«Foi mais uma frase forte, demagógica e populista, com a qual, como noutras ocasiões, o ministro procurou atirar exclusivamente para os profissionais de saúde a culpa pelos problemas da Saúde em Portugal, neste caso específico pelas infecções hospitalares.
Os médicos não necessitam de lições de assepsia de um ministro que confunde Saúde com estatísticas manipuladas, desconhecendo talvez que, no século XIX, foi precisamente um perspicaz médico húngaro, Ignaz Semmelweis, quem, pela primeira vez, chamou a atenção para a importância de lavar as mãos na prevenção da febre puerperal.
Não vou enjeitar liminarmente que possa haver alguma responsabilidade dos profissionais de saúde na alta incidência de infecções hospitalares em alguns hospitais. Porém, é fundamental denunciar a incrível falta de condições para uma mais efectiva prevenção destas infecções, situação agravada pela cega determinação em colocar os hospitais a dar lucro, sem que se perceba muito bem o que isso quer dizer, não obstante os impressionantes cortes orçamentais.
É por isso que se torna obrigatório denunciar algumas das consequências desses cortes, nomeadamente no que concerne ao risco de infecções hospitalares.
Frequentemente, até o papel descartável para limpar as mãos já falta nos hospitais, o que obriga os profissionais de saúde a secar as mãos a toalhas que ficam rapidamente encharcadas e se transformam em verdadeiros meios de cultura e reprodução de bactérias, o que pode tornar ainda mais perigoso para os doentes o acto de lavar as mãos dos profissionais de saúde! Esta é a indesmentível realidade actual.
Para prevenir as infecções deveria existir um lavatório adequado à entrada de cada enfermaria e quarto de hospital, mas não existe.
Seria necessário existir uma embalagem com spray antisséptico acoplado à cama de cada doente, mas não existe. Seria necessário aprimorar a higiene e limpeza hospitalares, mas o ministro propõe-se despedir milhares de funcionários.
Seria necessário restringir, controlar e educar os visitantes dos doentes, que também deveriam lavar as mãos, mas à hora das visitas os hospitais parecem verdadeiras feiras.
Seria necessário que o papel descartável nunca acabasse, mas ele esgota! Etc., etc., etc.
Isto para já não falar das instalações envelhecidas, desadequadas e degradadas e da sobrelotação de camas (onde há três deveria haver apenas duas, onde há seis deveria haver apenas quatro…).
Para além das questões relacionadas com a temática das infecções, as consequências das restrições orçamentais, que nunca se estendem aos carros, motoristas, obras nos gabinetes e contratação nepótica de uma galáctica plêiade de comissários políticos administrativos, têm consequências mais alargadas. Falta de material Efectivamente, para que fique devidamente registado o alerta, é um imperativo ético afirmar publicamente que há cada vez mais actos médicos necessários e essenciais que são adiados por falta do material ou condições adequadas.
O material falta porque não são feitas as encomendas respectivas.
As encomendas não são feitas para que os hospitais possam cumprir o orçamento.
O ministro rejubila com os orçamentos, lavando as mãos, qual Pôncio Pilatos, das consequências que daí advêm para os doentes.
Mão amiga fez-me chegar a impressão de um relatório clínico do internamento de um doente numa instituição hospitalar, no ano de 2007, no qual os médicos registaram que o doente seria chamado posteriormente para efectuar um medulograma, pois não havia agulhas de medulograma no serviço de Hematologia desse hospital!
E que dizer da televisiva promessa de disponibilizar anticoncepcionais orais para seis meses, a cada senhora que os solicitasse, quando actualmente eles nem sequer chegam para uma pequena percentagem das utilizadoras a quem apenas se dá, quando há, um único blister?
As «poupanças» também se traduzem a outros níveis, como aquele hospital que, para reduzir artificialmente os custos, ordenou em circular normativa de 10/08/07 que «cabe aos doentes diabéticos e às suas famílias o dever de se fazer acompanhar dos dispositivos: canetas e da respectiva insulina necessária ao período em que se encontram internados».
Ou ainda aquele outro que começou a retirar especialistas do serviço de Urgência e a substituí-los por jovens internos da especialidade porque as suas horas ficam mais baratas à instituição, assim sobrecarregando os internos com pesadas escalas de Urgência, prejudicando a formação destes nas respectivas especialidades, e colocando desnecessariamente os doentes a serem observados por médicos menos qualificados e experientes, aumentando o risco de erros médicos.
Mas nada disto preocupa o sr. ministro, que não consegue descortinar vidas humanas para além da rígida obsessão orçamental.
Quando se demitiu de presidente do conselho de administração dos HUC, o prof. Agostinho Almeida Santos não teve qualquer receio em afirmar o óbvio, que outros calam com medo de serem saneados por «deslealdade», declarando que é impossível gerir com qualidade um hospital que sofre cortes indiscriminados de muitos milhões de euros. Não posso deixar de subscrever estas palavras, que ninguém consegue contestar, porque as consequências estão à vista de todos. As falhas do ALERT Curiosamente, parece não faltar dinheiro para a informatização de alguns hospitais. A informatização é inexorável, desejável e um progresso quando feita de forma devidamente programada e com qualidade.
Todavia, recentemente ouvimos o presidente do conselho de administração do Hospital de Santo António afirmar que o ALERT para marcação de consultas veio complicar mais do que facilitar, triste realidade confirmada por vários médicos de família, se bem que pareça estar em desenvolvimento um novo software.
A Ordem dispõe de testemunhos sobre algumas graves insuficiências dos programas ALERT, que tardam a ser corrigidas. Os HUC pagaram uma fortuna para informatizar a Urgência com o programa ALERT, que tem sérias limitações, insuficiências, dificuldades, complexidades e falhas frequentes, para além de um escassíssimo número de terminais, que o transformam em mais um factor de permanente perturbação e complicação adicional, sobretudo nos dias de maior movimento.
Vêm estas referências aos controversos programas ALERT, no contexto deste artigo, porque a utilização do programa exige repetidamente o reconhecimento da impressão digital do utilizador, o que obriga a que, no mesmo aparelho, todos os profissionais coloquem frequentemente o dedo indicador enquanto trabalham, tornando-o em mais um importante meio de disseminação bacteriana!
Se querem o reconhecimento individualizado, façam-no através da íris. Assobiar para o lado Já que estamos a falar de gastos na Saúde e gestão rigorosa, porque é que o sr. ministro, apesar de ser do seu conhecimento, não tomou nenhuma atitude sobre o hospital do Centro do País que, num inqualificável acto de gestão, dividiu uma pequena enfermaria a meio para arranjar um cargo de chefia para uma sr.ª enfermeira, que assim ficou a chefiar a imensidão de oito camas, com uma taxa de ocupação inferior a 50%, sem sequer possuir o grau competente, obrigando a aumentar de forma correspondente o respectivo staff de enfermeiros e auxiliares?
Preferiu lavar as mãos e assobiar para o lado, como a célebre figura histórica romana? Será que é porque a sr.ª enfermeira é mãe de um promissor deputado? Para isto já há dinheiro, sr. ministro?...
Infelizmente, como no resto do País, instala-se insidiosamente na Saúde um clima de medo e incompetência que se pensava enterrado com o 25 de Abril, o que tem reflexos a múltiplos níveis.
Numa estranha coincidência temporal, pouco depois de ter emitido uma opinião técnica crítica sobre a organização do trabalho, que, repare-se, lhe foi solicitada exactamente numa reunião de trabalho (!), a médica responsável pelo Departamento de Farmacovigilância do Infarmed foi destituída, com graves consequências funcionais. Terão sido descobertos, mais de 30 anos depois da revolução de Abril, os delitos de opinião técnica?!
Para onde caminham Portugal e o Infarmed? Perante a realidade que hoje se vive na Saúde, com um desinvestimento e um emagrecimento forçado e artificial do Serviço Nacional de Saúde, com uma continuada má gestão, com o nepotismo incompetente, com a imposição pelo medo da lei do silêncio e da obediência cega, sem uma estratégia clara e sistemática de aposta na qualidade e com a indisponibilidade de meios técnicos indispensáveis, é impossível combater eficientemente as infecções hospitalares e muitas das actuais ineficiências do sistema de Saúde.
Depois não venham desculpar-se que são «os outros» que não lavam as mãos!»
*Presidente do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos Subtítulos e destaques da responsabilidade da Redacção Jornal Tempo Medicina, 1.º CADERNO de 2007.11.12