Jornal de Negócios

06 dezembro 2009

«são mais de 1200 os portugueses que estudam Medicina no estrangeiro»


O défice do Serviço Nacional de Saúde subiu recentemente para mais de 71 milhões de euros. noticia o Público na sua edição em rede.

Talvez por isso , não espantem as declarações do Presidente da Associação dos Estudantes de Medicina, que estudam no estrangeiro, quando diz que o país não conta com eles, nem se interessa.
É sempre mais rentável - políticamente - dizer que se vai buscar médicos ao outro lado do Atlântico para colmatar as alegadas faltas de médicos.

Fora de Portugal, mais perto, muito mais perto, por esta Europa fora à qual dizemos pertencer, estudam neste momento cerca de 1200 estudantes portugueses, em Medicina. E vêm com espanto que o país - que diz carecer de médicos, de forma catastrófica - não conta com o seu regresso.

Entrevista aqui, no jornal Tempo Medicina:

«são mais de 1200 os portugueses que estudam Medicina no estrangeiro. Em entrevista ao «TM», Francisco Pavão, presidente da associação que os representa, fala de como se sentem pouco considerados pela tutela e desapoiados no regresso. E diz ter dúvidas de que o sistema de Saúde português conte com eles.


«Tempo Medicina» — A Associação Nacional de Estudantes de Medicina no Estrangeiro (ANEM) foi formada há relativamente pouco tempo. Com que objectivos?

Francisco Pavão — Desde a fundação da ANEME passaram oito meses apenas. O nosso principal objectivo é a representação e defesa dos interesses dos estudantes de nacionalidade portuguesa que se encontram a frequentar o curso de Medicina em países da Europa.

«TM» — Ao todo, quantos portugueses estão a estudar Medicina no estrangeiro e por que países estão espalhados?
FP — No passado mês de Maio, em resposta a um pedido da sr.ª ministra da Saúde, realizámos um levantamento do número de portugueses a estudar Medicina no estrangeiro. Deparou-se-nos um número superior a 1200 alunos, no ano académico de 2008-2009, em diferentes faculdades e países europeus. Na República Checa há 360 estudantes, sete estão na Eslováquia, um em Malta, cerca de 30 no Reino Unido e mais de 800 em Espanha. Há ainda estudantes em países como Alemanha, França, Bélgica, Polónia, Hungria, Bulgária e Roménia.
Fora da Europa, já fomos contactados por colegas que frequentam o curso em Moçambique, na Argentina, Brasil e República Dominicana.


«TM» — Quais os principais problemas com que se debatem?

FP — Dando a minha situação como exemplo, estando na República Checa a frequentar o 4.º ano do Mestrado Integrado em Medicina, o maior problema é a língua. Contudo, na generalidade dos alunos os grandes problemas são a distância de casa, as saudades da família e dos amigos.
Mas o principal problema é a indiferença das nossas instituições e responsáveis políticos que persistem em desconhecer a nossa realidade. Neste contexto, não deixo de registar o procedimento da banca portuguesa, que não concede aos estudantes portugueses no estrangeiro as mesmas condições de empréstimo que oferece aos estudantes em Portugal.

«TM» — O argumento da falta de médicos em Portugal existe há muito. Se assim é, como se sentem por terem sido «obrigados» a ir estudar para o estrangeiro?

FP — Eu não diria «obrigados». O País não nos nega o acesso ao curso, mas dificulta. A verdade é que, ainda há pouco tempo, o Ministério da Saúde contratou médicos estrangeiros e isso não nos passa despercebido, causando até algum desconforto. Não sabemos por quanto tempo estes médicos irão ficar, nem quais foram os critérios do seu recrutamento e do seu contrato. Nos últimos dias, a Comunicação Social tem alertado para a falta de médicos em Portugal e, ao que soubemos, o Ministério da Saúde divulgou incentivos para os médicos que exercerem no Interior do País. Nesta perspectiva, verificamos que o Governo continua a desaproveitar os alunos de Medicina no estrangeiro, que poderiam concluir o curso em Portugal e ser uma alternativa à apressada e «desconhecida» contratação de médicos fora da União Europeia.

(...)
«TM» — Falando no regresso a Portugal. Que dificuldades encontram neste processo?

FP — As dificuldades que os alunos encontram são as normais de quem não tem qualquer informação sobre o desenrolar do processo e vê por parte do seu País um desinteresse total
. A ANEME, na sua página da internet, disponibiliza as informações necessárias, estando sempre ao dispor para ajudar sempre que for preciso.

«TM» — Em Julho, no 1.º Encontro da ANEME, a ministra da Saúde garantiu que os jovens serão bem recebidos quando voltarem a Portugal. Sente que o «sistema» conta convosco?

FP — Se o sistema conta connosco?! Tenho as minhas dúvidas. Em primeiro lugar, deveria ser revisto o decreto-lei que nos confere uma média final de curso; por outro lado, não deveriam acontecer situações como a de um colega que concluiu o curso na Hungria (país membro da UE) e não vê reconhecida a sua média final, não recebe ajuda nem compreensão por parte das instituições competentes
.

«TM» — Sente que estão a ser criadas as condições para aliciar os jovens a voltar ao seu país para exercer a sua profissão?

FP — De modo nenhum. Até à presente data não registámos, nem chegou até nós nenhum sinal nem qualquer testemunho que traduza qualquer medida que esteja a ser criada para facilitar o regresso a Portugal dos alunos de Medicina a estudar no estrangeiro.
O que é pena, pois estamos em condições de dar um grande contributo.

(www.aneme.org, e TEMPO MEDICINA 1.º CADERNO de 2009.12.07)

02 dezembro 2009

ser tolerante não é ser tolo ...

No jornal Público, de 9 de Janeiro de 2009, vinha uma notícia sobre alegadas mensagens pedófilas que passaram no teletexto da SIC e TVI "que podem indiciar a prática de crimes de abuso sexual de crianças, actos sexuais com adolescentes ou de recurso à prostituição de menores".

Ontem, 1 de Dezembro de 2009, «a Entidade Reguladora para a Comunicação Social emitiu (...) uma deliberação onde intima os “operadores de distribuição de televisão nacionais” a cumprir com a lei não disponibilizando conteúdos pornográficos sem acesso condicionado.» (notícia no Público, 2-12-2009)

É preocupante, mas a condenação destas práticas não é uma questão tão consensual como pode parecer. O próprio jornal Público, no dia 24 de Dezembro de 2008, em caixa destacada e assinada por um seu colaborador, escrevia:
(...)
"Há quem defenda que a liberdade de expressão não é para toda a gente e que pessoas como o Papa devem ter tento na língua. Mas eu não concordo. Toda a gente deve ter liberdade de expressão e o Papa em qualquer caso fala apenas para os católicos. Para quem haveria de falar? Se ele me disser que não devo entregar-me às alegrias da pederastia com suecos de dois metros de altura e que calçam o 45, estou-me nas tintas. Ele tem o direito de dizer isso e eu tenho o direito de ir para cama com eles." (...)

Malhar no Papa e nos Católicos vai sendo um desporto aparentemente inócuo, mas entretanto as mensagens negativas e violentas vão fazendo o seu caminho.

Para os defensores da "teoria de género", o sexo com menores é apenas uma consequencia "natural" da liberdade de escolha. Aliás chamam-lhe "sexo intergeracional", não pedofilia ou pederastia (que são nomes "feios"), como tem vindo a ser defendido há bastante tempo pela NAMBLA - North American Man/Boy Love Association (Associação Americana pelo Amor entre Homens e Meninos).

Esta Associação já esteve integrada na ILGA - International Lesbian and Gay Association (Associação Internacional de Gays e Lésbicas). Em 1993, a ILGA alcançava o status de membro consultivo na ONU, e aumentaram na sociedade norte-americana as críticas à ligação entre a ILGA e a NAMBLA. A ILGA, desvinculou-se da NAMBLA em 1994. Ainda assim, a ILGA perdeu o seu carácter consultivo na ONU e só o recuperou em Dezembro de 2006.

Na Holanda o NVD, constitui-se como partido (as siglas significam "Amor ao Próximo com Liberdade e Diversidade) e defende a legalização das relações sexuais com menores.

A questão irá estar cada vez mais na agenda mediática, seguindo o princípio de "normalizar" a questão até que a sociedade a aceite.

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) vai ter que fazer melhor do que apenas investigar o teletexto ...

Sair do túnel?

«Os bancos europeus estão a sair da recessão mundial com ainda melhores resultados e, por isso, atraem mais risco para a economia.

A conclusão é um estudo da Bloomberg, segundo o qual 15 instituições bancárias da Europa têm activos maiores do que o Produto Interno Bruto do país onde operam. Há três anos apenas dez estavam nesta situação.

(...) “Estamos a lançar as sementes da próxima crise. O que temos feito nos últimos dois anos é tornar os bancos ainda maiores”, comentou David Lascelles, do Centro de Estudos da Inovação Financeira, em Londres.» (noticia, Publico, 2-12-2009

«O Fundo Monetário Internacional recomendou hoje ao Governo que sinalize contenção salarial ao sector privado quando definir os aumentos salariais na função pública para 2010.

Quanto ao aumento já decidido para as pensões, o Fundo adverte que tal tem que ser compensado no futuro.» (Jornal de Negócios, 2-12-2009)

«Menos filhos: mais “riqueza” pessoal, menos riqueza global» (Economia & Finanças, 15-03-2007)

«A taxa de desemprego em Portugal atingiu 10,2 por cento em Outubro, indicam números do Gabinete de Estatística da União Europeia publicados hoje, terça-feira.

Na zona euro, o desemprego manteve-se estável em Outubro face ao mês anterior, situando-se nos 9,8 por cento, a taxa mais elevada desde Janeiro de 1999, adiantam os dados do Eurostat.» (Jornal de Notícias)


«As crises financeiras não acontecem por acaso. O desastre financeiro com que o mundo se confronta hoje foi causado por uma série de "falhanços" e erros políticos que poderiam ter sido evitados, disse o economista americano Charles W. Calomiris, da Universidade de Columbia , durante um encontro com alunos em Barcelona, no campus Universitário do IESE Business School» (Boletim IESE, em inglês)

01 dezembro 2009

à procura da ciência

«Num tempo que perdeu referências existe uma instância que mantém credibilidade universal: a ciência. A nossa sociedade desconfia de políticos e sacerdotes, ridiculariza avós e professores, despreza militares e jornalistas, mas tem fé inabalável em experiências, estudos, teoremas. Aliás exige suporte científico para decisões em todas as áreas da vida. Por isso são bastante preocupantes os crescentes abusos do trabalho analítico que se arriscam a minar a única fonte de verdade que resta a esta sociedade agnóstica.



A ciência usa métodos rigorosos e sistemáticos que no seu campo garantem conhecimento objectivo e sólido. Mas seguindo a via epistemológica é preciso ir onde o processo conduz, não onde se escolhe. Demonstra-se o que se pode, não o que se quer.

Os resultados nem sempre são convenientes, oportunos, pragmáticos. Assim é inevitável que a ciência, sendo inestimável, não baste para conduzir a humanidade, que também precisa de tradição, ideologia, valores, espiritualidade. Tudo aquilo de que o nosso tempo pagão suspeita.


Mas se acreditamos apenas nas teorias, é preciso usá-las, a bem ou a mal. Muitos decisores, interesses e forças de pressão escondem as suas convicções atrás de modelos parciais, teoremas incompetentes, afirmações indemonstradas, resultados distorcidos. Apela-se à ciência a propósito e fora dele, sem contexto nem rigor.


As ciências sociais, batidas no fragor do combate político, são conhecidas pela variedade e insegurança das respostas. O mesmo começa a suceder nas disciplinas supostamente exactas. Basta acompanhar os grandes debates da actualidade para ver como há estudos e especialistas para todos os gostos. Nas grandes obras públicas a situação atingiu o caricato. O TGV e o novo aeroporto já viram justificações indiscutíveis de peritos eminentes em todos os sentidos possíveis. Surpreende como ainda têm credibilidade.



O aquecimento global, tema do momento, parece esquentar mais os especialistas que a atmosfera. Os dados-base são conhecidos, mas a sua interpretação é múltipla. Em 2006 Al Gore publicou o manifesto An Inconvenient Truth: The Planetary Emergency of Global Warming and What We Can Do About It (Rodale Press), que se pretendia científico e fez soar o alarme.

No ano seguinte Bjørn Lomborg apresentou Cool It: The Skeptical Environmentalist's Guide to Global Warming (Cyan 2007), aconselhando calma.

Pode dizer-se que são casos extremos, mas Brian C. O'Neill, um dos maiores especialistas do tema, reagindo a ambos os livros confessou: "O nicho de mercado para uma investigação equilibrada da importância relativa das mudanças climáticas ainda está em aberto" (Population and Development Review 34: 259-362). Se é assim, como se podem apregoar certezas incontestáveis e avançar com medidas drásticas?



Também na medicina a pressão político-social gera mudanças suspeitas. A melhor forma de combater a sida é evidentemente uma alteração de comportamento sexual evitando promiscuidade. Só que os médicos, que não se importam de impor as limitações mais dolorosas aos doentes noutras áreas, aqui preferem evitar polémicas e falam de preservativo. Será por motivo profiláctico ou mediático? Pode até dizer-se que, promovendo o deboche, esses conselhos fomentam a maleita.



Também a homossexualidade, que sempre foi considerada uma doença do foro psiquiátrico pelos especialistas, deixou de o ser em 1973 na Associação Americana de Psiquiatria e em 1981 na OMS. Foram novas investigações incontestáveis e descobertas revolucionárias, ou mera pressão política e jornalística?



A discussão de muitos outros temas, da gripe A aos transgénicos, passando pela energia atómica, e radiações de telemóveis ou redes de alta tensão, sofre do mesmo drama.


Em todos estes casos a verdadeira ciência está totalmente inocente. Ela segue o seu caminho paulatino, demonstrando o que pode e garantindo solidez do que afirma. O mal, que chega a ser criminoso, é o uso abusivo que supostos utilizadores e divulgadores fazem dos torturados resultados científicos.»
(J. César das Neves, no DN, 30 de Novembro, Opinião, "ciência torturada")

Portugal ajudou a bloquear a livre circulação de doentes nos Hospitais da União Europeia. Seguramente que também isso será apresentado como uma questão de "evidência" e de lógica ...

29 novembro 2009

«A OMS foi incompetente em termos científicos»

No Público, de 24 de Novembro:

(...) «acho que esta doença não tem gravidade suficiente que justifique a vacina a vacinação maciça. Entendo que, como neste momento o impacto global da doença na população portuguesa, comparando com outras, não é tão importante como isso, então a despesa envolvida não se justifica. É só nesta altura que uso o argumento do dinheiro. Há quem calcule que o gasto [todos os custos com a doença] já ascende a 67 milhões de euros. Não é razoável.


Então os portugueses continuam a morrer tranquilamente de doenças cardiovasculares e estamos todos preocupados com a gripe?»


(...) «a OMS, na minha opinião, sai muito chamuscada desta situação. A posição da OMS é insustentável, errada.

O impacto desta doença é pequeno e os recursos são escassos. Então vou eleger como prioritário, como problema central da minha política, o problema da gripe?

Agora, quando todos os governos decidem comprar maciçamente vacinas é muito difícil que o Governo português não o faça também. A minha crítica é que isto vai provocar uma disrupção na comunidade, o que é inaceitável.»


(...) «As autoridades não foram capazes de desdramatizar a situação, entraram num comboio que não conseguiram parar e neste momento há problemas fascinantes como o da França - que encomendou 90 milhões de doses - e está a tentar desesperadamente colocar no mercado mundial 45 milhões de doses, porque só 50 por cento dos franceses se vão vacinar. Entraram por um caminho sem retorno.»

(Prof. António Vaz Carneiro, director do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa)

18 novembro 2009

a esquerda que parou em 68 ... (III)

... continuação da adaptação do artigo do Prof. Francisco Contreras, Catedrático de Filosofia do Direito, Universidade de Sevilha.


(...) A aceitabilidade de quaisquer relações sexuais é a pedra angular, o dogma intocável deste supostamente novo progressismo.

A par disto, a chamada "idade de consentimento" para relações sexuais, isto é o limite que a lei estabelece entre menores e adultos, tende a baixar progressivamente. Em Espanha, por exemplo, é de 13 anos, desde 1995, na Holanda, as propostas são para que desça até aos 11 anos.

(Não é por acaso que a Europa se enfrenta com um problema crescente de pornografia infantil.)

O "mundo feliz" pansexualista desta esquerda, é a sua nova utopia. "Uma utopia no sentido próprio do termo porque se baseia na ideia de que os seres humanos podem encontrar a felicidade na realização dos seus impulsos sexuais, sem limite de nenhum tipo (biológico, social, moral) e sem qualquer responsabilidade na procriação. (...) Uma utopia velha, dos anos 60, mas que continua intolerantemente protegida de qualquer crítica, embora não tenha cumprido nenhuma das suas promessas. (Rocella, E., Scaraffia, L.).


Actualmente, para esta esquerda "sessentaeoitista" todas as reivindicações políticas se relacionam com liberdade sexual. Isto vê-se bem no caso do aborto: não é casualidade que o movimento pro-aborto tenha crescido nos anos 70, na esteira dos movimentos de liberalismo sexual dos anos 60.

Uma sociedade em pleno liberalismo sexual precisa do aborto livre, como rede de segurança para as - inevitáveis - falhas da contracepção.«Atendendo à probabilidade de falência contraceptiva, um mundo sem aborto é um mundo em que as pessoas ou praticam uma auto-regulação sexual, ou arriscam verem as suas vidas dramaticamente alteradas pelas responsabilidades ligadas a uma "criança indesejada". Esta situação é inaceitável, do ponto de vista liberacionista.» (George, R.P., "Religious Values and Politics")

Leyre Pajín, secretaria do Partido Socialista Espanhol (PSOE) diz claramente, em entrevista a um diário, que "a lei do aborto permitirá desfrutar da sexualidade de uma forma segura" (http://www.libertaddigital.com/sociedad/pajin-sobre-la-nueva-ley-del-aborto-permitira-disfrutar-de-la-sexualidad-de-forma-segura-1276359557/)

(continua ...)

13 novembro 2009

Experiências em crianças - o simplex!


«A 'coisificação' da criança»

Maria José Nogueira Pinto, no DN 2009-11-12



No recente estudo de opinião efectuado pela Eurosondagem, 45,5% dos inquiridos concordam com o casamento homossexual, contra 49,5%, que se opõem. Contudo, à pergunta "E com a adopção por casais homossexuais?", o resultado do "não" (68,4%) mais que triplica o do "sim" (21,8%).

Um número significativo dos inquiridos - embora não maioritário - concorda que a união de duas pessoas do mesmo sexo possa ser integrada na categoria de um casamento civil, porque, julgam eles, o contrário significaria uma discriminação. Não têm tempo, paciência ou liberdade de espírito para pegar na questão e pô-la no seu lugar certo, nem que seja por um mero exercício intelectual: não há discriminação quando se trata diferentemente o que é diferente, nem o que é diferente passa a ser igual através da alteração de alguns artigos do Código Civil.


A única consequência será destituir de qualquer sentido o casamento civil, que, ao perder os seus pressupostos e objectivos, fica reduzido a um contrato subtraído à liberdade contratual das partes, por uma inexplicável ingerência do Estado.

Porque se duas pessoas do mesmo sexo se podem casar não há razão para proibir o casamento a termo certo (5, 10, 20 anos) ou o casamento poligâmico (um homem e três mulheres, uma mulher e dois homens). Fazia mais sentido a devolução deste contrato às partes, hetero ou homossexuais, permitindo que cada um estabelecesse livremente o modelo da sua união.


Quanto à segunda pergunta, isto é, se concorda ou não que casais homossexuais adoptem crianças, quase metade dos que antes diziam "sim" ao casamento dizem, agora, "não" à adopção.

É que enquanto o casamento só envolve os próprios, a adopção implica terceiros, crianças que não têm capacidade de exprimir a sua vontade e, por isso, precisam de quem as represente. Ora, sendo ao Estado que compete esta função, e sendo o Estado, ele próprio, o legislador, na prática as crianças ficam sem representante que defenda o seus superiores interesses. Aqui a situação complica-se e, à cautela, quem antes dizia sim passa a dizer não.


A ausência de debate permitiu que uns ocultem, e muitos desconheçam, um inexorável nexo de causalidade: o casamento dos homossexuais acarretará, automaticamente, o direito a adoptarem. Também aqui, basta um mero exercício intelectual.

De facto, assentando a iniciativa legislativa no princípio da igualdade, uma vez esta estabelecida por lei, não poderá manter-se uma capitis diminutio em nome da diferença. Porque é ela - a diferença - que cria dúvidas quanto à adopção, dúvidas que terão de ser engolidas após a aprovação da lei sob pena de se estar a consagrar casamentos de primeira e casamentos de segunda, ao arrepio de todo o discurso oficial e, julgo mesmo - agora sim -, da Constituição.


É esta a verdadeira questão. Não estamos perante um mero exercício intelectual, nem no âmbito restrito da contenda política. É mais grave, é mais sério. As crianças adoptáveis são crianças privadas, por diversos motivos, dos seus pais biológicos. Vêm de famílias tão ausentes que se tornaram inexistentes e são entregues à tutela do Estado, a quem compete providenciar um novo projecto de vida que passa pela realização do direito de cada criança a ter um pai e uma mãe adoptivos, na falta dos biológicos.

A tarefa é enorme e só quem nunca lidou com estas crianças, os seus percursos, as dúvidas e angústias na construção de um novo destino assente no respeito absoluto pelo melhor interesse de cada uma delas, pensa que uma promessa eleitoral transformada em lei pelo Parlamento, sem um maior escrutínio da sociedade, pode varrer todos os valores e princípios que enformam o sistema de protecção dos menores.


Esta lei pode ser a consagração da "coisificação" das crianças, a sua utilização como uma coisa, um adorno de uma mera simbologia. Uma irresponsabilidade atroz para a qual ninguém recebeu mandato.»

05 novembro 2009

ainda os "bónus" dos gestores


«Se os bancos estão a ter lucros, pois então que usem esse dinheiro, como reserva, para melhorarem a sua situação e poderem emprestar mais à economia»

Ditas por Jean Claude Trichet, actual Presidente do Banco Central Europeu. (no Jornal de Negócios)

04 novembro 2009

a esquerda que parou em 68 ... (II)


... continuação ... (do artigo de J. Contreras, Univ. de Sevilha)

... Esta pós-esquerda do século XXI orbita em torno do orgasmo, de W. Reich e também de Gramsci. António Gramsci, já nos anos 30, tinha teorizado sobre a necessidade da esquerda conquistar a hegemonia cultural ("a guerra de tomar posição"), antes de tentar o assalto ao Estado e às relações de produção ("a guerra das manobras").

Para facilitar a revolução político-económica, era preciso fazer primeiro a revolução dos costumes, das crenças e dos códigos morais. Esta missão corresponderia aos "intelectuais do aparelho" que deveriam trabalhar, de modo coordenado, para ganhar o imaginário social.

Era preciso substituir a visão tradicional do mundo, pela visão marxista. Para Gramsci, o rival natural destes "intelectuais do aparelho" é a Igreja. Esta esquerda precisa de centrar a sua guerra no combate às crenças religiosas. (cfr. De Mattei, A Ditadura do Relativismo)


Na verdade, na esquerda clássica, tanto W. Reich, como Gramsci, eram figuras de segunda linha. Reich conseguiu inclusive ser expulso, sucessivamente, da URSS (1929), do SPD Alemão (1930) e finalmente do PC Alemão, em 1934, acusado de "transformar o Partido num bordel".

Hoje seria surpreendente que alguém fosse expulso de um partido da esquerda por mau comportamento sexual, o que significa que esta esquerda , pós-68, é bastante diferente da de então.



Além disto, em Marcuse e Gramsci o ataque à moral "tradicional" é apenas um meio para atingir o fim supremo da revolução socialista. Mas nesta esquerda pós-moderna, que já não acredita na revolução socialista, a subversão da moral sexual e dos costumes ligados à família, converteu-se num fim. O único fim que esta esquerda céptica e acomodada consegue arvorar como bandeira.

A liberdade sexual (a própria libertinagem sexual) perderam já o seu potencial subversivo. A reivindicação de uma liberdade sexual ilimitada e promíscua, é o modo actual de ir ao sabor da corrente, de mostrar submissão ao poder dominante. Nas circunstâncias actuais, o comportamento promíscuo é a atitude integrada e convencional. (Josep Miró, O Fim do Estado de Bem-Estar)


Em 1968 ainda estavam presentes os "grandes relatos" do marxismo, pelo menos nas livrarias das Universidades, e nos tanques do Pacto de Varsóvia. Sempre era possível alguém deixar-se convencer de que o sexo era uma arma de subversão, ou que "fazendo amor, se faz a revolução".

Mas passaram os anos ... A década de 70 mostrou como o modelo de bem-estar do pós-guerra não era sustentável. O gigantismo do sector público, o custo das nacionalizações, do ensino e da saúde estatais mostraram as fragilidades dos modelos económicos socialistas e social-democratas. Esta esquerda fica sem referenciais económicos. Aparece um Frideman. Sucede-lhe Keynes. (Tortella, As Origens do Capitalismo)

Na década de 80 afundam-se os regimes do bloco soviético. É a vez da esquerda mais radical ficar sem modelo económico.

A partir de 90, este vazio fica apto a ser preenchido pelo "sessentaeoitismo".. Esta esquerda já não precisa de desculpas anti-capitalistas para defender a liberdade sexual sem limites. Esta liberdade irrestrita passa a ser, por si mesma, a meta, o valor supremo. (Haaland, Janne. Os direitos humanos desprezados e a ditadura do relativismo)

(continua ...)

Back to USA


«Os eleitores do estado do Maine, no nordeste dos Estados Unidos, rejeitaram uma lei do estado que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo, segundo resultados parciais de um referendo local realizado terça-feira»



(...) « Com 87 por cento dos votos contados, o 'não' vencia com 55 por cento, o que constitui um revés para o movimento dos direitos da comunidade homossexual na zona do país mais favorável ao casamento gay.

Desde que começou a ser submetido ao voto popular, o casamento entre pessoas do mesmo sexo perdeu até agora em todos os estados onde os eleitores se pronunciaram, num total de 31.»

Deve ser por isto que há quem tenha medo dos referendos.
(Noticia no Sol, 4 Nov)

02 novembro 2009

capitalismo socialista ...

A maioria dos países da zona euro rejeitou a possibilidade de cobrança de taxas no pagamento feito com cartões, mas o governo português transpôs essa directiva para a lei nacional, diz o Diário Económico.

Ou seja, a menos que haja alguma novidade posterior, a partir de agora convém andar bem recheado de notas, ou os custos vão sentir-se no fim do mês...

É interessante reparar como as vantagens do capitalismo só se tornam "boas" com governos socialistas ...

O outro lado do "avanço" do país ...

No Expresso (31 Out 2009), Ricardo Costa:

«Confesso o meu espanto com o silêncio a que a política e a banca se remeteram quando a operação 'Face Oculta' lhes caiu em cima. (...) o caso envolve pressões a ministros, empresas do Estado, gestores públicos, advogados espertos e o vice-presidente do maior banco privado português.

O enredo não tem offshores, milhões de euros a circular, almoços no Ritz ou gente com gravatas Hermès. Tem sucata, envelopes em dinheiro vivo, carros de sonho de patos-bravos e almoços em que o fato fica a cheirar a peixe pela tarde fora.

(...) Em Portugal ganha-se muito mais dinheiro em médios negócios feitos à sombra do Estado e longe dos holofotes do escrutínio público do que nos negócios de que todos falamos.

No TGV, nos contentores, nas pontes e auto-estradas há somas monstruosas envolvidas, mas também há (felizmente) muita gente a ver tudo o que corre mal. Noutras áreas, como o Ambiente, circula imenso dinheiro e favores sem qualquer escrutínio ou atenção.

Só isso é que explica o à-vontade com que Manuel Godinho terá montado uma "rede tentacular integrada" para ser favorecido em concursos públicos. Tudo se passava num sector de que ninguém fala. Godinho estava tão à vontade como os beneficiários. Quem é que liga à sucata?

(...) A rede de sucata de Godinho está a mostrar outra face do nosso país. Longe das grandes concessões trocam-se favores, manobram-se ministros e gestores. Tudo isto com pouco dinheiro e nenhum esforço.

Em poucos meses, o fio de um sucateiro levou a uma meada que põe em causa a gestão de algumas das maiores empresas, lançou mais uma bomba no BCP e remeteu o PS a um silêncio catatónico. Só se pede que a Justiça seja rápida. O país não aguenta outra 'operação Furacão'.»

O problema é que o país "aguenta" tudo, inclusive premiar eleitoralmente quem aldraba ...

28 outubro 2009

a esquerda que parou em 68 ...


Adaptado do artigo de J. Contreras (Catedrático de Filosofia, Universidade de Sevilha)


(...)

Há uma esquerda que fracassou ao longo do século XX: a que tinha por bandeira as aspirações clássicas de nacionalizar os meios de produção e de substituir o capitalismo pelo socialismo.

De facto o que aconteceu foi exactamente o contrário, com largo apoio de faixas crescentes da população.

Esta esquerda não desapareceu, simplesmente mudou de bandeira: substituiu a revolução social e económica pela revolução sexual.

No campo económico, a diferença entre esquerda e direita foi-se atenuando.

Das direitas veio uma cada vez maior tendencia a confiar no mercado, em detrimento da empresa individual; da esquerda, uma reclamação à intervenção reguladora do Estado. A esquerda já não contesta globalmente o capitalismo (já nem sequer usa o termo), e até propõe políticas económicas claramente apostadas no mercado.

A direita reclama o abaixamento de impostos, o que costuma provocar uma reactivação do crescimento e a criação de postos de trabalho; a esquerda tende a aumentar a pressão fiscal, aumentando o emprego público, o que traz alguma desaceleração do crescimento e gera desemprego privado, mas tudo isto dentro de uma certa parcimónia mercantilista.

Ou seja, esta esquerda clássica está privada do seu projecto habitual, e necessita de novas bandeiras. Não querendo alinhar com as esquerdas mais liberais, ou as "terceiras vias", precisa de uma bandeira simples que possa usar como elemento de identificação.

Encontrou-o facilmente na amálgama da ideologia libertária freudiano-marxista que também explodiu em 68, aquilo a que poderíamos chamar o "sessentaeoitismo" - a ideologia de género, a permissividade sexual, o aborto livre, o questionamento da "família tradicional", a hostilidade ao cristianismo, o pacifismo radical, o multiculturalismo assimétrico, o ecologismo anti-humano ...


Em paralelo, a direita foi-se afunilando numa míopia (típica), perante esta mutação sessentaeoitista. Foi propalando que se tatava de meras "cortinas de fumo", lançadas por estes grupos de esquerda para distrair dos problemas reais.

Foi berrando que medidas como a legalização do "casamento" gay, a liberalização total do aborto, a imposição escolar de disciplinas ideológicas como a educação cívica, ou os crescentes ataques à Igreja, eram meros "fait-divers".


Tal com existe uma esquerda, presa no tempo, também esta direita continua a operar com um velho modelo de trabalho que herdou do século passado, em que a fractura entre esquerda e direita era mais óbvia e relacionada com a maneira de organizar os sistemas de produção.

Esta direita não consegue entender que o centro de gravidade do combate ideológico já não passa pela economia, mas pela cultura:
- pela diferença entre mulheres e homens e pelo seu relacionamento;
- pelos "direitos reprodutivos";
- pelo modelo de família;
- pela atitude perante o início e o fim da vida humana;
- pelo papel social da religião ...

Não entende, ou não quer entender para não ter que tomar posição ...

À medida que esta esquerda aumenta o seu campo, isto é, à medida que a esquerda se "sessentaeoitiza" mais, há como que um triunfo póstumo dos profetas de 68 - Reich, Marcuse, A. Kinsey ...

Reich é um caso de sucesso. Foi o grande teórico da revolução sexual. Sustentou que a repressão sexual era o mecanismo essencial sobre o qual assentava a ordem burguesa; propôs como táctica político-revolucionária a superação dos tabús e inibições sexuais. Uma sociedade sem classes seria a consequencia da libertação sexual.

Claro que para obter a total liberdade da líbido, seria preciso eliminar a família. A família, por definição, cria restrições à liberdade sexual. Também o aborto livre é necessário: só assim a mulher pode desfrutar da sua sexualidade sem o entrave da gravidez. (Basta ler, em diagonal, REICH, W., The Function of the Orgasm [1942], Condor Books, 1979; REICH, W., The Sexual Revolution [1945], Vision Press, Londres, 1951.)

(continua ...)

26 outubro 2009

Em Madrid, manifestação de rua contra o aborto


Em Madrid, mais de um milhão de pessoas saíram à rua manifestando-se contra o aborto. A Câmara Municipal reconhece que foram cerca de 1 milhão e 200 mil os manifestantes (dois milhões, segundo a organização).

A manifestação ampliou as divisões dentro do PSOE espanhol, tal como anteriormente já tinha criado divisões no Comitê de Bioética do governo.

Entretanto continuam as denuncias de que o aborto é cada vez mais um negócio, internacional.