Jornal de Negócios

01 julho 2010

um truque que funciona (por enquanto)

No Economia e Finanças:

(...) «O sistema consistente em pôr o público a trabalhar gratuitamente (ainda por cima pagando para isso) está generalizado na televisão e na rádio, cuja programação consiste cada vez mais em fóruns, reality shows, talk shows, concursos e entrevistas de rua. É o modelo Tom Sawyer de pintar a cerca da Tia Polly cobrando à garotada da rua maçãs ou berlindes pelo direito a dar umas pinceladas.

O aumento de produtividade de parte do sector dos serviços consiste em grande medida em persuadir-nos a suportarmos uma carga de trabalho cada vez maior; trabalho esse que, deixando de ser feito por empregados, assegura às empresas poupanças muito significativas. Inevitavelmente, porém, cada vez dispomos menos de genuíno tempo livre.

Toda a gente se queixa de que esteve muito ocupada no fim de semana. A fazer o quê? Ora, a percorrer os corredores do supermercado, a lavar o carro, a fazer transferências bancárias, a esperar na bicha do fast food, a ensinar às crianças o que não aprenderam na escola, a reparar a impressora seguindo as instruções do call-center ou a montar estantes. Tanta modernidade deixa-nos esgotados.» ()

impostos e neurónios

«não aparece um político que acredite que há eleitores com neurónios dentro da caixa craniana»

Escrito em Maio, no Economia e Finanças, a propósito do aumento de impostos ("Vai ou não haver aumento de impostos?"). O facto de o PM estar a dizer que não haveria aumento de impostos, ao mesmo tempo que o governo se preparava para os aumentar (através da redução das deduções conforme se explica aqui).

Continua actual: aqui , depois da publicação da lei que aumenta os impostos (os tais que não iam aumentar).

28 junho 2010

sem uma lágrima

No Jornal de Notícias, em 27 de Junho de 2010
Zita Seabra


«Morreu José Saramago e com ele morreu o último de muitos que, ao longo do século XX, se comprometeram com o comunismo e encontraram na ideologia marxista o sentido da sua escrita ou da sua arte. O seu nome junta-se ao de Gorki, Aragon, Picasso, Jorge Amado ou Paul Éluard, uma lista enorme de intelectuais que passaram pelas fileiras dos partidos comunistas. Saramago foi, como homem e como escritor, um empenhado militante da ideologia que abraçou e que lhe marcou sempre a vida e a escrita. A ideologia enquanto visão global do homem, da sociedade, da religião que Marx e Engels teorizaram e que Lénine, Mao, Brejnev ou Fidel, entre outros, levaram à prática.


Olhando para a vida e a escrita de José Saramago, o que mais impressiona é o facto de ele ter vivido e visto o comunismo ruir na URSS e nos países do bloco de Leste, como a RDA, a Hungria, a Checoslováquia, a Roménia, a Albânia, entre muitos outros, e ter silenciado esse facto. Confrontar-se com o sofrimento daqueles povos, já não nos relatos de Sakharov ou de Soljenítsin, mas nas imagens dos directos das televisões e passar ao lado da alegria com que abraçaram a liberdade.


Nem o confronto directo com o balanço dramático das vítimas dos que se libertaram do comunismo o fez alguma vez ter escrito ou dito qualquer palavra. O silêncio de quem usa a escrita é mais visível. Os seus gestos foram de quem passava ao lado: logo a seguir à queda do muro de Berlim, candidatou-se nas listas do Partido Comunista à autarquia de Lisboa. Que balanço faria dos anos de comunismo e do sofrimento das pessoas que viveram na pele um dos dois grandes horrores do século XX?


Saramago não passou, que se leia em nenhum dos seus textos, por qualquer crise. Não lhe doeu, não se interrogou, não sofreu com o terrível juízo que a história fez, sem remissão nem perdão, do totalitarismo comunista.


De Saramago, mesmo quando o comunismo foi julgado pela História, não se conhece nenhum sobressalto, nenhuma angústia. Muitas vezes me interroguei se seria uma total e completa insensibilidade moral?


É certo que, ao longo do século XX, muitos dos intelectuais marxistas viveram mergulhados na ideologia totalitária e nunca olharam à sua volta. Não foram todos, claro. Uns sobressaltaram-se logo em 1917, outros com o Pacto Germano-Soviético, na invasão da Checoslováquia, ou da Hungria, ou na chacina do Camboja, ou na loucura da Revolução Cultural Chinesa.
José Saramago não.

Viveu e morreu mergulhado num mundo que ruiu à sua volta e cujo dramático balanço foi feito com muita dor. Sem uma palavra, sem uma linha, sem uma lágrima por quantos (milhões) de pessoas, de famílias, de gente, de operários, camponeses ou intelectuais que, ao longo do século XX, morreram e sofreram em nome do comunismo por todo o lado onde o marxismo passou da revolução ao Poder.


Nem um gesto teve quando lhe pediram apoio os dissidentes cubanos presos por Fidel. Nem mesmo quando Susan Sontag o confrontou com esse facto. Uma única dúvida subsiste, porém, quando se observa que visitou Cuba diversas vezes, mas nunca foi à Rússia libertada, apesar de ter sido convidado a lançar os seus livros e a debatê-los numa universidade de Moscovo - aí o confronto com a história seria certamente impossível de ignorar e de silenciar. Um confronto que, reconheço, é muito difícil de viver.»

26 junho 2010

saúde mental


«A saúde mental dos portugueses», Pedro Afonso, no Público

«Recentemente ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária.

Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.


Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque nos últimos quinze anos o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade.

Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.


Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.


Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da segurança social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público.

Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.


Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante estes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso, Médico Psiquiatra, no jornal Público de 21 de Junho de 2010.

22 junho 2010

cada vez mais previsível


«Acaba de ser divulgado o último relatório da Fundação Richard Zwentzerg, instituto internacional dedicado aos estudos lusitanos»: (..) « dado o número de óbitos ser maior que o de nascimentos, o país não só não está em desenvolvimento, como se encontra em vias de extinção.

Durante uns anos, isto foi disfarçado pela forte imigração, mas ultimamente o fenómeno inverteu-se, e não só a atracção de estrangeiros se esfumou como começou uma intensa e acelerada emigração.

Dado a taxa de fertilidade ser a mais baixa da Europa Ocidental e das mais baixa do mundo, um dos nossos especialistas afirmou mesmo que, em vez de um relatório de sustentabilidade, o que Portugal precisa é de uma comissão liquidatária.» (...) (J Cesar das Neves no DN, de 21 de Junho)

02 junho 2010

SNS e liberdade de escolha

Comentário de um leitor a este artigo: «Ministra da Saúde receia que "livre escolha" mate SNS »

«Fizemos uma revolução em nome da liberdade mas, pelos vistos, a liberdade é uma coisa perigosa, como diz a sra ministra socialista. Isso também dizia aquele nosso ditador, antes de Abril!!

Pois é ...

Tal como previsto ...

"Gays levam adopção para os tribunais. Processar o Estado é o próximo passo", por Bruno Horta, Publicado no i, em 01 de Junho de 2010

«Os próximos temas da agenda gay são a parentalidade - adopção incluída - e uma lei para os transexuais. O casamento entre pessoas do mesmo sexo, ontem publicado em Diário da República, foi apenas o começo.»


«Activistas homossexuais admitem processar o Estado português para exigir a alteração do novo Código Civil, que veda aos casais do mesmo sexo a possibilidade de se candidatarem a processo de adopção de crianças. "Conheço vários casais que estão a pensar avançar para os tribunais", assegura Sérgio Vitorino, activista do colectivo lésbico, gay, bissexual e transgénero (LGBT) Panteras Rosa. "Alguns casais de lésbicas minhas amigas querem casar e ter filhos e, perante essa situação, vão lutar nos tribunais para ver reconhecidos os direitos dos seus filhos", diz Fabíola Cardoso, da associação Clube Safo.


O próprio presidente do Tribunal Constitucional (TC), Rui Moura Ramos, reconhece que "é natural" que o TC venha a ser chamado a pronunciar-se sobre questões de homoparentalidade. Em entrevista ao jornal Sol, na última sexta-feira, Moura Ramos disse que "alguém pode suscitar uma adopção e, perante a recusa, levantar o problema da sua constitucionalidade", tal como o fez em 2007, mas em relação ao casamento, o casal Teresa Pires e Helena Paixão.


Contactado pelo i, o advogado Luís Grave Rodrigues, em que em 2006 ajudou aquele casal a pedir a fiscalização da constitucionalidade do Código Civil, diz que, se lhe aparecer algum casal homossexual que queira processar o Estado nesta matéria, está "disposto a ir para a frente e de forma pro bono".

A lei do casamento homossexual, publicada ontem em Diário da República, exclui os casais homossexuais casados da adopção de crianças. E a lei da Procriação Medicamente Assistida, de 2006, exclui as mulheres solteiras e as lésbicas em união de facto. Tão depressa a Assembleia da República não deverá abrir estas leis aos casais homossexuais. Ainda ontem, durante um almoço com activistas homossexuais, o primeiro-ministro, José Sócrates, disse "não acompanhar aqueles que querem diminuir este passo , falando já noutros ."


O deputado independente pelo Partido Socialista (PS), Miguel Vale de Almeida, não conhece casais homossexuais interessados em processar o Estado, mas vê como "natural" que isso aconteça. Deixa a ressalva: "A minha preocupação não é apenas com a adopção, é com todas as dimensões da parentalidade", referindo-se à inseminação artificial e à co-adopção (o reconhecimento de duas pessoas do mesmo sexo como pais e mães de uma criança).

O recurso à via judicial, em lugar da via legislativa, poderia criar jurisprudência nesta matéria, obrigando à alteração da lei. Mas isso só aconteceria depois de três decisões do TC no mesmo sentido e em relação a três casos distintos, que passariam a ter "força obrigatória geral".

O presidente do TC recordava que "aquelas duas senhoras que se queiram casar provocaram uma decisão negativa [do Tribunal da Relação de Lisboa] para a poderem contestar, promovendo junto do TC um pedido de fiscalização concreta. Isto pode acontecer agora com a adopção por casais do mesmo sexo."

"É uma inevitabilidade", confia Fabíola Cardoso. "A lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo ficou-se pelas meias-tintas, mas é óbvio que há casais homossexuais que querem casar e ter filhos e o Estado vai ter os reconhecer, nem que seja por via judicial."

Paulo Côrte-Real, presidente da associação ILGA - Portugal, sublinha que também os casais homossexuais em união de facto estão legalmente afastados da parentalidade e entende que o recurso aos tribunais "é uma possibilidade normal, tal como já aconteceu noutros países europeus."


Para além da homoparentalidade, o tema da identidade de género vai entrar brevemente na agenda. O deputado José Soeiro confirma que o Bloco de Esquerda está prestes a apresentar na Assembleia da República um projecto-lei que permitirá às pessoas transexuais alterar o registo civil relativo ao sexo com que nasceram, sem necessidade de se sujeitarem a processo médicos de alteração corporal. "Dentro de dias", adianta José Soeiro. Também o PS, através de Miguel Vale de Almeida, prepara um projecto, que deverá ser muito semelhante à lei de Identidade de Género que vigora em Espanha desde 2007. "Pode vir a ser apresentado depois do Verão, mas julgo que já não será discutido nesta legislatura, por falta de agenda parlamentar", diz o deputado. »

Ou seja,
Estão de "parabéns" o sr. Presidente da República e muitos dos sr.s deputados ...

01 junho 2010

"homenagem"

Hoje apetece-me transcrever este elogio aos nossos governantes :

(...)
«Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo, em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.» (Bertold Brecht)

31 maio 2010

ética da responsabilidade


Crónica de Raquel Abecassis, na RR:

«Está encontrado o significado da novíssima expressão “ética da responsabilidade”.
Quer dizer cinismo e/ou hipocrisia.



Cavaco Silva usou-a para justificar porque promulgou a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, apesar de discordar do diploma e do que ele vai representar para a sociedade.

Este fim-de-semana, foi José Sócrates que usou a “ética da responsabilidade” para explicar porque decidiu apoiar Manuel Alegre às presidenciais de 2011. Diz o primeiro-ministro que “um partido tem que decidir, não pode decidir não decidir, essa opção nunca fez sentido para o Partido Socialista e não faz sentido para um grande partido como o PS”.

Ficamos, portanto, conversados. Sempre que ouvir alguém falar em ética da responsabilidade, já sabe: esse alguém prepara-se para fazer exactamente o contrário daquilo que pensa. É mais um tributo que ficamos a dever a Cavaco e a Sócrates. Sabe-se lá o que teremos ainda para aprender com eles.»

Raquel Abecasis

verdade e aspirina











«Nesta Conjuntura temos um Governo completamente desorientado, incapaz de enfrentar a situação ...» (Zita Seabra, no Jornal de Notícias, de 30 de Maio de 2010)

«A crise vinha de há dois anos mas subitamente agravou-se e viveram-se momentos de real perigo para o euro e para a Europa.

Aconteceu quando se consciencializou que a Grécia não dizia, nem tinha dito, a verdade sobre as suas contas públicas e, bem pelo contrário, escondia dívidas e o défice- que mentia. Esta fase da crise começou na Grécia, arrastou-se a Portugal e a Espanha que se transformaram em alvos preferenciais, não de uma central maligna, mas da dificuldade em encontrar quem nos empreste dinheiro para pagar as dívidas. Quem empreste aos nossos bancos e aos nossos estados.

A Europa tremeu e tomou consciência que, se continuarmos como até aqui - como escreve Jacques Attali em livro recentemente publicado e cujo título diz tudo e merece ser lido, Tous ruinés dans dix ans - estaremos "Todos Arruinados em Dez Anos".


Tornou-se evidente e óbvio para todos que os estados europeus não se podem endividar infinitamente e que o nosso modo de vida não tem sustentabilidade. O euro esteve, está, em perigo e nos países euro, nós, portugueses, somos particularmente vulneráveis e estamos na primeira linha de risco.

Na Europa, já não estamos, como mostra entre outros Atalli, a hipotecar as futuras gerações, estamos a correr o risco de um dia acordar e não ter meios para pagar aos actuais funcionários públicos e reformados. Quando a banca entrou em perigo de colapso e iminência de falência, os estados foram ajudar o sector financeiro com muitas promessas de melhorar os mecanismos de regulação. Agora, quando os estados entraram em falência, a banca veio ajudar a Europa (com intervenções políticas decisivas de Sarkozy e do presidente Obama e tardias e temerosas de Merkel), sossegou-se a Zona Euro, criando um fundo de emergência para os quais os estados europeus não têm dinheiro.


Habituados a considerar que o progresso fazia parte da nossa vida e que o futuro é risonho, deixámos que os estados fossem cada vez mais gastadores para alegria dos cidadãos, pois as democracias dependem dos seus votos e os votos ganham-se distribuindo o que já não se tem.

Cá dentro, como no resto da Europa, não interessam as contas porque há sempre quem precise de mais direitos sociais, há mais uma rotunda a fazer, mais uma empresa pública a criar, mais gente a empregar na Função Pública, menos tempo para trabalhar. Tem havido sempre quem tenha direito a reformas antecipadas e a reformas cada vez mais cedo, quando a vida é cada vez mais comprida.


O primeiro-ministro passou anos a apresentar novas medidas, novos direitos (muitos justíssimos), criando sempre a ideia de distribuir (o que não temos).

O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista e, muitas vezes também a restante oposição - PSD e CDS -, exigem sempre mais e mais direitos e mais obras e mais benesses e mais PIDDAC e mais direitos de pequenos e de grandes grupos sociais ou profissionais ou etários (em muitos casos justos) e SCUT e Magalhães e bónus, muitos bónus para os gestores públicos e muitos motoristas e carros de topo para as chefias, mais subsídios e isenções…

E agora?

Agora, temos de falar verdade porque temos uma pesada conta para pagar, sem saber como vamos conseguir os meios para pagar o que devemos e com cada vez mais dificuldade em encontrar quem nos empreste mais e mais dinheiro para pagar as dívidas, até ao dia em que não encontraremos mesmo quem nos empreste.

Nesta conjuntura, temos um Governo completamente desorientado, incapaz de enfrentar a situação. Desorientação e irresponsabilidade são os traços dominantes de um governo sem rumo que nem olha para as medidas de rigor que atravessam a Europa de Norte a Sul.


Mais do que nunca precisamos do inverso. Necessitamos de um governo que incuta confiança, capaz de traçar uma política com rumo, que fale e trabalhe sempre com verdade e, sobretudo, que tenha como objectivo central servir o bem comum.

Verdade e aspirina, escreveu Pessoa. Eu diria que precisamos de verdade e serviço do bem comum como regras inultrapassáveis a nortear a política portuguesa.»

(No JN de 30 de Maio, por Zita Seabra)

22 maio 2010

sound bytes


É excelente que os media nos vão dando notícias, em linguagem acessível, sobre os avanços da ciência. É pena que, por vezes, nos confundam, em vez de esclarecer, mas suponho que faz parte dos efeitos laterais da comunicação :-)

Esta semana fartaram-se de nos lavar os ouvidos com a "criação" de uma célula. Ora o que Craig Venter fez foi transplantar para uma célula hospedeira (que já estava obviamente "viva") um genoma sintetizado em laboratório. Não é impossível, para um cidadão comum,entender o que realmente foi feito (e que é muitíssimo interessante).

É um feito notável, merecedor de atenção e, por isso mesmo, igualmente merecedor do rigor da verdade científica.

Partir daqui para acrobacias filosóficas ou, pior, para tentar reanimar o fóssil do pseudo antagonismo entre ciência e fé, não ajuda a divulgação científica, nem os cientistas.

Aqui, uma entrevista do Prof. Francis Collin, Director do Projecto Genoma Humano, à CNN. E aqui, o livro que escreveu a propósito do genoma.

18 maio 2010

«Perdemos a confiança na capacidade de os governos europeus tomarem decisões»

«A associação que reúne as principais companhias aéreas mundiais arrasou hoje a resposta dada pelos governos europeus à nuvem de cinza, afirmando que as restrições ao tráfego aéreo não têm sido decisões eficazes ou consistentes.


"Perdemos a confiança na capacidade de os governos europeus tomarem decisões eficazes ou consistentes.
Usando os mesmos dados, outros países chegaram a conclusões diferentes sobre se abrem ou fecham o espaço aéreo", declarou Giovanni Bisignani, o diretor geral da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), que representa as principais companhias aéreas.» (...)

«"Que tipo de liderança espera mais de um mês para tomar decisões críticas? Os negócios na Europa estão dependentes das viagens aéreas e os passageiros não podem esperar tanto tempo para que iniciativas como as tomadas no Reino Unido sejam alargadas a todo o continente"»
no i.

17 maio 2010

"Não têm pão? Comam croissants"


«NÃO TÊM PÃO, COMAM BRIOCHE» (JPP, no Abrupto)

«A frase do título é atribuída a Maria Antonieta, ouvindo os protestos do povo por não ter pão e aconselhando-os a comerem brioche. Foi o que imediatamente comentei quando ouvi o primeiro-ministro a falar sobre o aumento do IVA do pão, do leite e da água, lembrando-nos que esse aumento também se aplicava à Coca Cola e à Pepsi Cola e que por isso os ricos que também beneficiavam injustamente da taxa do IVA reduzida iam ser punidos.


A medida, como todas as que ele propõe, é sempre em benefício dos pobres e destina-se a rectificar injustiças sociais.

Algumas das medidas são, aliás, muito favoráveis às pessoas, e às pequenas e médias empresas, que lhe deviam agradecer os aumentos do IVA, do IRC e do IRS, os cortes dos salários e dos benefícios fiscais, que Portugal só faz pelo corajoso apoio que os portugueses, liderados pelo mais sábio Governo europeu, que como sabemos é o que menos foi atingido pela crise, dão à necessidade de ajudar a salvar o euro.


Quais alemães, quais franceses, quais holandeses, é Portugal que assume a linha da frente na defesa do euro, aplicando medidas que só afectam os ricos e que ajudam ao "crescimento económico".


É preciso ouvir para crer, é preciso acreditar nesta reencarnação de Maria Antonieta, a dizer-nos sempre com o mesmo ar triunfante e optimista que tudo está pelo melhor dos mundos, frente às manobras dos "especuladores" que querem tirar o euro aos europeus, que conspiram a partir de algum arranha-céus americano, que escapou ao fascínio de Obama, para obrigarem os portuguesinhos valentes a irem salvar o euro.

É já tudo, tudo, um pouco tresloucado, mas é o que temos.» (
...)

15 maio 2010

diagnóstico a partir da Avenida dos Aliados

(...) «sem Deus, o ser humano não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja.» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 78) (...)