25 novembro 2010
Há quem diga que faltam Médicos de Família ...
«Chegados ao mês de Novembro, é possível confirmar que muitos recém-especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) cujo período de especialização terminou em Janeiro/Fevereiro deste ano não tiveram ainda a possibilidade de assinar um contrato com a sua entidade empregadora, ou seja, com a respectiva Administração Regional de Saúde (ARS).» (...)
22 novembro 2010
O Portugal que luta
(...) «A falta de alimentos vai-se tornando endémica: 20% diz não ter comida até ao final do mês e 32% refere que isso acontece "às vezes". Se a comida falta, as contas mantêm-se: 31%, e sobretudo jovens, adianta ter um empréstimo para pagar»
(...) «41% são pessoas que nunca foram pobres, e que agora se sentem como tal, destaca Isabel Jonet»
(...) «Nos novos pedidos de apoio destacavam-se situações de desemprego, endividamento e divórcio ou abandono do lar, esta última com um peso de 42,6%»
(...) «Nos novos pedidos de apoio destacavam-se situações de desemprego, endividamento e divórcio ou abandono do lar, esta última com um peso de 42,6%»
- A ACEGE lança um Fundo Bem Comum para financiar projectos de empreendedorismo
- Zita Seabra escreve sobre este tema no JN, citanto Nuno Fernandes Thomaz:
«"se vive hoje cerca de 80 anos e, inexplicavelmente, se alguém for despedido com 40 - nem é preciso mais - certamente terá a maior dificuldade em arranjar novo emprego. Com tudo o que isto significa de dramático em termos pessoais e familiares e, não menos significativo, com o que em termos económicos representa de delapidação de valiosos recursos humanos. E essa é a mensagem principal desta iniciativa: por um lado, impedir que pessoas com tanto para dar à nossa economia sejam desaproveitadas e esquecidas e, por outro, desafiar quantos caiam no desemprego a recusar pôr um ponto final na sua vida profissional".»
«Quando temos a sensação de que tudo se afunda no país, e o desespero e o medo substituem a esperança, há sempre projectos exemplares, pioneiros, que nascem e que rompem caminhos num país desgastado pela falta de valores, onde se vive com a sensação de que se atola no meio da corrupção, dos carros de alta cilindrada, dos comités e das comissões, dos institutos públicos e dos lugares fáceis. O Fundo tem rostos diversos de gente boa. Assinalo quatro nomes: António Pinto Leite, actual presidente, Jorge Líbano Monteiro, secretário-geral, padre Mário Rui Leal Pedras, assistente eclesial, e o ex-presidente João Alberto Pinto Basto, o homem que foi um dos fundadores de um importante Banco - o Banco Alimentar Contra a Fome - e que na ACEGE deixa um notável trabalho. No meio da crise, percebe-se que este país triste e deprimido tem gente boa para a qual vale a pena olhar.» (Zita Seabra)
"não temos credibilidade nem margem de manobra"
No Público 2010-11-21, por José Manuel Fernandes (*)
«Metade da última semana foi passada a especular sobre se recorríamos ou não à ajuda do fundo de resgate europeu e do FMI ou se não precisávamos de o fazer. A outra metade foi a ouvir declarações piedosas sobre o apoio ao "esforço orçamental" português, manifestações de solidariedade e, por fim, proclamações de intenção sobre o rigor que não se teve no passado e se terá no futuro. Infelizmente, é tudo espuma. Com ou sem FMI, temos e teremos trabalhos de Hércules pela frente. Com mais palavras a enervar "os mercados" ou mais declarações a tentar acalmá-los, não deixámos de estar na corda bamba.

Deixemos de lado, por agora, saber como e com quem entrámos para o buraco em que nos encontramos - o tempo é sempre um juiz implacável, mesmo quando se faz esperar. Fixemo-nos antes nos problemas que temos e em como ultrapassá-los.
Comecemos por um breve recordatório dos problemas. Primeiro que tudo, uma economia anémica, incapaz de crescer, quase estagnada há dez longos anos, sinal do esgotamento dos factores que proporcionaram o nosso desenvolvimento nos últimos 50 anos. Depois, um Estado gordo, demasiado presente, demasiado burocrático, que asfixia a economia porque cobra demasiados impostos, porque produz regulamentos a mais, porque desconfia dos cidadãos, porque tem um défice crónico que gera uma dívida crescente. Por fim, um país que se habituou a viver acima das suas capacidades, com um número excessivo de dependentes do Estado e uma cultura avessa ao risco e ao empreendorismo, um país onde há demasiados particulares e demasiadas empresas sobrendividadas.
Boa parte destes problemas existe porque, como disse esta semana Fernando Ulrich, presidente do BPI, "aquilo que os países que entraram na Zona Euro fizeram foi aderir ao marco". Ora "a elite e os decisores políticos portugueses não perceberam isto. Não devíamos ter deixado subir os salários e a despesa pública como deixámos". Ou seja, ao contrário do que por aí se anda a dizer, o problema não é da Alemanha, que fez o seu trabalho de casa, mas de "Portugal, da Grécia e da Irlanda, que tinham de ter a capacidade para gerir a situação". Não tiveram e não vale a pena chorar sobre o leite derramado: ou fazemos agora o que já devia ter sido feito, ou arriscamos ficar sem crédito, sem investimento, na bancarrota e a sermos tratados como um simples protectorado. É certo que há por aí quem ainda vá ao Parlamento defender que não nos devíamos preocupar com a dívida (como sucedeu esta semana com o secretário de Estado do Orçamento), mas é tempo de acabar com tais "estados de negação".
Ora, romper com o "estado de negação" começa por assumir que o esforço que teremos de fazer não é passageiro - é estrutural e deverá exigir muitos e longos anos de correcção gradual se quisermos evitar uma ruptura brutal. Porque só há uma forma de sairmos do buraco onde estamos: sermos mais competitivos. E só há uma maneira de o conseguir: trabalhando mais, trabalhando melhor, começando por ganhar menos até conseguir ganhar mais, consumindo menos até voltarmos a equilibrar as contas. Poucos políticos têm dito isto preto no branco, mas reconheça-se que entre eles se contam Pedro Passos Coelho (no Facebook) e Manuela Ferreira Leite (na AR).
Um Governo que queira recolocar Portugal no mapa - isto é, um Governo que não se satisfaça com deitar foguetes cada vez que faz um novo acordo comercial com a Venezuela ou com a Líbia - tem que tomar muitas medidas estruturais. Tem de fazer emagrecer o peso do Estado e das regulamentações, única forma de diminuir o défice e, ao mesmo tempo, diminuir as contribuições que penalizam o trabalho (como a taxa social única) e as actividades económicas (como o IRC). Não vejo forma de isso acontecer sem, como vai fazer o Reino Unido, dispensar funcionários públicos. Isso mesmo: quebrar o tabu do "emprego para a vida" na administração pública.
Também não será possível aumentar a competitividade do país - e corrigir a enorme injustiça geracional que é o desemprego jovem - se não se liberalizar a lei laboral. Temos uma lei do despedimento individual de betão e uma lei de despedimentos colectivos que é manteiga, o que penaliza tanto os bons trabalhadores como as boas empresas. Ao mesmo tempo, será necessário quebrar o poder das corporações que se apoderaram de partes da administração pública, umas tomando-as por dentro, outras cercando-a por fora.
Em suma: mesmo que o "cadernos de encargos" não seja exactamente o que descrevi, o trabalho é imenso, implicará muitos sacrifícios, gerará temíveis resistências e, para ser absolutamente franco, não acredito que possa ser concretizado por um só partido, mesmo que este tivesse a maioria absoluta. Hoje por hoje, é evidente para todos que nunca será o actual Governo a levar por diante - mesmo que obrigado pelo exterior - um tal processo de reformas. Mas também não imagino que, após umas eventuais eleições antecipadas, uma nova maioria de centro-direita, se viesse a existir, pudesse concretizá-las tendo de enfrentar a resistência feroz de um PS regressado à oposição. Cairia o Carmo e a Trindade e não faltariam apelos a que se regressasse às trincheiras do "Estado social".
Não me surpreendeu, por isso, a entrevista de Luís Amado. Ele sabe o que dizem lá fora de Portugal, sabe que não temos credibilidade nem margem de manobra e sabe onde (não) nos leva a actual solução de governação e o seu primeiro-ministro. Da mesma forma que não me surpreenderam as reacções de Sócrates ou de Miguel Relvas, a não quererem sequer falar do assunto. Ou os textos, no PÚBLICO, de Vital Moreira e Luís Filipe Menezes, a reduzirem a temática ao simples cálculo partidário: Vital não quer que o PS fique com o ónus das medidas difíceis, Menezes quer que "quem comeu a carne roa agora os ossos". São duas faces da mesma moeda: gincana eleitoral de curto prazo.
É por tudo isto que me escuso de fazer previsões, juízos de valor ou mesmo a defender a formação agora ou depois de umas hipotéticas eleições de uma "grande coligação". Apenas fico por esta constatação: a situação do país é tão difícil que não vejo como poderá um Governo sem uma ampla maioria enfrentá-los. E nem sequer é garantido que, mesmo existindo essa ampla maioria, os partidos que temos corrijam os seus péssimos hábitos clientelares e tenham o sentido de Estado que há décadas desapareceu da governação e que tanta falta faz.
É por isso que também é fundamental existir na sociedade um forte movimento a exigir que se mude realmente de vida, mas isso é um outro problema.»
«Metade da última semana foi passada a especular sobre se recorríamos ou não à ajuda do fundo de resgate europeu e do FMI ou se não precisávamos de o fazer. A outra metade foi a ouvir declarações piedosas sobre o apoio ao "esforço orçamental" português, manifestações de solidariedade e, por fim, proclamações de intenção sobre o rigor que não se teve no passado e se terá no futuro. Infelizmente, é tudo espuma. Com ou sem FMI, temos e teremos trabalhos de Hércules pela frente. Com mais palavras a enervar "os mercados" ou mais declarações a tentar acalmá-los, não deixámos de estar na corda bamba.
Deixemos de lado, por agora, saber como e com quem entrámos para o buraco em que nos encontramos - o tempo é sempre um juiz implacável, mesmo quando se faz esperar. Fixemo-nos antes nos problemas que temos e em como ultrapassá-los.
Comecemos por um breve recordatório dos problemas. Primeiro que tudo, uma economia anémica, incapaz de crescer, quase estagnada há dez longos anos, sinal do esgotamento dos factores que proporcionaram o nosso desenvolvimento nos últimos 50 anos. Depois, um Estado gordo, demasiado presente, demasiado burocrático, que asfixia a economia porque cobra demasiados impostos, porque produz regulamentos a mais, porque desconfia dos cidadãos, porque tem um défice crónico que gera uma dívida crescente. Por fim, um país que se habituou a viver acima das suas capacidades, com um número excessivo de dependentes do Estado e uma cultura avessa ao risco e ao empreendorismo, um país onde há demasiados particulares e demasiadas empresas sobrendividadas.
Boa parte destes problemas existe porque, como disse esta semana Fernando Ulrich, presidente do BPI, "aquilo que os países que entraram na Zona Euro fizeram foi aderir ao marco". Ora "a elite e os decisores políticos portugueses não perceberam isto. Não devíamos ter deixado subir os salários e a despesa pública como deixámos". Ou seja, ao contrário do que por aí se anda a dizer, o problema não é da Alemanha, que fez o seu trabalho de casa, mas de "Portugal, da Grécia e da Irlanda, que tinham de ter a capacidade para gerir a situação". Não tiveram e não vale a pena chorar sobre o leite derramado: ou fazemos agora o que já devia ter sido feito, ou arriscamos ficar sem crédito, sem investimento, na bancarrota e a sermos tratados como um simples protectorado. É certo que há por aí quem ainda vá ao Parlamento defender que não nos devíamos preocupar com a dívida (como sucedeu esta semana com o secretário de Estado do Orçamento), mas é tempo de acabar com tais "estados de negação".
Ora, romper com o "estado de negação" começa por assumir que o esforço que teremos de fazer não é passageiro - é estrutural e deverá exigir muitos e longos anos de correcção gradual se quisermos evitar uma ruptura brutal. Porque só há uma forma de sairmos do buraco onde estamos: sermos mais competitivos. E só há uma maneira de o conseguir: trabalhando mais, trabalhando melhor, começando por ganhar menos até conseguir ganhar mais, consumindo menos até voltarmos a equilibrar as contas. Poucos políticos têm dito isto preto no branco, mas reconheça-se que entre eles se contam Pedro Passos Coelho (no Facebook) e Manuela Ferreira Leite (na AR).
Um Governo que queira recolocar Portugal no mapa - isto é, um Governo que não se satisfaça com deitar foguetes cada vez que faz um novo acordo comercial com a Venezuela ou com a Líbia - tem que tomar muitas medidas estruturais. Tem de fazer emagrecer o peso do Estado e das regulamentações, única forma de diminuir o défice e, ao mesmo tempo, diminuir as contribuições que penalizam o trabalho (como a taxa social única) e as actividades económicas (como o IRC). Não vejo forma de isso acontecer sem, como vai fazer o Reino Unido, dispensar funcionários públicos. Isso mesmo: quebrar o tabu do "emprego para a vida" na administração pública.
Também não será possível aumentar a competitividade do país - e corrigir a enorme injustiça geracional que é o desemprego jovem - se não se liberalizar a lei laboral. Temos uma lei do despedimento individual de betão e uma lei de despedimentos colectivos que é manteiga, o que penaliza tanto os bons trabalhadores como as boas empresas. Ao mesmo tempo, será necessário quebrar o poder das corporações que se apoderaram de partes da administração pública, umas tomando-as por dentro, outras cercando-a por fora.
Em suma: mesmo que o "cadernos de encargos" não seja exactamente o que descrevi, o trabalho é imenso, implicará muitos sacrifícios, gerará temíveis resistências e, para ser absolutamente franco, não acredito que possa ser concretizado por um só partido, mesmo que este tivesse a maioria absoluta. Hoje por hoje, é evidente para todos que nunca será o actual Governo a levar por diante - mesmo que obrigado pelo exterior - um tal processo de reformas. Mas também não imagino que, após umas eventuais eleições antecipadas, uma nova maioria de centro-direita, se viesse a existir, pudesse concretizá-las tendo de enfrentar a resistência feroz de um PS regressado à oposição. Cairia o Carmo e a Trindade e não faltariam apelos a que se regressasse às trincheiras do "Estado social".
Não me surpreendeu, por isso, a entrevista de Luís Amado. Ele sabe o que dizem lá fora de Portugal, sabe que não temos credibilidade nem margem de manobra e sabe onde (não) nos leva a actual solução de governação e o seu primeiro-ministro. Da mesma forma que não me surpreenderam as reacções de Sócrates ou de Miguel Relvas, a não quererem sequer falar do assunto. Ou os textos, no PÚBLICO, de Vital Moreira e Luís Filipe Menezes, a reduzirem a temática ao simples cálculo partidário: Vital não quer que o PS fique com o ónus das medidas difíceis, Menezes quer que "quem comeu a carne roa agora os ossos". São duas faces da mesma moeda: gincana eleitoral de curto prazo.
É por tudo isto que me escuso de fazer previsões, juízos de valor ou mesmo a defender a formação agora ou depois de umas hipotéticas eleições de uma "grande coligação". Apenas fico por esta constatação: a situação do país é tão difícil que não vejo como poderá um Governo sem uma ampla maioria enfrentá-los. E nem sequer é garantido que, mesmo existindo essa ampla maioria, os partidos que temos corrijam os seus péssimos hábitos clientelares e tenham o sentido de Estado que há décadas desapareceu da governação e que tanta falta faz.
É por isso que também é fundamental existir na sociedade um forte movimento a exigir que se mude realmente de vida, mas isso é um outro problema.»
* Jornalista (twitter.com/jmf1957)
19 novembro 2010
ONU deixa de condenar explicitamente a execução de gays, Portugal e Espanha votam a favor, EUA abstêm-se
Desde há mais de 10 anos que a Assembleia Geral da ONU aprova, cada dois anos, uma resolução em que condena as execuções sumárias, extra-judiciais ou arbitrárias, condenando igualmente os estados e organismos que o toleram, e instando-os a que ponham cobro à situação.
Nesta resolução é dito de forma explícita que se condenam as execuções perpetradas com motivação na "preferência sexual das vítimas", "motivos raciais, nacionais, étnicos, religiosos ou linguísticos", ou contra "os refugiados, povos indígenas ou outros grupos".
Este ano, neste mês de Novembro, Marrocos e o Mali, em representação dos "países africanos e islâmicos", opuseram-se e estas referências foram retiradas.
Nenhum país votou contra. Portugal votou a favor, a Espanha também. Os EUA abstiveram-se.
Os resultados da votação estão disponíveis aqui, no sítio da ONU.
17 novembro 2010
tá tudo louco?
Também no Jornal de Negócios, Camilo Lourenço:
(...) «No mesmo dia o ministro das Finanças admite que Portugal pode precisar de ajuda internacional (dias depois de outro ministro ter dito que podemos ser corridos do euro). Horas mais tarde diz que o que disse não significa que há contactos para solicitar essa ajuda.Está tudo doido? Num momento em que o País precisa de fazer tudo para merecer o respeito dos mercados é esta a imagem que estamos a passar? Não bate certo. Mas sejamos honestos: há alguma coisa certa em tudo o que fizemos nos últimos 12 meses?
Valha-nos que em Bruxelas ainda vai havendo gente que tenta cavar uma trincheira entre nós e a Irlanda, lembrando que a situação dos dois países é diferente (como fez ontem Jean-Claude Juncker), esperando evitar o efeito dominó. É verdade que são. E é sobre essa diferença que deveríamos ter capitalizado nos últimos meses. E o que fizemos? Deixámos derrapar vergonhosamente a despesa, sem qualquer explicação sobre o que se passou.
Se o leitor se puser do outro lado, de quem já nos emprestou dinheiro e a quem pedimos para emprestar mais, e olhar para este cenário o que pensa? Pois, é isso mesmo... Só não se percebe porque continua a haver jornalistas, economistas, políticos banqueiros (a lista é longa) que vão dizendo que não precisamos do FMI. Porque, supostamente, somos capazes de resolver, sozinhos os nossos problemas. Não somos não. E quanto mais tempo levarmos a perceber isso, pior.
P.S. - Alguém oferece um dicionário ao ministro das Obras Públicas? Ele precisa.»
camilolourenco@gmail.com
Afinal quem é "especulador"?
No Jornal de Negócios, Paulo Pinho, Professor da Universidade Nova de Lisboa:
(...) «Por cá é habitual falar de quem especula "contra nós". Ou seja, daqueles que, perante as sucessivas evidências de que as nossas finanças públicas estão descontroladas, de que o Governo anda totalmente à deriva e é incapaz de controlar a execução orçamental e de que o Parlamento é incapaz de trabalhar harmoniosamente para encontrar uma solução de Regime para os graves e estruturais problemas do Estado, entendem que Portugal irá entrar em incumprimento e terá de recorrer à ajuda externa. Sejamos claros: estes senhores especulam contra nós apenas e só porque lhes damos razões para isso.
Mas, convém perceber, existe quem aposte exactamente no sentido oposto. Ou seja, existem aqueles que acreditam que o sector exportador português será capaz de manter uma dinâmica de crescimento susceptível de ajudar o país a ultrapassar a crise actual, sem recurso a ajuda externa e que, a médio prazo, o "rating" da República subirá. Esses "bons" especuladores compram a nossa dívida quer em mercado primário, contribuindo para o financiamento do deficit público, quer no secundário, ajudando a travar a acelerada subida das "yields". Sem eles, porventura, aquelas já estariam perto dos 8%. Não nos ajudam por causa dos nossos bonitos olhos: apostam em nós para lucrarem aquando da concretização da nossa melhoria e correspondente descida das "yields" e valorização das obrigações que compraram.
E como corre essa estratégia? Mal. Há duas semanas esses "bons" especuladores lá foram ao leilão de dívida pública e compraram. Cerca de uma hora após o fim do mesmo ficaram a saber que os dois maiores partidos não se tinham entendido quanto ao Orçamento do Estado. Ou seja, poucas horas após nos emprestarem dinheiro já estavam a sofrer menos-valias equivalentes ao juro de um semestre. E tudo por causa do "timing" escolhido pelo Governo para anunciar o rompimento com o PSD. Não admira que alguns nos chamem pobres e mal-agradecidos. Aos que voltaram ao leilão seguinte não faltaram novas surpresas: após comprarem dívida a uma "yield" de 6.8% saem notícias sobre a indisponibilidade dos contribuintes alemães em pagar a irresponsabilidade de quem aderiu a uma moeda sem honrar os correspondentes compromissos (algo que a própria Alemanha já havia feito) e que o aumento de risco desses países conduziu a "Clearnet" a aumentar as margens a quem, através dessa câmara de compensação, transacciona as respectivas obrigações. Em poucas horas a "yield" subiu aos 7.4% e os "nossos" credores-especuladores perdiam cerca de 4.5% do seu capital.
Portugal, nos mercados financeiros, vive hoje uma situação de "fio da navalha": qualquer perturbação séria na nossa credibilidade como devedor pode desencadear uma situação de pânico entre aqueles que, tendo especulado a nosso favor, sintam ter de liquidar as posições longas abertas em risco português com vista a limitar as perdas. Tal "panic selling" da dívida portuguesa é uma possibilidade. E não serão uns parcos trocos de Timor-Leste que o conseguirão parar. Convinha, talvez, que quem nos governa, assim como a classe política em geral, estivessem mais atentos a essa possibilidade, dando prioridade absoluta à gestão das expectativas dos mercados e ao cumprimento da execução orçamental. O "Wall Street Journal" falava abertamente, ainda na passada semana e em artigo de primeira página, na falta de credibilidade da classe política portuguesa. Já não nos restam muitos amigos nos mercados. Convinha cuidar deles. Antes que se transformem em inimigos…» (Jornal de Negócios)
Mas, convém perceber, existe quem aposte exactamente no sentido oposto. Ou seja, existem aqueles que acreditam que o sector exportador português será capaz de manter uma dinâmica de crescimento susceptível de ajudar o país a ultrapassar a crise actual, sem recurso a ajuda externa e que, a médio prazo, o "rating" da República subirá. Esses "bons" especuladores compram a nossa dívida quer em mercado primário, contribuindo para o financiamento do deficit público, quer no secundário, ajudando a travar a acelerada subida das "yields". Sem eles, porventura, aquelas já estariam perto dos 8%. Não nos ajudam por causa dos nossos bonitos olhos: apostam em nós para lucrarem aquando da concretização da nossa melhoria e correspondente descida das "yields" e valorização das obrigações que compraram.E como corre essa estratégia? Mal. Há duas semanas esses "bons" especuladores lá foram ao leilão de dívida pública e compraram. Cerca de uma hora após o fim do mesmo ficaram a saber que os dois maiores partidos não se tinham entendido quanto ao Orçamento do Estado. Ou seja, poucas horas após nos emprestarem dinheiro já estavam a sofrer menos-valias equivalentes ao juro de um semestre. E tudo por causa do "timing" escolhido pelo Governo para anunciar o rompimento com o PSD. Não admira que alguns nos chamem pobres e mal-agradecidos. Aos que voltaram ao leilão seguinte não faltaram novas surpresas: após comprarem dívida a uma "yield" de 6.8% saem notícias sobre a indisponibilidade dos contribuintes alemães em pagar a irresponsabilidade de quem aderiu a uma moeda sem honrar os correspondentes compromissos (algo que a própria Alemanha já havia feito) e que o aumento de risco desses países conduziu a "Clearnet" a aumentar as margens a quem, através dessa câmara de compensação, transacciona as respectivas obrigações. Em poucas horas a "yield" subiu aos 7.4% e os "nossos" credores-especuladores perdiam cerca de 4.5% do seu capital.
Portugal, nos mercados financeiros, vive hoje uma situação de "fio da navalha": qualquer perturbação séria na nossa credibilidade como devedor pode desencadear uma situação de pânico entre aqueles que, tendo especulado a nosso favor, sintam ter de liquidar as posições longas abertas em risco português com vista a limitar as perdas. Tal "panic selling" da dívida portuguesa é uma possibilidade. E não serão uns parcos trocos de Timor-Leste que o conseguirão parar. Convinha, talvez, que quem nos governa, assim como a classe política em geral, estivessem mais atentos a essa possibilidade, dando prioridade absoluta à gestão das expectativas dos mercados e ao cumprimento da execução orçamental. O "Wall Street Journal" falava abertamente, ainda na passada semana e em artigo de primeira página, na falta de credibilidade da classe política portuguesa. Já não nos restam muitos amigos nos mercados. Convinha cuidar deles. Antes que se transformem em inimigos…» (Jornal de Negócios)
16 novembro 2010
14 novembro 2010
Na lista dos filmes para ver
De Xavier Beauvois, Grande Prémio do Festival de Cannes, escolhido para representar a França na candidatura aos Óscares. Foi estagiário com o "nosso" Manoel Oliveira.
"Os políticos estão presos de si mesmos"
J. César das Neves, no Destak, em 10 de Novembro:
«Escolas abrem ao fim de semana para matar a fome aos alunos.»
«Apesar da crise política, campanha presidencial e urgência dos juros da dívida, o Expresso escolheu este para título principal do último sábado. Foi uma excelente opção jornalística. Este é sem dúvida o verdadeiro problema do momento: volta a haver fome generalizada entre nós. Tudo empalidece ao lado disto.
Mas este título mostra também um outro facto ainda mais importante. Perante a incapacidade do Estado, a sociedade enfrenta a emergência. «Mesmo quando não há apoios extras do município ou do Ministério da Educação, muitos estabelecimentos de ensino fazem tudo para minimizar as carências alimentares de algumas crianças. [...] Notámos que havia alunos que não comiam o pão do almoço ou a sandes do lanche [...] iam discretamente ao pátio dar o que não comeram a um colega que lhes tinha pedido para poder levar para casa.» (p. 22)
Há várias décadas que, com custo de milhões, os sucessivos governos nos asseguraram que a sua política eliminaria a pobreza. Proclamaram o sucesso várias vezes. Agora, quando é mesmo preciso, tudo se desmorona. Parece que nos 80 mil milhões de euros do Orçamento de Estado não há dinheiro suficiente para alimentar crianças. Compreende-se, é preciso acorrer ao TGV e outras prioridades.
Os políticos estão presos de si mesmos. Felizmente ainda restam as escolas, paróquias, IPSS, serviços camarários, ou simplesmente os vizinhos e colegas. Esta é a grandeza de Portugal e, enquanto existir, a crise dos políticos não nos vence.» (Destak)
hora de vazio
No Público, em 8 de Novembro, José Tomaz Castello Branco(*):
«O Senhor Presidente da República anunciou, finalmente, aquilo que já se esperava: a recandidatura a Belém. Foram 25 minutos de um discurso monótono na forma e vazio no conteúdo. Se o PR é o representante oficial e símbolo da República Portuguesa, então estamos conversados: aquela é a face visível do estado do Estado; é, desafortunadamente, um retrato fiel do país em que vivemos. Um país que se encontra visivelmente cansado e sem força anímica para mudar de vida.
E como era precisa uma promessa de mudança! Ao invés, fica a promessa da estabilidade. O discurso da estabilidade poderia fazer sentido no início da década de 90. Agora, parece, no mínimo, desadequado. Há uma boa parte do eleitorado português que não se revê neste retrato e que, muito provavelmente, encontrou na promessa do candidato de não afixar um único cartaz a única boa notícia daquele discurso.
Este é o eleitorado do chamado centro-direita. Um eleitorado que já deu provas de grande responsabilidade democrática, nunca se furtando às lutas que entendia por bem travar, mesmo quando os partidos políticos existentes não as quiseram assumir como suas.
Este é um eleitorado que, não obstante, perante as alternativas que se lhe colocam nesta próxima eleição, não tem outro remédio senão começar a orientar o seu sentido de voto para o mal menor.
Creio, porém, que o mal menor comece a parecer insustentável. Tradicionalmente órfão de representação, este eleitorado pode agora estar cansado da sua condição de refém - que perdura desde a invenção desse extraordinário instrumento chamado "voto útil". Não seria de espantar que este eleitorado procurasse uma qualquer forma de reacção e que mostrasse a sua indignação perante um PR que, só no último ano, desprestigiou seriamente o cargo que desempenha com toda aquela trapalhada que ficou conhecida como as "escutas de Belém" e que abalou seriamente a relação de confiança que mantinha com este eleitorado quando, ao chancelar o chamado "casamento gay", minou gravemente os alicerces de uma instituição tão fundamental como a família.
A opção que resta a este eleitorado pode, afinal, estar reduzida à seguinte equação: engrossar as fileiras daqueles que se revêem nesta recandidatura, contribuindo para a recondução triunfal do PR logo à primeira volta, ou, pelo contrário, encontrar uma forma de se fazer ouvir, forçando o seu putativo tribuno a lutar por uma segunda volta.
Perguntar-se-á porquê? Porquê não despachar logo o inevitável à primeira? Porquê forçar o país aos custos de uma segunda volta? Por uma simples razão, porque este eleitorado tem o direito e o dever de se fazer ouvir. Mais: tem o poder de o fazer.
Resta a questão de como o fazer. A abstenção não serve. A abstenção é um mero encolher de ombros e este não é um eleitorado apático nem irresponsável. Este é um eleitorado que vai às urnas e que preza o exercício do direito que democraticamente lhe assiste. Mas ele pode usar o seu boletim de voto para nele expressar um rotundo "não". Anulando o voto, ele está também a expressar um sentido de voto. Mais: este é um voto que, simbolicamente, nunca pode ser confundido como um "cheque em branco".
E, já agora, nesta fase conturbada da nossa vida, não é aconselhável andar por aí a passar cheques em branco.»
(*) Professor de Ciência Política (josetomaz.castellobranco@gmail.com)
13 novembro 2010
as lolitas
(...) «Quem poderia ter previsto - mesmo que há uma década atrás - que um dos assuntos urgentes que os pais e psicólogos iriam enfrentar neste século havia de ser a promoção da sexualidade adulta às crianças? Alguns optimistas podem argumentar que produzir sapatos pequeninos de salto alto para crianças de 2 anos jamais significaria tal coisa; mas cuecas "fio-dental", soutiens e kits de dança erótica para crianças de 7 anos são sinais claros de uma tendência que levou governos e grupos profissionais a tomarem uma atitude.
Em 2007 a American Psychological Association emitiu um relatório acerca da sexualização de meninas, fazendo notar que esta forma de se auto-objectificarem está relacionada com "três dos problemas mais comuns de saúde mental de raparigas e mulheres: desordens alimentares, baixa auto-estima e depressão ou humor deprimido".
Logo depois, um comité do Senado Australiano promoveu um inquérito e reportou em 2008 que "a inapropriada sexualização das crianças na Austrália é de preocupação crescente" e representa um "desafio cultural significativo".
No início deste ano um relatório levado a cabo pelo British Home Office confirmou que a sexualização dos mais novos (e não só raparigas) é um assunto grave» (...)
Em 2007 a American Psychological Association emitiu um relatório acerca da sexualização de meninas, fazendo notar que esta forma de se auto-objectificarem está relacionada com "três dos problemas mais comuns de saúde mental de raparigas e mulheres: desordens alimentares, baixa auto-estima e depressão ou humor deprimido".
Logo depois, um comité do Senado Australiano promoveu um inquérito e reportou em 2008 que "a inapropriada sexualização das crianças na Austrália é de preocupação crescente" e representa um "desafio cultural significativo".
No início deste ano um relatório levado a cabo pelo British Home Office confirmou que a sexualização dos mais novos (e não só raparigas) é um assunto grave» (...)
«Quando o sexo é parte do pacote de casar e ter filhos, encontra-se necessariamente sujeito a um apertado conjunto de condições e responsabilidades. Considerações práticas como rendimento, habitação e estabilidade aplicam-se necessariamente. O sexo torna-se apenas num aspecto do compromisso duradouro assumido entre ambos.
Mas se o sexo está divorciado de tais condições, então resta-nos um acto meramente natural e agradável que é limitado apenas pelas escolhas e oportunidades de cada um. Esta é a forma idealizada do sexo no mundo moderno. Tudo o que interessa é maximizar o potencial sexual, cultivando atributos sexuais considerados desejáveis na nossa sociedade actual.» (...)
Mas se o sexo está divorciado de tais condições, então resta-nos um acto meramente natural e agradável que é limitado apenas pelas escolhas e oportunidades de cada um. Esta é a forma idealizada do sexo no mundo moderno. Tudo o que interessa é maximizar o potencial sexual, cultivando atributos sexuais considerados desejáveis na nossa sociedade actual.» (...)
«No cenário mais alargado destes pontos de vista opostos sobre o sexo, a sexualização das crianças emergiu como um ponto de conflito. O conflito emerge porque a visão do sexo que é promovida pela nossa cultura é tão livre de constrangimentos e responsabilidades, que não há nada em princípio que dissuada ou previna que as crianças sejam introduzidas nessa mesma cultura.»
«Se a sexualização das crianças é uma extensão lógica da nossa actual cultura sexual, então a defesa do princípio que é inocência da infância é na verdade um verdadeiro movimento contra-cultural. Como campanha de base, promete destacar tanto o fenómeno chamado "pedofilia corporativa" como a hiper-sexualização da cultura circundante.» (Em aceprensa.pt)
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11 novembro 2010
Saúde mental - cada vez mais actual
Foi em Junho, no Público:
(...)
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios. (...)Pedro Afonso, médico psiquiatra. Texto completo aqui.
09 novembro 2010
Só há uma solução para a crise: sair dela!
J. César das Neves, no DN (8 de Novembro):
«Tem custado a assumir, mas parece que todos finalmente aceitam que estamos em crise. Até o Governo abandonou meses de hesitação e panaceias e adoptou esse discurso oficial. Tirando José Sócrates, toda a gente no mundo sabe que Portugal vive uma crise séria. Agora só falta enfrentá-la. Algumas ideias simples podem ajudar.
Primeiro: deixar-se de queixas.
Temos de abandonar o ar pesaroso e indignado. As crises são normais, frequentes, e não são o fim do mundo. Já tivemos muitas, várias muito piores que esta, e teremos bastante mais no futuro. Lamentos, zangas e desesperos são agora, não só ridículos, mas prejudiciais. O que há a fazer é deixar-se de tretas e deitar mãos à obra. Compreende-se que os sindicatos tenham de fazer manifestações e declarar a greve geral. É a sua função e há que cumprir calendário. Mas isso não resolve nada e complica tudo ainda mais. Queixar-se nesta altura é perda de tempo. Nem sequer nos devemos queixar do facto evidente de aqueles que protestam não serem os mais afectados, pobres e desempregados, mas aqueles que defendem benefícios que criaram a crise.
A crise tem vários culpados, alguns evidentes. E até é verdade que muitos desses estão a passar incólumes beneficiando das suas tropelias. Justiça e tribunais devem puni-los. Mas também devemos deixar a busca obsessiva de arguidos. É muito estúpido, quando a casa está a arder, instaurar controversos processos de intenção e responsabilidade, envolvendo-se em discussões necessariamente longas. Há um tempo para tudo, e este não é tempo de recriminações. Até porque a culpa última é de todos nós, que cá vivemos estes anos.
Terceiro: deixar-se de fantasias.
As fantasias são de dois tipos: as tolices optimistas do Governo e os cenários catastróficos das conversas de café. Estas últimas são as mais perigosas. Portugal não é um país miserável, incapaz e sem saída, que voltou à desgraça de sempre. Somos um estado desenvolvido, moderno, onde muitas coisas funcionam bem e existem excelentes oportunidades. É verdade que nos deixámos endividar na euforia, mas isso até é sinal de credibilidade. Agora temos de pagar: o problema é grave mas está circunscrito. É preciso enfrentá-lo sem perder a cabeça em atoardas. O realismo é o melhor trunfo para enfrentar as dificuldades como elas são. Sem as escamotear, mas também sem as exagerar.
Quarto: enfrentar a crise.
Os portugueses, que costumam dormir na bonança, dão o seu melhor nos momentos impossíveis. A recessão não tem uma solução; tem milhões. Dez milhões, para ser exacto. Será cada um, lidando de forma prática com as dificuldades reais que se lhe colocam, que construirá a resposta indispensável para a crise nacional. Trabalhar mais e melhor, poupar mais, investir mais e melhor são as saídas, agora como sempre. Além da criatividade, imaginação, improvisação e desenrascanço em que somos peritos. Se fizermos isto uns tempos veremos que a crise passa muito mais depressa que julgamos.
Para alguns a saída é mesmo sair do país. É uma resposta habitual por cá, que não nos deve deprimir. Fizemo-lo muitas vezes e voltaremos a fazê-lo. Sabemos aliás que é lá fora que damos o nosso melhor. Desta vez é bom lembrar que um dos mais apetecidos destinos de emigração tem sido... Portugal. Todos os empregos que desdenhámos na última década, e que trouxeram para cá milhares de estrangeiros, continuam por aí. E naturalmente os portugueses ainda têm vantagem face a emigrantes ou a emigrar. Ou não?
Ainda falta algo essencial: não podemos perder a nossa tradicional compaixão pelos que mais necessitam e sofrem. A crise ataca alguns de forma brutal e temos todos de os ajudar. Sabemos bem que "ai dos pobres se não forem os pobres".
A injustiça nacional dos últimos anos deveu-se precisamente a que, sendo novos ricos, por momentos perdemos de vista os antigos valores. A crise tem de ser um chamamento à famosa hospitalidade lusitana.
Todos sabemos que estamos em crise. Agora só há uma continuação possível: sair dela»
03 novembro 2010
Comida deitada fora, gente com fome!
Todos os dias incontáveis refeições completas são deitadas fora nos refeitórios das empresas ( para não falar em supermercados, restaurantes, etc ); a isso obriga a lei, por "razões de saúde pública" (?).
Ao mesmo tempo - e com tendência para piorar - muitos portugueses têm fome
Não deveria ser possível escrever-se numa mesma frase: "Lei de Saúde Pública - Desperdício Alimentar - Portugueses com Fome".
Aburguesados e confortáveis na nossa abundância, perdemos de vista o mundo real.
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