Jornal de Negócios

27 junho 2007

Albert Camus e Deus


Uma livro biográfico escrito por um amigo íntimo de Camus - El existencialista hastiado.
Relato de questões humanas comuns, pela voz de alguém que não desisitiu de se questionar e de procurar.

Sugestão para férias... (não encontrei tradução portuguesa, mas também não procurei muito)


O Irão é o país que mais executa crianças



Notícia do Publico, hoje: «É mais do que tempo de as autoridades iranianas acabaram com esta prática vergonhosa, de uma vez por todas, e alinharem com o resto da comunidade internacional que há muito tempo reconheceu a obscenidade de executar aqueles que cometem crimes quando são crianças.» diz a Amnistia Internacional.


No Ocidente somos mais "civilizados": executamo-los in utero. Assim seguramente que não poderão vir a ser notícia, por nenhum motivo (bom ou mau) ... A dificuldade será explicar aos "bárbaros" porque é que a nossa prática é mais civilizada.
A própria Amnistia Internacional (AI) que, durante muito tempo, manteve uma política de neutralidade em relação à questão, decidiu recentemente passar a apoiar a descriminilização do aborto, isto é, torná-lo legal perante a lei, o que tem levado muitas organizações a demarcarem-se da AI. A defesa dos direitos humanos deixou de ser prioridade para a Amnistia, que passou a defender direitos "selectivos" para alguns humanos: ou seja, imita a praxis dos países que ela própria critica, eles também defensores de "direitos" apenas para aqueles que as autoridades escolherem.
Quem entender, que explique.

18 junho 2007

Projecto Cabo Verde


No meio de tanta coisa menos boa, ou até mesmo negativa, não falta quem não se importe de passar as férias a trabalhar pelos outros.

É apenas um (de muitos) exemplos que me vão chegando.





É possível ter uma TV humana?


Artigo de Marco Antonio Batta, L.C.

«Quando se diz que "cada povo tem o governo que merece", pretende demonstrar-se que quanto mais passivo e conformista é um país, mais atropelos sofre da parte dos governantes.

Uma coisa semelhante acontece com a televisão: "cada país tem a tv que merece". A televisão exerece um poderosíssimo influxo nas sociedades. Esta influência pode ser positiva ou negativa. No pequeno ecrã pode ver-se desde um documentário sobre o Padre Pio, até cenas de enorme violência e imoralidade agressiva.

No México, há vários anos que existe uma associação, chamada A favor do melhor, que promove a produção de programas com conteúdo valorativo.

Devido ao trabalho desta associação, as companhias patrocinadoras dos programas escolhem com sentido mais crítico os programas em que anunciam. (...) A segunda maior rede televisiva do país, a TV Azteca, promoveu um concurso para telenovelas que promovam valores humanos positivos.

Entre as empresas que integram este projecto e o apoiam contam-se:

Bimbo, BBVA, Cemex, Coca-Cola, Johnson & Johnson, Kimberly Clark, Kraft, Aeroméxico, Mexicana de Aviación, Nestlé, Procter & Gamble, Sears, Telmex, Unilever, entre outros.

Estas companhias condicionam a compra de espaço publicitário à qualidade dos programas.

Por exemplo, se uma telenovela promove antivalores, como a dissolução da família, ou o sexo irresponsável, estas empresas não compram os anúncios. Desejam apresentar-se como sendo socialmente responsáveis ou, pelo menos, têm a preocupação de não ferir a sensibilidade dos seus clientes.

O consumidor, na hora de comprar, tem um certo poder sobre as compras e, de modo indirecto, sobre o tipo de publicidade que sustenta a TV. » (...)

Às vezes basta um email a protestar. Claro que sempre haverá quem fale em "censura" e "progresso", mas de facto que progresso existe em promover a violencia sexista ou a exploração dos impulsos?


15 junho 2007

Pelo menos, saibam fazer contas (já que a ética ...)


No Diário de Notícias: resposta ao editorial de 9 de Junho

«"Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva." (Sec.V a.C.)

Estas são palavras do juramento de Hipócrates, considerado um património da humanidade pelo seu elevado sentido moral, durante séculos repetidas como um compromisso solene dos médicos ao ingressarem na profissão.

Será de estranhar que 80% dos médicos portugueses sejam objectores de consciência, recusando-se a fazer abortos por simples vontade da mulher? Estranho é que não sejam 100%.


É repugnante e ultrajante o editorial do DN de 9 de Junho, que na minha opinião merece um processo legal por difamação ao insinuar que os médicos são objectores de consciência por tencionarem fazer abortos na clínica privada.


Além disso, dizer que há "uma estranha e clara dessintonia entre a classe médica e a sociedade como um todo" quando numa população de
10,5 milhões de pessoas, só 2,2 milhões (ou seja, cerca de 1/5 da população) votou a favor do aborto livre, é no mínimo desonestidade intelectual e prova de inaceitável má-fé. Dado que 1,5 milhões votaram Não, o autor não saberá fazer contas ou decidiu por si o que pensam os restantes 6,8 milhões de portugueses que não se pronunciaram?

O mesmo autor insta o Governo a tomar medidas urgentes devido a esta "estranha" objecção de consciência duma "qualquer classe profissional" (a dos médicos).

Apavora-me um mundo que se diz democrático mas onde há quem se atreva a atacar a mais íntima e inviolável de todas as
liberdades: a liberdade de consciência de cada um.»
Thereza Ameal

11 junho 2007

No Publico de hoje:

«Gondomar: marcha a favor de criança com paralisia cerebral rendeu mais de 3600 euros
A marcha de solidariedade hoje realizada em Gondomar a favor de Martim, uma criança de um ano e meio que sofre de paralisia cerebral, reuniu mais de mil pessoas e permitiu angariar cerca de 3600 euros. "Correu tudo muito bem, as pessoas foram fantásticas", disse fonte da organização desta iniciativa, que se destinava a recolher fundos para ajudar a pagar as sessões de fisioterapia de Martim, que custam 30 euros cada. » (...)

País espantoso este: a uma mãe que queira matar o filho saudável in utero, paga-se o negócio às clínicas multinacionais do aborto, e dá-se subsídio "de doença" à mãe. Aos pais com um filho gravemente doente, deixa-se entregue à solidariedade pública. Estes nossos "direitos", começam a ficar muito parecidos com a ferocidade das ditaduras do passado.

Entretanto, o governo prepara-se para que as despesas de saúde deixem de ser dedutíveis no IRS, ou seja, os pais destas crianças vão ter ainda maiores dificuldades.

08 junho 2007

Ali Babá y los 40 maricones: educação para a cidadania em Espanha


Trata-se de um libro publicado em 1993, pela editora La Cupula, da autoria de Nazario. Faz parte da lista recomendada, pelo Ministério da Educação do país vizinho, para a cadeira de Educação para a Cidadania em Espanha. Esta matéria está incluída nos recursos didáticos da educação para os valores, promovidos pelo Ministério espanhol.

A lista, por si só, é bastante sugestiva da "neutralidade" ideológica do programa. Algumas imagens do referido manual podem ser vistas aqui.

São bastante violentas, mas este é um dos manuais "educativos" do país ao lado.

No guia do ministério o livro é apresentado como "uma banda desenhada divertida descrevendo as peripécias da vida diária de um grupo de vizinhos de um bairro, na maioria gays, na Barcelona actual. Um dos melhores livros de um desenhador famoso."

Já vai sendo altura de deixarmos de ser ingénuos! A familiofobia e a heterofobia estão em alta e não se conhecem programas de "tolerância" para combater esta epidemia.


06 junho 2007

Agnes

Neste momento, tem 26 anos. Foi raptada, na sua escola, no Uganda, aos 14 anos, juntamente com cerca de centena e meia de outras colegas, pelo "Exército de Libertação". Foi obrigada a empunhar uma arma e a juntar-se às outras crianças-soldado.


Actualmente em Espanha, trabalha numa ONG (CESAL, Centro de Estudios y Solidaridad con América Latina) exercendo em campos de refugiados, nos quais a sua experiência é de enorme valor.


«Fui sequestrada juntamente com mais 139 raparigas. Nas negociações que se seguiram, conseguiram libertar 190, mas ficámos cerca de 30. Consegui escapar, ao fim de três meses, juntamente com mais 24. Das restantes, quatro estão mortas, e duas continuam retidas», contou numa entrevista.

Diz que perdoa, mas que entende que nem todos o consigam. O maior trauma das crinaças-soldado é que os obrigam a matar os seus próprios familiares, ou os da sua tribo. Assim os desvinculam da sua vida anterior e garantem que não queiram fugir.

No seu caso, foi recebida pelos seus pais e irmãos de braços abertos, mas muitos não podem regressar porque a sua família ou tribo jamais lhes perdoará as mortes.

«O amor dos meus pais, o sentir-me querida, foi o que me sustentou e decidiu a não desistir de tentar fugir». Diz também que a sua experiência anterior no Colégio a ajudou a querer escapar da pior das prisões: aquela em que se é obrigado a matar.

02 junho 2007

Brecht citado a propósito da porno-educação


É um tema que nos envolve a todos, queiramos ou não. O filme lá passou, a questão é saber qual a mensagem...


«Primeiro, eles vieram buscar os comunistas.
Não disse nada, pois não era comunista;
Depois, vieram buscar os judeus. Nada disse, pois não era judeu;
Em seguida, foi a vez dos operários. Continuei em silêncio, pois não era sindicalizado;
Mais tarde, levaram os católicos. Nem uma palavra pronunciei, pois não sou católico.
Agora, eles vieram-me buscar a mim,
e quando isso aconteceu, não havia mais ninguém para protestar.”

(Escuta Zé Ninguém, Bertold Brecht)


senhoritos ...


O forum Justiça e Paz e a Caritas, da Venezuela, pronunciaram-se publicamente contra as tentativas do governo de Hugo Chavez em criminalizar as manifestações públicas de desagrado.

Recordam ao Presidente que os tratados internacionais que a Venezuela assinou, e a própria Constituição Venezuelana, obrigam ao respeito pelos direitos humanos, tal como a liberdade de expressão, sem discriminação.

Várias organizações defensoras dos direitos humanos denunciaram que o governo deteve pelo menos uma centena de pessoas que protestavam contra o encerramento, por parte do governo, da cadeia de televisão RCTV, encerramento alegadamente motivado pela sua atitude demasiado crítica perante a política governamental.

14 maio 2007

morrer divertido?


Nos EUA, entre 1997 e 2004, foram tratadas em serviços de urgência cerca de 60 mil pessoas por lesões provocadas em parques de diversões.

Algumas das lesões mais graves, são idênticas entre idades tão diversas como 7 ou 77 anos e consistem em tromboses cerebrais e hemorragias no cérebro, ou lesões nas carótidas e outras artérias que comunicam com a cabeça.

A questão são os efeitos de aceleração / desaceleração que expoem a massa encefálica e as suas estruturas a danos provocados por forças superiores às da gravidade (que podem ir até a um efeito de multiplicação de 5 vezes).

Embora o risco seja baixo, as consequências (morte, cegueira, paralisia) são pouco animadoras.

O estudo foi publicado na versão student do British Medical Journal. O artigo aqui, é assinado por dois jovens investigadores portugueses, um médico e um engenheiro, ambos da Universidade de Lisboa.

Obviamente, os números publicados reflectem países em que há alguma fiscalização sobre a situação. Neste país em que caem pontes, por falta de manutenção, e se constroem estádios de futebol (para ficarem vazios ...) a situação poderá ser diferente.

Como diferentes são as
contra-ordenações da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), que desde o ano passado, já instaurou mais de 3800 processos por infracções. (Público, 14 de Maio de 2007)

No entanto, até agora nenhum dos infractores foi obrigado a pagar as respectivas multas. Só os que pagaram voluntariamente as coimas foram sancionados.

11 maio 2007

Despedida por se negar a abortar



A UGT espanhola denunciou um caso em Gerona (Catalunha) de uma funcionária de um hotel que foi despedida depois de ter sofrido pressões -por parte da entidade patronal - para abortar. A queixa foi entregue no Departamento de Assuntos Internos da Província autónoma (Departamento de Interior, Relaciones Institucionales y Participación da Generalitat de Catalunya).

Apesar da queixa levantar a suspeita de que o proprietário do restaurante incorreu no delito de coacção, e incitação a delinquir, uma vez que o abortamento nesta situação não está contemplado na lei, não houve qualquer investigação sobre o assunto.

Idêntico silêncio teve a denuncia perante a Fiscalía (Ministério Público) de la Audiencia Provincial de Gerona.

Por seu turno, o Secretário do Ministério do Interior considera que a questão é do "foro laboral".

A E-Cristians, uma ONG que também se interessou pela situação considera que " não se trata de um caso excepcional. Lamentavelmente são muito numerosos os casos de despedimento de mulheres grávidas. A novidade é ter sido noticiado que um empresário incitasse directamente uma funcionária a abortar, como condição para manter o emprego."

04 maio 2007

mais cadáver, menos cadáver ...

Dá a sensação de que depois do cozinhar da negociata com os seres humanos abortados, a porta se vai escancarando.

Segundo lemos no site do
Sindicato Independente dos Médicos, a questão do atendimento de doentes urgentes nos Centros de Saúde, segue o modelo habitual: tudo a molho, e ao desenrasca, e se houver bronca, a culpa é do médico, embora ele não possa fazer nada para mudar a situação. Ou seja, depois de tanta aldrabice, já tanto faz. O governo sairá sempre por cima, e o povo ... Bem o povo está, como diziam os anarquistas no pós 25 de Abril: "A arma é o voto do Povo, mas depois de votar, o Povo fica desarmado."

«Michael Porter e Correia de Campos»
Artigo do Prof. José Manuel Silva* no Tempo Medicina

«Não, não se preocupem que não confundo as duas personalidades!
Michael Porter é um reconhecido e laureado economista, especialista em estratégia competitiva e profundo conhecedor da Saúde; em co-autoria com Elisabeth Teisberg escreveu um livro notável -- Redefining Health Care. Creating Value-Based Competition on Results.
Um pequeno resumo das ideias veiculadas nessa magnífica obra, cuja leitura recomendo vivamente, em particular aos responsáveis nacionais e locais da Saúde, foi agora publicado (JAMA, 2007; 297: 1103-11). Vale a pena salientar algumas frases:
-- Embora as propostas de reforma da Saúde difiram, têm isto em comum: todas examinam o sistema actual e perguntam que modificações, impostas de fora, podem efectivamente controlar os custos, que são elevados e aumentam continuamente. Esta abordagem do problema falhará, porque começa com uma falsa premissa. O objectivo do sistema de Saúde não é minimizar os custos mas fornecer valor aos doentes, ou seja, mais saúde por cada dólar gasto.
-- É necessária uma maior liderança dos médicos, agora. A única solução real para o problema nacional da Saúde é aumentar dramaticamente o valor dos cuidados de saúde prestados com o dinheiro que está a ser gasto. Isso nunca será conseguido do exterior, remendando esquemas de pagamento e incentivos. Aumentar o valor dos cuidados é algo que apenas pode ser conseguido pelos médicos.
-- A competição na Saúde é disfuncional quando cada interveniente no sistema ganha não porque aumenta o valor para os doentes mas porque rouba valor de outros (diminuir tempos de consulta, esmagar salários, restringir serviços, transferir custos, etc.). Nenhuma destas medidas melhora os resultados da Saúde por cada dólar gasto -- de facto, muitas vezes tem o efeito inverso.
-- A competição pelos resultados (melhor saúde por dólar gasto) produziria múltiplos vencedores: os doentes, que receberiam melhores cuidados, os médicos, que seriam recompensados pela excelência, e os custos, que seriam contidos.
-- Um sistema baseado em valor fundar-se-ia em três princípios simples: 1) o objectivo é o valor para os doentes; 2) os cuidados de saúde devem ser organizados em redor de condições médicas e dos seus ciclos de cuidados, não em serviços de especialidades que obrigam o doente a percorrer múltiplos departamentos; 3) os resultados são medidos e divulgados (na cirurgia de by-pass coronário, a mortalidade em New York diminuiu 41% nos primeiros quatro anos de comunicação de resultados).

Tudo ao contrário

Basta olhar para a política de Correia de Campos para percebermos que tudo está a ser feito ao contrário. Os objectivos são exactamente os de esmagar salários, restringir serviços, transferir custos para os doentes, asfixiar instituições, substituir recursos públicos por privados… Nada que um qualquer coveiro de um qualquer cemitério deste país não conseguisse fazer. É o caminho mais fácil e o que exige menos conhecimento, experiência e inteligência.
Nestes dois anos de mandato do actual ministro da Saúde, apenas duas medidas são, de facto, de elogiar: a diminuição do preço dos medicamentos e o tímido início da criação de economia de escala com centrais de compras. Há muitos anos que defendo uma moderna e funcional central de compras do Ministério da Saúde para consumíveis, incluindo medicamentos; a poupança seria de milhares de milhões de euros! Mas talvez afectasse alguns interesses…
Todas as restantes medidas visam o racionamento cego, as pseudo-grandes reformas estão encalhadas, as nomeações continuam a ser maioritariamente de carácter nepótico e os «pequenos poderes» exercem-se de forma discricionária, liquidando totalmente a microeconomia do SNS (será esse o objectivo oculto?...).
A reforma dos cuidados de saúde familiares, a mais importante e determinante reforma da Saúde (cujo êxito se deseja e se exige!), caminha a passo de lesma e prenhe de problemas e indefinições. O que tem reflexos graves para todo o sistema de Saúde, nomeadamente para as Urgências hospitalares. Começando com uma excelente ideia, a filosofia das USF, colocou-se o carro à frente dos bois. Pela admirável generosidade e idealismo de muitos, interesses particulares de alguns e pressões sobre outros, constituiu-se pouco mais de meia centena de USF, claramente aquém das expectativas e das necessidades, e sem o devido enquadramento jurídico. Entretanto, induziram-se mais elevados níveis de organização e responsabilidade, o aumento das listas de utentes e maiores cargas de trabalho, mantendo o mesmo acanhado vencimento base dos médicos e com alguns colegas, inclusivamente, a perder dinheiro (o sonho de qualquer ministro! Por isso, o ministro quer mais USF modelo A, sem definir as respectivas regras e compensações…)!

Reforma subvertida

A reforma das Urgências está a ser totalmente subvertida pelas sucessivas decisões ministeriais. Até se inventa a sandice da «valência peculiar» da «Ortopedia a quente» para justificar o não cumprimento do relatório da CTRAPU no que respeito ao Curry Cabral (como é que alguém pode produzir estas atoardas e continuar ministro da Saúde?!).
Confirma-se aquilo de que já se suspeitava, o ministro apenas queria um relatório descartável, que pudesse usar a seu bel-prazer e lhe permitisse fechar SAP indiscriminadamente. Assim, poupa nos anéis e corta os dedos! Nada faz para cumprir o relatório da comissão pela positiva, mas vai fechando toda a assistência médica de proximidade em situações de urgência, ainda antes da implementação das imprescindíveis alternativas.
O que se passa no distrito de Bragança é vergonhoso e perigoso, mas traduz fielmente os objectivos do actual Governo: encerrar progressivamente o Interior do País. A rede de Urgências ainda não está implementada, a rede e o equipamento de emergência pré-hospitalar são uma miragem, a VMER de Bragança está frequentemente INOP, não há um regulamento das consultas abertas, mas os SAP já vão ser encerrados. Porém, como o ministro até reconhece a necessidade de «qualquer coisa», porque as populações ficam demasiado desprotegidas, transforma os SAP em SEP, ou seja, serviços de enfermagem permanente (ao aceitar esta caricata situação, a Ordem dos Enfermeiros evidencia a sua visão distorcida da equipa de saúde e que a sua prioridade não é a qualidade dos cuidados prestados aos cidadãos)!
O mesmo ministro que teve o despudor de dizer que um médico com estetoscópio num SAP não oferecia confiança (não obstante a presença de enfermeiro e auxiliar e os recursos técnicos e físicos existentes), agora já acha que um enfermeiro oferece confiança e segurança às populações?! Não representa esta medida uma profunda hipocrisia? O senhor ministro, quando está gravemente doente, recorre a um enfermeiro e depois pede-lhe para chamar um médico que pode estar até meia hora de distância? O ministro da Saúde está a insultar a inteligência e a brincar com a vida dos portugueses! E pretender que uma linha telefónica ineficiente (24 Horas, 30/04/07), milionária, espartilhada e burocratizada, independentemente das informações úteis que dispense, pode substituir o atendimento médico urgente presencial é raiar a insanidade e o cinismo!

Até quando?

Vai morrer gente no distrito de Bragança em situações de urgência/emergência por falta de assistência médica, é inexorável. Mas claro, lá iremos ter o INEM a lavar as mãos e o senhor ministro a orgulhar-se de não abrir inquéritos. Mas deve estar todo contente porque vai poupar mais uns euros em horas extraordinárias… Até quando?...
Alguns médicos, mesmo não sendo sequer obrigados a concordar com o regime de chamada, vão aceitá-lo, inclusive permanecendo em presença física durante a noite. Por consideração para com os doentes. Mas o ministro não merece essa consideração. Parece-me chegada a altura de os sindicatos dos médicos pegarem frontalmente na questão dos vencimentos base dos médicos, que são inaceitavelmente baixos, como até este ministro já reconheceu. Vamos dignificar o preço/hora dos médicos, lutando pela sua duplicação (no mínimo!), e aceitar a diminuição do valor das horas extraordinárias para metade. Os benefícios para os médicos e para as suas reformas são evidentes.
Quanto ao senhor ministro, finalmente deixará de andar obcecado com as horas extraordinárias dos médicos, deixará de agitar publicamente recibos de horas extraordinárias, deixará de condicionar a política de Saúde e a assistência aos doentes em função das mesmas, e deixará de as poder usar como arma de arremesso quando lhe convém (basta recordar o elucidativo e cirúrgico título de primeira página do JN de 23/04/07, com óbvia origem ministerial: «Médicos travam mudança dos centros de saúde para manter horas extras»…).
Fica este forte e sério desafio aos sindicatos; curiosamente, era um favor que faziam aos médicos, aos doentes e às obsessões do senhor ministro da Saúde…»

*Presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos