
O défice do Serviço Nacional de Saúde subiu recentemente para mais de 71 milhões de euros. noticia o Público na sua edição em rede.
Talvez por isso , não espantem as declarações do Presidente da Associação dos Estudantes de Medicina, que estudam no estrangeiro, quando diz que o país não conta com eles, nem se interessa.
É sempre mais rentável - políticamente - dizer que se vai buscar médicos ao outro lado do Atlântico para colmatar as alegadas faltas de médicos.
Fora de Portugal, mais perto, muito mais perto, por esta Europa fora à qual dizemos pertencer, estudam neste momento cerca de 1200 estudantes portugueses, em Medicina. E vêm com espanto que o país - que diz carecer de médicos, de forma catastrófica - não conta com o seu regresso.
Entrevista aqui, no jornal Tempo Medicina:
«Já são mais de 1200 os portugueses que estudam Medicina no estrangeiro. Em entrevista ao «TM», Francisco Pavão, presidente da associação que os representa, fala de como se sentem pouco considerados pela tutela e desapoiados no regresso. E diz ter dúvidas de que o sistema de Saúde português conte com eles.
«Tempo Medicina» — A Associação Nacional de Estudantes de Medicina no Estrangeiro (ANEM) foi formada há relativamente pouco tempo. Com que objectivos?
Francisco Pavão — Desde a fundação da ANEME passaram oito meses apenas. O nosso principal objectivo é a representação e defesa dos interesses dos estudantes de nacionalidade portuguesa que se encontram a frequentar o curso de Medicina em países da Europa.
«TM» — Ao todo, quantos portugueses estão a estudar Medicina no estrangeiro e por que países estão espalhados?
FP — No passado mês de Maio, em resposta a um pedido da sr.ª ministra da Saúde, realizámos um levantamento do número de portugueses a estudar Medicina no estrangeiro. Deparou-se-nos um número superior a 1200 alunos, no ano académico de 2008-2009, em diferentes faculdades e países europeus. Na República Checa há 360 estudantes, sete estão na Eslováquia, um em Malta, cerca de 30 no Reino Unido e mais de 800 em Espanha. Há ainda estudantes em países como Alemanha, França, Bélgica, Polónia, Hungria, Bulgária e Roménia.
Fora da Europa, já fomos contactados por colegas que frequentam o curso em Moçambique, na Argentina, Brasil e República Dominicana.
«TM» — Quais os principais problemas com que se debatem?
FP — Dando a minha situação como exemplo, estando na República Checa a frequentar o 4.º ano do Mestrado Integrado em Medicina, o maior problema é a língua. Contudo, na generalidade dos alunos os grandes problemas são a distância de casa, as saudades da família e dos amigos.
Mas o principal problema é a indiferença das nossas instituições e responsáveis políticos que persistem em desconhecer a nossa realidade. Neste contexto, não deixo de registar o procedimento da banca portuguesa, que não concede aos estudantes portugueses no estrangeiro as mesmas condições de empréstimo que oferece aos estudantes em Portugal.
«TM» — O argumento da falta de médicos em Portugal existe há muito. Se assim é, como se sentem por terem sido «obrigados» a ir estudar para o estrangeiro?
FP — Eu não diria «obrigados». O País não nos nega o acesso ao curso, mas dificulta. A verdade é que, ainda há pouco tempo, o Ministério da Saúde contratou médicos estrangeiros e isso não nos passa despercebido, causando até algum desconforto. Não sabemos por quanto tempo estes médicos irão ficar, nem quais foram os critérios do seu recrutamento e do seu contrato. Nos últimos dias, a Comunicação Social tem alertado para a falta de médicos em Portugal e, ao que soubemos, o Ministério da Saúde divulgou incentivos para os médicos que exercerem no Interior do País. Nesta perspectiva, verificamos que o Governo continua a desaproveitar os alunos de Medicina no estrangeiro, que poderiam concluir o curso em Portugal e ser uma alternativa à apressada e «desconhecida» contratação de médicos fora da União Europeia.
(...)
«TM» — Falando no regresso a Portugal. Que dificuldades encontram neste processo?
FP — As dificuldades que os alunos encontram são as normais de quem não tem qualquer informação sobre o desenrolar do processo e vê por parte do seu País um desinteresse total. A ANEME, na sua página da internet, disponibiliza as informações necessárias, estando sempre ao dispor para ajudar sempre que for preciso.
«TM» — Em Julho, no 1.º Encontro da ANEME, a ministra da Saúde garantiu que os jovens serão bem recebidos quando voltarem a Portugal. Sente que o «sistema» conta convosco?
FP — Se o sistema conta connosco?! Tenho as minhas dúvidas. Em primeiro lugar, deveria ser revisto o decreto-lei que nos confere uma média final de curso; por outro lado, não deveriam acontecer situações como a de um colega que concluiu o curso na Hungria (país membro da UE) e não vê reconhecida a sua média final, não recebe ajuda nem compreensão por parte das instituições competentes
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«TM» — Sente que estão a ser criadas as condições para aliciar os jovens a voltar ao seu país para exercer a sua profissão?
FP — De modo nenhum. Até à presente data não registámos, nem chegou até nós nenhum sinal nem qualquer testemunho que traduza qualquer medida que esteja a ser criada para facilitar o regresso a Portugal dos alunos de Medicina a estudar no estrangeiro. O que é pena, pois estamos em condições de dar um grande contributo.
(www.aneme.org, e TEMPO MEDICINA 1.º CADERNO de 2009.12.07)











