Jornal de Negócios

24 abril 2007

Licenciados em aldrabice (com título válido)


Segundo o Diário de Notícias, a prática de abortamento - para além das 10 semanas - vai deixar de ser punida com prisão.

Esta reforma já estava em estudo - como foi amplamente salientado pelos defensores do "não" durante o referendo - e, a ser tomada a sério nessa altura, tornaria o referendo inútil ...


Neste momento, com a despenalização até às 10 semanas, mais a não punição (na prática), mesmo que fora dos prazos legais, as clínicas têm o caminho aberto para um negócio como não há outro nos nossos congéneres europeus: na prática podem induzir o aborto em qualquer altura, aumentando muito a sua "quota de mercado", inclusive com "clientes" doutros países da União que têm leis menos agressivas.

Se a isto juntarmos que, em breve, o uso e manipulação de embriões abortados também estará legalizado, o círculo fechou-se. O negócio está completo.

Como o aconselhamento das mulheres também está bloqueado, este passou a ser um mercado livre: entrámos no século XXI como um dos países mais liberais no uso, manipulação e poder sobre os embriões humanos. Pior do que nós, só os EUA!

Cada vez tenho mais orgulho em ter votado não!

17 abril 2007

sindrome de Pinóquio

Ainda não será epidémico, mas vai-nos engolindo a pouco e pouco. Lembrei-me disto ao ler o comentário de António Barreto sobre a decisão do Tribunal Constitucional de punir um jornal por ter revelado a verdade sobre a dívida de um Clube de Futebol ao Fisco! (Publico, "A Justiça ao Ataque", 15 de Abril de 2007). Claro que foi este mesmo Tribunal que aprovou uma pergunta (inconstitucional) para o referendo, violando o princípio (constitucional) da defesa da vida humana. Portanto, espera-se o quê deste Tribunal?

«A justiça ao ataque15.04.2007,

António Barreto, Retrato da Semana


Nunca a definição de interesse público, de qualquer modo complexa, esteve colocada num campo tão errático e incerto

Má semana para a liberdade! Chegaram a público duas notícias arrepiantes. Numa, a vara cível de Lisboa condenou a revista Notícias Magazine (do Diário de Notícias) por ter divulgado notícias verdadeiras mas consideradas como atentados contra o bom nome de alguém que desempenhava funções públicas. Noutra, o Supremo Tribunal de Justiça afirma que a verdade pode não ser relevante e condena um jornal (PÚBLICO) por ter publicado um artigo no qual se dizia que um clube de futebol (o Sporting) devia dinheiro ao Estado.
O primeiro caso é aberrante. A revista tinha publicado uma notícia sobre um processo de adopção de uma criança. O tribunal considerou que os artigos tinham veiculado opiniões "que davam uma imagem negativa do juiz". Os factos são considerados verdadeiros e provados, assim como de interesse público, mas entende-se que "foi violado o princípio da proporcionalidade". A revista é condenada a pagar uma indemnização de 15.000? ao magistrado. Acontece que este juiz terá tratado a directora e a jornalista de "estúpidos, mentecaptos, tristes, inúteis, imbecis e indignos". Os termos foram de tal modo violentos que o Conselho Superior da Magistratura sancionou o magistrado com vinte dias de multa por ter usado de "qualificativos impróprios". Além disso, este Conselho entendeu "que a reportagem feita pela revista Notícias Magazine constitui legítimo direito de informação" e se enquadra dentro dos "limites da liberdade de imprensa". Tal não foi o entendimento do tribunal que ficou chocado com a "imagem particularmente negativa" do magistrado.


No segundo caso, o jornal tinha ganho, por unanimidade, os processos na 1.ª instância e na Relação. Ambos estes tribunais deram como provados os factos alegados no jornal. Na primeira instância, foi acrescentada ao processo cópia de documento oficial em que era confirmada a existência de um dívida, que aliás chegou a ser notificada ao clube de futebol.
(...)

O acórdão não se esquece de recordar que o clube joga na primeira divisão, tenta competir para o título, ganhou o campeonato nacional de 1999/2000 e criou uma empresa cotada em bolsa. Porque, aparentemente, o clube necessita de tranquilidade e de um clima de confiança para negociar investimentos e desenvolvimentos, o Supremo entende que aquelas notícias afectam a confiança, o crédito e a credibilidade que o clube espera merecer.

O acórdão vai ao ponto de afirmar, a certo passo, que "é irrelevante que o facto divulgado seja ou não seja verídico"! (...)
Por isso o jornal é multado em 75.000. Esta é a maior pena jamais decretada em Portugal num processo relativo ao uso da liberdade de expressão.

(...)

Raramente uma decisão judicial se elevou, como esta, tão alto nos píncaros do absurdo. Poder-se-ia, como já fizeram vários jornalistas, recear a censura. Pode ver-se neste acórdão um atentado à liberdade de expressão. É natural concluir que esta decisão terá efeitos nefastos para a imprensa e para as liberdades públicas, pois acaba por assumir o carácter de intimidação. Nunca, como agora, a definição de interesse público, de qualquer modo complexa, esteve colocada num campo tão errático e incerto. É mesmo possível que um cidadão se interrogue sobre os fundamentos e a génese da decisão do Supremo.

(...)

Quer isto dizer que, para o Supremo, a verdade pode ser ocultada, mesmo por uma entidade de utilidade pública. Quer isto dizer também que a mentira pode ser irrelevante. É triste viver num país em que o Supremo Tribunal de Justiça, repito, o Supremo Tribunal de Justiça, pensa assim.»

12 abril 2007

serenity



A revista SFX, acaba de publicar o top-ten dos filme de ficção científica: e no topo aparece Serenity. Em 2º lugar está Star Wars ...

Serenity
é uma espécie de filme de cowboys, passado 500 anos no futuro. Diz quem o viu que "prende" o espectador com grande eficácia. Além disso tem um especial sentido de humor, temperado com uma ironia social mordaz.

A batalha continua contra a Aliança que controla toda a Galáxia com o seu poder ditatorial.

Curiosamente a série de tv que lhe serviu de inspiração (Firefly) não teve grande sucesso na altura.

Pessoalmente continuo a preferir a Guerra das Estrelas ;-)

09 abril 2007

El sendero


É uma pena, mas não encontro tradução em português. No país ao lado já traduziram este livro de Naguib Mahfuz. Ganhou o Prémio Nobel em 1988.

El sendero, é uma novela dramática, passada nos anos 60, no Egipto, que se lê como um policial: de um fôlego.

Um menino-da-mamã, habituado à boa vida, fica em apuros quando esta morre. A "mamã", por sua vez, vivia da prostituição, de modo que não sobra grande coisa a que este jovem se agarre, a não ser encontrar o pai ...


30 março 2007

Falar a sério


Nem todos comem e calam. Depois dos argumentos, bem anunciados e perfumados durante a campanha do referndo, a dura realidade de uma lei que está entre as piores de todas as leis da União Europeia. A mulher tem que abortar, deve abortar e tudo o que a leva a mudar de ideias deve ser evitado.

Foi isto que foi prometido pelo Primeiro Ministro na campanha?

Foi isto que desejaram muitos dos que votaram sim?


Há quem encolha os ombros; há quem continue a lutar pela liberdade de escolher os filhos.



a propósito de Manchester (da triagem, não do clube ;-)


Já não se lembram do senhor doutor protocolo.

Mas informações
recebidas neste blog (e portanto absolutamente fidedignas) dizem que o assunto está a melhorar "do vermelho ao verde".

Fico feliz por isso (e também por aquela pisca de orgulho nacional, por ter um protocolo que melhora dentre as cores da bandeira...). Aqui vai o link para quem quiser experimentar. Depois digam qualquer coisa.


22 março 2007

Levar a Europa ao médico?


Krzysztof Zanussi é geralmente conhecido pela sua carreira de cineasta. Licenciado em Física e Filosofia, foragido da Polónia durante o regime de Jaruselski, ganhou notoriedade com a sua primeira longa-metragem "A Estrutura do Cristal" (1969). Depois disso outras obras premiadas, como O Ano do Sol Tranquilo (Leão de Ouro, em Veneza 1984) e Constants (Prémio Especial do Júri em Cannes, 1980), foram definindo um estilo que se caracteriza pela inquietação existencial.

Zanussi começou sua carreira na Televisão, e radicou-se na Alemanha, no início dos anos 80. Foi entrevistado recentemente, a propósito do X prémio Luka Brajnovic, que lhe foi atribuído pela sua defesa dos direitos e da dignidade humana.

"P- É conhecido por defender o predomínio do pensamento e arte europeus face ao norte americano. Que leitura faz da sua posição, no momento em que assisitimos ao império quase absoluto dos EUA?

R - Não é bem assim. Pode parecer isso, se o olhamos na perspectiva de uma certa crise do cinema europeu. É verdade que há 20 ou 30 anos atrás, os oscares tinham uma importância mais restrita. Hoje em dia, com a debilidade do cinema e da cultura europeias, o cinema americano parece mais forte. Mas isto não é um facto imutável. A prova é que o cinema indiano e chinês multiplicam as suas produções.

— Mas afinal o que se passa com a cultura europeia?

Se a Europa fosse uma pessoa, eu levá-la-ia ao psicólogo. Não ao psiquiatra, ao psicólogo. Não me parece que a debilidade europeia seja um caso clínico. Mas o seu estado de ânimo apresenta sintomas muito objectivos de desequilíbrio: não tem entusiasmo, nem confiança em si mesma. Já disse algumas vezes que a Europa padece de melancolia. Para a ultrapassar precisa de confiar em si própria e na sua missão no mundo. Tal como uma equipa que quer ganhar, precisa de determinação, abnegação e educação. Todo o mundo tem beneficiado das ideias da Europa, e continuarão a beneficiar. Mas ninguém virá salvá-la de si mesma: só a Europa pode curar-se a ela própria. Para isso é preciso que reconehça o seu próprio valor"

20 março 2007

E agora?

Do Boletim da Ordem dos Advogados, nº 45

«Julgo que poucos terão dúvidas que o último referendo teve subjacente uma vontade legítima de tentar dar resposta a problemas muito sérios e reais da nossa sociedade, sendo certo, também, que da solução encontrada emergem novas questões de difícil resolução. para melhor se perceber o que se demonstrar, nada melhor do que recorrer a uma situação ficcionada:


- António diz-se vítima da obsessão de uma amiga que, aproveitando-se do seu estado de embriaguez decorrente de uma festa em que ambos estavam, o induziu a com ela manter relações sexuais;

- Sendo certo que, caso não estivesse nesse estado nunca teria tido relações com a dita amiga, a qual, segundo me afirma, sempre teve por ele uma enorme obcecação tendo sido sempre rejeitada;

- Dessa situação resultou uma gravidez e o nascimento de uma criança;

- O António só em estado muito avançado da gravidez é que dela teve conhecimento;

- Nunca aceitou que a criança fosse sua filha, ainda que biologicamente assim viesse a ser decretado, o que veio a suceder após o decurso de uma acção de investigação da paternidade;

- A verdade é que sempre se sentiu traído e vítima de uma manobra pouco leal e transparente perpetrada pela mãe da criança; sempre aceitou que a filha não tinha qualquer culpa pela situação, não sendo essa razão, no entanto, suficiente para o levar a agir como Pai e, consequentemente, a aceitar o vínculo da paternidade, apesar de existir uma sentença judicial que o obrigue formalmente a tal;

- Não quer ser pai, nunca desejou tal condição, nem sente essa criança como sua filha.


E agora? Será que perante o resultado deste último referendo, pode este cidadão (homem), vir a exigir, à sombra do princípio constitucional da igualdade de tratamento entre homens e mulheres, que a lei não o obrigue a ser pai?

Dito de outra forma: podendo a mãe, por sua exclusiva vontade e por razões da sua estrita conveniência desejar, nas condições da lei, não ser mãe, não poderá o pai reivindicar um direito similar, com a vantagem, em caso de colisão de direitos, de não existir necessidade, sequer, de se fazer terminar com o processo biológico que, caso a natureza não seja contrariada, terminará no nascimento de um ser humano? Não deverá o Estado ter de respeitar esta sua decisão, substituindo-o naquilo que seriam os seus deveres, nomeadamente, o de ali alimentos, quanto à menor?

A questão que agora me suscita algumas dúvidas é, pois, a da (in)constitucionalidade de todas as normas que impõe a um pai que o seja, isto face ao dito princípio constitucional da igualdade de tratamento entre mulheres e homens e a possibilidade que agora é aberta à mulher pelo resultado do referendo de, por sua exclusiva vontade e atendendo, tão só, a razões de sua conveniência (as quais nem necessitará de explicitar), não querer ser mãe. O pai não terá um direito similar?

Será que o António não poderá ter alguma razão quando reivindica o direito, malgré o odioso que a situação sempre suscita nas consciências dos outros, de não querer ser pai, de nunca ter sido tido nem achado na questão da interrupção, ou não, da gravidez, de só ter contribuído de forma totalmente inconsciente para que a filha nascesse, não se sentindo pai, nem o querendo ser.

As mães, agora, vão passar a ter do direito de dispor, sem constrangimentos de espécie alguma, sobre o fruto de uma relação sexual, e o pai não tem, no que a isso diz respeito, direito rigorosamente a nada? Só lhe cabe o dever de arcar com as consequências e responsabilidades do seu acto?

Qual a razão que leva as mulheres a abortar? Não é uma questão de (in)conveniência (seja ela qual for, ninguém terá nada com isso), de direito a entenderem, pelas razões que só a si dizem respeito, que não querem aquele filho? O que é que isto verdadeiramente tem a ver com o facto de a natureza ter escolhido a mulher para ser nela que se desenvolva e dê o milagre do nascimento, ainda por cima agora que o Homem, em Portugal, decidiu que lhe é possível interferir e fazer terminar esse processo? O homem tem de aceitar e resignar-se com aquilo que a natureza lhe impõe, ao invés da mulher que a pode contrariar?

É tudo isto mera tolice ou poderá ser esta "provocação" entendida como singelo contributo destinado a mexer as águas e tentar dar ainda mais expressão ao princípio da igualdade entre homens e mulheres, seja através do redesenhar do conteúdo dos direitos emergentes desse princípio, seja através do reequacionar de toda a problemática subjacente a estas questões, obrigando o Estado, de uma forma ou de outra, a comportar-se como tal e a não se demitir, nunca, das suas responsabilidades sociais?

Será que estamos a abrir a caixa de Pandora?
Ou, ao invés, teremos a serenidade e lucidez suficientes para, através de uma justa e adequada ponderação de tudo o que está em causa darmos expressão a um quadro valorativo que defenda, acima de tudo, o Homem em todas as suas dimensões? »

João Folque (Advogado)


O relativismo não é relativo?


Apresento-vos o meu amigo relativista: é uma pessoa muito humilde e tolerante. Diz que é "humildemente" incapaz de conhecer a verdade absoluta. Afirma, muito rotundamente, que a verdade absoluta não existe: a verdade apenas existe naquele tempo, ou naquele espaço cultural. Não há verdades universais, mas apenas de cada época ou cultura. Mudemos a época, ou a cultura, e as "verdades" mudam.

Aqui chegado, faço notar ao meu amigo relativista que, talvez por distracção, acaba de pronunciar uma longa lista de verdades absolutas e autoritárias. Tão absolutas, que me classifica de intolerante se eu não concordar com as suas verdades.

De facto, o que acabou de fazer, é uma verdadeira profissão de fé: fé no valor (absoluto) do relativismo; fé no monopólio (absoluto) do valor moral da sua posição; fé, no valor (absoluto) de que as posições contrárias, serão intolerantes. Ora se tudo é relativo, por que é que a tolerância seria melhor do que a intolerância? No máximo, deveríamos dizer, "não sei se é melhor ser tolerante do que intolerante" ...

Para se ser um bom relativista, é preciso auto-atribuir-se o monopólio moral da tolerância e negá-lo (de modo absoluto) a todos os que discordam. Não conseguem tolerar que outros possam ser tolerantes, sem serem relativistas.

A verdade é que eles também não conseguem sequer ser relativistas, porque ao afirmar que tudo é relativo, estão a afirmar uma verdade absoluta, negando o seu próprio relativismo.



13 março 2007

Não sabe escrever correctamente? Então pode guardar o mestrado no bolso!


Na era da escrita simplificada e dos sms, as empresas continuam a dar lugar de destaque à expressão oral e escrita. O Director da Escola Central de Electrónica (França), Pascal Brouaye, diz que a empregabilidade dos alunos depende muito da sua capacidade de comunicar. Esta escola superior exclui, mediante provas de acesso específicas sobre expressão escrita, cerca de 5 a 8 % de candidatos todos os anos.

As empresas querem que, mesmo em áreas técnicas, os funcionários não se limitem a saber manejar ferramentas. É preciso saber falar com clientes, redigir notas e informações, organizar e participar em reuniões, ler e entender um contrato de trabalho ...

Em 2005, em França, foi aplicado a 2767 alunos, entre os 12 e os 15 anos, um teste que consisitia em ditar uma curta passagem de Fenelon (83 palavras). Este teste já tinha sido aplicado, palavra por palavra, em 1987 a um grupo semelhante. Em 1987, o número dos que cometeram menos de 6 erros foi cerca de 50%; em 2005, desceu para 22%. (Le Monde)


28 fevereiro 2007

A "roda" reinventada em Itália no século XXI


«Itália reinventa sistema da roda para salvar bebés da morte»
in Publico,27.02.2007

«A Itália recuperou um sistema medieval para tentar impedir o abandono de bebés em sacos de plástico, noticiou ontem a Reuters. A ministra da Família, Rosy Bindi, quer que os hospitais do país passem a ter uma versão moderna da roda, equipamentos em madeira ou pedra, em conventos e igrejas, onde desde a Idade Média eram deixadas as crianças indesejadas sem que a pessoa que os deixava fosse identificada.»

«No formato italiano, a roda é uma incubadora de vidro instalada num quarto de hospital que é directamente acessível a partir do exterior.
Este fim-de-semana no Hospital Casilino, nos arredores de Roma, uma pessoa entrou, depositou o bebé na incubadora aquecida e saiu. Quando estava na sala, os sensores de movimento instalados detectaram a sua presença e fizeram soar o alarme. Quarenta segundos depois chegaram os médicos e levaram o menino, a quem decidiram chamar Stefano.
Segundo a Reuters, quase todos os meses são encontrados bebés abandonados em caixas ou sacos de plástico, à beira das estradas ou nos caixotes de lixo das cidades. Só alguns sobrevivem.

No Hospital Casilino há cartazes com um apelo em várias línguas: "Não abandone o seu bebé - deixe-o connosco."»

E em Portugal? ...

27 fevereiro 2007

Depois dos filhos descartáveis, os pais ...

«Quando as crianças se tornam pequenos ditadores»

in Publico, 26.02.2007, Bárbara Wong

«Já há denúncias de filhos que agridem os progenitores. Esse número não é maior por vergonha e desculpabilização

Eles não são muito difíceis de identificar. Encontramo-los na escola, no café, no supermercado, em casa dos amigos... É o menino de seis anos que dá o pontapé à mãe e esta sorri, ao mesmo tempo que diz "isso não se faz". é a menina de três anos que faz uma fita tremenda, porque não quer comer a sopa, entorna o prato e é recompensada com um bolinho, para, "coitadinha, não ficar com fome".

Aos olhos dos pais, os seus meninos são "pequenos tiranos adoráveis", com "personalidades muito vincadas", enquanto para os demais não passam de uns "intrometidos malcriados". quem o diz é o psicólogo espanhol Javier Urra, que os apelida de "manipuladores" e "caprichosos".

"O pequeno ditador: da criança mimada ao adolescente agressivo" é o título de Javier Urra, publicado pela Esfera dos Livros. O pequeno ditador é o "príncipe da casa", é o filho caprichoso que dá ordens aos pais, mas que, com o passar do tempo, se pode transformar num adolescente agressivo, alerta o psicólogo clínico. "Este tipo de comportamentos faz temer uma adolescência conflituosa", alerta urra, que foi o primeiro provedor de menores em Espanha (entre 1996 e 2001).

Em casa, estes filhos podem bater nos pais, roubar-lhes dinheiro, mas também podem entrar nos circuitos de delinquência. o fenómeno está bem identificado em espanha, onde o ano passado houve sete mil denúncias de pais agredidos por filhos.
Á Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) chega um número reduzido de queixas de que jovens agridem os pais e não têm qualquer perturbação psíquica, informa Daniel Cotrim, psicólogo clínico. "São jovens, de todas as classes sociais, que os pais colocaram no centro do seu mundo e eles põem e dispõem na estrutura familiar", retrata.

"As crianças maltratadoras, que insultam os pais, que agridem física e psicologicamente, são produto de uma sociedade que, quando considerou o século xx o século da criança, provocou profundas alterações no modelo educativo", e os resultados nem sempre foram os esperados.

"Não se prepararam as crianças para os "nãos da vida", analisa Manuel Coutinho, psicólogo e secretário-geral do instituto de apoio à criança. "em geral, são crianças muito bem cuidadas", descreve Javier Urra, porque as famílias dão-lhes tudo. "Costumo dizer que há uma geração que nunca comeu o peito do frango, porque os seus pais comiam a melhor parte. Quando cresceram e se tornaram pais, deram o melhor do frango aos filhos", continua Manuel Coutinho.

O problema é os pais não estabelecerem limites e regras, concordam os especialistas. quando vão à consulta, os adultos "chegam sem forças", porque os filhos "exigem, testam-nos até ao limite e nunca percebem quais são os limites, porque os pais não os estabelecem", diz Maria João Santos, do espaço para a saúde da criança e adolescente, em Lisboa
.
"Psiquiatras, psicólogos infantis e professores enfrentam um problema educativo, para cuja solução se requer em primeiro lugar que os pais aprendam a sê-lo", escreve Javier Urra.

"A família é um termómetro do sistema, o seu fracasso antecipará uma desordem geral", alerta. "os pais têm de perceber que os limites são necessários", afirma Maria João Santos.

Infelizmente, muitas crianças que cresceram sem regras acabam nos tribunais e são os juízes quem lhes marca a fronteira entre o que é permitido e o que é proibido", acrescenta manuel coutinho. Mas se forem devidamente acompanhados poderão "transformar-se em bons cidadãos", observa Daniel Cotrim.»

Lembrei-me, a propósito, do artigo do Dr. Daniel Sampaio, na Pública do Domingo passado, quando diz que não se podem "impôr" comportamentos... Pois não, sobretudo se se puder pagar a um guarda-costas (permanente)!