(...) «viram as medidas de poupança do Ministério de Saúde? Poupar em papel higiénico e sabonete... quando podia poupar milhões de euros por ano? (...)No Público.
"Fui demitida por motivos políticos" (Entrevista a Paula Nanita)
Foram os próprios hospitais associados do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH) que boicotaram a central de compras, lamenta a ex-presidente do conselho de administração, Paula Nanita. Depois de a ministra ter renovado a sua comissão de serviço em 2009, foi demitida há uma semanas por incompetência pelo secretário de Estado da Saúde - que invocou como fundamento conclusões de uma auditoria do Tribunal de Contas (TC) ainda não concluída. Paula Nanita contrapõe que foi afastada por "motivos políticos" e, indirectamente, por interesses de empresas concorrentes.
Qual é a sensação de ser demitida por incompetência?Não fui demitida por incompetência. Fui demitida por motivos políticos. Sou independente. E foi preciso pôr aqui uma pessoa do PS. É um facto.
O secretário de Estado da Saúde nunca lhe deu a entender que a ia demitir?Nunca me comunicou. E tenho a firme convicção de que o senhor secretário de Estado não tem competência legal para demitir o conselho de administração (CA) do SUCH porque esta é uma associação privada com uma tutela que é remota, que tem o poder de nomear o presidente e o vice-presidente do CA, mas os estatutos não prevêem que os possa destituir.
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Interessa a quem?Pode interessar a muita gente. Pode interessar a concorrentes de áreas tradicionais que perderam quota de mercado. Se alguém acabar com o SUCH, há concorrência que partilha 50 por cento de quota de mercado que fica em situação de monopólio. Houve cartéis de formação de preços e o SUCH ficou de fora porque somos intransigentes. Houve tentativas de canibalização pela concorrência das áreas tradicionais do SUCH, tentativas de cartelização. E crescemos nas áreas tradicionais quase 80 por cento.
Mas a quem é que interessa o SUCH?Não imaginam os milhares de reuniões que tive ao longo destes quatro anos, de abordagens de concorrentes para parcerias e não imaginam quantas vezes ouvi membros do Governo dizer que foram abordados por esses mesmos concorrentes a dizer que, se o SUCH for dissolvido, quero ficar com essa quota de mercado.
Está a dizer que o secretário de Estado foi permeável a interesses?Não. O secretário de Estado disse num workshop que, na primeira semana [como governante], recebeu representantes de duas empresas concorrentes do SUCH que lhe foram dizer que, quando o SUCH for dissolvido, queriam ficar com aquela quota de mercado.
O que é que os associados ganharam com os seus quatro anos da sua gestão?A criação da plataforma [de serviços partilhados]. Não a tinham e passaram a ter.
O que falhou?Durante um ano e meio, estivemos à espera para poder arrancar [com a plataforma]. Já a central de compras não tem nada a ver com isto. Tem uma outra explicação. São feitas com três centros hospitalares cuja adesão estava prevista e que representam 17 por cento das compras do SNS. Mas [estes] boicotaram a central.
Mas isto é bizarro... Não só não contribuem como boicotam.É completamente bizarro. Uma coisa é garantida: não foi nenhuma incompetência nossa.
Os auditores não só não contribuíram como boicotaram... Os auditores do TC alegam que não conheciam as idiossincracias do sector da saúde. O SUCH nunca fez outra coisa e, quando foi desafiado para avançar noutras áreas, fez parcerias com quem sabia. Mas houve imensas surpresas. O conselho de administração do SUCH percebeu logo em 2008 que a coisa não ia lá com liberdade de adesão e que é preciso corrigir a estratégia. Portanto, propusemos a criação de uma empresa pública que supostamente tinha de arrancar até 1 de Junho. Preocupa-me muito que ainda não tenha arrancado. É angustiante. Vocês viram as medidas de poupança do Ministério de Saúde? Poupar em papel higiénico e sabonete... quando podia poupar milhões de euros por ano.
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Mas tem dinheiro para contratar consultores e fazer estudos e planos estratégicos.Para pagar os salários não faltou dinheiro para nada. Fizemos tudo.
Qual é o peso das despesas com pessoal face ao total?Em 2006, era de 48 por cento. Em 2009, era de 41 por cento. A produtividade aumentou 23 por cento. O aumento de salários de 2008 para 2009 é de 3 por cento quando o aumento do volume de negócios é de 12,7 por cento.
E quanto ao aumento das remunerações do CA?Posso-lhe dizer que as remunerações são definidas pela comissão de vencimentos e aprovadas em AG. O CA anterior tinha menos um elemento e isso pesa alguma coisa. Mas a diferença são só 7 por cento. Ninguém aqui se auto-remunerou.»