Jornal de Negócios

29 janeiro 2010

A gata

do blog O-Povo:


(...) «A definição do casamento como união de um homem com uma mulher é tão arcaica quanto o matrimónio para a procriação: o casamento moderno não tem nada que ver com a família ou com a geração, porque foi elevado à sublime condição do mais libérrimo amor.

Ora o amor não se afirma apenas entre os humanos, como muito bem sabem quantos estimam os animais mais do que os seus semelhantes que, salvo melhor opinião, não são as ditas bestas.

Assim sendo, espera-se agora que a D. Arlete, que, desde que faleceu o marido e os filhos abalaram para parte incerta, se entregou de alma e coração à sua gata Britney, exija que o Estado português lhe permita institucionalizar esta sua amantíssima relação com o seu bichano, bem mais fiel do que o seu defunto ente querido, e muito mais carinhoso do que a sua ingrata prole.

É provável que o zeloso funcionário de turno não queira abençoar esta revolucionária união e que, mais uma vez, os tribunais confirmem a recusa, em nome de um qualquer alfarrábio ultramontano. Mas se a D. Arlete, à imagem e semelhança do amoroso casalinho das meninas Jéssica e Nádia, perseverar no seu revolucionário empenho, é certo e sabido que tem garantida a vitória nos corações de todos os portugueses, sejam eles gatos ou não.


E, mesmo que os tribunais não lhe dêem a razão, terá decerto direito ao prime time dos noticiários de todas as televisões e, depois, à bênção nupcial do Governo e do Parlamento. (Nota: todos os nomes são fictícios, menos o da gata, à qual se pede desculpa pela inconfidência). » (Gonçalo Portocarrero)

o outro lado da economia da mentira

Hospitais de Paris vão despedir cerca de 1000 médicos» (entre outros). (La Tribune, 24 de Janeiro de 2010)


«"Iremos suprimir entre 3 a 4 mil postos de trabalho, no total de 92 mil. A maioria serão assistentes e médicos. Os restantes será pessoal administrativo.", disse o Director da Assistencia Pública / Hospitais de Paris (AP-HP).»

Claro que a questão não é se despedem médicos, ou enfermeiros ou pessoal do secretariado. A questão é que - lá como cá - tudo isto foi escondido e mantido em banho-maria durante muito tempo atrás das frases: "falta de médicos" (e de enfermeiros), "é preciso abrir mais escolas" (de médicos e enfermeiros), a culpa é "deles" (médicos e enfermeiros) que não querem concorrencia, etc.

Agora ...

23 janeiro 2010

As crianças não têm direito a um casamento e a uma família normais?


As crianças não têm direito a um casamento e a uma família normais?

Fonte: Instituto Valenciano de Fertilidade, Sexualidade e Relações Familiares (IVAF)

Há já bastante tempo que alguns meios de comunicação se empenham em desvalorizar (e até ridicularizar) qualquer tentativa de oposição à ideología do homosexualismo. O facto de que haja razões científicas e sociais para se opor ao “casamento”, e respectiva adopção, por pessoas homossexuais, parece ser irrelevante.


Não são poucos os que defendem que o progresso social estaría ligado a uma superação das barreiras discriminatórias contra os homossexuais. Muitos dos que defendem esta posição, manifestam uma agressividade feroz – e difamatória – contra os que defendem o direito das crianças a terem a melhor família possível, e o direito da sociedade a propor o casamento como a união de um homem e de uma mulher. Dizem que estamos a impor aos outros as nossas convicções "religiosas" e que impedimos o reconhecimento de direitos civis para todos.

Isto não é simplesmente verdade.

Haver um registo público onde as pessoas homossexuais possam identificar as suas amizades íntimas, como uniões de facto, no quadro da protecção social respectiva, é possível e já foi feito em vários países. Mas chamar a este registo “casamento” vai contra o bem-estar público e, de forma particular, contra o equilibrio e o desenvolvimento afectivo dos filhos.

As pessoas homossexuais devem ser respeitadas e protegidas, como pessoas, mas o seu estilo de vida não debe ser proposto às crianças como se fosse uma opção de vida inócua.

É necessário ter uma opinião sobre este assunto. Alguns dados que podem ajudar a reflectir.

1.- Os homossexuais podem casar-se, como qualquer outro(a) cidadão(ã). Que muitos prefiram não casar-se, não constitui uma discriminação. Os homossexuais podem casar-se, assumindo os mesmo direitos e obrigações que todos os outros cidadãos que se casam. Isto é, podem casar-se – tal como os restantes cidadãos – com uma pessoa do sexo oposto, que tenha a idade legal de consentimento e que exprima ese consentimento de forma libre.

Que alguém, que se afirma homossexual, se queixe de discriminação porque não o deixam casar-se com alguém do mesmo sexo, tem a mesma lógica que um polígamo que se queixasse de discriminação porque não o deixam casar-se com várias mulheres ao mesmo tempo; ou porque não o deixam casar-se com várias mulheres e homens ao mesmo tempo. (Já agora, porque não?)

A isto não se chama discriminação: a lei é igual para todos. A sociedade tem um modelo de casamento que demonstrou a sua eficacia ao longo de muitos séculos.



2.- Chamar casamento à união homossexual reflecte um experimentalismo social arriscado, nunca tentado. Algumas civilizações que não só permitiam a homossexualidade, como até a fomentavam (como na Grécia Antiga, nalguns grupos e clases sociais), nunca pretenderam chamar-lhe casamento. Entendiam o casamento como uma união estável entre um homem e uma mulher, organizada em função da abertura aos filhos.

Uma coisa são as práticas sexuais dalgumas pessoas, outra muito diferente, a família como espaço de criação e educação dos filhos. A homossexualidade é muito antiga e adoptou muitas formas diferentes, em diferentes sociedades, mas nunca foi aparentada com o casamento.

Fazer experimentalismo social é irresponsável e perigoso. Pior quando a motivação para estas arriscadas experiências não é científica, nem social, mas apenas ideológica. Não existe sequer pressão social: a esmagadora maioria das pessoas está contra esta opção.

3.- Não existe nenhum gene da homossexualidade. O homossexual não nasce, faz-se. Não há evidencia científica de que a homossexualidade esteja ligada à herança genética, ou que a inclinação homossexual esteja determinada desde o nascimento.

Há, isso sim, evidencias de que a tendencia homossexual se encontra ligada a factores do ambiente, sobretudo ligados à educação e à psicología.

Qualquer pessoa, desde que o queira, pode praticar actos homossexuais, como também pode deixar de os praticar. Por isso mesmo, muitos homossexuais deixaram de o ser, com ajuda profissional.

A ideología homossexualista insiste no carácter inato da homossexualidade para defender que é uma questão da natureza humana, mas a ciencia diz-nos que a homossexualidade não está na natureza humana através da genética, mas através de outras coisas, também humanas, como o ambiente em que se vive e as decisões pessoais.

Um ambiente favorável à homossexualidade, faz aumentar o número de homossexuais nesse ambiente. Em ambientes tolerantes à homossexualidade, mas em que essas práticas não se promovem, o número de homossexuais não aumenta.

4.- Para evitar abusos contra homossexuais, ou entre os próprios homossexuais entre si, não precisamos de inventar um "casamento" homossexual. Praticamente todos os direitos do casamento que se referem a heranças, trasmissão de bens, partilha de propiedades, etc., podem ser regulados por quaisquer pessoas, por acordo mútuo e livre, diante de um notário, sem que tenham que declarar que têm relações sexuais.

20 janeiro 2010

a subida dos impostos


(...) «Algumas das medidas anunciadas no último Conselho de Ministros passam por reduções ou isenções temporárias das contribuições para a Segurança Social pelos empregadores que cumprirem determinados requisitos em futuras contratações de jovens ou de desempregados.

O director-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, Paulo Vaz, nada tem a obstar contra estas "medidas que foram avaliadas" e que espera "sejam transitórias", mas, mesmo assim, frisa que "não são as medidas de apoio ao emprego que criam postos de trabalho; as boas políticas económicas e a sua implementação é que permitem de novo o crescimento, o aumento da competitividade e do investimento".

Lembra, igualmente, que "é papel do Estado apoiar em alturas de crise como esta", mas, sublinhou, "os rendimentos não são elásticos, e tal vai acabar por chegar aos bolsos dos portugueses, com mais impostos ou degeneração do nível de vida"» (...)

13 janeiro 2010

competitividade estruturalmente baixa, mesmo em período de pujança


No Diário Económico:

(...) «"Portugal está a sangrar e a perder recursos a um ritmo elevado (...) O risco de uma morte lenta é elevado", pode ler-se numa nota de análise da agência internacional Moody's.

Dizem os analistas da Moody's que Grécia e Portugal são dois bons exemplos de países que manifestam uma competitividade estruturalmente baixa dentro da zona euro, mesmo nos períodos de pujança económica, que se traduziu em défices muito elevados.

"Esta falha de competitividade vai resultar provavelmente num ‘sangramento' do potencial económico e, consequentemente, no aumento dos impostos se a situação não se inverter", continua a casa de ‘rating' internacional.

Para a agência "Portugal e Grécia estão a sangrar e a perder recursos a um ritmo galopante", dado o aumento do endividamento dos países e, por consequência, dos encargos para com os credores estrangeiros.» (...)

capitalismo socialista (II)


No Correio da Manhã, 12 Janeiro 2010:

Médicos cubanos recebem 500 euros de salário


«Polémica: Ministério da Saúde garante que paga o salário da tabela
Cubanos só recebem 500 euros.


Cada médico cubano contratado pelo Estado português recebe apenas 500 euros por mês dos cerca de 2500 euros de salário pago pelo Ministério da Saúde através do governo de Cuba. Quinze euros vão para as famílias e o restante, cerca de 2000 euros, vão directos para os cofres do Estado cubano, ou seja, 80 por cento do salário vai para o regime de Havana. Cabe às autarquias muitos dos encargos com estes médicos, como rendas de casa, transportes e facturas de água e de luz.


O Governo português está satisfeito com o negócio, porque resolveu o problema da falta de médicos, e Cuba recebe divisas. A situação choca os clínicos portugueses, mas os visados não se queixam e remetem-se ao silêncio.
Inicialmente os médicos cubanos recebiam 300 euros, o equivalente ao que recebem no seu país, mas o custo de vida em Portugal obrigou Cuba a pagar-lhes 500 euros mensais.

Para muitos médicos portugueses, as condições dos cubanos são desumanas. Carlos Santos, dirigente do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), declarou ao CM que o assunto já motivou a reclamações às Autoridades Regionais de Saúde do Alentejo e Algarve, regiões que acolhem a maioria dos 44 médicos cubanos, em Portugal desde Agosto de 2009.


A maioria destes médicos não quer falar à imprensa por "não estar autorizada", segundo confidenciou ao CM um dos clínicos.


O secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Manuel Pizarro, nega ao CM que haja discriminação. "O Estado português paga em iguais condições aos médicos cubanos como a qualquer outro médico de família estrangeiro ou português a fazer 40 horas semanais. E paga horas extra se forem feitas." Quanto ao magro rendimento, Pizarro sublinha que "o Governo português não tem nada a ver com a forma como o pagamento da remuneração é feita por Cuba aos médicos." (...) »

11 janeiro 2010

Nevoeiro

No blogue de JPP (Abrupto, Domingo, 10 de janeiro de 2010)


«TIREM-ME DAQUI!»

(...)
«Mas há dias em que o Parlamento falha completamente, quando se torna uma pequena côterie de iluminados que querem contra tudo e contra todos, com uma superficialidade gritante, aceitando uma retórica tão inflamada como vazia, decidindo quase a brincar coisas cujas consequências não são pensadas a sério, em grande parte por modismo e por subserviência ao politicamente correcto.

Ontem, o Parlamento tornou-se um ecossistema de todas as bizarrias da vida política portuguesa, um lugar puramente superstrutural, fora do país, sem laços com qualquer realidade, vivendo de uma ficção entre a festa radical chic e os movimentos da extrema-esquerda tardia, que descobriu com o atraso de trinta anos as "causas fracturantes".

Ontem, o Parlamento afastou-se de qualquer fundação democrática real e tornou-se apenas o espelho formal de "causas" ultraminoritárias, próprias de uma cultura alternativa, minoritária mesmo entre os homossexuais e lésbicas, a maioria dos quais ainda estão dentro do "armário", num contexto social e etário muito diferente dos jovens que comemoravam nas escadas da Assembleia o seu dia de glória mediática. Essa maioria invisível, essa sim é que vive mal e infeliz, e estes folclores não a ajudam porque contribuem para reforçar a homofobia e não a combatê-la.

O que mais me assusta é a irresponsabilidade de toda esta "festa". Os jornais e as televisões ardem de falsa indignação quando um deputado chama palhaço a outro ou o manda a qualquer lugar feio, mas não é isso que ajuda a estragar o Parlamento: é o momento em que este, sem sequer parar para pensar, se desvia do país para navegar causas absurdas com as quais gasta as melhores das suas palavras. (...)

No meio disto tudo, o discurso de Vale de Almeida parecia um exemplo de moderação, apesar do seu tom de oração evangélica aos "irmãos e irmãs", que fazia chorar as pedras da calçada. E mesmo Assis, que é bem melhor do que a sua bancada, colocava entre parêntesis o seu pessimismo antropológico para saudar o "progresso" daquele dia, em que o Sol rasgava as trevas ignaras da Reacção. Parecia o Congresso a aprovar a Declaração da Independência. Só o PCP, embora votando junto com a esquerda, mantinha uma reserva e discrição envergonhada, eles que ainda mantêm o fio da corrente ligado à terra e sabem bem que tudo aquilo é mais folclore do que qualquer emancipação de um direito.

E era tudo, no fundo, tão ridículo, que eu me perguntava: será que "eles" não dão por ela? Se calhar não.

As principais vítimas de tudo isto serão aqueles que amam ou desejam alguém do mesmo sexo, homossexuais e lésbicas, mais os primeiros do que as segundas, que sitiados por uma sociedade que efectivamente os hostiliza e maltrata, serão vítimas de ver o seu amor ou o seu desejo ainda mais marginalizado pela exibição mais ou menos folclórica e "fracturante" de meia dúzia de intelectuais, pequenos e médios criadores e artistas, gente do mundo da comunicação social, das indústrias culturais, da moda, urbana, jovem, bem arranjada e chique, que em conjunto com alguns políticos, deram origem a uma pseudocausa, de um pseudodireito, o do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O

Partido Socialista frágil nas suas convicções e sem uma ideia consistente para o país, que cada vez menos conhece, abriu a brecha por onde o Bloco de Esquerda entrou. E não o fez só agora, já com a legislação sobre o divórcio se andam a meter nas andanças da engenharia social "fracturante", gerando uma sociedade mais fragilizada e menos justa para os fracos, como as mulheres divorciadas por carta e os homossexuais que não pertencem ao beautiful people.

A ilusão de que o acesso ao casamento quebra uma barreira simbólica que ajuda a terminar com a homofobia efectivamente existente, o argumento mais hábil de Vale de Almeida, repousa numa ambiguidade e numa hipocrisia.

Porque Vale de Almeida sabe perfeitamente que ele e muitos outros a última coisa que pretendem é casar-se, ou sequer imaginam no casamento qualquer virtude especial. Eles sabem bem que o casamento é algo dos "outros", não por causa da lei que os exclui, mas porque o que vem virtualmente no pacote do casamento, a instituição familiar convencional, os "deveres conjugais", não correspondem ao mesmo mundo cultural e emocional do seu entendimento da "causa" dos homossexuais e lésbicas.

Para eles o que conta é a "causa", não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundovisão. Sabem que ao romper na lei a relação do casamento com a família nuclear, que implica possibilidade real da procriação, erodem para outros um valor que não desejam.

É por isso que se trata de uma "luta", não por direitos, mas contra uma determinada forma de sociedade. E é também por isso que por todo o debate mostrou uma enorme intolerância num só sentido. "Fanáticos", "intolerantes", "retrógrados", "reaccionários", "aberrantes", foram palavras comuns, ecoando o que era o tom de muita comunicação social que tomou a causa como sua. "Tacanhos" eram todos os que se opunham ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Não é "luta de classes", mas é kulturkampf.

O que irá acontecer nos próximos dias é previsível. Os primeiros casamentos de pessoas do mesmo sexo serão eventos "mediáticos". Vão lá estar todas as televisões. Haverá muita festa e depois, pouco a pouco, haverá cada vez menos casamentos e cada vez menos novidade. Apenas meia dúzia de pessoas se casará, o que mostrará como era vazia a força do direito ofendido. Mas será o folclore que "passará", uma espécie de travestismo perverso e o seu efeito será aumentar a intolerância homofóbica.»

(Versão do Público de 9 de Janeiro de 2010.)

30 dezembro 2009

governo e jornais


«A polícia considerou que as verdades reveladas pelo Daily Telegraph eram de interesse público e suspendeu as averiguações por fuga de informação.

"É horrível! São todos uns vigaristas!" Assim desabafava, ontem, um cidadão britânico face às câmaras de televisão, mostrando até que ponto a descrença no regime é avassaladora entre o povo.


Horas antes, pela primeira vez em trezentos anos, o presidente da Câmara dos Comuns demitira-se no último episódio do escândalo da utilização indevida de dinheiros públicos por parte de pelo menos 18 deputados e que afecta já todos os partidos.

As despesas abusivamente apresentadas e pagas pelos contribuintes, não tinham aparentemente limites: desde o pagamento de hipotecas, à compra de electrodomésticos, passando pelos pagamentos aos jardineiros, a comida para cão ou aos enfeites de Natal.

Mas no meio desta hecatombe surge uma boa notícia: a polícia considerou que as verdades reveladas pelo Daily Telegraph eram de interesse público e suspendeu as averiguações por fuga de informação.


O escândalo, longe de ser uma espécie de golpe de misericórdia num regime podre, confere-lhe uma hipótese de redenção.

São mais actuais do que nunca as palavras de Jefferson, um dos pais fundadores da América, numa carta escrita em 1787: “Se a base dos nossos Governos é a opinião das pessoas, o primeiríssimo objectivo deve ser salvaguardar esse direito”.
E rematava: “Se fosse chamado a escolher entre um Governo sem jornais ou jornais sem Governo, não hesitaria um momento em escolher o último”.
Os britânicos estão neste ponto. E escolheram bem!»

(No RR on-line, 20 de Maio de 2009, por Graça Franco, "Governo sem jornais ou jornais sem Governo"
)

26 dezembro 2009

«o Ministério está a assumir pesadíssimas responsabilidades de ser um cúmplice do enterro da reforma dos cuidados de saúde primários»


«o Ministério está a assumir pesadíssimas responsabilidades de ser um cúmplice do enterro da reforma dos cuidados de saúde primários», diz o sindicalista e Presidente da FNAM (Federação Nacional dos Médicos).

Excertos retirados do jornal Tempo Medicina (28-12-2009):

«Esse processo está, neste momento, novamente a ser revisto, vamos ver o que acontece.» Foram estas as parcas palavras de Ana Jorge sobre a polémica gerada pela divulgação do documento "Cálculo de Indicadores de Desempenho – Critérios a Observar na sua Implementação".»

«De recordar que o texto, resultante do trabalho da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) para a harmonização do cálculo dos indicadores de desempenho dos profissionais das unidades de saúde familiar (USF), foi criticado pela Unidades de Saúde Familiar — Associação Nacional e pelos sindicatos médicos (ver «TM» de 07/12 e de 14/12) que alertaram para a necessidade de o documento passar pela negociação sindical, pois vai alterar a portaria que rege a atribuição dos incentivos às equipas.»
(...)

«Carlos Arroz, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM): «O SIM tem a caixa do correio limpa, não há nada em cima da mesa.

O sindicalista reiterou que «os incentivos das USF pertencem a uma portaria que foi negociada com os sindicatos e se houve uma alteração da portaria tem de haver negociação, não é nenhum favor, é uma obrigação legal».


Uma opinião partilhada por Mário Jorge Neves, [FNAM] que considera «imperativa a eliminação imediata daquele documento», o qual, por não ter passado por «qualquer processo de negociação sindical como passou a anterior portaria», é «ilegal». Além disso, o presidente da Fnam frisa que «a Missão [para os Cuidados de Saúde Primários] não tem nenhuma competência legal para estar a aprovar alterações de incentivos e a ACSS também não. Isto parece uma brincadeira de garotos com coisas que são demasiadamente sérias».

(...)
«O presidente da Ordem dos Médicos (OM) considerou, no Porto, que Portugal «vai absorver os médicos» que saírem dos novos curso de Medicina, criados recentemente nas universidades do Algarve e Aveiro, mas avisa que, dentro de 6 a 10 anos, estes clínicos podem não encontrar lugar nos internatos. «A abertura de novos cursos é absolutamente desnecessária — é uma mistificação dizer-se que abrem para que haja mais médicos», afirmou (...) »

«Cerca de 1200 médicos fizeram já, ou irão ainda fazer, o Juramento de Hipócrates, incluindo médicos portugueses formados em universidades europeias. Em Lisboa, fizeram já juramento cerca de 500 e, no Porto, 400, faltando ainda a cerimónia em Coimbra. Neste momento, as universidades portuguesas admitem anualmente 1650 médicos, havendo ainda cerca de 500 que são admitidos em faculdades de Medicina de outros países europeus, como, por exemplo, Espanha, República Checa, Roménia ou Itália.»

«A falta de médicos na periferia «é outro dos mitos da nossa comunicação», defendeu Pedro Nunes ao ser questionado, lembrando que não é no Interior que há mais portugueses sem médico de família, mas nos arredores do Porto, Lisboa, Setúbal e outras grandes cidades para onde a população migrou e não foram abertos lugares» (...)



21 dezembro 2009

O país das mentirinhas


Do Jornal Torrejano:
«O Atestado Médico, por José Ricardo Costa»

«Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância.

Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa.

Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la? Passemos então à parte divertida.

A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, ababalhada e malcheirosa, é um atestado médico. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar a sua ausência na sala do exame.

Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.

Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.

O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.

Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente. Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.

Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade. Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade.

Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões.

O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D. Afonso Henriques, que Deus me perdoe.

A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade.

Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida. Se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.

Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.

Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas.

Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.

Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.»

Este artigo data de 2005! Se lerem os posts anteriores, percebem algumas das causas da nossa falta de produtividade:é a isto que os nossos líderes deveriam responder.

20 dezembro 2009

"Aquecimento" global à pancada

«Por que razão a nobre, elevada, consciente, responsável, séria, causa de impedir que o planeta entre numa catástrofe sem saída provocada pelas alterações climáticas, no dizer dos seus organizadores, junta como um magneto a maior colecção de grupos anarquistas, extremistas, de direita e de esquerda, que há no planeta?

Por que razão a mesma nobre causa provoca cenas de pancadaria deliberadas e instigadas pelos próprios grupos de manifestantes, com a polícia dinamarquesa, que não é propriamente uma polícia especialmente repressiva, num país particularmente intolerante?»

(...)«o que os move é mais uma versão do velho anticapitalismo que sempre moveu uma parte de jovens radicais na Europa e nos EUA, a que se somam aqueles a que Marx chamava o “lumpenproletariado” e que habitam as cidades entre os vários rendimentos mínimos e o desemprego, e que tem uma cultura de violência que tanto dá para o Porto – Benfica, como para as cenas de destruição que se vêem em Copenhaga, nas reuniões do G7 ou 8 ou 10.

Não é ambiente que lhes interessa, é partir uma vidraça de algum estabelecimento do “big business” que é fonte de todos os males, o corruptor da terra.

Pode a cimeira chegar aos melhores resultados que eles continuam imperturbáveis, com o silêncio incomodado dos que fazem de conta que isto não acontece e só vêem à frente o bonacheirão politicamente correcto Al Gore.»
(JPP, no Abrupto)

17 dezembro 2009

Uma questão "assassina"

Excertos adaptados duma entrevista ao sociólogo australiano Michael Casey:


(...)
Pergunta: Reparo que hoje em dia muitas pessoas têm vergonha de levantar a questão sobre o sentido da vida. É uma impressão minha? Ou é um denominador comum da cultura do momento?


M Casey: Essa é certamente a pergunta certa se se
quiser matar uma conversa. Atirar com a "questão do sentido" ("meaning question") para o debate parece envergonhar as pessoas. As pessoas que se atrevem a fazê-lo são consideradas como falhas de competências sociais, com classificações que vão desde o "demasiado sério", ao simplesmente "estranho".

Mas estas mesma pessoas "envergonhadas", dizem-nos com toda a franqueza as suas opções em política, religião ou sexo, mesmo que não perguntemos. E descem a pormenores que realmente preferiríamos não saber.
E estão sempre prontas a mostrar a sua adesão ao Big Bang, ou ao evolucionismo, ao mínimo pretexto, seja a origem da vida, do universo, ou qualquer outra coisa.
A verdade é que quase todos os lugares comuns da conversa do dia-a-dia nos levam à questão do sentido da vida e do valor que damos aos seus diferentes aspectos.

E claro que os momentos especiais da vida - o nascimento, a morte dos pais ou de um filho, uma doença, as amarguras da vida - nos obrigam a pensar nas tais coisas "demasiado sérias". Tal como acontece quando nos confrontamos com a violência e com o sofrimento.
O que realmente mudou na nossa cultura não são estas questões. O que mudou é a ausência de referenciais que nos ajudem a procurar o sentido destas coisas.

Uma das funções da cultura é ajudar as pessoas a aprofundar os seus questionamentos e reflexões sobre os significados das coisas.
Sem este quadro de referencias é muito difícil conseguir a integração dos vários sítios em que nos movemos no dia-a-dia. Esta situação deixa as pessoas entregues aos seus próprios recursos. Isto impede as pessoas de se questionarem sobre as "questões profundas", a menos que se venha de um ambiente favorecido, ou se tenha algum tipo de conhecimento religioso.

Ficamos entregues ás nossas próprias e subjectivas soluções acerca do significado das coisas. Aceitamos viver com múltiplos "pequenos se ..." para as pequenas questões do quotidiano, abandonando a procura de uma fonte de significados que esteja acessível a todos.

Neste momento, as questões relativas ao ambiente voltam a levantar o problema: em que nos apoiamos para propor novos modelos? Por exemplo:

«O Papa Bento XVI defende "uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento". Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, que se assinala a 1 de Janeiro, o Papa acusa mesmo os países industrializados de serem responsáveis pela "crise ecológica" que se vive.

E diz ser necessário "reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações". (Noticia, Publico, 17 de Dezembro de 2009)


16 dezembro 2009

Contrato Social


(...) «parece haver mal-estar no país, em relação ao RSI [Rendimento Social de Inserção, "Rendimento Mínimo"] que urge evitar. A frieza dos números mostra-nos que 18% dos portugueses vive abaixo do limiar de pobreza. Muitos mais seriam, não fossem as prestações sociais.

Uma sociedade solidária compreende e aceita a necessidade de medidas de apoio a quem precisa de um mínimo de dignidade. Esse mínimo é um direito. Mas devemos organizar melhor a sua execução, para que seja mais justo e temporário.

O Movimento Esperança Portugal propõe a substituição do RSI pelo Contrato de Inserção Social. O beneficiário tem de ser responsável pela execução do contrato, sob pena de ele poder terminar.

Trabalho com populações vulneráveis, pelo que sei a dificuldade. A maior pobreza, para além da escassez de meios, é a dificuldade para comunicar e conhecer, sair de si, agir. A nossa obrigação solidária é combater a passividade, promover a autonomia.» (...)

«Apenas 3% dos beneficiários entraram em formação profissional! Mais habilitações e reconversão de conhecimentos são prioridades. Mas há outras necessidades: a formação parental, a formação em economia e vida doméstica, a formação cívica, o treino de competências pessoais e sociais. Se nada fizermos, a pobreza gera pobreza, a exclusão maior exclusão, maior risco.

Temos de ser capazes de romper estes ciclos.
A solidariedade pode e deve ser um investimento produtivo. Pode ser início de vida nova. Para todos nós. Tem de sê-lo!

Margarida Neto (pdf de uma entrevista aqui)
Vice-presidente do MEP (Movimento Esperança Portugal)
» (Publicado no Sol, em 14 de Dezembro)