artigo 3º); que estes centros "devem ser de fácil acesso a todas as mulheres grávidas que pretendam realizar uma interrupção voluntária de gravidez ou que já a tenham praticado" (artigo 5º); e que deveriam aconselhar a mulher grávida "com objectivo da superação de problemas relacionados com a gravidez, contribuindo para uma decisão responsável e consciente", podendo suscitar "a intervenção dos serviços sociais (...), analisando-se a possibilidade de essa intervenção resolver os problemas de ordem social decorrentes da maternidade" e devendo informá-la "dos direitos consagrados na legislação laboral no que respeita à maternidade, bem como quanto aos direitos relativos a prestações médico-sociais" (artigo 5º). Nestes centros, se a mulher não se opusesse, poderia ser ouvido "o outro responsável da concepção", isto é, o pai.
Mais tarde, o PS faria entrar um documento em que alterava o seu projecto e fazia desaparecer os artigos 3º, 4º e 5º. Na campanha, não explicou porquê, mas pediu aos eleitores que confiassem no seu bom senso.
O que temos hoje? Nada. Não sabemos se e como haverá aconselhamento; se este será exclusivo do Estado (o que desagrada a qualquer liberal), das clínicas (interessadas no negócio) ou de outras instituições (que são acusadas de pressionar a mulher). Só sabemos que, como em 2005, se acelera a fundo no meio do nevoeiro e com muito pouco estudo e nenhum esclarecimento transparente das alternativas em jogo.»
José Manuel Fernandes

19 fevereiro 2007

A linguagem de Deus e a genética


Francis Collins é médico. Trabalha em Genética. No seu livro "The Language of God" descreve como é pouco racional a oposição entre ciência e fé. "Os cientistas que fazem alarde do seu ateísmo dão-nos uma visão muito empobrecida da realidade"," alheiam-se das perguntas que os seres humanos fazem a si próprios, todos os dias". "A ciência é necessária para entendermos melhor o mundo e melhorarmos as condições de vida das pessoas, mas a ciência nada sabe das questões espirituais."

"A sociedade precisa tanto de religião como de ciência. A ciência investiga o mundo natural, mas Deus pertence a outra esfera, está fora do mundo da natureza. Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude pouco científica e errada."

Durante a entrevista Collins é confrontado com o facto de que em nome de Deus se têm cometido barbaridades ao longo da história. Mas Collins responde que o problema é que " a água transparente da fé religiosa circula em veias humanas defeituosas e oxidadas. Por isso fica turva. Isso não significa que os seus princípios estejam errados, embora haja pessoas que manipulam esses princípios de forma a justificar as suas acções. A religião é um veículo para a fé. A fé é imprescindível, por si mesma, para a humanidade".

Collins não é partidário da teoria do "desenho inteligente": segundo ele, os mecanismos complexos que observamos na natureza (como por exemplo o flagelo que permite o movimento a algumas bactérias) são o resultado de mecanismos que se foram formando lentamente, ao longo do tempo, mediante o processo de que Darwin teve um vislumbre, a evolução".

O que acontece, continua, é que a evolução não explica tudo. Por exemplo, não explica aquilo que resulta da liberdade humana, como o altruísmo. Podemos estudar muito bem as bases genéticas do comportamento humano, mas se ao caminhar junto ao rio vejo alguém em perigo e me atiro à água para o salvar , colocando-me a mim próprio em risco, de que gene me vem este impulso? "Nada na teoria da evolução pode explicar a noção de bem e de mal, aquilo a que chamamos moral, e que é exclusivo da espécie humana".


14 fevereiro 2007

Escuta a Minha Voz

Para os que ainda se lembram de "Vai onde te leva o coração" (1993), Susana Tamaro retoma o tema. É a continuação da história, agora na perspectiva da neta. Marta, a neta, regressa a casa da avó, depois de vários anos nos EUA.

Uma escrita feminista e feminina, com referências ao universo paterno.

Escuta a minha voz, a história oculta do primeiro livro de Susana Tamaro.

04 fevereiro 2007

"Pai" do bebé proveta português teme banalização do aborto se o "sim" ganhar


No dia 2 de Fevereiro realizou-se na Ordem dos Médicos , em Lisboa, um colóquio subordinado ao tema «Quando começa a vida humana». O especialista em infertilidade António Pereira Coelho, também especialista em ginecologia e obstetrícia, que exerce na área da procriação medicamente assistida (PMA), deu conta da sua experiência pessoal e profissional de várias décadas para revelar as condições em que tomou decisões sobre a prática da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) e as dúvidas que cada uma delas lhe suscitou.

O especialista concluiu que existem «situações limite que podem levar a circunstâncias em que a solidariedade e a justiça» sejam princípios que acabem por levar o médico a efectuar um aborto e que «não justificam a penalização» do profissional de saúde ou da mulher.

Por isso «sou pelo sim, mas receio que a despenalização leve à banalização do aborto. E nesse sentido sou pelo não».


Curiosamente as "situações limite" já estão contempladas na lei actual: então o referendo serve para quê?

26 janeiro 2007

Paris, séc XXI: Já chega!


No Domingo passado milhares de manifestantes desfilaram em Paris contra a prática continuada do aborto a pedido. Todos os anos esta manifestação se repete. Este ano o slogan era: "30 anos, já basta!", aludindo aos 30 anos da lei Veil.

Os manifestantes, cerca de 15.000 segundo os organizadores e entre os quais se contavam várias famílias com crianças, observaram cinco minutos de silêncio «em homenagem às crianças que não têm a oportunidade de viver».

Desfilando pelas ruas de Paris atrás de uma longa faixa onde se lia «Pelo respeito pela vida», vários manifestantes brandiram cartazes brancos com as inscrições: «salvemos os bebés por nascer», «não os matem» e «sem crianças não há reformas».

Paul Ginoux Defermont, membro do colectivo que organiza a manifestação, disse à Agência Lusa que «vários portugueses» participaram no protesto, entre os quais o presidente da Associação Mais Família, José Pedro Assunção, e a mulher.

11 janeiro 2007

Pois é ...

Joseph Ratzinger, a Igreja e o mundo
José Pacheco Pereira, Publico 11 Janeiro 2006
(...)
«Ao envolver a Igreja nesse debate em termos que podemos considerar, para além da fé, como fazendo parte da nossa linguagem civilizacional comum, Ratzinger dá uma contribuição intelectual, mesmo quando a faz como um testemunho de fé. E é exactamente porque é entendida como um testemunho da fé - alguns dos seus mais interessantes textos são análises do Credo - que nos comunicam alguma coisa, porque se fundam na convicção da Igreja como uma construção divina. Ao ajudar a dar solidez à "pedra" de Pedro, Ratzinger reforça também um dos nossos alicerces civilizacionais, porque essa "pedra" não sustenta apenas o Vaticano, nem a Cúria, nem a Igreja, mas também o nosso mundo.
Por tudo isto não nos são indiferentes as suas posições e polémicas sobre o papel da Igreja, porque também delas depende o modo como o corpo da Igreja, do Papa aos fiéis, entende a instituição de que faz parte e o corpo de "saberes" que transporta. Se colocarmos em confronto dois teólogos católicos de relevo no século XX, Ratzinger e Hans Kung, verificamos como as respostas que dão ao posicionamento da Igreja têm efeitos no "mundo" muito distintos. Se a Igreja Católica, em nome de um reforço do seu sucesso temporal se tornasse numa instituição multicultural e "inter-religiosa", com fronteiras indefinidas, como aconteceria se as propostas de Hans Kung e de outros teólogos "liberais" e anti-Papado fossem para a frente, rapidamente se dissolveria no "mundo" como mais uma entidade religiosa, sem centro e direcção e certamente sem magisterium reconhecido. Um dos aspectos que mais fragilizam o islão e mais o impedem de se modernizar é a ausência de vozes interpretativas autorizadas. Num certo sentido, e com excepção do xiismo, no islão não há nem Igreja, nem magisterium, e isso contribui para fixar uma interpretação literal do Alcorão, e das suas componentes jurídicas e societais, como a sharia, nos tempos medievais. A Igreja Católica foi capaz de manter um equilíbrio entre o que considera "revelação" e o "mundo" que lhe permitiu sobreviver como instituição global num mundo fortemente laicizado, porque tinha uma autoridade central que interpretava e uma hierarquia que levava a autoridade dessa interpretação aos fiéis.
Como laico, eu valorizo o magisterium da Igreja, mesmo quando dele discordo na sociedade e na política. Prefiro uma Igreja institucional e conservadora a mais um "movimento" com fronteiras indefinidas, mesmo que fundado numa fé genuína dos seus crentes. Penso que sem magisterium a Igreja verdadeiramente nunca seria capaz de mudar e que é pelo magisterium que muda. Um retorno à Igreja comunitária primitiva, a negação do papel do Papa e uma recusa da Igreja hierarquizada trariam ainda mais confusão e um maior deslaçamento da sociedade. A oposição de Ratzinger a estas teses e a Igreja que agora como Papa tem autoridade para ajudar a construir pode não chegar para evitar o velho fantasma que nos ronda as casas, o da "decadência do Ocidente", mas ajuda a esconjurá-lo.
Compreendo que dentro da Igreja, muita da resistência ao "século" pareça empobrecedora para os católicos - por exemplo, a recusa da ordenação das mulheres, ou as posições da Humanae Vitae sobre a contracepção - mas, para "fora", uma Igreja que mude só com solidez e prudência, que afirme um sistema de valores que comunica com outros valores sociais e os reforça é fundamental. Nos dias de hoje, os aspectos mais socialmente negativos das posições da Igreja (sobre moral sexual, por exemplo) parecem-me de todo circunstanciais e, a prazo, acabarão por mudar, mas é essencial que essa mudança se faça sem pôr em causa a autoridade da Igreja enquanto presença moral e espiritual. Pode parecer contraditório desejar ao mesmo tempo mudanças e prudência, mas não é.
Sem a Igreja cristã, seja a "apostólica romana", sejam as igrejas ortodoxas, luteranas, protestantes e a anglicana, o teor do debate "moral" na nossa sociedade seria certamente muito menor. Como tudo puxa para que ele seja pouco e tenda ainda a ser mais escasso, precisamos dessa face da nossa identidade, mesmo que para muitos essa seja uma identidade nostálgica e perdida. Perdida ou actual, ela está lá. Para o "mundo", faz mais falta uma Igreja sólida, lenta e prudente, ou seja conservadora, do que uma Igreja "progressista". Para "progressismo" e "politicamente correcto", já temos que chegue. Para além disso, marxistas e "progressistas" fazem muito melhor "progressismo" do que faz a Igreja. Este é também o sentido da obra teórica de Ratzinger

08 janeiro 2007

Treinador Fernando Santos: sou sempre pela vida!



«Ninguém quer penalizar as mulheres. O que defendemos é a vida e esta começa no momento da concepção. Fundamental é resolver a questão social subjacente ao crime.»

(A Bola, 2 Jan 2007)