Entrevista com o Prof. J. R. Laporte, Catedrático de Farmacologia na Universidade Autónoma de Barcelona, Chefe de Serviço de Farmacologia do Hospital Vall' Hebron em Barcelona. Dirige o Instituto Catalão de Farmacologia, que é um dos centros colaboradores da Organização Mundial de Saúde (OMS). Publicada no elperiodico.com em 13 de Setembro. Mesmo
a propósito. (...)
– A Conselheira da Saúde [ministra da província de Barcelona] disse que é provável que não tenhamos vacina para o Inverno.– Não vamos mesmo ter vacina. De momento não há vacina. Arranjaram um nó cego impressionante.
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E se houvesse vacina, o Senhor ir-se-ia vacinar?– Não. Em princípio não tenho intenção de me vacinar, embora ao pessoal de saúde se recomende a vacina. Se me chegarem dados convincentes de ensaios clínicos que indiquem que a vacina é realmente protectora, então pensarei no assunto.
Também o faria no caso, muito improvável, de que a epidemia fosse gravíssima. Mas os dados que nos chegam da Austrália, onde ainda é Inverno, indicam o contrário.
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A vacina que está a ser preparada não lhe inspira confiança?– Não tenho provas de que não se esteja a trabalhar bem. Normalmente as vacinas contra a gripe elaboram-se com uma certa rapidez porque existe uma base prévia comum às vacinas anteriores. Mas esta vacina nova é um pouco diferente, por causa da origem porcina do vírus A/H1N1. As bases de conhecimento de que dispomos são inferiores. Os ensaios que vão ser feitos medem as quantidades de anticorpos que a vacina gera nas pessoas, medem a resposta imunitária, mas não medem o grau de protecção que a comunidade vacinada terá perante o vírus. Isso só se saberá quando a vacina seja administrada a milhões de pessoas.
– Acha que foi precipitado o anúncio de que iria haver uma vacina?– Tudo isto faz parte da maneira de funcionar dos políticos que necessitam de transmitir aos cidadãos a mensagem de que: "Está tudo sob controle. Estou a trabalhar no assunto. Não se preocupem. Estamos a fazer tudo o possível." Além disso, a Ministra da Saúde mostrou o seu desejo de protagonismo.
– É incorrecto transmitir calma?–Não. Mas se lhes perguntarem como é que têm tudo sob controle, respondem que é porque pagaram 300 milhões de euros a este e àquele laboratório para que nos vendam vacinas da Gripe A, ou que compraram ainda mais antivírico Tamiflu, além do muito que já tínhamos. Isto é, fizeram uma série de coisas em que não existe forma de demonstrar que sirvam para alguma coisa.
– E o que é que deveriam ter feito?– A mim parece-me muito mais sensato que se quiserem dizer alguma coisa tranquilizadora (porque acham que devem), o digam, mas que acrescentem que, sobretudo, o que se está a fazer é investigar. Perante uma doença provocada por um vírus desconhecido, não se pode dizer que está tudo sob controle.
–Disse que essa política de tranquilização passou pela aquisição de antivíricos?–Os antivirais, em concreto o Tamiflu que foi o que foi comprado, não é uma arma médica, nem sanitária, nem farmacológica. Talvez se pudesse usar em pessoas com pneumonias muito graves, mas é um fármaco pouco eficaz. Talvez reduza a duração da infecção gripal de 4-5 dias para 2-3 dias. É muito delicado usá-la como arma preventiva em toda a população. Antes disso seria preciso avaliar tanto a sua eficácia, como os seus efeitos adversos.
– E que efeitos são?
– São potencialmente muito graves. Digestivos e neuropsiquiátricos. No Japão, onde foram administrados a uma grande quantidade de população, foram descritos suicídios muito violentos. Aqui fala-se em dá-lo a grávidas, quando nem sequer sabemos que efeitos têm no feto. Só se pensa em dar, e dar, quando o que é preciso é investigar.
– Acha que houve excesso de expectativas em relação ao perigo da gripe A?
– Houve exagero. Há muita gente interessada em exagerar os riscos da gripe A: todos os que vendem alguma coisa relacionada com ela, desde medicamentos antivirais, até vacinas ou máscaras. A face aparente disto tudo são os meios de comunicação social. Corre demasiada informação não seleccionada, e as pessoas estão intoxicadas.
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E porque é que se exagerou?
–Porque estamos perante uma doença que afecta os países ricos. A OMS encontrou nesta gripe uma forma de recuperar o protagonismo perdido, embora ainda seja a entidade mundial com mais autoridade moral. Há 15 anos atrás, era a única instituição que actuava nas políticas sanitárias, mas agora apareceram outras que têm mais recursos. A gripe A é a sua panaceia.
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O que julga que vai acontecer com a gripe A, neste Inverno?– Terá uma repercussão menor que a gripe do Inverno passado, e haverá menos mortos. Tenho muito medo de que os serviços de saúde colapsem devido à política exagerada da Administração. Basta ver os documentos que a Saúde e a Educação elaboraram.
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Refere-se ao plano de contingência escolar contra a gripe?
– Sim. Um dos itens diz: "Perante uma criança com sintomas de gripe, será isolada e avisa-se a sua família e as famílias dos seus colegas". Isto é, os professores vão passar o dia a telefonar para os pais, que deverão abandonar os seus trabalhos e ir à escola buscar os filhos. E mantê-los em casa! Ou isto não se aplica, ou o sistema vai colapsar e, através da escola, pára-se toda a sociedade. É um regulamento impossível de cumprir.»