Jornal de Negócios

18 fevereiro 2009

Direito à igualdade ou direito à diferença?

Leio num blogue de economia:

«O Casamento é uma instituição pré-Estado e extra-Estado, em primeiro lugar! Nasce muito antes de nós, ocidentais, termos Estados centralizados e organizados com leis codificadas. É uma instituição definida pela sociedade, enquanto “corpo”, e, por maioria de razão, só deveria ser por esta alterado, e não pela “conveniente” mão do Estado.

Mas este nem é o meu maior problema. O meu maior problema é a principal argumentação a favor: Somos uma República Democrática com igualdade de direitos e ninguém pode ser descriminado pela sua orientação sexual.

Isto é um argumento perigoso. Muito perigoso. Porque, se eu admito legalizar o casamento homossexual com base nesse argumento, i.e., o casamento é uma união entre duas pessoas que se amam, independentemente do seu sexo, o que me impede de legalizar, por consequência lógica, a poligamia e o incesto?

Antes de me acusarem de “gajo de direita radical” - sou Liberal Conservador, mas não sou Católico, por isso dispensem o argumento “A culpa é da Igreja” - pensem um pouco no argumento: duas pessoas com laços de consanguinidade estão proíbidas de se casarem. Porquê?» (...) (No Blogue de Guilherme Diaz-Berrio)

(...) «não descriminação por orientação sexual. Se duas pessoas do mesmo sexo se amam, devem poder casar.

Se dois irmãos se amam, devem poder casar. Vêem como foi simples? Aceitar o Casamento Homossexual, e a consequente destruição da instituição tradicional do casamento, é aceitar um mar de novas excepções. Incesto por um lado, Poligamia pelo outro. Excepções que eu não estou preparado, nem tenho qualquer intenção, de fazer.

Há alturas em que a igualdade não se aplica. Trate-se de modo diferente o que é diferente.

Um filho de um casal homossexual terá uma infância normal? Peço desculpa a todos os homossexuais que possam ler isto: não. É psicologia 101. Nós temos como ideal do que queremos ser, um dos progenitores, e como ideal do que queremos “ter”/amar o outro progenitor. E, homossexualidade não é um comportamento típico do Homem, enquanto especie: apenas 2% da população mundial é homossexual. Tal como é Biologia 101 que é mau termos dois irmãos a ter filhos.» (...)

17 fevereiro 2009

a morte simplex

Artigo de Mário Crespo, no JN:

«Depois de em Outubro ter morto o casamento gay no parlamento, José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, assume-se como porta-estandarte de uma parada de costumes onde quer arregimentar todo o partido. Almeida Santos, o presidente do PS, coloca-se ao seu lado e propõe que se discuta ao mesmo tempo a eutanásia.»

«Duas propostas que em comum têm a ausência de vida. A união desejada por Sócrates, por muitas voltas que se lhe dê, é biologicamente estéril. A eutanásia preconizada por Almeida Santos é uma proposta de morte.

No meio das ideias dos mais altos responsáveis do Partido Socialista fica o vazio absoluto, fica "a morte do sentido de tudo"»(...)


«Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise). Propõem a ausência de vida num lado e processos de acabar com ela noutro. Assustador, este Mundo politicamente correcto, mas vazio de existência» (...)

«Que soturno pesadelo este com que Almeida Santos e José Sócrates sonham onde não se nasce e se legisla para morrer.»

(...)«quando se constata o "fracasso político-económico" do regime. O regime que Sócrates e Almeida Santos protagonizam chegou a essa fase. Discutem a morte e a ausência da vida por serem incapazes de cuidar dos vivos.»

16 fevereiro 2009

Diário clínico de Eluana Englaro

A hora de chegada de Eluana Englaro à Clínica (para onde foi transferida por ordem do tribunal) foi registada como 5 h e 55 min da madrugada do dia 2 de Fevereiro.

Acompanham-na o registo clínico preparado pelo seu neurologista, Carlo Alberto Defanti, e o protocolo de transferencia assinado por advogados, médicos e enfermeiros.

Não há registo de problemas especiais, excepto tosse e uma hemorragia que teve em Outubro passado. Segundo o registo fazia diariamente fisioterapia, incluindo mobilização numa cadeira de rodas. Na cama era mudada de posição , de 4 em 4 horas, de modo a evitar feridas de pressão.



Clínica

Sexta feira, dia 3 - mantém a alimentação durante 3 dias, para que a equipa "se familiarize" com a doente.


Sexta-feira, 6 horas da manhã, começa a suspensão da alimentação e hidratação. O tubo no nariz que desce até ao estômago é fechado com um clamp.


24 horas depois, no sábado, o registo assinala a primeira complicação: tem dificuldade em respirar e a boca e lábios estão secos. É feita nebulização com água.


Domingo - são feitas mais nebulizações. As mudanças de posição para evitar feridas passam a ser de 2 em 2 horas.
Um jornalista da RAI (tv italiana) refere que apareceram "feridas nas orelhas". Começa a ser feita sedação com injecções subcutâneas de delorazepam.

Segunda-feira- diário - à 1 da manhã: «Está deitada para o lado esquerdo»;«às 4:00, virou-se para o lado direito»; às 8:00h «está virada de barriga para cima».
Às 10:15 h :«mucosas de novo secas»; molham-se os lábios com água, continua a sedação injectável.»

À tarde regista-se febre e começa a ter dificuldade respiratória. Não urina.

O coração parou às 19:35 h.


No registo do óbito o diagnóstico de morte é "paragem cardíaca provocada por insuficiência renal".


O neurologista que seguiu Eluana, e que foi escolhido pelo seu pai, explica por que é que demorou tanto tempo a morrer: «Com excepção da lesão cerebral, o seu estado físico é bom. Até agora, não precisou sequer de um antibiótico».


O relatório da autópsia regista que a causa de morte foi "desidratação". Comentários?

14 fevereiro 2009

Obama - um terço do investimento consiste em redução dos impostos

Segundo se lê, uma enorme parte ("mais de um terço") do plano do Presidente americano Barack Obama será dedicada a pagar a redução de impostos dos cidadãos.

Fico curioso de ler os comentários dos opinadores europeus ...

Já agora também achei curioso o comentário de Pacheco Pereira acerca dos métodos "publicitários" do governo actual.

Para não falar do aumento do subsídio de parentalidade (dias sem trabalho pagos ao pai e à mãe) que foi anunciado como sendo de 85% a 6 meses, mas que passou de 80% do salário *bruto* para 85% do salário *líquido, ou seja, o aumento real é de cerca de 83% ... Não é que seja mau: mas é cansativo ter que estar sempre a descodificar aldrabices.

Somando isto aos comentários de quem está no terreno, e que contacta com os casos concretos, que fala em "emergência social" e rotura da classe média, sente-se como há uma enorme distância entre ajudar as famílias e as pessoas, e ajudar o partido ou o grupo.

Entretanto o folclore discursivo consome o tempo que nos falta para as questões graves do país.

É pena. O país merece seguramente um bocadinho mais de dedicação e menos gastos em propaganda.


Uma boa motivação para andar a pé ...


O diferencial entre o preço do petróleo nos mercados internacionais e o ajuste de preços ao consumidor final, permitiu à Galp Energia um ganho de 100 milhões de euros nos quarto trimestre de 2008. (No Jornal de Negócios)

11 fevereiro 2009

Ouvir, sem ser ouvido

19 anos em coma, com plena consciência de si e dos outros ...

«O pior de tudo era que não podia mexer-me, mas tinha consciência de tudo o que se passava à minha volta. Ouvia as conversas dos médicos, que diziam que eu ia morrer. E a verdade, verdadeira, é que eu queria viver».

Declarações de Jan Grzewski, que esteve em coma desde 1988 até agora. Após um acidente de trabalho, de que resultou um traumatismo do craneo, ficou em coma, sendo declarado em estado irrecuperável. Sobreviveu graças à persistência da sua mulher, Gertruda Grzewska, que nunca desistiu dos tratamentos de suporte habituais.
«Andei de Hospital em Hospital (...) e ficava muito zangada quando alguém sugeria que, para pessoas como o meu marido, o melhor era a eutanásia porque assim não sofriam», diz em entrevista ao diário polaco «Gazeta Dzialdowska».

Estes doentes raramente são ouvidos, os jornais não falam deles, nunca são citados, nos debates sobre eutanásia. Porquê?

"Fracturante ou aberrante?"

Artigo de Cláudio Anaia, dirigente do PS, no SOL.

Apesar do tempo decorrido, está mais actual do que nunca.

(...)

«Mas, de há uns anos para cá, o PS entrou num caminho, a meu ver, errado, de intromissão na esfera privada dos cidadãos e no mundo íntimo dos afectos. Ora, a missão do Estado não é essa, mas sim a de promover o bem comum.

Por exemplo, o casamento é regulado e protegido pelo Estado, de forma específica, em atenção ao seu valor social, não comparável com o de outras formas de união (socialmente irrelevantes). E pensar assim não se opõe, de modo nenhum, a ser socialista.

Depois do aborto livre e do divórcio facilitado entramos na discussão do casamento gay com adopção de crianças.

O casamento, mesmo no plano civil, é a união entre duas pessoas de sexo oposto, independentemente da sua orientação sexual. Como disse Jospin, a este propósito, «a humanidade não se divide entre homossexuais e heterossexuais, mas entre homens e mulheres».

A ideia de casamento é indissociável da de constituição de uma família em que possa haver filhos, com pai e mãe. Não percebo aqueles que questionam constantemente os valores essenciais da sociedade, que desvalorizam o casamento entre pessoas heterossexuais (fazendo a apologia sem limites da união de facto) e, no caso dos homossexuais, defendem acerrimamente o casamento em vez da união de facto.

Não ponho em causa que existam outras figuras que defendam os legítimos interesses de duas pessoas homossexuais que vivam juntas, mas que não se chame a isso casamento e muito menos se coloquem crianças à mistura. Usando as palavras de José Sócrates, noutro contexto: «Para situações diferentes, tratamentos diferentes».»

(...)

«Termino lembrando as palavras sábias do saudoso professor Sousa Franco, transmitidas numa conversa pessoal: «Nunca deixe que o politicamente correcto o faça sair do lado certo». Tinha razão e assim o faço, pois, para mim, defender estas propostas não fracturantes mas sim aberrantes, é estar do lado errado.»
Cláudio Anaia
Dirigente do PS e militante honorário da JS

09 fevereiro 2009

Diferença entre consciência e manifestações da consciência

Estudo efectuado em doentes em estado de coma profundo classificados em 3 níveis: 1) estado vegetativo persistente, 2) estado de consciência mínima, 3) estado de coma após recuperação de estado de consciência mínima.

O estudo usou a técnica da ressonancia magnética funcional (fMRI) para analisar a actividade das áreas cerebrais relacionadas com a audição e a compreensão dos sons (incluindo as palavras).

Pretendia-se esclarecer se os doentes em estado vegetativo persistente (PVS) não reagem aos sons por estarem cerebralmente mortos ou porque não têm capacidades motoras para mostrar essa reacção.

Este estudo (de pequena dimensão) demonstrou que alguns doentes com o diagnóstico clínico de "estado vegetativo" mantêm compreensão verbal, isto é, retêm capacidade cognitiva que - devido às lesões cerebrais - não pode ser expressa, nem é reconhecida, pelos testes clínicos tradicionais.

Os autores levantam a questão se estes doentes devem ser reclassificados como estando num estado de consciência mínima, ou se deve ser a própria definição de estado vegetativo persistente que deve ser repensada. (Coleman MR e outros: Do vegetative patients retain aspects of language comprehension? Evidence from fMRI. Brain 130:2494, 2007, citado em Harrison's, Internal Medicine, 17ª ed.)

O estudo já não é muito recente, mas valia a pena reflectir sobre isto á luz da nula informação que os jornais nos fornecem sobre a situação concreta, e o diagnóstico concreto e correcto, dos polémicos doentes a abater.

04 fevereiro 2009

Top Ten dos combustíveis

«Portugal está entre os dez países com os preços mais caros entre os 27 membros da União Europeia (UE) e surge sempre nos primeiros 10 lugares, com a excepção do gasóleo com impostos, onde cai para o décimo primeiro mais caro.» (Notícia no Jornal de Negócios em 2009-02-04)


«Combustíveis: BP segue Cepsa, Galp e Repsol na subida dos preços: A BP vai aumentar o preço da gasolina sem chumbo 95 octanas a partir da meia noite, depois dos aumentos feitos pela Cepsa e pela Galp e do anúncio feito pela Repsol, confirmaram à Lusa fontes oficiais de ambas as empresas.» (Notícia no Expresso em 2009-02-04)


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02 fevereiro 2009

Site de Alexia

Os filmes são como os chapéus, "há muitos" ...

Não há como visitar, ler, e depois cada um conclui o que lhe der na gana ...

25 janeiro 2009

O discurso de Obama - um discurso improvável na Europa


Artigo de opinião traduzido de arvo.net:

«Só o tempo nos dirá se a tomada de posse de Barak Obama como 44º Presidente dos Estados Unidos foi, ou não, um día histórico, uma data que a história mudou de rumo.

Neste momento, ninguém o sabe. Mas pode-se dizer que os cidadãos dos Estados Unidos, e de muitos outros países, o viveram como um dia histórico.

O dia 20 de Janeiro de 2009 foi uma data memorável pela simples razão de que nesse dia um país - não um país qualquer, mas a nação mais poderosa do mundo - assumiu-se a si mesmo, e acreditou em si mesmo, como um povo único.

Sentir-se um povo com uma tarefa nobre e valiosa a realizar, uma missão a cumprir, é uma das coisas mais grandiosas que é dado viver aos seres humanos.

O discurso de posse de Obama esteve à altura das circunstâncias. Foi o epílogo perfeito para uma campanha eleitoral que soube captar, e simultaneamente provocar, um movimento de esperança e de entusiasmo que estava latente nas pessoas.

Por enquanto, Obama é apenas o seu discurso, a sua palavra. Mas uma palavra que parece dar a impressão de ter posto em marcha um país. Por isso, vale a pena fixar a atenção neste discurso.

Numa perspectiva europeia, o mais significativa talvez seja o facto de se tratar de um discurso impensável nesta cansada, céptica e doente Europa.

Um discurso destes não é imaginável neste lado do Atlântico, porque o discurso do presidente americano pivota em torno das grandes palavras.

De facto, Obama baseou a sua mensagem de entusiasmo e mudança no regresso às raízes da nação americana.
Não quis inventar nada, simplesmente tentou lançar um futuro melhor a partir daquilo que os americanos reconhecem como a base e a origem do seu país. Para isso apelou às grandes palavras:"a promessa divina de que todos são iguais, todos são livres, e todos merecem a oportunidade de alcançar a felicidade plena".

Falou de sacrifício, do valor de entregar a vida pelo seu país, de patriotismo, de lealdade, de trabalho e de responsabilidade; pediu a ajuda de Deus.

Fez o que deve fazer um líder verdadeiro: não esconder os problemas, e colocar as pessoas perante a sua responsabilidade, perante a exigência de se comprometerem para que o país - e não só a vida - melhore, e contribua para melhorar a situação de outros países.

Mas trata-se, insisto, de um discurso improvável na Europa. Obama é moderno, mas não pós-moderno. O seu discurso representa o oposto do cinismo, da desconfiança perante os "grandes relatos", as grandes palavras e os grandes ideiais.

A Europa parece que continua a ser pós-moderna, incrédula, céptica e desesperançada; desconfiada perante as grandes palavras. No dia em que a Europa acredite nas grandes palavras, nesse dia, talvez possa ser uma verdadeira União Europeia e exercer liderança global.»
(Francisco Borja, Arvo.net)

20 janeiro 2009

«Pobres, como nós»


Reportagem no Notícias Magazine em 18 de Janeiro. Os pobres da modernidade - palavras de Isabel Jonet, a propósito dos pedidos que recebe no Banco Alimentar:

"A classe média em Portugal está cada vez mais empobrecida e esvaziada e o que se passa agora é apenas a ponta do icebergue. A crise económica de 2009 vai seguramente traduzir-se numa gravíssima crise alimentar. É absolutamente aberrante o que se está a passar. Temos gente que tem emprego, mas para quem é matematicamente impossível pagar as contas."
(a reportagem... aqui)

Fica-se hoje a saber que as tabelas de retenção na fonte do IRS foram actualizadas em 2,5%, isto é bastante acima da inflação prevista... (mais pormenores aqui, no Diário Económico)

Aquela gaffe do PM sobre a pobreza, talvez não seja tão errada assim.

19 janeiro 2009

«Risco de violência sobre crianças é maior em famílias reconstruídas »


A proposito desta notícia do Público, lembrei-me de um dado semelhante sobre a violência , resultantes do cruzamento das estatísticas de violência doméstica da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Também na questão da violencia intra-casal os números são piores nas famílias reconstruídas. Os números aqui.

Claro que números, são números e pessoas, são pessoas. Sempre encontraremos boas pessoas em péssimas situações e vice-versa. Mas se se pretende organizar uma sociedade, ignorar os números leva àquilo em que estamos (a recessão, e não é só económica).

16 janeiro 2009

contra o fatalismo


(...)
«dificilmente uma escola poderia impor aos seus alunos o mesmo rigor que os treinadores impõem aos candidatos a jogadores profissionais, pois logo se vaticinariam mil traumas às crianças em causa. O reverso de a escola não esperar grande coisa destes alunos é que lhes exige pouco e não lhes impõe nada.


Não sei se a memória da pobreza fez ou faz Cristiano Ronaldo chutar melhor, mas tenho a certeza que caso Cristiano Ronaldo tivesse ficado pela escola não só ninguém teria pensado que ele poderia vir a ser o melhor do mundo no que quer que fosse como, e isso é que é grave, nem se esperaria que fosse sequer profissionalmente competente.


Meninos como o Cristiano Ronaldo, com alcoolismo na família, divórcio dos pais e baixos rendimentos, constituem parte do grupo daqueles alunos que, segundo a actual doutrina politicamente correcta sobre a aprendizagem, levam a que o ensino público "nivele por baixo"
(...)
«dizer em Portugal, no ano de 2009, que a criminalidade nasce da pobreza parece-me um óbvio insulto àqueles que todos os dias saem de casa para receberem ordenados baixíssimos e terem uma vida muito mais massacrada pelo Estado com taxas, contribuições, multas e demais imposições do que aqueles seus vizinhos que se dedicam ao crime.» (...)

(Helena Matos, Público, 15 Jan 2009)