Jornal de Negócios

25 janeiro 2009

O discurso de Obama - um discurso improvável na Europa


Artigo de opinião traduzido de arvo.net:

«Só o tempo nos dirá se a tomada de posse de Barak Obama como 44º Presidente dos Estados Unidos foi, ou não, um día histórico, uma data que a história mudou de rumo.

Neste momento, ninguém o sabe. Mas pode-se dizer que os cidadãos dos Estados Unidos, e de muitos outros países, o viveram como um dia histórico.

O dia 20 de Janeiro de 2009 foi uma data memorável pela simples razão de que nesse dia um país - não um país qualquer, mas a nação mais poderosa do mundo - assumiu-se a si mesmo, e acreditou em si mesmo, como um povo único.

Sentir-se um povo com uma tarefa nobre e valiosa a realizar, uma missão a cumprir, é uma das coisas mais grandiosas que é dado viver aos seres humanos.

O discurso de posse de Obama esteve à altura das circunstâncias. Foi o epílogo perfeito para uma campanha eleitoral que soube captar, e simultaneamente provocar, um movimento de esperança e de entusiasmo que estava latente nas pessoas.

Por enquanto, Obama é apenas o seu discurso, a sua palavra. Mas uma palavra que parece dar a impressão de ter posto em marcha um país. Por isso, vale a pena fixar a atenção neste discurso.

Numa perspectiva europeia, o mais significativa talvez seja o facto de se tratar de um discurso impensável nesta cansada, céptica e doente Europa.

Um discurso destes não é imaginável neste lado do Atlântico, porque o discurso do presidente americano pivota em torno das grandes palavras.

De facto, Obama baseou a sua mensagem de entusiasmo e mudança no regresso às raízes da nação americana.
Não quis inventar nada, simplesmente tentou lançar um futuro melhor a partir daquilo que os americanos reconhecem como a base e a origem do seu país. Para isso apelou às grandes palavras:"a promessa divina de que todos são iguais, todos são livres, e todos merecem a oportunidade de alcançar a felicidade plena".

Falou de sacrifício, do valor de entregar a vida pelo seu país, de patriotismo, de lealdade, de trabalho e de responsabilidade; pediu a ajuda de Deus.

Fez o que deve fazer um líder verdadeiro: não esconder os problemas, e colocar as pessoas perante a sua responsabilidade, perante a exigência de se comprometerem para que o país - e não só a vida - melhore, e contribua para melhorar a situação de outros países.

Mas trata-se, insisto, de um discurso improvável na Europa. Obama é moderno, mas não pós-moderno. O seu discurso representa o oposto do cinismo, da desconfiança perante os "grandes relatos", as grandes palavras e os grandes ideiais.

A Europa parece que continua a ser pós-moderna, incrédula, céptica e desesperançada; desconfiada perante as grandes palavras. No dia em que a Europa acredite nas grandes palavras, nesse dia, talvez possa ser uma verdadeira União Europeia e exercer liderança global.»
(Francisco Borja, Arvo.net)

20 janeiro 2009

«Pobres, como nós»


Reportagem no Notícias Magazine em 18 de Janeiro. Os pobres da modernidade - palavras de Isabel Jonet, a propósito dos pedidos que recebe no Banco Alimentar:

"A classe média em Portugal está cada vez mais empobrecida e esvaziada e o que se passa agora é apenas a ponta do icebergue. A crise económica de 2009 vai seguramente traduzir-se numa gravíssima crise alimentar. É absolutamente aberrante o que se está a passar. Temos gente que tem emprego, mas para quem é matematicamente impossível pagar as contas."
(a reportagem... aqui)

Fica-se hoje a saber que as tabelas de retenção na fonte do IRS foram actualizadas em 2,5%, isto é bastante acima da inflação prevista... (mais pormenores aqui, no Diário Económico)

Aquela gaffe do PM sobre a pobreza, talvez não seja tão errada assim.

19 janeiro 2009

«Risco de violência sobre crianças é maior em famílias reconstruídas »


A proposito desta notícia do Público, lembrei-me de um dado semelhante sobre a violência , resultantes do cruzamento das estatísticas de violência doméstica da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Também na questão da violencia intra-casal os números são piores nas famílias reconstruídas. Os números aqui.

Claro que números, são números e pessoas, são pessoas. Sempre encontraremos boas pessoas em péssimas situações e vice-versa. Mas se se pretende organizar uma sociedade, ignorar os números leva àquilo em que estamos (a recessão, e não é só económica).

16 janeiro 2009

contra o fatalismo


(...)
«dificilmente uma escola poderia impor aos seus alunos o mesmo rigor que os treinadores impõem aos candidatos a jogadores profissionais, pois logo se vaticinariam mil traumas às crianças em causa. O reverso de a escola não esperar grande coisa destes alunos é que lhes exige pouco e não lhes impõe nada.


Não sei se a memória da pobreza fez ou faz Cristiano Ronaldo chutar melhor, mas tenho a certeza que caso Cristiano Ronaldo tivesse ficado pela escola não só ninguém teria pensado que ele poderia vir a ser o melhor do mundo no que quer que fosse como, e isso é que é grave, nem se esperaria que fosse sequer profissionalmente competente.


Meninos como o Cristiano Ronaldo, com alcoolismo na família, divórcio dos pais e baixos rendimentos, constituem parte do grupo daqueles alunos que, segundo a actual doutrina politicamente correcta sobre a aprendizagem, levam a que o ensino público "nivele por baixo"
(...)
«dizer em Portugal, no ano de 2009, que a criminalidade nasce da pobreza parece-me um óbvio insulto àqueles que todos os dias saem de casa para receberem ordenados baixíssimos e terem uma vida muito mais massacrada pelo Estado com taxas, contribuições, multas e demais imposições do que aqueles seus vizinhos que se dedicam ao crime.» (...)

(Helena Matos, Público, 15 Jan 2009)

«casai com as mouras»


No Público de 16 Jan 2009.

15 janeiro 2009

Noticias recentes da Arabia Saudita


Segundo o diário árabe, editado em Londres, Al Hayat, a autoridade máxima do Reino da Arábia Saudita (mufti) emitiu um decreto religioso (fetua) que permite o casamento de meninas após completarem os 10 anos de idade.

Abdelaziz al Sheij responde aos que questionam os casamentos com menores de idade que estão enganados, que a proibição desta prática seria "uma injustiça para com a mulher".

"Ouvimos muitas vezes nos meios de comunicação falar do casamentos de menores, mas é preciso que saibam que a sharia [lei islâmica] não é injusta para as mulheres", acrescentou.

Esta fetua foi emitida para coincidir com uma campanha lançada por ONG's árabes que pedem a promulgação de uma lei que proíba os casamentos com menores.

banco de celulas de cordão umbilical já existia?

O Publico noticia que o «Banco de células do cordão umbilical anunciado ontem está instalado há dois anos»

«O banco de recolha de células de cordão umbilical que irá arrancar este ano, tal como foi ontem anunciado no Parlamento pelo primeiro-ministro José Sócrates, está instalado há dois anos no Centro de Histocompatibilidade do Norte, a entidade que também faz a recolha de medula óssea a nível nacional. As máquinas necessárias para a recolha e conservação custaram meio milhão de euros. E até já se fizeram recolhas. Mas todo o sistema está desligado à espera do Governo.» (...)

"se eles se sentirem ofendidos"

O Primeiro-Ministro Checo, Alexandr Vondra, actual Presidente da União Europeia, afirmou que "pediria desculpas à Bulgária e ao seu Governo, se eles se sentissem ofendidos" por uma exposição presente no Edifício do Conselho Europeu, em Bruxelas. Esta instalação, do artista checo David Cerny, pretendia retratar os 27 países da União. No caso da Bulgária, é representada por um sanitário "à caçador", devidamente enfeitado com luzes que piscam ...

Suponho que não será preciso pedir desculpas: quem é que não gostaria de ver o seu país representado como uma retrete? Só esse malandros dos intolerantes, dogmáticos e retrógrados, que não percebem nada de arte.

10 janeiro 2009

A eliminação do gene que nunca existiu


"bebé geneticamente seleccionado para ficar livre do cancro da mama" (Noticia do Público)

Esta noticia é muito curiosa porque deixa na sombra as questões básicas:

1 - o bebé não está livre do cancro, está livre do gene. Poderá vir a ter cancro da mama, ou outro qualquer, relacionado com qualquer outro tipo das outras centenas de genes. A menos que queiram eliminar os genes todos, mas então não sobra bebé ...

2 - o bebé não nasceu LIVRE do gene - NUNCA o teve. Por isso foi-lhe permitido nascer, ao contrário dos seus irmãos que - por terem o dito gene - foram para o balde do lixo ou para o congelador. A "selecção" genética é isto mesmo, tanto neste caso, como nos outros em que se faz "diagnóstico precoce", "diagnóstico pré-implantação", ou "diagnóstico pré-natal".

3 - Este gene já é detectável há bastante tempo. A sua identificação faz-se, por exemplo, nos Institutos Portugueses de Oncologia (IPO) portugueses.

O que acontece é que é feio "seleccionar" seres humanos adultos (a lei chamar-lhe-ia homicídio ...), de modo que aqui "seleccionam-se" seres humanos pequeninos, que mal se vêem. Longe da vista, longe do coração: a questão talvez seja ética (é seguramente), mas é sobretudo científica. Não se diz a verdade para não prejudicar o negócio das empresas de procriação assistida e similares, mais os seus accionistas.
Madoff, volta, estás perdoado.

08 janeiro 2009

Verdade inconveniente

(...)
«Os massacres no Ruanda, a fome no Zimbabwe, as epidemias no Congo e a corrupção em Angola não só deixaram o paradigma das notícias que causam indignação como passaram a ser apresentados sob as vestes da fatalidade histórica.

De igual modo, quando os palestinianos se matam entre si, por exemplo quando o Hamas chacinou os membros da Fatah, o facto é ignorado. Se Israel - ou seja, o país do nosso mundo - não é passível de ser responsabilizado então mal existem notícias e muito menos indignação. Donde também nunca ouvirmos falar da situação dos palestinianos no Líbano e no Egipto ou das medidas tomadas pela Jordânia para controlar os movimentos que os representam.» (...)
(Artigo de opinião de Helena Matos, no Público)

Não gostei nada de ler este artigo de opinião. O problema é que é muito realista!

06 janeiro 2009

piercing, só com aquecimento ...


A entidade alemã responsável pela saúde emitiu um aviso, perante a vaga de frio dos próximos dias, de que usar piercing no frio pode ser perigoso.

Os adornos metálicos que são usados como piercing no nariz, noas sobrancelhas ou na boca podem ser perigosos a temperaturas muito baixas e podem provocar lesões por congelamento.

"O metal cola na pele. Por este motivo não se deve retirar este tipo de adorno no frio", declarou o porta voz da Techniker Krankenkasse (TK), por ocasião da onda de frio que castiga a Alemanha.

A retirada pode dar lugar a queimaduras por congelamento em locais sensíveis como nariz, olhos ou boca, informou a TK, que realizou um estudo sobre o problema do piercing e suas conseqüências para a saúde.

Nas partes do corpo expostas directamente ao frio, o metal do piercing arrefece o tecido circundante, e estrangula a circulação sanguínea.

Portanto, se usarem um parafuso no nariz, acrescentem-lhe um painel solar.

Obama e o Médio-Oriente


Discurso de Barak Obama, em Junho de 2007, sobre o conflito Israelo-Palestino. A propósito de Gaza.
Versão integral aqui.


(..)
«Familiarizei-me com a história de Israel quando tinha 11 anos de idade. Conheci o longo caminho percorrido pelo povo Judeu, e a sua firme determinação em preservar a sua identidade através da fé, da família e da cultura. Ano após ano, século após século, os Judeus mantiveram as suas tradições, e o seu sonho de uma pátria, contra todas as dificuldades.»
(...)
«Também aprendi o horror do Holocausto, e a terrível urgência que isso colocou no regresso de Israel à sua Terra. (...) O meu avô lutou na II Guerra Mundial, tal como o meu tio-avô. (...) Meses depois de ter regressado da Alemanha, mantinha-se calado, sozinho com as suas dolorosas memórias. O meu avô tinha feito parte da 89ª Divisão de Infantaria, os primeiros a entrar num campo de concentração nazi. Libertaram Ohrduf, e parte de Buchenwald em Abril de 1945. Os horrores desse campo ultrapassam a imaginação.»
(...)
«Actualmente o Hamas controla Gaza. O Hezbollah estrangula o sul do Líbano e exerce o seu poder em Beirute. Por causa da guerra no Iraque, o Irão - que foi sempre uma ameaça maior para Israel do que o Iraque - está mais forte, e será o maior desafio estratégico da próxima geração, quer para os Estados Unidos, quer para Israel, no Médio-Oriente. O Iraque é instável e a al Qaeda tem aumentado o seu recrutamento. Os esforços de Israel em torno da paz com os seus vizinhos estão parados, apesar das suas sólidas diligências. A América está mais isolada do que nunca na região, o que reduz a sua força e debilita a segurança de Israel.

A questão agora é como andar para a frente. Há aqueles que querem continuar, e intensificar, esta situação de fracasso, ignorando os últimos oito anos de evidencia acumulada sobre a falencia da nossa política externa. Há também os que querem descarregar todos os problemas do Médio-Oriente às portas de Israel e dos seus aliados, como se o conflito Israelo-Palestino fosse a raiz de todos os problemas da zona. São estes que apontam o dedo à única democracia da região, pelo extremismo reinante nos outros países. Querem oferecer a falsa promessa de que abandonar um aliado estável seria o caminho para o reforço do poder.
Não é, nunca foi, nunca será.

A nossa aliança baseia-se em interesses partilhados. Os que ameaçam Israel, ameaçam os Estados Unidos. Israel sempre os enfrentou frontalmente. E eu levarei para a Casa Branca um compromisso inquebrantável em relação à segurança de Israel.» (...)

05 janeiro 2009

"o fantasma de Keynes"


(artigo no Diário Económico, de Martin Wolf, a propósito do "pacote fiscal" proposto por Obama)

(...)
«a economia não deve ser encarada do ponto de vista moral. Na década de 30, havia duas visões ideológicas opostas: a austríaca e a socialista. Os austríacos Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek defendiam que era necessário eliminar os excessos da década de 20. Os socialistas defendiam que o socialismo devia pura e simplesmente substituir o capitalismo falhado.

Estas visões tinham as suas raízes em religiões laicas concorrentes: a primeira na ideia de que a procura do bem-estar individual garantia uma ordem económica estável; a segunda, na ideia de que tal motivação apenas poderia conduzir a exploração, instabilidade e crise.


O génio de Keynes – tipicamente inglês – foi insistir em que devíamos abordar um sistema económico não do ponto de vista moral mas como um desafio técnico. Queria preservar, tanto quanto possível, a liberdade, mas reconhecia que o Estado mínimo era inaceitável numa sociedade democrática com uma economia urbana. Desejava preservar uma economia de mercado, mas não acreditava que o “laisser faire” fosse a melhor opção para o melhor de todos os mundos possíveis.


Esse mesmo debate moralista está hoje de regresso. Os “liquidacionistas” contemporâneos insistem em que um colapso levaria ao renascimento de uma economia purificada. Os seus opositores de esquerda argumentam que a era dos mercados acabou. E até eu próprio desejo ver castigados os alquimistas financeiros que defenderam que um endividamento cada vez maior pode transformar, na economia, o chumbo em ouro.


No entanto, Keynes teria insistido que tais abordagens são absurdas. Os mercados não são nem infalíveis nem dispensáveis. São, de facto, as fundações de uma economia produtiva e da liberdade individual. Mas também podem perder o rumo e têm de ser cuidadosamente geridos» (...)

(...)«Tal como na década de 30, também temos de fazer uma escolha: lidar com estes desafios de uma forma cooperativa e pragmática ou deixar que os impedimentos ideológicos e o egoísmo nos condicionem.

O objectivo também é claro: preservar uma economia mundial aberta e pelos menos razoavelmente estável que proporcione oportunidades à maior parte possível da humanidade. Nos últimos anos, fizemos um trabalho incompreensivelmente mau. Temos de fazer melhor. E podemos fazê-lo, desde que abordemos a tarefa com um espírito de humildade e pragmatismo, despidos de impedimentos ideológicos.» (...)

02 janeiro 2009

Quem tem ouvidos ...

(...) «A disparidade entre ricos e pobres tornou-se mais evidente, mesmo nas nações economicamente mais desenvolvidas. Trata-se de um problema que se impõe à consciência da humanidade, visto que as condições em que se encontra um grande número de pessoas são tais que ofendem a sua dignidade natural e, consequentemente, comprometem o autêntico e harmónico progresso da comunidade mundial.» (...)

(...)«Quis uma vez mais, na esteira dos meus predecessores, considerar atentamente o fenómeno complexo da globalização, para valorizar a sua relação com a pobreza em larga escala. Frente a pragas tão difundidas como a a doenças pandémicas, a pobreza das crianças e a crise alimentar, devo denunciar, mais uma vez, a inaceitável corrida ao armamento. Por um lado, celebra-se a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e por outro aumentam-se os gastos militares, violando a própria Carta das Nações Unidas» (...)



(...) «não se pode combater eficazmente a miseria, sem fazer aquilo que escrevr S. Paulo aos habitantes de Corinto, isto é, se não se tentar "fazer igualdade", reduzindo o desnível entre quem desperdiça o supérfluo, e quem não tem sequer o necessário. Isto comporta escolhas de justiça e sobriedade, escolhas obrigatórias pela exigência de administrar sabiamente os limitados recursos da Terra.» (...)


(...) «da pequena, mas fervorosa, paróquia de Gaza, colocamos aos pés de Maria as nossas preocupações pelo presente e os temores pelo futuro, mas também a fundada esperança de que, com a sábia e previsora contribuição de todos, não será impossível escutar, sair ao encontro mútuo, e dar respostas concretas à aspiração a viver em paz, em segurança, em dignidade» (...)

(Bento XVI, Dia Mundial da Paz 2009)