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Há uma esquerda que fracassou ao longo do século XX: a que tinha por bandeira as aspirações clássicas de nacionalizar os meios de produção e de substituir o capitalismo pelo socialismo.
De facto o que aconteceu foi exactamente o contrário, com largo apoio de faixas crescentes da população.
Esta esquerda não desapareceu, simplesmente mudou de bandeira: substituiu a revolução social e económica pela revolução sexual.
No campo económico, a diferença entre esquerda e direita foi-se atenuando.
Das direitas veio uma cada vez maior tendencia a confiar no mercado, em detrimento da empresa individual; da esquerda, uma reclamação à intervenção reguladora do Estado. A esquerda já não contesta globalmente o capitalismo (já nem sequer usa o termo), e até propõe políticas económicas claramente apostadas no mercado.
A direita reclama o abaixamento de impostos, o que costuma provocar uma reactivação do crescimento e a criação de postos de trabalho; a esquerda tende a aumentar a pressão fiscal, aumentando o emprego público, o que traz alguma desaceleração do crescimento e gera desemprego privado, mas tudo isto dentro de uma certa parcimónia mercantilista.
Ou seja, esta esquerda clássica está privada do seu projecto habitual, e necessita de novas bandeiras. Não querendo alinhar com as esquerdas mais liberais, ou as "terceiras vias", precisa de uma bandeira simples que possa usar como elemento de identificação.
Encontrou-o facilmente na amálgama da ideologia libertária freudiano-marxista que também explodiu em 68, aquilo a que poderíamos chamar o "sessentaeoitismo" - a ideologia de género, a permissividade sexual, o aborto livre, o questionamento da "família tradicional", a hostilidade ao cristianismo, o pacifismo radical, o multiculturalismo assimétrico, o ecologismo anti-humano ...
Em paralelo, a direita foi-se afunilando numa míopia (típica), perante esta mutação sessentaeoitista. Foi propalando que se tatava de meras "cortinas de fumo", lançadas por estes grupos de esquerda para distrair dos problemas reais.
Foi berrando que medidas como a legalização do "casamento" gay, a liberalização total do aborto, a imposição escolar de disciplinas ideológicas como a educação cívica, ou os crescentes ataques à Igreja, eram meros "fait-divers".
Tal com existe uma esquerda, presa no tempo, também esta direita continua a operar com um velho modelo de trabalho que herdou do século passado, em que a fractura entre esquerda e direita era mais óbvia e relacionada com a maneira de organizar os sistemas de produção.
Esta direita não consegue entender que o centro de gravidade do combate ideológico já não passa pela economia, mas pela cultura:
- pela diferença entre mulheres e homens e pelo seu relacionamento;
- pelos "direitos reprodutivos";
- pelo modelo de família;
- pela atitude perante o início e o fim da vida humana;
- pelo papel social da religião ...
Não entende, ou não quer entender para não ter que tomar posição ...
À medida que esta esquerda aumenta o seu campo, isto é, à medida que a esquerda se "sessentaeoitiza" mais, há como que um triunfo póstumo dos profetas de 68 - Reich, Marcuse, A. Kinsey ...
Reich é um caso de sucesso. Foi o grande teórico da revolução sexual. Sustentou que a repressão sexual era o mecanismo essencial sobre o qual assentava a ordem burguesa; propôs como táctica político-revolucionária a superação dos tabús e inibições sexuais. Uma sociedade sem classes seria a consequencia da libertação sexual.
Claro que para obter a total liberdade da líbido, seria preciso eliminar a família. A família, por definição, cria restrições à liberdade sexual. Também o aborto livre é necessário: só assim a mulher pode desfrutar da sua sexualidade sem o entrave da gravidez.
(Basta ler, em diagonal, REICH, W., The Function of the Orgasm [1942], Condor Books, 1979; REICH, W., The Sexual Revolution [1945], Vision Press, Londres, 1951.) (continua ...)