Jornal de Negócios

04 março 2009

Seduzidos pela morte

Herbert Hendin, é médico psiquiatra, Professor de Psiquiatria no New York Medical College, e Presidente da Fundação para a Prevenção do Suicício.

«Na Holanda, a prática do suicídio assistido está legalizada há muito tempo pelo que a experiência deste país tem um enorme interesse para o resto do mundo.

São poucos os Consultores em Eutanásia que actuam com independência na avaliação dos doentes. Os estudos publicados com patrocínio do governo apenas utilizam os dados de um grupo restrito de médicos, que são escolhidos porque na sua prática irão estar envolvidos neste tipo de decisões. É o caso dos estudos conduzidos por Maas e colaboradores, entre 1990 e 1995.

Em cada um destes estudos, mais de 6 mil médicos responderam a inquéritos e cerca de 400 foram entrevistados. Mas a análise dos resultados tem sido criticada por se ter concentrado nas dificuldades em aplicar o sistema, ignorando vícios em questões básicas e substantivas como, por exemplo, a não oferta de alternativas ao suicídio assistido que tornariam desnecessária a prática de eutanásia.

O mesmo problema é encontrado no estudo de Onwuteaka-Philipsen e colaboradores, que se baseia em entrevistas individuais a médicos que actuaram como consultores em casos de eutanásia, tal como é requerido pela lei holandesa. O objectivo desta consultadoria seria confirmar que o médico assistente verificou rigorosamente as regras em relação ao consentimento voluntário do doente, à informação prestada, à presença de sofrimento intratável e à falta de alternativas de tratamento.

Num número substancial de casos verifica-se que não existe qualquer consultadoria. Nestes casos, além disto, também não existe geralmente a comunicação obrigatória da prática de eutanásia às autoridades (59% dos casos). Em cada ano, entre 900 a 1000 doentes são mortos sem o seu consentimento explícito e sem que o consultor, que a lei requer, tenha sequer sido chamado.

No estudo referido, apenas no ano de 1995, 21% destes doentes eram mentalmente capazes de se pronunciar. No caso destes doentes, o consultor raramente foi chamado.

No trabalho de Onwuteaka-Philipsen e colaboradores, 42% dos médicos entrevistados já tinha sido consultor de outros médicos, em casos de eutanásia ou suicídio assisitido. Os Clínicos Gerais eram mais frequentemente consultados do que os especialistas (49% x 30%). Dos que tinham sido consultados por outros médicos, mais do que uma vez, metade eram contactados pelo mesmo médico. Perto de um quarto das vezes (24%), o médico assistente e o consultor já tinham sido consultores um do outro em outras ocasiões.

Estes "pares" de médicos e consultores recíprocos estão identificados como um obstáculo à independência dos consultores. Mas não parece que tal esteja a ser tratado.

Na prática o consultor
funciona como um mero pro-forma que apenas afirma que o doente quereria a prática de eutanásia.

Isto não é de admirar, tanto mais que 12% destes médicos reconhecem que nem sequer viram os doentes. Esta atitude foi-me relatada pessoalmente pelos Colegas holandeses que referem que apenas usam os consultores, e a consultadoria, porque a lei o exige.

A maioria dos médicos entrevistados reconhecem que não têm treino, nem competências, na área da eutanásia. Apenas 27% tinham feito mais de 3 consultas, nestes casos, e só 3% tinham mais de 10 consultas.

Por outro lado, o que me foi dito por médicos holandeses que tinham sido consultores em bastantes casos de eutanásia, foi que conheciam mal, e não tinham prática, de cuidados paliativos.

Tampouco conheciam com pormenor o processo psicológico do adoecer e a ambivalência da comunicação com o doente terminal. Ou seja, certificavam "vontades" cuja avaliação desconheciam!

Funcionavam como facilitadores do processo de eutanásia, mais do que como avaliadores independentes, não se envolvendo no processo de tratamento da dor e do sofrimento, mas apenas nas questões técnicas de como matar mais eficientemente, com rapidez e sem dor.

Um dos médicos confidenciou-me que o seu papel era mais o de acabar com as dúvidas dos médicos assistentes que hesitavam em praticar a eutanásia.

Não têm faltado os estudos que revelam o pouco investimento que na Holanda se faz nos cuidados paliativos e nas Unidades de Cuidados Terminais.

Um dos poucos especialistas em cuidados paliativos na Holanda, Zbigniew Zylicz, foi ouvido perante a Cãmara Alta do Parlamento holandês, revelando como a situação dos cuidados paliativos é muito deficitária porque a alternativa - a morte provocada dos doentes - é muito mais fácil. De facto, em toda a Holanda há apenas 70 (setenta) camas de cuidados paliativos. [A população holandesa é de cerca de 16 milhões e meio de habitantes]

A imagem de que na Holanda apenas se pratica eutanásia quando todas as alternativas foram esgotadas, não corresponde aos dados, nem aos resultados da observação.

Nem os médicos assistentes, nem os médicos consultores, nem os médicos que fizeram os estudos para o governo tinham qualquer treino em cuidados paliativos. Ou seja, não tinham competências para avaliar a situação sobre a qual se pronunciavam.

Nos tribunais a situação também não é muito diferente. Embora a lei requeira que exista sofrimento insuportável e falta de alternativas, na prática ninguém é condenado por não tratar a dor a um doente, ou não o informar das alternativas á eutanásia.

Um estudo de opiniões de médicos sobre a eutanásia, feito nos EUA, mostrou que são tanto menos favoráveis à eutanásia, quanto mais treino têm em cuidados paliativos. Dar a um doente terminal, um médico ignorante em tratamento de dor ou em cuidados de conforto ao donete terminal, é um método expedito para "aliviar" camas.» (Publicado no Medical Journal of Australia, 1999)

O estudo está traduzido em castelhano pela editorial Planeta: "Seducidos por la Muerte"

02 março 2009

A invisibilidade da pobreza

(...) «ver como durante dias Courbet era designado por locutores e comentadores na rádio e televisão por Cubete, Curbete, Cuber, Curber, ou como o tema era comentado por gente escandalizada com a "censura" mas que se percebia à distância que não fazia a mínima ideia de quem era o autor do quadro.

By the way, convém também não esquecer que a obra era mesmo na sua origem pornográfica, encomendada para fazer parte de um "gabinete erótico", e que não é líquido que o seu estatuto de obra de arte não impeça a sua exposição com reserva. Mesmo os jornais que mais espaço dedicaram ao acto "estúpido" e "ignorante" da polícia, não ousaram colocá-la na capa, como certamente não o fariam com uma fotografia de Mapplethorpe, e isso não era censura nenhuma.

Passar por estas coisas com todo o simplismo de as ver apenas como uma luta entre a liberdade sem limites e a censura estúpida, é típico dos blogues, mas não devia ser típico dos jornais. Estes são editados, não são?» (...) (JPP, no Abrupto)

«Blogues e comunicação social dão relevância muito semelhante a temas deste tipo, em detrimento de questões sociais muito mais sérias e que quase não existem nos blogues, como seja os despedimentos, as condições laborais, a condição operária, o mundo rural, etc.» (...) (idem)

25 fevereiro 2009

Liderança em tempos de incerteza

«Uma boa liderança assenta em três pilares - profissionalismo, integridade e espírito de serviço. Nos negócios, o foco será mais o processo do que o objectivo.»

os «CEO's precisam de comunicar os erros, pedir desculpa se for adequado, e esgotar todos os meios para reparar os danos»

(Jordi Canals, "Rethinking Leadership During Times of Uncertainty", Singapura)

22 fevereiro 2009

Ter abortado é um indicador de maus-tratos e violencia de género

Resolvi repescar esta notícia, porque se tornou actual:

Aplicando o "Protocolo Común de Violencia de Género" do Ministerio da Saúde espanhol, a Associação de Vítimas do Aborto (AVA) promoveu um estudo, recolhendo dados dos profissonais de saúde que entrevistaram 824 mulheres com abortos provocados.

Em 92,8% dos casos havia indícios de coacção do companheiro e, em 73%, também havia pressão da entidade patronal.


Esta associação exige ao governo uma adequada detecção da coacção e dos maus-tratos às mulheres em situação de gravidez, e apela à sensibilização de todos os profissionais da saúde e dos serviços sociais.


Em Espanha, em 2005, houve cerca de 92 000 abortos, que subiram para 100 000 em 2006.

18 fevereiro 2009

assine a petição contra os carteiristas oficiais

«Exmos Senhores»

«O negócio recentemente anunciado entre a Caixa Geral de Depósitos e Manuel Fino, no que concerne à venda de 10% do capital da Cimpor à CGD, é patentemente ruinoso, injusto e, dir-se-ia, mesmo uma afronta ao povo em geral, e aos investidores em particular.

Não é concebível que para evitar dificuldades financeiras de um especulador, o maior banco do Estado (a CGD) vá ao ponto de lhe comprar os seus investimentos falhados 25% acima do valor de mercado, quando na realidade e perante essas mesmas dificuldades, este especulador ou qualquer outro ver-se-ia sempre forçado a vender essas mesmas posições ao preço de mercado ou abaixo deste.

A diferença entre aquilo que a CGD pagou por esta posição e o preço de mercado, foi uma dádiva pura e simples, de mais de 64 milhões de euros, a este especulador, que se podem considerar retirados directamente dos bolsos do povo português para o bolso do especulador.»


"Falam do que não sabem, prometem o que não podem"

Belmiro de Azevedo interveio no Fórum para a Competitividade, com palavras duras para os que estão a tempo inteiro na política por falarem “do que não sabem e prometerem o que não podem cumprir”. “Temos uma crise de líderes no Governo, temos uma crise de líderes nos partidos, temos uma crise de líderes entre os empresários e temos uma crise de líderes nos sindicatos".

(...) "os governos acreditaram que o milagre de uma receita elástica é eterno”.
“O Estado tem-se comportado sob a premissa de que tem uma máquina de fazer notas e que tem acesso a crédito ilimitado".

(...) “agora que se começa a fazer o downgrading das notações financeiras percebe-se que o dinheiro não é tão abundante assim, pode tender para zero, e seguramente tende para infinito em termos de encargos e juros no longo prazo” (No Jornal de Negócios)

Direito à igualdade ou direito à diferença?

Leio num blogue de economia:

«O Casamento é uma instituição pré-Estado e extra-Estado, em primeiro lugar! Nasce muito antes de nós, ocidentais, termos Estados centralizados e organizados com leis codificadas. É uma instituição definida pela sociedade, enquanto “corpo”, e, por maioria de razão, só deveria ser por esta alterado, e não pela “conveniente” mão do Estado.

Mas este nem é o meu maior problema. O meu maior problema é a principal argumentação a favor: Somos uma República Democrática com igualdade de direitos e ninguém pode ser descriminado pela sua orientação sexual.

Isto é um argumento perigoso. Muito perigoso. Porque, se eu admito legalizar o casamento homossexual com base nesse argumento, i.e., o casamento é uma união entre duas pessoas que se amam, independentemente do seu sexo, o que me impede de legalizar, por consequência lógica, a poligamia e o incesto?

Antes de me acusarem de “gajo de direita radical” - sou Liberal Conservador, mas não sou Católico, por isso dispensem o argumento “A culpa é da Igreja” - pensem um pouco no argumento: duas pessoas com laços de consanguinidade estão proíbidas de se casarem. Porquê?» (...) (No Blogue de Guilherme Diaz-Berrio)

(...) «não descriminação por orientação sexual. Se duas pessoas do mesmo sexo se amam, devem poder casar.

Se dois irmãos se amam, devem poder casar. Vêem como foi simples? Aceitar o Casamento Homossexual, e a consequente destruição da instituição tradicional do casamento, é aceitar um mar de novas excepções. Incesto por um lado, Poligamia pelo outro. Excepções que eu não estou preparado, nem tenho qualquer intenção, de fazer.

Há alturas em que a igualdade não se aplica. Trate-se de modo diferente o que é diferente.

Um filho de um casal homossexual terá uma infância normal? Peço desculpa a todos os homossexuais que possam ler isto: não. É psicologia 101. Nós temos como ideal do que queremos ser, um dos progenitores, e como ideal do que queremos “ter”/amar o outro progenitor. E, homossexualidade não é um comportamento típico do Homem, enquanto especie: apenas 2% da população mundial é homossexual. Tal como é Biologia 101 que é mau termos dois irmãos a ter filhos.» (...)

17 fevereiro 2009

a morte simplex

Artigo de Mário Crespo, no JN:

«Depois de em Outubro ter morto o casamento gay no parlamento, José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, assume-se como porta-estandarte de uma parada de costumes onde quer arregimentar todo o partido. Almeida Santos, o presidente do PS, coloca-se ao seu lado e propõe que se discuta ao mesmo tempo a eutanásia.»

«Duas propostas que em comum têm a ausência de vida. A união desejada por Sócrates, por muitas voltas que se lhe dê, é biologicamente estéril. A eutanásia preconizada por Almeida Santos é uma proposta de morte.

No meio das ideias dos mais altos responsáveis do Partido Socialista fica o vazio absoluto, fica "a morte do sentido de tudo"»(...)


«Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise). Propõem a ausência de vida num lado e processos de acabar com ela noutro. Assustador, este Mundo politicamente correcto, mas vazio de existência» (...)

«Que soturno pesadelo este com que Almeida Santos e José Sócrates sonham onde não se nasce e se legisla para morrer.»

(...)«quando se constata o "fracasso político-económico" do regime. O regime que Sócrates e Almeida Santos protagonizam chegou a essa fase. Discutem a morte e a ausência da vida por serem incapazes de cuidar dos vivos.»

16 fevereiro 2009

Diário clínico de Eluana Englaro

A hora de chegada de Eluana Englaro à Clínica (para onde foi transferida por ordem do tribunal) foi registada como 5 h e 55 min da madrugada do dia 2 de Fevereiro.

Acompanham-na o registo clínico preparado pelo seu neurologista, Carlo Alberto Defanti, e o protocolo de transferencia assinado por advogados, médicos e enfermeiros.

Não há registo de problemas especiais, excepto tosse e uma hemorragia que teve em Outubro passado. Segundo o registo fazia diariamente fisioterapia, incluindo mobilização numa cadeira de rodas. Na cama era mudada de posição , de 4 em 4 horas, de modo a evitar feridas de pressão.



Clínica

Sexta feira, dia 3 - mantém a alimentação durante 3 dias, para que a equipa "se familiarize" com a doente.


Sexta-feira, 6 horas da manhã, começa a suspensão da alimentação e hidratação. O tubo no nariz que desce até ao estômago é fechado com um clamp.


24 horas depois, no sábado, o registo assinala a primeira complicação: tem dificuldade em respirar e a boca e lábios estão secos. É feita nebulização com água.


Domingo - são feitas mais nebulizações. As mudanças de posição para evitar feridas passam a ser de 2 em 2 horas.
Um jornalista da RAI (tv italiana) refere que apareceram "feridas nas orelhas". Começa a ser feita sedação com injecções subcutâneas de delorazepam.

Segunda-feira- diário - à 1 da manhã: «Está deitada para o lado esquerdo»;«às 4:00, virou-se para o lado direito»; às 8:00h «está virada de barriga para cima».
Às 10:15 h :«mucosas de novo secas»; molham-se os lábios com água, continua a sedação injectável.»

À tarde regista-se febre e começa a ter dificuldade respiratória. Não urina.

O coração parou às 19:35 h.


No registo do óbito o diagnóstico de morte é "paragem cardíaca provocada por insuficiência renal".


O neurologista que seguiu Eluana, e que foi escolhido pelo seu pai, explica por que é que demorou tanto tempo a morrer: «Com excepção da lesão cerebral, o seu estado físico é bom. Até agora, não precisou sequer de um antibiótico».


O relatório da autópsia regista que a causa de morte foi "desidratação". Comentários?

14 fevereiro 2009

Obama - um terço do investimento consiste em redução dos impostos

Segundo se lê, uma enorme parte ("mais de um terço") do plano do Presidente americano Barack Obama será dedicada a pagar a redução de impostos dos cidadãos.

Fico curioso de ler os comentários dos opinadores europeus ...

Já agora também achei curioso o comentário de Pacheco Pereira acerca dos métodos "publicitários" do governo actual.

Para não falar do aumento do subsídio de parentalidade (dias sem trabalho pagos ao pai e à mãe) que foi anunciado como sendo de 85% a 6 meses, mas que passou de 80% do salário *bruto* para 85% do salário *líquido, ou seja, o aumento real é de cerca de 83% ... Não é que seja mau: mas é cansativo ter que estar sempre a descodificar aldrabices.

Somando isto aos comentários de quem está no terreno, e que contacta com os casos concretos, que fala em "emergência social" e rotura da classe média, sente-se como há uma enorme distância entre ajudar as famílias e as pessoas, e ajudar o partido ou o grupo.

Entretanto o folclore discursivo consome o tempo que nos falta para as questões graves do país.

É pena. O país merece seguramente um bocadinho mais de dedicação e menos gastos em propaganda.


Uma boa motivação para andar a pé ...


O diferencial entre o preço do petróleo nos mercados internacionais e o ajuste de preços ao consumidor final, permitiu à Galp Energia um ganho de 100 milhões de euros nos quarto trimestre de 2008. (No Jornal de Negócios)

11 fevereiro 2009

Ouvir, sem ser ouvido

19 anos em coma, com plena consciência de si e dos outros ...

«O pior de tudo era que não podia mexer-me, mas tinha consciência de tudo o que se passava à minha volta. Ouvia as conversas dos médicos, que diziam que eu ia morrer. E a verdade, verdadeira, é que eu queria viver».

Declarações de Jan Grzewski, que esteve em coma desde 1988 até agora. Após um acidente de trabalho, de que resultou um traumatismo do craneo, ficou em coma, sendo declarado em estado irrecuperável. Sobreviveu graças à persistência da sua mulher, Gertruda Grzewska, que nunca desistiu dos tratamentos de suporte habituais.
«Andei de Hospital em Hospital (...) e ficava muito zangada quando alguém sugeria que, para pessoas como o meu marido, o melhor era a eutanásia porque assim não sofriam», diz em entrevista ao diário polaco «Gazeta Dzialdowska».

Estes doentes raramente são ouvidos, os jornais não falam deles, nunca são citados, nos debates sobre eutanásia. Porquê?

"Fracturante ou aberrante?"

Artigo de Cláudio Anaia, dirigente do PS, no SOL.

Apesar do tempo decorrido, está mais actual do que nunca.

(...)

«Mas, de há uns anos para cá, o PS entrou num caminho, a meu ver, errado, de intromissão na esfera privada dos cidadãos e no mundo íntimo dos afectos. Ora, a missão do Estado não é essa, mas sim a de promover o bem comum.

Por exemplo, o casamento é regulado e protegido pelo Estado, de forma específica, em atenção ao seu valor social, não comparável com o de outras formas de união (socialmente irrelevantes). E pensar assim não se opõe, de modo nenhum, a ser socialista.

Depois do aborto livre e do divórcio facilitado entramos na discussão do casamento gay com adopção de crianças.

O casamento, mesmo no plano civil, é a união entre duas pessoas de sexo oposto, independentemente da sua orientação sexual. Como disse Jospin, a este propósito, «a humanidade não se divide entre homossexuais e heterossexuais, mas entre homens e mulheres».

A ideia de casamento é indissociável da de constituição de uma família em que possa haver filhos, com pai e mãe. Não percebo aqueles que questionam constantemente os valores essenciais da sociedade, que desvalorizam o casamento entre pessoas heterossexuais (fazendo a apologia sem limites da união de facto) e, no caso dos homossexuais, defendem acerrimamente o casamento em vez da união de facto.

Não ponho em causa que existam outras figuras que defendam os legítimos interesses de duas pessoas homossexuais que vivam juntas, mas que não se chame a isso casamento e muito menos se coloquem crianças à mistura. Usando as palavras de José Sócrates, noutro contexto: «Para situações diferentes, tratamentos diferentes».»

(...)

«Termino lembrando as palavras sábias do saudoso professor Sousa Franco, transmitidas numa conversa pessoal: «Nunca deixe que o politicamente correcto o faça sair do lado certo». Tinha razão e assim o faço, pois, para mim, defender estas propostas não fracturantes mas sim aberrantes, é estar do lado errado.»
Cláudio Anaia
Dirigente do PS e militante honorário da JS

09 fevereiro 2009

Diferença entre consciência e manifestações da consciência

Estudo efectuado em doentes em estado de coma profundo classificados em 3 níveis: 1) estado vegetativo persistente, 2) estado de consciência mínima, 3) estado de coma após recuperação de estado de consciência mínima.

O estudo usou a técnica da ressonancia magnética funcional (fMRI) para analisar a actividade das áreas cerebrais relacionadas com a audição e a compreensão dos sons (incluindo as palavras).

Pretendia-se esclarecer se os doentes em estado vegetativo persistente (PVS) não reagem aos sons por estarem cerebralmente mortos ou porque não têm capacidades motoras para mostrar essa reacção.

Este estudo (de pequena dimensão) demonstrou que alguns doentes com o diagnóstico clínico de "estado vegetativo" mantêm compreensão verbal, isto é, retêm capacidade cognitiva que - devido às lesões cerebrais - não pode ser expressa, nem é reconhecida, pelos testes clínicos tradicionais.

Os autores levantam a questão se estes doentes devem ser reclassificados como estando num estado de consciência mínima, ou se deve ser a própria definição de estado vegetativo persistente que deve ser repensada. (Coleman MR e outros: Do vegetative patients retain aspects of language comprehension? Evidence from fMRI. Brain 130:2494, 2007, citado em Harrison's, Internal Medicine, 17ª ed.)

O estudo já não é muito recente, mas valia a pena reflectir sobre isto á luz da nula informação que os jornais nos fornecem sobre a situação concreta, e o diagnóstico concreto e correcto, dos polémicos doentes a abater.