De Xavier Beauvois, Grande Prémio do Festival de Cannes, escolhido para representar a França na candidatura aos Óscares. Foi estagiário com o "nosso" Manoel Oliveira.
14 novembro 2010
"Os políticos estão presos de si mesmos"
J. César das Neves, no Destak, em 10 de Novembro:
«Escolas abrem ao fim de semana para matar a fome aos alunos.»
«Apesar da crise política, campanha presidencial e urgência dos juros da dívida, o Expresso escolheu este para título principal do último sábado. Foi uma excelente opção jornalística. Este é sem dúvida o verdadeiro problema do momento: volta a haver fome generalizada entre nós. Tudo empalidece ao lado disto.
Mas este título mostra também um outro facto ainda mais importante. Perante a incapacidade do Estado, a sociedade enfrenta a emergência. «Mesmo quando não há apoios extras do município ou do Ministério da Educação, muitos estabelecimentos de ensino fazem tudo para minimizar as carências alimentares de algumas crianças. [...] Notámos que havia alunos que não comiam o pão do almoço ou a sandes do lanche [...] iam discretamente ao pátio dar o que não comeram a um colega que lhes tinha pedido para poder levar para casa.» (p. 22)
Há várias décadas que, com custo de milhões, os sucessivos governos nos asseguraram que a sua política eliminaria a pobreza. Proclamaram o sucesso várias vezes. Agora, quando é mesmo preciso, tudo se desmorona. Parece que nos 80 mil milhões de euros do Orçamento de Estado não há dinheiro suficiente para alimentar crianças. Compreende-se, é preciso acorrer ao TGV e outras prioridades.
Os políticos estão presos de si mesmos. Felizmente ainda restam as escolas, paróquias, IPSS, serviços camarários, ou simplesmente os vizinhos e colegas. Esta é a grandeza de Portugal e, enquanto existir, a crise dos políticos não nos vence.» (Destak)
hora de vazio
No Público, em 8 de Novembro, José Tomaz Castello Branco(*):
«O Senhor Presidente da República anunciou, finalmente, aquilo que já se esperava: a recandidatura a Belém. Foram 25 minutos de um discurso monótono na forma e vazio no conteúdo. Se o PR é o representante oficial e símbolo da República Portuguesa, então estamos conversados: aquela é a face visível do estado do Estado; é, desafortunadamente, um retrato fiel do país em que vivemos. Um país que se encontra visivelmente cansado e sem força anímica para mudar de vida.
E como era precisa uma promessa de mudança! Ao invés, fica a promessa da estabilidade. O discurso da estabilidade poderia fazer sentido no início da década de 90. Agora, parece, no mínimo, desadequado. Há uma boa parte do eleitorado português que não se revê neste retrato e que, muito provavelmente, encontrou na promessa do candidato de não afixar um único cartaz a única boa notícia daquele discurso.
Este é o eleitorado do chamado centro-direita. Um eleitorado que já deu provas de grande responsabilidade democrática, nunca se furtando às lutas que entendia por bem travar, mesmo quando os partidos políticos existentes não as quiseram assumir como suas.
Este é um eleitorado que, não obstante, perante as alternativas que se lhe colocam nesta próxima eleição, não tem outro remédio senão começar a orientar o seu sentido de voto para o mal menor.
Creio, porém, que o mal menor comece a parecer insustentável. Tradicionalmente órfão de representação, este eleitorado pode agora estar cansado da sua condição de refém - que perdura desde a invenção desse extraordinário instrumento chamado "voto útil". Não seria de espantar que este eleitorado procurasse uma qualquer forma de reacção e que mostrasse a sua indignação perante um PR que, só no último ano, desprestigiou seriamente o cargo que desempenha com toda aquela trapalhada que ficou conhecida como as "escutas de Belém" e que abalou seriamente a relação de confiança que mantinha com este eleitorado quando, ao chancelar o chamado "casamento gay", minou gravemente os alicerces de uma instituição tão fundamental como a família.
A opção que resta a este eleitorado pode, afinal, estar reduzida à seguinte equação: engrossar as fileiras daqueles que se revêem nesta recandidatura, contribuindo para a recondução triunfal do PR logo à primeira volta, ou, pelo contrário, encontrar uma forma de se fazer ouvir, forçando o seu putativo tribuno a lutar por uma segunda volta.
Perguntar-se-á porquê? Porquê não despachar logo o inevitável à primeira? Porquê forçar o país aos custos de uma segunda volta? Por uma simples razão, porque este eleitorado tem o direito e o dever de se fazer ouvir. Mais: tem o poder de o fazer.
Resta a questão de como o fazer. A abstenção não serve. A abstenção é um mero encolher de ombros e este não é um eleitorado apático nem irresponsável. Este é um eleitorado que vai às urnas e que preza o exercício do direito que democraticamente lhe assiste. Mas ele pode usar o seu boletim de voto para nele expressar um rotundo "não". Anulando o voto, ele está também a expressar um sentido de voto. Mais: este é um voto que, simbolicamente, nunca pode ser confundido como um "cheque em branco".
E, já agora, nesta fase conturbada da nossa vida, não é aconselhável andar por aí a passar cheques em branco.»
(*) Professor de Ciência Política (josetomaz.castellobranco@gmail.com)
13 novembro 2010
as lolitas
(...) «Quem poderia ter previsto - mesmo que há uma década atrás - que um dos assuntos urgentes que os pais e psicólogos iriam enfrentar neste século havia de ser a promoção da sexualidade adulta às crianças? Alguns optimistas podem argumentar que produzir sapatos pequeninos de salto alto para crianças de 2 anos jamais significaria tal coisa; mas cuecas "fio-dental", soutiens e kits de dança erótica para crianças de 7 anos são sinais claros de uma tendência que levou governos e grupos profissionais a tomarem uma atitude.
Em 2007 a American Psychological Association emitiu um relatório acerca da sexualização de meninas, fazendo notar que esta forma de se auto-objectificarem está relacionada com "três dos problemas mais comuns de saúde mental de raparigas e mulheres: desordens alimentares, baixa auto-estima e depressão ou humor deprimido".
Logo depois, um comité do Senado Australiano promoveu um inquérito e reportou em 2008 que "a inapropriada sexualização das crianças na Austrália é de preocupação crescente" e representa um "desafio cultural significativo".
No início deste ano um relatório levado a cabo pelo British Home Office confirmou que a sexualização dos mais novos (e não só raparigas) é um assunto grave» (...)
Em 2007 a American Psychological Association emitiu um relatório acerca da sexualização de meninas, fazendo notar que esta forma de se auto-objectificarem está relacionada com "três dos problemas mais comuns de saúde mental de raparigas e mulheres: desordens alimentares, baixa auto-estima e depressão ou humor deprimido".
Logo depois, um comité do Senado Australiano promoveu um inquérito e reportou em 2008 que "a inapropriada sexualização das crianças na Austrália é de preocupação crescente" e representa um "desafio cultural significativo".
No início deste ano um relatório levado a cabo pelo British Home Office confirmou que a sexualização dos mais novos (e não só raparigas) é um assunto grave» (...)
«Quando o sexo é parte do pacote de casar e ter filhos, encontra-se necessariamente sujeito a um apertado conjunto de condições e responsabilidades. Considerações práticas como rendimento, habitação e estabilidade aplicam-se necessariamente. O sexo torna-se apenas num aspecto do compromisso duradouro assumido entre ambos.
Mas se o sexo está divorciado de tais condições, então resta-nos um acto meramente natural e agradável que é limitado apenas pelas escolhas e oportunidades de cada um. Esta é a forma idealizada do sexo no mundo moderno. Tudo o que interessa é maximizar o potencial sexual, cultivando atributos sexuais considerados desejáveis na nossa sociedade actual.» (...)
Mas se o sexo está divorciado de tais condições, então resta-nos um acto meramente natural e agradável que é limitado apenas pelas escolhas e oportunidades de cada um. Esta é a forma idealizada do sexo no mundo moderno. Tudo o que interessa é maximizar o potencial sexual, cultivando atributos sexuais considerados desejáveis na nossa sociedade actual.» (...)
«No cenário mais alargado destes pontos de vista opostos sobre o sexo, a sexualização das crianças emergiu como um ponto de conflito. O conflito emerge porque a visão do sexo que é promovida pela nossa cultura é tão livre de constrangimentos e responsabilidades, que não há nada em princípio que dissuada ou previna que as crianças sejam introduzidas nessa mesma cultura.»
«Se a sexualização das crianças é uma extensão lógica da nossa actual cultura sexual, então a defesa do princípio que é inocência da infância é na verdade um verdadeiro movimento contra-cultural. Como campanha de base, promete destacar tanto o fenómeno chamado "pedofilia corporativa" como a hiper-sexualização da cultura circundante.» (Em aceprensa.pt)
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11 novembro 2010
Saúde mental - cada vez mais actual
Foi em Junho, no Público:
(...)
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios. (...)Pedro Afonso, médico psiquiatra. Texto completo aqui.
09 novembro 2010
Só há uma solução para a crise: sair dela!
J. César das Neves, no DN (8 de Novembro):
«Tem custado a assumir, mas parece que todos finalmente aceitam que estamos em crise. Até o Governo abandonou meses de hesitação e panaceias e adoptou esse discurso oficial. Tirando José Sócrates, toda a gente no mundo sabe que Portugal vive uma crise séria. Agora só falta enfrentá-la. Algumas ideias simples podem ajudar.
Primeiro: deixar-se de queixas.
Temos de abandonar o ar pesaroso e indignado. As crises são normais, frequentes, e não são o fim do mundo. Já tivemos muitas, várias muito piores que esta, e teremos bastante mais no futuro. Lamentos, zangas e desesperos são agora, não só ridículos, mas prejudiciais. O que há a fazer é deixar-se de tretas e deitar mãos à obra. Compreende-se que os sindicatos tenham de fazer manifestações e declarar a greve geral. É a sua função e há que cumprir calendário. Mas isso não resolve nada e complica tudo ainda mais. Queixar-se nesta altura é perda de tempo. Nem sequer nos devemos queixar do facto evidente de aqueles que protestam não serem os mais afectados, pobres e desempregados, mas aqueles que defendem benefícios que criaram a crise.
A crise tem vários culpados, alguns evidentes. E até é verdade que muitos desses estão a passar incólumes beneficiando das suas tropelias. Justiça e tribunais devem puni-los. Mas também devemos deixar a busca obsessiva de arguidos. É muito estúpido, quando a casa está a arder, instaurar controversos processos de intenção e responsabilidade, envolvendo-se em discussões necessariamente longas. Há um tempo para tudo, e este não é tempo de recriminações. Até porque a culpa última é de todos nós, que cá vivemos estes anos.
Terceiro: deixar-se de fantasias.
As fantasias são de dois tipos: as tolices optimistas do Governo e os cenários catastróficos das conversas de café. Estas últimas são as mais perigosas. Portugal não é um país miserável, incapaz e sem saída, que voltou à desgraça de sempre. Somos um estado desenvolvido, moderno, onde muitas coisas funcionam bem e existem excelentes oportunidades. É verdade que nos deixámos endividar na euforia, mas isso até é sinal de credibilidade. Agora temos de pagar: o problema é grave mas está circunscrito. É preciso enfrentá-lo sem perder a cabeça em atoardas. O realismo é o melhor trunfo para enfrentar as dificuldades como elas são. Sem as escamotear, mas também sem as exagerar.
Quarto: enfrentar a crise.
Os portugueses, que costumam dormir na bonança, dão o seu melhor nos momentos impossíveis. A recessão não tem uma solução; tem milhões. Dez milhões, para ser exacto. Será cada um, lidando de forma prática com as dificuldades reais que se lhe colocam, que construirá a resposta indispensável para a crise nacional. Trabalhar mais e melhor, poupar mais, investir mais e melhor são as saídas, agora como sempre. Além da criatividade, imaginação, improvisação e desenrascanço em que somos peritos. Se fizermos isto uns tempos veremos que a crise passa muito mais depressa que julgamos.
Para alguns a saída é mesmo sair do país. É uma resposta habitual por cá, que não nos deve deprimir. Fizemo-lo muitas vezes e voltaremos a fazê-lo. Sabemos aliás que é lá fora que damos o nosso melhor. Desta vez é bom lembrar que um dos mais apetecidos destinos de emigração tem sido... Portugal. Todos os empregos que desdenhámos na última década, e que trouxeram para cá milhares de estrangeiros, continuam por aí. E naturalmente os portugueses ainda têm vantagem face a emigrantes ou a emigrar. Ou não?
Ainda falta algo essencial: não podemos perder a nossa tradicional compaixão pelos que mais necessitam e sofrem. A crise ataca alguns de forma brutal e temos todos de os ajudar. Sabemos bem que "ai dos pobres se não forem os pobres".
A injustiça nacional dos últimos anos deveu-se precisamente a que, sendo novos ricos, por momentos perdemos de vista os antigos valores. A crise tem de ser um chamamento à famosa hospitalidade lusitana.
Todos sabemos que estamos em crise. Agora só há uma continuação possível: sair dela»
03 novembro 2010
Comida deitada fora, gente com fome!
Todos os dias incontáveis refeições completas são deitadas fora nos refeitórios das empresas ( para não falar em supermercados, restaurantes, etc ); a isso obriga a lei, por "razões de saúde pública" (?).
Ao mesmo tempo - e com tendência para piorar - muitos portugueses têm fome
Não deveria ser possível escrever-se numa mesma frase: "Lei de Saúde Pública - Desperdício Alimentar - Portugueses com Fome".
Aburguesados e confortáveis na nossa abundância, perdemos de vista o mundo real.
01 novembro 2010
o morto vivo
(...) «os maiores inimigos da segurança social são os que se dizem seus dedicados defensores.
O Estado-providência é composto por três processos diferentes. O primeiro é um mecanismo de poupança, em que se acumulam descontos no trabalho para se obterem pensões na reforma. O segundo garante seguros contra acidentes, como o subsídio de desemprego e outras prestações ligadas a circunstâncias especiais, apoios na doença, bolsas de estudo, etc. O terceiro elemento é de solidariedade, distribuindo aos mais pobres e promovendo a justiça.Há séculos que todas as sociedades fazem poupanças, contraem seguros e dão esmolas. Mas nas últimas décadas, nos países ocidentais, o Estado interveio assegurando esses serviços a todos os cidadãos. Assim nasceu a segurança social, sistema nacional de saúde, escolaridade pública, etc. Estas políticas tiveram o aplauso unânime dos eleitores e rapidamente o sistema fez inchar a despesa pública e ocupou a maior fatia do Orçamento do Estado.
Tal popularidade garante que o Estado-providência não vai morrer. Quem o tem quer mantê-lo, e quem não o tem gostaria de o ter. O actual debate americano sobre o sistema de saúde é disso prova evidente. Assim seria bom evitar as declarações bombásticas sobre a sua extinção, pelo menos por parte dos defensores, pois apenas servem para aumentar a emotividade e o nervosismo, precisamente o mais prejudicial ao Estado social.
O único problema é que, por muito populares e poderosos que sejam, os sistemas de apoio social não podem fugir às regras da aritmética. Infelizmente, o oportunismo político tem repetidamente manipulado os termos financeiros do processo, fazendo assim perigar a sua sustentabilidade. Os piores inimigos do Estado-providência não são os neoliberais (que, se existirem, ninguém ouve), a crise internacional ou o sistema bancário. É apenas a estupidez. É espantoso como, sendo uma política que todos dizem defender, tantos façam tanto para a destruir.
Os ataques mais mortíferos são também três, todos partindo dos seus mais fanáticos promotores. O primeiro é o peso da máquina, tantas vezes funcionando para cumprir as suas manias, não para servir o público. Depois vêm os vários esquemas ruinosos que, dando votos no imediato, comprometem a prazo todo o sistema. A demência em descer sucessivamente a idade da reforma perante uma subida da esperança de vida, se não era sabotagem propositada, foi negligência criminosa.
Estes dois problemas estão diagnosticados e, mal ou bem, começam a ser abordados. A reforma da segurança social de 2007 foi um passo importante para a sustentabilidade do nosso sistema. Ainda existe muito irrealismo, como mostram as delirantes manifestações em França contra a subida da idade de reforma de 60 para 62 anos. Mas, apesar de tudo, é uma tolice a convicção generalizada de que em breve não haverá dinheiro para pensões.
O pior dos inimigos, que agora domina Portugal, é a suprema hipocrisia de certos políticos, alguns até auto-intitulados "socialistas", que perante um aperto financeiro por razões alheias ao sistema esquecem as juras de solidariedade e cortam nos apoios aos mais necessitados para manterem benesses dos grupos de pressão.
O Estado-providência não está morto. Nem sequer moribundo. Mas era bom que fosse tratado com um pouco mais de serenidade, realismo e, sobretudo, dignidade.» (J. César das Neves, economista, Diário de Notícias, 1-11-2010)
30 outubro 2010
«A tribo das causas urgentes»
Helena Matos, no Público:
(...) «A tribo das causas urgentes»
«Não sei se se deslocam em grupo, se se encontram ocasionalmente ou se os seus espíritos se unem de preferência entre o fim do Verão e o início do Outono. Mas confesso que estou a ficar cansada deles. Quem são eles? A tribo das causas urgentes.
Desde há vários anos que vivemos em constante estado de urgência, ouvindo de minuto a minuto que ou fazemos algo muito rapidamente e em força ou será o caos, a desgraça e o opróbrio. Que me recorde, nos últimos anos os profetas do apocalipse
mobilizaram-nos para combater a ameaça da escassez dos alimentos, a gripe A e sobretudo as alterações climáticas.
Agora vivem no arrebatamento orçamental. De repente Portugal tem de ter um orçamento para mostrar ao estrangeiro, custe o que custar e independentemente do que lá estiver inscrito.
Mesmo que os mercados e o estrangeiro nos fizessem a gentileza de acreditar num orçamento que prevê crescimento para o próximo ano e em que as contas do deve e haver não batem certas, há o detalhe de o Orçamento ir ser pago por nós, cá dentro. Logo, discuti-lo é não só o nosso direito mas também o nosso dever, tanto mais que o Governo é minoritário.
E a não ser que se considere que agora os governos minoritários em situação de crise têm os orçamentos automaticamente aprovados não se vê nem como nem por quê se há-de temer ou abreviar essa discussão. Muito menos porque, como defendeu o ministro Silva Pereira, deve essa discussão decorrer à porta fechada. Os portugueses só são responsáveis para pagarem a dívida que os seus governantes geraram?
Sim, a discussão deve ser feita na praça pública porque é da publicidade dessa discussão que pode resultar um orçamento com impactos menos desastrosos no espaço privado dos cidadãos, das famílias e das empresas.
Depois de anos a desprezarem quem lhes falava de números e a responderem com prosa poética de 3.ª categoria aos avisos sobre o endividamento, os membros da tribo das causas urgentes descobriram que a nossa redenção está neste Orçamento. E só nos resta esperar que o transe lhes passe. Ou mais propriamente que a razão deste transe seja substituída por outra.
Porque uma das características desta espécie de tribo informal das causas urgentíssimas é que o extraordinário frenesi que se apodera deles no momento em que descobrem uma causa só tem paralelo na sua capacidade de esquecer essa causa quando a trocam por outra. Assim e apenas por isso não causa espanto que ninguém se tenha escandalizado com a extinção do Secretariado Técnico da Comissão das Alterações Climáticas. Recordo que ainda não há muito tempo as alterações climáticas nos eram apresentadas não só como uma grande questão mas como aquilo que devia ser a preocupação central de quem nos governava e de nós mesmos.
Recordo que chegou a equacionar-se a criação de uma espécie de ONU para o clima, para lá de coisas tão disparatadas quanto a criminalização do simples acto de negar as ditas alterações climáticas. Esse era o tempo em que a senhora Merkel viajava até umas paragens marítimas geladas e olhava para os icebergues que lhe diziam ameaçados pelo aquecimento global com a expressão compungida que agora reserva às contas de Portugal, Espanha e Grécia.
Entretanto, como é óbvio, o ambiente na Terra, com ou sem alterações climáticas provocadas pelo Homem, continua a colocar questões muito sérias. Mas isso agora não interessa nada. O que conta agora é ter um orçamento. O paradoxo é tal que as pessoas que durante anos foram tratadas como excêntricas ou quase paranóicas por procurarem chamar a atenção para a insustentabilidade das nossas contas se arriscam agora a passar por irresponsáveis quando defendem que este Orçamento deve ser discutido.
Tudo aquilo que nos está agora a acontecer era mais que previsto e anunciado há anos.
E desde 2009 que se tornou irreversível. Simplesmente não o quisemos ver. Até porque nessa fase a tribo das causas urgentes andava entretida com umas causas intercalares, como o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo que supostamente nos manteria entretidos por algum tempo, sobretudo se o Presidente da República tivesse vetado o diploma. Este aliás é um dos casos em que a tribo era mais numerosa do que aqueles que urgentemente pretendia libertar: até Setembro de 2010 realizaram-se, em Portugal, 131 casamentos entre pessoas do mesmo sexo. O que dá 262 homossexuais casados, número francamente muito inferior ao mobilizado pela tribo das causas urgentes quando se arrebatou com esta questão que garantiam de relevância cósmica.
Não sei qual será a próxima causa urgentíssima da tribo das causas urgentes. Mas tenho a certeza que em matéria orçamental muita coisa de que nos arrependeremos mais tarde será aprovada quase sem darmos por isso caso nos deixemos mais uma vez dominar pelo folclore da urgência.» (...) (Helena Matos)
(...) «A tribo das causas urgentes»
«Não sei se se deslocam em grupo, se se encontram ocasionalmente ou se os seus espíritos se unem de preferência entre o fim do Verão e o início do Outono. Mas confesso que estou a ficar cansada deles. Quem são eles? A tribo das causas urgentes.
Desde há vários anos que vivemos em constante estado de urgência, ouvindo de minuto a minuto que ou fazemos algo muito rapidamente e em força ou será o caos, a desgraça e o opróbrio. Que me recorde, nos últimos anos os profetas do apocalipse
mobilizaram-nos para combater a ameaça da escassez dos alimentos, a gripe A e sobretudo as alterações climáticas.Agora vivem no arrebatamento orçamental. De repente Portugal tem de ter um orçamento para mostrar ao estrangeiro, custe o que custar e independentemente do que lá estiver inscrito.
Mesmo que os mercados e o estrangeiro nos fizessem a gentileza de acreditar num orçamento que prevê crescimento para o próximo ano e em que as contas do deve e haver não batem certas, há o detalhe de o Orçamento ir ser pago por nós, cá dentro. Logo, discuti-lo é não só o nosso direito mas também o nosso dever, tanto mais que o Governo é minoritário.
E a não ser que se considere que agora os governos minoritários em situação de crise têm os orçamentos automaticamente aprovados não se vê nem como nem por quê se há-de temer ou abreviar essa discussão. Muito menos porque, como defendeu o ministro Silva Pereira, deve essa discussão decorrer à porta fechada. Os portugueses só são responsáveis para pagarem a dívida que os seus governantes geraram?
Sim, a discussão deve ser feita na praça pública porque é da publicidade dessa discussão que pode resultar um orçamento com impactos menos desastrosos no espaço privado dos cidadãos, das famílias e das empresas.
Depois de anos a desprezarem quem lhes falava de números e a responderem com prosa poética de 3.ª categoria aos avisos sobre o endividamento, os membros da tribo das causas urgentes descobriram que a nossa redenção está neste Orçamento. E só nos resta esperar que o transe lhes passe. Ou mais propriamente que a razão deste transe seja substituída por outra.
Porque uma das características desta espécie de tribo informal das causas urgentíssimas é que o extraordinário frenesi que se apodera deles no momento em que descobrem uma causa só tem paralelo na sua capacidade de esquecer essa causa quando a trocam por outra. Assim e apenas por isso não causa espanto que ninguém se tenha escandalizado com a extinção do Secretariado Técnico da Comissão das Alterações Climáticas. Recordo que ainda não há muito tempo as alterações climáticas nos eram apresentadas não só como uma grande questão mas como aquilo que devia ser a preocupação central de quem nos governava e de nós mesmos.
Recordo que chegou a equacionar-se a criação de uma espécie de ONU para o clima, para lá de coisas tão disparatadas quanto a criminalização do simples acto de negar as ditas alterações climáticas. Esse era o tempo em que a senhora Merkel viajava até umas paragens marítimas geladas e olhava para os icebergues que lhe diziam ameaçados pelo aquecimento global com a expressão compungida que agora reserva às contas de Portugal, Espanha e Grécia.
Entretanto, como é óbvio, o ambiente na Terra, com ou sem alterações climáticas provocadas pelo Homem, continua a colocar questões muito sérias. Mas isso agora não interessa nada. O que conta agora é ter um orçamento. O paradoxo é tal que as pessoas que durante anos foram tratadas como excêntricas ou quase paranóicas por procurarem chamar a atenção para a insustentabilidade das nossas contas se arriscam agora a passar por irresponsáveis quando defendem que este Orçamento deve ser discutido.
Tudo aquilo que nos está agora a acontecer era mais que previsto e anunciado há anos.
E desde 2009 que se tornou irreversível. Simplesmente não o quisemos ver. Até porque nessa fase a tribo das causas urgentes andava entretida com umas causas intercalares, como o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo que supostamente nos manteria entretidos por algum tempo, sobretudo se o Presidente da República tivesse vetado o diploma. Este aliás é um dos casos em que a tribo era mais numerosa do que aqueles que urgentemente pretendia libertar: até Setembro de 2010 realizaram-se, em Portugal, 131 casamentos entre pessoas do mesmo sexo. O que dá 262 homossexuais casados, número francamente muito inferior ao mobilizado pela tribo das causas urgentes quando se arrebatou com esta questão que garantiam de relevância cósmica.
Não sei qual será a próxima causa urgentíssima da tribo das causas urgentes. Mas tenho a certeza que em matéria orçamental muita coisa de que nos arrependeremos mais tarde será aprovada quase sem darmos por isso caso nos deixemos mais uma vez dominar pelo folclore da urgência.» (...) (Helena Matos)
28 outubro 2010
Debates interessantes

O colunista do Expresso, Henrique Raposo, intervém na mesa " Deus: questão para crentes e não-crentes", afirmando: "Eu não sou um crente. Porém não consigo considerar-me um ateu. No fundo sou um ex-ateu que não teve a coragem de se confrontar com a ideia de Deus"
Video aqui.
25 outubro 2010
Adivinhem quem disse?
(...) «Retirar o abono de família a pessoas que recebem 629 euros por mês é algo que demonstra uma política anti-social, anti-família e anti-natalidade» (...)
«como é que um Governo que tantas vezes enche a boca com o Estado social adopta medidas como esta, ou como outra que retira o 13º mês às pessoas mais pobres, que recebem abaixo do salário mínimo e que têm filhos em idade escolar» (...)
«Bastava o Governo dar um pouco menos às empresas públicas e já era possível dar um pouco mais a quem precisa, porque recebe muito pouco» (...)
«como é que um Governo que tantas vezes enche a boca com o Estado social adopta medidas como esta, ou como outra que retira o 13º mês às pessoas mais pobres, que recebem abaixo do salário mínimo e que têm filhos em idade escolar» (...)
«Bastava o Governo dar um pouco menos às empresas públicas e já era possível dar um pouco mais a quem precisa, porque recebe muito pouco» (...)
se calhar não são favas contadas ...

(...) «existe um grande desconforto com a responsabilidade objectiva do actual Presidente da República, que tem levado ao colo o Governo até este beco sem saída em que o país se encontra» (...)
«Desde a promulgação da lei do casamento gay, até hoje, não se tem testemunhado mudança de posição daqueles que estão resolvidos a não votar na 1.ª volta das presidenciais em Cavaco Silva. Esse facto opera-se pois com ou sem candidatura alternativa no centro-direita.
É verdade que a ponderação da actual conjuntura de emergência pode fazer com que os resultados das
próximas eleições presidenciais não permitam medir exactamente o descontentamento, Eppure, si muove ("no entanto, move-se"), como terá dito Galileu, depois de levado a retractar-se em 1633 da sua posição de que a terra se movia em torno do sol...
Uma nota mais "leve": Portugal é, de facto, um país em que ainda está vigente a cultura "do respeitinho" evidente na reacção autoritária dos donosdo centro-direita (opinion makers e alguma, pouca, da camada dirigente dos partidos). Ou na cumplicidade dos sistemas de poder na comunicação social: em aproximadamente quatro meses, não há uma sondagem em que tenha sido perguntado qual o acolhimento a algumas das pessoas que foram indicadas como possíveis candidatos alternativos a Cavaco Silva... O que, reconheça-se, sendo preocupante, não é novo nem dramático» (...)
(António Pinheiro Torres, Público de 20 de Outubro de 2010, opinião; texto completo também aqui)
30 milhões de euros

O Estado pagou 30 milhões de euros pelos abortos efectuados desde a liberalização da lei.
Estudo aqui.
<- foto de mão de embrião humano com 12 semanas.
20 outubro 2010
depois do deputado do gravador, o deputado da cantina
«O deputado do PS Ricardo Gonçalves gostava de ter a cantina da AR aberta ao jantar. Isto porque 3700€/mês que aufere "não dão para tudo". Fiquei com um "aperto no coração" ao ler isto, diz Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
«Pensava que nada me podia surpreender na política, mas eis que um deputado me acorda para a triste realidade: Portugal. O absurdo é o limite. O horizonte da estupidez ganha novos desígnios e contornos todo o santo dia. Ao deputado Ricardo Rodrigues dos gravadores junta-se agora o deputado Ricardo Gonçalves das refeições.
Se o primeiro meteu gravadores no bolso. Este afirma que o que lhe põem no bolso não chega para tudo, mesmo que seja um valor a rondar os 3700€/ mês. Uma miséria. "Se abrissem a cantina da Assembleia da República à noite, eu ia lá jantar. Eu e muitos outros deputados da província. Quase não temos dinheiro para comer" Correio da Manhã (vou fazer uma pausa para ir buscar uns kleenex...)
O corte de 5% nos salários irá obrigá-lo, como "deputado da província", a apertar o cinto e consequentemente o estômago, levando-o a sugerir com ironia mas com seriedade (!?) a abertura da cantina da AR para poder jantar. Uma espécie de Sopa dos Pobres mas sem pobres e sem vergonha. Só com políticos, descaramento e sopa.
"Tenho 60 euros de ajudas de custos por dia. Temos de pagar viagens, alojamento e comer fora. Acha que dá para tudo? Não dá" Valerá a pena acrescentar alguma coisa? Não me parece. Só dizer que as almôndegas que comi ao jantar não se vão aguentar no estômago durante muito tempo depois de ter feito copy/paste desta declaração.
Mas continuando a dar voz ao Sr. Deputado: "Estamos todos a apertar o cinto, e os deputados são de longe os mais atingidos na carteira". Pois é, coitadinhos, andam todos a pão e água. Alguns são meninos para largar os bifes do Gambrinus.
Bem sabemos que os grandes sacrificados do novo pacote de austeridade do Governo vão ser os senhores deputados. Ninguém tinha dúvidas quanto a isto. E ajuda a explicar o "aperto de coração" que o Primeiro-Ministro sentiu ao ter de tomar estas "medidas duras". Sabia perfeitamente que ao fazê-lo estava a alterar os hábitos alimentares do Sr. Deputado Ricardo Gonçalves, o que é lamentável.
Que tal um regresso à província com o ordenado mínimo e um pacote senhas do Macdonalds? Ser deputado não é o serviço militar obrigatório. Pela parte que me toca de cidadão preocupado está dispensado. Não o quero ver passar necessidades.
Há quem sobreviva com pensões de valor equivalente a 4 dias de ajudas de custo do senhor deputado. Quem ganha o ordenado mínimo está habituado a privações, paciência. Agora com 3700€ por mês e 60€/dia de ajudas compreendo que seja mais difícil saber onde cortar. Podíamos começar por cortar na pouca-vergonha. Mas isso seria pedir demais.» Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
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