Jornal de Negócios

08 fevereiro 2010

E ainda ...


(...) «da encenação grosseira destes últimos dias à volta da Lei das Finanças Regionais, uma mistura de farronca e de dolo, cujo único efeito foi agravar ainda mais o espectáculo da instabilidade política face aos mercados internacionais.

O Governo, que se prestou a este espectáculo, não tem qualquer espécie de noção da gravidade da situação em que colocou o país, isto na hipótese benigna. Porque, na hipótese menos benigna, sabe muito bem o que nos espera qualquer dia destes, e pretende arranjar um pretexto para se pôr a milhas, de preferência culpabilizando outros por uma "situação explosiva" que sempre negou existir e que, bem pelo contrário, ajudou e muito a agravar.

Já toda a gente percebeu que Portugal é mesmo uma Grécia que acabará por ter que fazer à força, e por imposição exterior, aquilo que se recusou a fazer, mesmo apesar de ter sido de há dois anos para cá avisado dia sim, dia não, por quase todos os economistas, pelo Presidente da República e por essa senhora frágil que todos atacam e que disse sempre as coisas certas para Portugal, sem qualquer vantagem pessoal e política, pagando um preço elevado por o ter feito num país de irresponsabilidade optimista, outro nome para o desperdício, sob a égide da Casa de Sócrates.» (...)

No Abrupto.

O fim da linha 2


Manifesto saído no Público de hoje:
(...)

«“É para nós claro que o primeiro-ministro não pode continuar a recusar-se a explicar a sua concreta intervenção em cada um dos sucessivos casos que o envolvem.

É para nós claro que o Presidente da República, a Assembleia da República e o poder judicial também não podem continuar a fingir que nada se passa. É para nós claro que um Estado de Direito democrático não pode conviver com um primeiro-ministro que insiste em esconder-se e com órgãos de soberania que não assumem as suas competências.

É para nós claro que este silêncio generalizado constitui um evidente sinal de degradação da vida democrática, colocando em causa o regular funcionamento das instituições”» (...)

No dia 11 há manifestação junto à AR.

"O Fim da Linha"

Num blog vizinho:

«O Fim da Linha, por Mário Crespo»

«Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.

Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.

Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”.

É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar.

Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados.


Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre.

Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.»

«Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicado hoje (1/2/2010) na imprensa.»

03 fevereiro 2010

Sair do pântano


(...) "O Eng. Guterres fez uma das mais sagazes análises da história nacional quando a 16 de Dezembro de 2001 disse que se demitia para "evitar que o país" caísse "num pântano político".

Foi para o pântano que o seu mandato nos conduziu e é no pântano que temos estado desde então.


Ora num atoleiro nunca se encontram leões. Quem quer ver animais nobres tem de ir a outros lados. No charco só existe o tipo de batráquios que nos tem governado estes anos." (...)


"Mas nós hoje não temos um problema. Somos o problema. Por isso não andamos em busca de uma solução. A resposta para as nossas dificuldades é evidente há anos. O que tem faltado não é o caminho, mas vontade para o percorrer. Se aparecer um líder que nos indique o rumo, ele será geralmente desprezado. Aliás, foi isso mesmo que aconteceu." (...)


"Nós não precisamos de bons políticos. Precisamos de vontade para tomar os remédios amargos que eles nos indicariam. Infelizmente temos preferido a embriaguez dos eflúvios pantanosos. Enquanto apodrecermos na lama, veremos a zoologia que escolhemos.



Quais são os tais remédios amargos? Para o caso de ainda haver alguém com dúvidas, é fácil descrevê-los. O pântano guterrista é apenas o país em que sempre habitámos, mas agora alagado em dívida. E o caminho para fora desse atoleiro é bem conhecido. Basta apertar o cinto e adquirir hábitos de consumo mais adequados às nossas posses. Não é preciso apertar muito, porque já somos um país rico. Mas temos de cortar. A crise internacional força grande parte dos nossos cidadãos a isso. Todos os que trabalham em empresas concorrenciais sofrem na pele essa necessidade, que é gritante nos muitos que caem no desemprego. O sol seca o pântano.


Essa é a parte fácil. O obstáculo está nos muitos que vivem de fundos públicos. Políticos, mas também pensionistas, subsidiados, funcionários, professores, médicos, polícias, militares, construtoras, concessionárias e tantos outros, pagos por impostos, não só não perderam com a crise mas até ganharam na deflação. Essa é a base do problema orçamental, face visível do pântano. Habituados à vida anfíbia, esses até sonham com leões, mas recusam abandonar o paul."


J. César das Neves, Ecologia do Pântano, no DN de 1 de Fevereiro)

31 janeiro 2010

a esquerda que parou em 68 ... (IV)

(... continuação)

«A aceitabilidade de quaisquer relações sexuais é a pedra angular, o dogma intocável deste supostamente novo progressismo. (...) seja anátema quem falar contra! E se, no início, se fala de relações entre adultos, livremente consentidas, a prática leva a que se rebaixe sistematicamente a idade de consentimento legal para ter relações sexuais.

Na Holanda, as propostas apontam para os 11 anos, por ser esta a idade - ironicamente - que a lei holandesa prevê para consentimento de menores em caso de eutanásia.

Quase todas as reivindicações desta esquerda de 68 se relacionam - com lógica política - com exigências de liberdade sexual.

Isto é bastante evidente no caso do aborto: o movimento pró-abortivo ganha força, no Ocidente, nos anos 70, na esteira de alguns movimentos dos anos 60.

Uma sociedade sexualmente libertada precisa do aborto livre como rede de segurança contraceptiva para as falhas e esquecimentos, inevitáveis, dos contraceptivos.

O mesmo se diga dos chamados "novos modelos de família": a normalização das relações homossexuais que pressupõe a liberalização do que seja a "normalidade", alargada a um sector minoritário da população; as "novas" famílias monoparentais, recompostas, etc., que são na realidade fragmentos de famílias "tradicionais", destroçadas frequentemente por um desejo de maior liberdade sexual, ou de um uso adúltero dessa liberdade; as uniões de facto, não só reconhecidas, mas sobretudo promovidas, para que se apresentem como modelo de desfrute sexual sem o compromisso do casamento ...»

Toda uma imensa cartilha - obrigatória e dogmática - de pensamento único, com o recurso à demolição personalizada dos que discordarem: uma nova e mediática inquisição pos-moderna que queima a personalidade dos "hereges" políticos.

«Mesmo a hostilidade militante contra a Igreja Católica só se torna inteligível nesta perspectiva: a Igreja é um obstáculo porque se recusa a reconhecer a licitude moral das relações sexuais fora do casamento e, portanto, tampouco as suas consequências lógicas (aborto, reconhecimento legal das relações extra-conjugais, dos pares homossexuais, etc.)

A virulência das reacções às palavras do Papa em África, também se enquadra nesta lógica política. Dizer que a SIDA não se pode vencer apenas com preservativos coincide com os factos epidemiológicos. São os países que também apostaram em campanhas que promovem a fidelidade que estão com melhores resultados. Isso mesmo é reconhecido pela própria OMS e seus responsáveis.

A reacção irada a estas afirmações do Papa não decorre de que estejam convencidos de que Bento XVI desconheça a realidade. É precisamente ao contrário: saberem que os dados científicos dão razão ao Papa é intolerável, porque põe em causa o dogma sessentaeoitista da liberdade sexual ilimitada. Este dogma está no centro da sua visão do mundo e não é questionável.»

(Traduzido e adaptado do artigo do Prof. Francisco Contreras, Catedrático de Filosofia do Direito, Universidade de Sevilha)

30 janeiro 2010

Gente como nós



«O Síndroma de Down NÃO é uma doença. As pessoas com Síndroma de Down NÃO estão à procura de medicamentos para se curarem: querem ser aceites pela sociedade da MESMA MANEIRA que as outras» (escrito por
quem sabe). Versão em ppt aqui.

29 janeiro 2010

A gata

do blog O-Povo:


(...) «A definição do casamento como união de um homem com uma mulher é tão arcaica quanto o matrimónio para a procriação: o casamento moderno não tem nada que ver com a família ou com a geração, porque foi elevado à sublime condição do mais libérrimo amor.

Ora o amor não se afirma apenas entre os humanos, como muito bem sabem quantos estimam os animais mais do que os seus semelhantes que, salvo melhor opinião, não são as ditas bestas.

Assim sendo, espera-se agora que a D. Arlete, que, desde que faleceu o marido e os filhos abalaram para parte incerta, se entregou de alma e coração à sua gata Britney, exija que o Estado português lhe permita institucionalizar esta sua amantíssima relação com o seu bichano, bem mais fiel do que o seu defunto ente querido, e muito mais carinhoso do que a sua ingrata prole.

É provável que o zeloso funcionário de turno não queira abençoar esta revolucionária união e que, mais uma vez, os tribunais confirmem a recusa, em nome de um qualquer alfarrábio ultramontano. Mas se a D. Arlete, à imagem e semelhança do amoroso casalinho das meninas Jéssica e Nádia, perseverar no seu revolucionário empenho, é certo e sabido que tem garantida a vitória nos corações de todos os portugueses, sejam eles gatos ou não.


E, mesmo que os tribunais não lhe dêem a razão, terá decerto direito ao prime time dos noticiários de todas as televisões e, depois, à bênção nupcial do Governo e do Parlamento. (Nota: todos os nomes são fictícios, menos o da gata, à qual se pede desculpa pela inconfidência). » (Gonçalo Portocarrero)

o outro lado da economia da mentira

Hospitais de Paris vão despedir cerca de 1000 médicos» (entre outros). (La Tribune, 24 de Janeiro de 2010)


«"Iremos suprimir entre 3 a 4 mil postos de trabalho, no total de 92 mil. A maioria serão assistentes e médicos. Os restantes será pessoal administrativo.", disse o Director da Assistencia Pública / Hospitais de Paris (AP-HP).»

Claro que a questão não é se despedem médicos, ou enfermeiros ou pessoal do secretariado. A questão é que - lá como cá - tudo isto foi escondido e mantido em banho-maria durante muito tempo atrás das frases: "falta de médicos" (e de enfermeiros), "é preciso abrir mais escolas" (de médicos e enfermeiros), a culpa é "deles" (médicos e enfermeiros) que não querem concorrencia, etc.

Agora ...

23 janeiro 2010

As crianças não têm direito a um casamento e a uma família normais?


As crianças não têm direito a um casamento e a uma família normais?

Fonte: Instituto Valenciano de Fertilidade, Sexualidade e Relações Familiares (IVAF)

Há já bastante tempo que alguns meios de comunicação se empenham em desvalorizar (e até ridicularizar) qualquer tentativa de oposição à ideología do homosexualismo. O facto de que haja razões científicas e sociais para se opor ao “casamento”, e respectiva adopção, por pessoas homossexuais, parece ser irrelevante.


Não são poucos os que defendem que o progresso social estaría ligado a uma superação das barreiras discriminatórias contra os homossexuais. Muitos dos que defendem esta posição, manifestam uma agressividade feroz – e difamatória – contra os que defendem o direito das crianças a terem a melhor família possível, e o direito da sociedade a propor o casamento como a união de um homem e de uma mulher. Dizem que estamos a impor aos outros as nossas convicções "religiosas" e que impedimos o reconhecimento de direitos civis para todos.

Isto não é simplesmente verdade.

Haver um registo público onde as pessoas homossexuais possam identificar as suas amizades íntimas, como uniões de facto, no quadro da protecção social respectiva, é possível e já foi feito em vários países. Mas chamar a este registo “casamento” vai contra o bem-estar público e, de forma particular, contra o equilibrio e o desenvolvimento afectivo dos filhos.

As pessoas homossexuais devem ser respeitadas e protegidas, como pessoas, mas o seu estilo de vida não debe ser proposto às crianças como se fosse uma opção de vida inócua.

É necessário ter uma opinião sobre este assunto. Alguns dados que podem ajudar a reflectir.

1.- Os homossexuais podem casar-se, como qualquer outro(a) cidadão(ã). Que muitos prefiram não casar-se, não constitui uma discriminação. Os homossexuais podem casar-se, assumindo os mesmo direitos e obrigações que todos os outros cidadãos que se casam. Isto é, podem casar-se – tal como os restantes cidadãos – com uma pessoa do sexo oposto, que tenha a idade legal de consentimento e que exprima ese consentimento de forma libre.

Que alguém, que se afirma homossexual, se queixe de discriminação porque não o deixam casar-se com alguém do mesmo sexo, tem a mesma lógica que um polígamo que se queixasse de discriminação porque não o deixam casar-se com várias mulheres ao mesmo tempo; ou porque não o deixam casar-se com várias mulheres e homens ao mesmo tempo. (Já agora, porque não?)

A isto não se chama discriminação: a lei é igual para todos. A sociedade tem um modelo de casamento que demonstrou a sua eficacia ao longo de muitos séculos.



2.- Chamar casamento à união homossexual reflecte um experimentalismo social arriscado, nunca tentado. Algumas civilizações que não só permitiam a homossexualidade, como até a fomentavam (como na Grécia Antiga, nalguns grupos e clases sociais), nunca pretenderam chamar-lhe casamento. Entendiam o casamento como uma união estável entre um homem e uma mulher, organizada em função da abertura aos filhos.

Uma coisa são as práticas sexuais dalgumas pessoas, outra muito diferente, a família como espaço de criação e educação dos filhos. A homossexualidade é muito antiga e adoptou muitas formas diferentes, em diferentes sociedades, mas nunca foi aparentada com o casamento.

Fazer experimentalismo social é irresponsável e perigoso. Pior quando a motivação para estas arriscadas experiências não é científica, nem social, mas apenas ideológica. Não existe sequer pressão social: a esmagadora maioria das pessoas está contra esta opção.

3.- Não existe nenhum gene da homossexualidade. O homossexual não nasce, faz-se. Não há evidencia científica de que a homossexualidade esteja ligada à herança genética, ou que a inclinação homossexual esteja determinada desde o nascimento.

Há, isso sim, evidencias de que a tendencia homossexual se encontra ligada a factores do ambiente, sobretudo ligados à educação e à psicología.

Qualquer pessoa, desde que o queira, pode praticar actos homossexuais, como também pode deixar de os praticar. Por isso mesmo, muitos homossexuais deixaram de o ser, com ajuda profissional.

A ideología homossexualista insiste no carácter inato da homossexualidade para defender que é uma questão da natureza humana, mas a ciencia diz-nos que a homossexualidade não está na natureza humana através da genética, mas através de outras coisas, também humanas, como o ambiente em que se vive e as decisões pessoais.

Um ambiente favorável à homossexualidade, faz aumentar o número de homossexuais nesse ambiente. Em ambientes tolerantes à homossexualidade, mas em que essas práticas não se promovem, o número de homossexuais não aumenta.

4.- Para evitar abusos contra homossexuais, ou entre os próprios homossexuais entre si, não precisamos de inventar um "casamento" homossexual. Praticamente todos os direitos do casamento que se referem a heranças, trasmissão de bens, partilha de propiedades, etc., podem ser regulados por quaisquer pessoas, por acordo mútuo e livre, diante de um notário, sem que tenham que declarar que têm relações sexuais.

20 janeiro 2010

a subida dos impostos


(...) «Algumas das medidas anunciadas no último Conselho de Ministros passam por reduções ou isenções temporárias das contribuições para a Segurança Social pelos empregadores que cumprirem determinados requisitos em futuras contratações de jovens ou de desempregados.

O director-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, Paulo Vaz, nada tem a obstar contra estas "medidas que foram avaliadas" e que espera "sejam transitórias", mas, mesmo assim, frisa que "não são as medidas de apoio ao emprego que criam postos de trabalho; as boas políticas económicas e a sua implementação é que permitem de novo o crescimento, o aumento da competitividade e do investimento".

Lembra, igualmente, que "é papel do Estado apoiar em alturas de crise como esta", mas, sublinhou, "os rendimentos não são elásticos, e tal vai acabar por chegar aos bolsos dos portugueses, com mais impostos ou degeneração do nível de vida"» (...)

13 janeiro 2010

competitividade estruturalmente baixa, mesmo em período de pujança


No Diário Económico:

(...) «"Portugal está a sangrar e a perder recursos a um ritmo elevado (...) O risco de uma morte lenta é elevado", pode ler-se numa nota de análise da agência internacional Moody's.

Dizem os analistas da Moody's que Grécia e Portugal são dois bons exemplos de países que manifestam uma competitividade estruturalmente baixa dentro da zona euro, mesmo nos períodos de pujança económica, que se traduziu em défices muito elevados.

"Esta falha de competitividade vai resultar provavelmente num ‘sangramento' do potencial económico e, consequentemente, no aumento dos impostos se a situação não se inverter", continua a casa de ‘rating' internacional.

Para a agência "Portugal e Grécia estão a sangrar e a perder recursos a um ritmo galopante", dado o aumento do endividamento dos países e, por consequência, dos encargos para com os credores estrangeiros.» (...)

capitalismo socialista (II)


No Correio da Manhã, 12 Janeiro 2010:

Médicos cubanos recebem 500 euros de salário


«Polémica: Ministério da Saúde garante que paga o salário da tabela
Cubanos só recebem 500 euros.


Cada médico cubano contratado pelo Estado português recebe apenas 500 euros por mês dos cerca de 2500 euros de salário pago pelo Ministério da Saúde através do governo de Cuba. Quinze euros vão para as famílias e o restante, cerca de 2000 euros, vão directos para os cofres do Estado cubano, ou seja, 80 por cento do salário vai para o regime de Havana. Cabe às autarquias muitos dos encargos com estes médicos, como rendas de casa, transportes e facturas de água e de luz.


O Governo português está satisfeito com o negócio, porque resolveu o problema da falta de médicos, e Cuba recebe divisas. A situação choca os clínicos portugueses, mas os visados não se queixam e remetem-se ao silêncio.
Inicialmente os médicos cubanos recebiam 300 euros, o equivalente ao que recebem no seu país, mas o custo de vida em Portugal obrigou Cuba a pagar-lhes 500 euros mensais.

Para muitos médicos portugueses, as condições dos cubanos são desumanas. Carlos Santos, dirigente do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), declarou ao CM que o assunto já motivou a reclamações às Autoridades Regionais de Saúde do Alentejo e Algarve, regiões que acolhem a maioria dos 44 médicos cubanos, em Portugal desde Agosto de 2009.


A maioria destes médicos não quer falar à imprensa por "não estar autorizada", segundo confidenciou ao CM um dos clínicos.


O secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Manuel Pizarro, nega ao CM que haja discriminação. "O Estado português paga em iguais condições aos médicos cubanos como a qualquer outro médico de família estrangeiro ou português a fazer 40 horas semanais. E paga horas extra se forem feitas." Quanto ao magro rendimento, Pizarro sublinha que "o Governo português não tem nada a ver com a forma como o pagamento da remuneração é feita por Cuba aos médicos." (...) »

11 janeiro 2010

Nevoeiro

No blogue de JPP (Abrupto, Domingo, 10 de janeiro de 2010)


«TIREM-ME DAQUI!»

(...)
«Mas há dias em que o Parlamento falha completamente, quando se torna uma pequena côterie de iluminados que querem contra tudo e contra todos, com uma superficialidade gritante, aceitando uma retórica tão inflamada como vazia, decidindo quase a brincar coisas cujas consequências não são pensadas a sério, em grande parte por modismo e por subserviência ao politicamente correcto.

Ontem, o Parlamento tornou-se um ecossistema de todas as bizarrias da vida política portuguesa, um lugar puramente superstrutural, fora do país, sem laços com qualquer realidade, vivendo de uma ficção entre a festa radical chic e os movimentos da extrema-esquerda tardia, que descobriu com o atraso de trinta anos as "causas fracturantes".

Ontem, o Parlamento afastou-se de qualquer fundação democrática real e tornou-se apenas o espelho formal de "causas" ultraminoritárias, próprias de uma cultura alternativa, minoritária mesmo entre os homossexuais e lésbicas, a maioria dos quais ainda estão dentro do "armário", num contexto social e etário muito diferente dos jovens que comemoravam nas escadas da Assembleia o seu dia de glória mediática. Essa maioria invisível, essa sim é que vive mal e infeliz, e estes folclores não a ajudam porque contribuem para reforçar a homofobia e não a combatê-la.

O que mais me assusta é a irresponsabilidade de toda esta "festa". Os jornais e as televisões ardem de falsa indignação quando um deputado chama palhaço a outro ou o manda a qualquer lugar feio, mas não é isso que ajuda a estragar o Parlamento: é o momento em que este, sem sequer parar para pensar, se desvia do país para navegar causas absurdas com as quais gasta as melhores das suas palavras. (...)

No meio disto tudo, o discurso de Vale de Almeida parecia um exemplo de moderação, apesar do seu tom de oração evangélica aos "irmãos e irmãs", que fazia chorar as pedras da calçada. E mesmo Assis, que é bem melhor do que a sua bancada, colocava entre parêntesis o seu pessimismo antropológico para saudar o "progresso" daquele dia, em que o Sol rasgava as trevas ignaras da Reacção. Parecia o Congresso a aprovar a Declaração da Independência. Só o PCP, embora votando junto com a esquerda, mantinha uma reserva e discrição envergonhada, eles que ainda mantêm o fio da corrente ligado à terra e sabem bem que tudo aquilo é mais folclore do que qualquer emancipação de um direito.

E era tudo, no fundo, tão ridículo, que eu me perguntava: será que "eles" não dão por ela? Se calhar não.

As principais vítimas de tudo isto serão aqueles que amam ou desejam alguém do mesmo sexo, homossexuais e lésbicas, mais os primeiros do que as segundas, que sitiados por uma sociedade que efectivamente os hostiliza e maltrata, serão vítimas de ver o seu amor ou o seu desejo ainda mais marginalizado pela exibição mais ou menos folclórica e "fracturante" de meia dúzia de intelectuais, pequenos e médios criadores e artistas, gente do mundo da comunicação social, das indústrias culturais, da moda, urbana, jovem, bem arranjada e chique, que em conjunto com alguns políticos, deram origem a uma pseudocausa, de um pseudodireito, o do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O

Partido Socialista frágil nas suas convicções e sem uma ideia consistente para o país, que cada vez menos conhece, abriu a brecha por onde o Bloco de Esquerda entrou. E não o fez só agora, já com a legislação sobre o divórcio se andam a meter nas andanças da engenharia social "fracturante", gerando uma sociedade mais fragilizada e menos justa para os fracos, como as mulheres divorciadas por carta e os homossexuais que não pertencem ao beautiful people.

A ilusão de que o acesso ao casamento quebra uma barreira simbólica que ajuda a terminar com a homofobia efectivamente existente, o argumento mais hábil de Vale de Almeida, repousa numa ambiguidade e numa hipocrisia.

Porque Vale de Almeida sabe perfeitamente que ele e muitos outros a última coisa que pretendem é casar-se, ou sequer imaginam no casamento qualquer virtude especial. Eles sabem bem que o casamento é algo dos "outros", não por causa da lei que os exclui, mas porque o que vem virtualmente no pacote do casamento, a instituição familiar convencional, os "deveres conjugais", não correspondem ao mesmo mundo cultural e emocional do seu entendimento da "causa" dos homossexuais e lésbicas.

Para eles o que conta é a "causa", não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundovisão. Sabem que ao romper na lei a relação do casamento com a família nuclear, que implica possibilidade real da procriação, erodem para outros um valor que não desejam.

É por isso que se trata de uma "luta", não por direitos, mas contra uma determinada forma de sociedade. E é também por isso que por todo o debate mostrou uma enorme intolerância num só sentido. "Fanáticos", "intolerantes", "retrógrados", "reaccionários", "aberrantes", foram palavras comuns, ecoando o que era o tom de muita comunicação social que tomou a causa como sua. "Tacanhos" eram todos os que se opunham ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Não é "luta de classes", mas é kulturkampf.

O que irá acontecer nos próximos dias é previsível. Os primeiros casamentos de pessoas do mesmo sexo serão eventos "mediáticos". Vão lá estar todas as televisões. Haverá muita festa e depois, pouco a pouco, haverá cada vez menos casamentos e cada vez menos novidade. Apenas meia dúzia de pessoas se casará, o que mostrará como era vazia a força do direito ofendido. Mas será o folclore que "passará", uma espécie de travestismo perverso e o seu efeito será aumentar a intolerância homofóbica.»

(Versão do Público de 9 de Janeiro de 2010.)