No Público de 8 de Julho (Helena Matos):
(...) «o socialismo de Estado que nos rege precisa desesperadamente que a actividade privada pague os impostos indispensáveis quer à manutenção da mitologia do Estado providência, quer à prosperidade da oligarquia que faz negócios, gere e manda como se o Estado fosse coisa sua.
Neste PREC(*) contemporâneo a igualdade nos bens materiais não é assunto que mobilize as massas, até porque estas foram percebendo, à sua dolorosa custa, que quanto mais igualdade lhes prometem, mais pobres ficam. O homem novo pode ser pobre ou rico, tudo depende da sua relação com o Estado e não com o capital. O desígnio da igualdade transferiu-se do capital para o corpo (...)
«Portugal levou os últimos meses pendente desse enorme combate que foi o do fim da desigualdade dos homossexuais que não se podiam casar. Agora que se celebrou o extraordinário cômputo de 18 casamentos entre pares homossexuais já nos foi anunciado que vai ser atacada a enorme desigualdade que recai sobre os casais homossexuais ao não se lhes permitir que se altere a filiação das crianças de modo a que estas tenham dois pais ou duas mães.
Como boa parte deste nosso PREC actual é decalcado do espanhol, nomeadamente a governamentalização e controlo pelos partidos socialistas no poder em ambos os países das associações que dizem combater as desigualdades, não é muito difícil perceber o que aí vem: sob o lema da Diversidade Afectivo-Sexual a disciplina de Educação Sexual vai ser palco de inúmeras polémicas nas escolas sobre o modelo de família que se deve apresentar às crianças.
Como os tempos vão de crise não teremos por enquanto cursos de masturbação para adolescentes como aconteceu em Espanha, por sinal numa das zonas mais pobres daquele país e em que o desemprego entre os jovens atinge os valores estratosféricos de 44 por cento. Mas teremos certamente uma enorme atenção às pessoas transgénero que agora se descobriu que devem poder mudar de género por via administrativa.
Nada disto se traduz em mais direitos ou mais respeito para com estas pessoas, pela mesma razão por que também não acabámos um país rico em 1975: o que se pretende não é melhorar a vida das pessoas. É sim servir-se delas (...)»
(texto integral no Povo)
(*) Processo Revolucionário Em Curso
11 julho 2010
10 julho 2010
consentimento informado
«O governo de Valência acordou ontem que imagens do feto serão mostradas às mulheres que tomem a decisão de abortar.Informar-se-á a mulher da “transcendência ética da decisão de abortar” com “informação visual” sobre o processo de interrupção da gravidez.
Qualquer formato gráfico como ecografias a três dimensões vai poder acompanhar um relatório escrito sobre “as consequências médicas, psicológicas e sociais” do aborto, confirmou à Agência Efe Paula Sánchez, porta-voz do governo valenciano.
Ao mesmo tempo, será criada uma Unidade para resolver os problemas provocados pela nova lei, como por exemplo a possibilidade de menores de 16 anos decidirem abortar e apenas um dos progenitores dar o consentimento.» (notícia no i)
06 julho 2010
liberdade mirrada
(...) «Há no estado português uma pulsão para uma espécie de Big Brother pobre, que se torna cada vez mais absoluto sem verdadeiramente querer ser absoluto, movido pela necessidade e pelos maus hábitos e por uma imensa, gigantesca falta de cultura de liberdade e de respeito pelos cidadãos.
A que se soma a apatia generalizada dos cidadãos. Agora tudo parece justificado pela crise, impostos retroactivos, impostos sem autorização parlamentar, espionagem bancária, etc., etc., mas na verd
ade começou quando o fisco e a ASAE se tornaram armas do Primeiro-ministro para mostrar um show de determinação que se revelou pouco mais do que o autoritarismo da asneira e o vigor da amoralidade.
Cada dia, há menos liberdade e a história mostra que, em tempos como estes, essa falta de liberdade, meia abusiva, meia consentida, está para lavar e durar.» (...) JPP, no Abrupto
A que se soma a apatia generalizada dos cidadãos. Agora tudo parece justificado pela crise, impostos retroactivos, impostos sem autorização parlamentar, espionagem bancária, etc., etc., mas na verd
ade começou quando o fisco e a ASAE se tornaram armas do Primeiro-ministro para mostrar um show de determinação que se revelou pouco mais do que o autoritarismo da asneira e o vigor da amoralidade.Cada dia, há menos liberdade e a história mostra que, em tempos como estes, essa falta de liberdade, meia abusiva, meia consentida, está para lavar e durar.» (...) JPP, no Abrupto
05 julho 2010
"os bancos convencionais, vão atrás dos mais ricos, nós vamos atrás dos mais pobres"

Conferência de Muhammad Yunus, no campus da Universidade de Barcelona, no Programa de Educação Contínua do IESE. "As pessoas perguntam-me qual foi o factor essencial na criação deste banco, e a resposta é que não sei nada sobre banca e, se soubesse, teria seguido as regras habituais".
Yunus fundou o Banco Grammeen no Bangladesh dando um grande desenvolvimento ao conceito de micro-crédito e micro-financiamento.
"Fiz o oposto ao que habitualmente se faz, e deu resultado. Os bancos convencionais correm atrás dos clientes mais ricos, nós corremos atrás dos clientes mais pobres. Os mais pobres são o nosso ponto de partida, as pessoas que não têm nada."
Acrescentou ainda que o mundo dos negócios está organizado de modo errado, por se ter focado inteiramente no lucro, e não na resolução dos problemas.
Sublinhou que a crise actual não é só financeira, mas ambiental e social. Todos querem correr em direcção à solução, disse, mas era melhor parar para consertar o sistema. "Os economistas construíram todo um sistema baseado na teoria do egoísmo, mas os seres humanos também são altruístas. Porque é que não se pode criar um negócio na base do altruísmo, em que tudo é para os outros e nada para mim?"
M. Yunus fundou 40 empresas dedicadas a resolver problemas como a malnutrição, a falta de telecomunicações ou a escassez de pessoal de enfermagem, e não tem qualquer quota em nenhuma delas.
O Grameen Bank, que ele fundou em 1976, empresta actualmente a 8 milhões de clientes no Bangladesh, dos quais 97% são mulheres. Todos os fundos são constituídos por dinheiro do banco, ou seja, o banco aceita depósitos e empresta dinheiro.
Abriu sucursais em Nova Iorque, no meio de cepticismo generalizado que dizia que as pessoas fugiriam com o dinheiro. Mas, segundo ele, 99% dos empréstrimos são pagos. Este banco é a única opção para milhões de americanos pobres que nem sequer podem abrir uma conta num banco normal e que são presa fácil de especuladores. O Reino Unido também está na mesma linha. (Notícia original aqui. )
Só falta multar as grávidas

Segundo noticia o Público, a empresa pública dos aeroportos de Portugal (ANA) não paga o subsídio de assiduidade às mães trabalhadoras que amamentam. Ou seja, depois de uma geração de esforços para conseguir que as mães voltem a amamentar os seus filhos, depois de planos e programas do Ministério da Saúde, em Hospitais e Centros de Saúde, pagos pelo contribuinte, destinados a incentivar a amamentação materna, agora faz-se exactamente o oposto.
Fica a dúvida se os que se oponham ao aborto livre, com o argumento de que isso apenas favorecia os patrões, não terão afinal razão ...
Ainda por cima num país que tem mais óbitos do que nascimentos.
As boas notícias é que a China rondará os 1400 milhões de pessoas, dentro em breve, portanto podemos ir aprendendo a comer com pauzinhos: é o futuro.
Pessoa

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro
02 julho 2010
já começou ...

O jornal espanhol "El País", noticia que uma empresa de TV foi multada por usar o termo "gente normal e corrente" num anúncio, em contraposição ao dia do orgulho Gay.
O debate fica aberto: há assuntos de discussão proibida em público?
realismo
«Era preciso dizer ao Governo que a coisa não está a resultar.Era bom alguém informar o Parlamento que já ninguém acredita.
Era conveniente avisar as autoridades que estão a destruir-se a si próprias.
Não vale a pena repetir cerimoniais pomposos de dignidade, fundamento e justificação se a credibilidade se esfumou.
Não serve de nada compor retóricas elegantes e juras indignadas, porque ninguém as leva a sério. É inútil representar uma comédia que perdeu a graça.
Podem convencer-se a si mesmos e aplaudir correligionários, mas o público já nem sequer se indigna.
Limita-se a bocejar. » (...)
(J César das Neves, no DN, 28 de Junho)
marketing
Quatro, em cada dez telemóveis "smartphones" (os mais sofisticados) vendido no mundo, são Nokia. No entanto a percepção do mercado é que é a Apple que domina ... (apesar de ficarem atrás em termos de facilidade de uso e funcionalidades).Notícia aqui, no Jornal Económico.
as medidas de poupança do Ministério de Saúde
(...) «viram as medidas de poupança do Ministério de Saúde? Poupar em papel higiénico e sabonete... quando podia poupar milhões de euros por ano? (...)
No Público.
"Fui demitida por motivos políticos" (Entrevista a Paula Nanita)
Foram os próprios hospitais associados do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH) que boicotaram a central de compras, lamenta a ex-presidente do conselho de administração, Paula Nanita. Depois de a ministra ter renovado a sua comissão de serviço em 2009, foi demitida há uma semanas por incompetência pelo secretário de Estado da Saúde - que invocou como fundamento conclusões de uma auditoria do Tribunal de Contas (TC) ainda não concluída. Paula Nanita contrapõe que foi afastada por "motivos políticos" e, indirectamente, por interesses de empresas concorrentes.
Qual é a sensação de ser demitida por incompetência?
Não fui demitida por incompetência. Fui demitida por motivos políticos. Sou independente. E foi preciso pôr aqui uma pessoa do PS. É um facto.
O secretário de Estado da Saúde nunca lhe deu a entender que a ia demitir?
Nunca me comunicou. E tenho a firme convicção de que o senhor secretário de Estado não tem competência legal para demitir o conselho de administração (CA) do SUCH porque esta é uma associação privada com uma tutela que é remota, que tem o poder de nomear o presidente e o vice-presidente do CA, mas os estatutos não prevêem que os possa destituir.
(...)
Interessa a quem?
Pode interessar a muita gente. Pode interessar a concorrentes de áreas tradicionais que perderam quota de mercado. Se alguém acabar com o SUCH, há concorrência que partilha 50 por cento de quota de mercado que fica em situação de monopólio. Houve cartéis de formação de preços e o SUCH ficou de fora porque somos intransigentes. Houve tentativas de canibalização pela concorrência das áreas tradicionais do SUCH, tentativas de cartelização. E crescemos nas áreas tradicionais quase 80 por cento.
Mas a quem é que interessa o SUCH?
Não imaginam os milhares de reuniões que tive ao longo destes quatro anos, de abordagens de concorrentes para parcerias e não imaginam quantas vezes ouvi membros do Governo dizer que foram abordados por esses mesmos concorrentes a dizer que, se o SUCH for dissolvido, quero ficar com essa quota de mercado.
Está a dizer que o secretário de Estado foi permeável a interesses?
Não. O secretário de Estado disse num workshop que, na primeira semana [como governante], recebeu representantes de duas empresas concorrentes do SUCH que lhe foram dizer que, quando o SUCH for dissolvido, queriam ficar com aquela quota de mercado.
O que é que os associados ganharam com os seus quatro anos da sua gestão?
A criação da plataforma [de serviços partilhados]. Não a tinham e passaram a ter.
O que falhou?
Durante um ano e meio, estivemos à espera para poder arrancar [com a plataforma]. Já a central de compras não tem nada a ver com isto. Tem uma outra explicação. São feitas com três centros hospitalares cuja adesão estava prevista e que representam 17 por cento das compras do SNS. Mas [estes] boicotaram a central.
Mas isto é bizarro... Não só não contribuem como boicotam.
É completamente bizarro. Uma coisa é garantida: não foi nenhuma incompetência nossa.
Os auditores não só não contribuíram como boicotaram... Os auditores do TC alegam que não conheciam as idiossincracias do sector da saúde. O SUCH nunca fez outra coisa e, quando foi desafiado para avançar noutras áreas, fez parcerias com quem sabia. Mas houve imensas surpresas. O conselho de administração do SUCH percebeu logo em 2008 que a coisa não ia lá com liberdade de adesão e que é preciso corrigir a estratégia. Portanto, propusemos a criação de uma empresa pública que supostamente tinha de arrancar até 1 de Junho. Preocupa-me muito que ainda não tenha arrancado. É angustiante. Vocês viram as medidas de poupança do Ministério de Saúde? Poupar em papel higiénico e sabonete... quando podia poupar milhões de euros por ano.
(...)
Mas tem dinheiro para contratar consultores e fazer estudos e planos estratégicos.
Para pagar os salários não faltou dinheiro para nada. Fizemos tudo.
Qual é o peso das despesas com pessoal face ao total?
Em 2006, era de 48 por cento. Em 2009, era de 41 por cento. A produtividade aumentou 23 por cento. O aumento de salários de 2008 para 2009 é de 3 por cento quando o aumento do volume de negócios é de 12,7 por cento.
E quanto ao aumento das remunerações do CA?
Posso-lhe dizer que as remunerações são definidas pela comissão de vencimentos e aprovadas em AG. O CA anterior tinha menos um elemento e isso pesa alguma coisa. Mas a diferença são só 7 por cento. Ninguém aqui se auto-remunerou.»
No Público.
"Fui demitida por motivos políticos" (Entrevista a Paula Nanita)
Foram os próprios hospitais associados do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH) que boicotaram a central de compras, lamenta a ex-presidente do conselho de administração, Paula Nanita. Depois de a ministra ter renovado a sua comissão de serviço em 2009, foi demitida há uma semanas por incompetência pelo secretário de Estado da Saúde - que invocou como fundamento conclusões de uma auditoria do Tribunal de Contas (TC) ainda não concluída. Paula Nanita contrapõe que foi afastada por "motivos políticos" e, indirectamente, por interesses de empresas concorrentes.
Qual é a sensação de ser demitida por incompetência?
Não fui demitida por incompetência. Fui demitida por motivos políticos. Sou independente. E foi preciso pôr aqui uma pessoa do PS. É um facto.
O secretário de Estado da Saúde nunca lhe deu a entender que a ia demitir?
Nunca me comunicou. E tenho a firme convicção de que o senhor secretário de Estado não tem competência legal para demitir o conselho de administração (CA) do SUCH porque esta é uma associação privada com uma tutela que é remota, que tem o poder de nomear o presidente e o vice-presidente do CA, mas os estatutos não prevêem que os possa destituir.
(...)
Interessa a quem?
Pode interessar a muita gente. Pode interessar a concorrentes de áreas tradicionais que perderam quota de mercado. Se alguém acabar com o SUCH, há concorrência que partilha 50 por cento de quota de mercado que fica em situação de monopólio. Houve cartéis de formação de preços e o SUCH ficou de fora porque somos intransigentes. Houve tentativas de canibalização pela concorrência das áreas tradicionais do SUCH, tentativas de cartelização. E crescemos nas áreas tradicionais quase 80 por cento.
Mas a quem é que interessa o SUCH?
Não imaginam os milhares de reuniões que tive ao longo destes quatro anos, de abordagens de concorrentes para parcerias e não imaginam quantas vezes ouvi membros do Governo dizer que foram abordados por esses mesmos concorrentes a dizer que, se o SUCH for dissolvido, quero ficar com essa quota de mercado.
Está a dizer que o secretário de Estado foi permeável a interesses?
Não. O secretário de Estado disse num workshop que, na primeira semana [como governante], recebeu representantes de duas empresas concorrentes do SUCH que lhe foram dizer que, quando o SUCH for dissolvido, queriam ficar com aquela quota de mercado.
O que é que os associados ganharam com os seus quatro anos da sua gestão?
A criação da plataforma [de serviços partilhados]. Não a tinham e passaram a ter.
O que falhou?
Durante um ano e meio, estivemos à espera para poder arrancar [com a plataforma]. Já a central de compras não tem nada a ver com isto. Tem uma outra explicação. São feitas com três centros hospitalares cuja adesão estava prevista e que representam 17 por cento das compras do SNS. Mas [estes] boicotaram a central.
Mas isto é bizarro... Não só não contribuem como boicotam.
É completamente bizarro. Uma coisa é garantida: não foi nenhuma incompetência nossa.
Os auditores não só não contribuíram como boicotaram... Os auditores do TC alegam que não conheciam as idiossincracias do sector da saúde. O SUCH nunca fez outra coisa e, quando foi desafiado para avançar noutras áreas, fez parcerias com quem sabia. Mas houve imensas surpresas. O conselho de administração do SUCH percebeu logo em 2008 que a coisa não ia lá com liberdade de adesão e que é preciso corrigir a estratégia. Portanto, propusemos a criação de uma empresa pública que supostamente tinha de arrancar até 1 de Junho. Preocupa-me muito que ainda não tenha arrancado. É angustiante. Vocês viram as medidas de poupança do Ministério de Saúde? Poupar em papel higiénico e sabonete... quando podia poupar milhões de euros por ano.
(...)
Mas tem dinheiro para contratar consultores e fazer estudos e planos estratégicos.
Para pagar os salários não faltou dinheiro para nada. Fizemos tudo.
Qual é o peso das despesas com pessoal face ao total?
Em 2006, era de 48 por cento. Em 2009, era de 41 por cento. A produtividade aumentou 23 por cento. O aumento de salários de 2008 para 2009 é de 3 por cento quando o aumento do volume de negócios é de 12,7 por cento.
E quanto ao aumento das remunerações do CA?
Posso-lhe dizer que as remunerações são definidas pela comissão de vencimentos e aprovadas em AG. O CA anterior tinha menos um elemento e isso pesa alguma coisa. Mas a diferença são só 7 por cento. Ninguém aqui se auto-remunerou.»
01 julho 2010
um truque que funciona (por enquanto)
No Economia e Finanças:(...) «O sistema consistente em pôr o público a trabalhar gratuitamente (ainda por cima pagando para isso) está generalizado na televisão e na rádio, cuja programação consiste cada vez mais em fóruns, reality shows, talk shows, concursos e entrevistas de rua. É o modelo Tom Sawyer de pintar a cerca da Tia Polly cobrando à garotada da rua maçãs ou berlindes pelo direito a dar umas pinceladas.
O aumento de produtividade de parte do sector dos serviços consiste em grande medida em persuadir-nos a suportarmos uma carga de trabalho cada vez maior; trabalho esse que, deixando de ser feito por empregados, assegura às empresas poupanças muito significativas. Inevitavelmente, porém, cada vez dispomos menos de genuíno tempo livre.
Toda a gente se queixa de que esteve muito ocupada no fim de semana. A fazer o quê? Ora, a percorrer os corredores do supermercado, a lavar o carro, a fazer transferências bancárias, a esperar na bicha do fast food, a ensinar às crianças o que não aprenderam na escola, a reparar a impressora seguindo as instruções do call-center ou a montar estantes. Tanta modernidade deixa-nos esgotados.» (…)
impostos e neurónios
«não aparece um político que acredite que há eleitores com neurónios dentro da caixa craniana»Escrito em Maio, no Economia e Finanças, a propósito do aumento de impostos ("Vai ou não haver aumento de impostos?"). O facto de o PM estar a dizer que não haveria aumento de impostos, ao mesmo tempo que o governo se preparava para os aumentar (através da redução das deduções conforme se explica aqui).
Continua actual: aqui , depois da publicação da lei que aumenta os impostos (os tais que não iam aumentar).
28 junho 2010
sem uma lágrima
No Jornal de Notícias, em 27 de Junho de 2010Zita Seabra
«Morreu José Saramago e com ele morreu o último de muitos que, ao longo do século XX, se comprometeram com o comunismo e encontraram na ideologia marxista o sentido da sua escrita ou da sua arte. O seu nome junta-se ao de Gorki, Aragon, Picasso, Jorge Amado ou Paul Éluard, uma lista enorme de intelectuais que passaram pelas fileiras dos partidos comunistas. Saramago foi, como homem e como escritor, um empenhado militante da ideologia que abraçou e que lhe marcou sempre a vida e a escrita. A ideologia enquanto visão global do homem, da sociedade, da religião que Marx e Engels teorizaram e que Lénine, Mao, Brejnev ou Fidel, entre outros, levaram à prática.
Olhando para a vida e a escrita de José Saramago, o que mais impressiona é o facto de ele ter vivido e visto o comunismo ruir na URSS e nos países do bloco de Leste, como a RDA, a Hungria, a Checoslováquia, a Roménia, a Albânia, entre muitos outros, e ter silenciado esse facto. Confrontar-se com o sofrimento daqueles povos, já não nos relatos de Sakharov ou de Soljenítsin, mas nas imagens dos directos das televisões e passar ao lado da alegria com que abraçaram a liberdade.
Nem o confronto directo com o balanço dramático das vítimas dos que se libertaram do comunismo o fez alguma vez ter escrito ou dito qualquer palavra. O silêncio de quem usa a escrita é mais visível. Os seus gestos foram de quem passava ao lado: logo a seguir à queda do muro de Berlim, candidatou-se nas listas do Partido Comunista à autarquia de Lisboa. Que balanço faria dos anos de comunismo e do sofrimento das pessoas que viveram na pele um dos dois grandes horrores do século XX?
Saramago não passou, que se leia em nenhum dos seus textos, por qualquer crise. Não lhe doeu, não se interrogou, não sofreu com o terrível juízo que a história fez, sem remissão nem perdão, do totalitarismo comunista.
De Saramago, mesmo quando o comunismo foi julgado pela História, não se conhece nenhum sobressalto, nenhuma angústia. Muitas vezes me interroguei se seria uma total e completa insensibilidade moral?
É certo que, ao longo do século XX, muitos dos intelectuais marxistas viveram mergulhados na ideologia totalitária e nunca olharam à sua volta. Não foram todos, claro. Uns sobressaltaram-se logo em 1917, outros com o Pacto Germano-Soviético, na invasão da Checoslováquia, ou da Hungria, ou na chacina do Camboja, ou na loucura da Revolução Cultural Chinesa.
José Saramago não.
Viveu e morreu mergulhado num mundo que ruiu à sua volta e cujo dramático balanço foi feito com muita dor. Sem uma palavra, sem uma linha, sem uma lágrima por quantos (milhões) de pessoas, de famílias, de gente, de operários, camponeses ou intelectuais que, ao longo do século XX, morreram e sofreram em nome do comunismo por todo o lado onde o marxismo passou da revolução ao Poder.
Nem um gesto teve quando lhe pediram apoio os dissidentes cubanos presos por Fidel. Nem mesmo quando Susan Sontag o confrontou com esse facto. Uma única dúvida subsiste, porém, quando se observa que visitou Cuba diversas vezes, mas nunca foi à Rússia libertada, apesar de ter sido convidado a lançar os seus livros e a debatê-los numa universidade de Moscovo - aí o confronto com a história seria certamente impossível de ignorar e de silenciar. Um confronto que, reconheço, é muito difícil de viver.»
26 junho 2010
saúde mental

«A saúde mental dos portugueses», Pedro Afonso, no Público
«Recentemente ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária.
Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque nos últimos quinze anos o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade.
Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da segurança social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público.
Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante estes rostos que me visitam diariamente.
Pedro Afonso, Médico Psiquiatra, no jornal Público de 21 de Junho de 2010.
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