Entrevista a Paola Binetti, do Partido Democrático (centro-esquerda) italiano:
(..) «- A experiência dos teodem é muito parecida com a dos Democrats for Life nos Estados Unidos: crentes que iniciaram um movimento em defesa da vida dentro de um partido de esquerda. A que corresponde a esta tendência?
Nestes momentos em que o Ocidente está amarrado a um bipolarismo simplista, é difícil encontrar um partido que represente todos os nossos valores. Por isso é tão importante que cada parlamentar, seja de que partido for, possa actuar em consciência. A Constituição italiana prevê que nenhum parlamentar seja submetido à disciplina de voto; com isso garante que cada um decida, em primeiro lugar, de acordo com a sua consciência, e depois segundo a posição concertada por todos os da coligação ou do partido a que pertence.
A verdadeira batalha em democracia está em defender a liberdade de consciência de cada deputado. Que todos possam decidir livremente o que, em consciência, crêem que é o melhor para o seu país. E que todos possam exprimir e promover os seus valores no seio do partido, e fora dele através de políticas transversais. Um país tem de ter a garantia de que cada deputado vota em consciência.
Este é o contexto em que nasceu o nosso grupo: queríamos defender a vida com absoluta clareza. Por isso insistimos na ideia de que há valores que não pertencem nem à direita nem à esquerda, mas sim à natureza humana e que se podem defender sem problemas num Estado laico.
- Dá a impressão que esse "bipolarismo simplista" esquerda-direita, de que fala, tem muito peso no debate sobre o aborto.
Parece-me que o problema está mal formulado. A esquerda não se inclina para o aborto, mas sim para os direitos individuais. E aqui há uma deformação: é um erro colocar o debate sobre o aborto na perspectiva exclusiva do direito da mulher a decidir. Há outra parte implicada e, por isso, o debate deve colocar-se tendo em conta o direito à vida de todos. Como o filho é tão pequeno, a sociedade deve protegê-lo e conservar o seu direito à vida.
A esquerda enganou-se ao apresentar o aborto como um símbolo dos direitos humanos. Não podemos limitar-nos a defender o direito à vida do mais forte (a mulher), enquanto anulamos o do mais fraco (o filho).
Por este caminho, a esquerda acabará por se converter num movimento radical que nada tem a ver com os ideais de inclusão e protecção dos mais débeis.

Nestes momentos em que o Ocidente está amarrado a um bipolarismo simplista, é difícil encontrar um partido que represente todos os nossos valores. Por isso é tão importante que cada parlamentar, seja de que partido for, possa actuar em consciência. A Constituição italiana prevê que nenhum parlamentar seja submetido à disciplina de voto; com isso garante que cada um decida, em primeiro lugar, de acordo com a sua consciência, e depois segundo a posição concertada por todos os da coligação ou do partido a que pertence.
A verdadeira batalha em democracia está em defender a liberdade de consciência de cada deputado. Que todos possam decidir livremente o que, em consciência, crêem que é o melhor para o seu país. E que todos possam exprimir e promover os seus valores no seio do partido, e fora dele através de políticas transversais. Um país tem de ter a garantia de que cada deputado vota em consciência.
Este é o contexto em que nasceu o nosso grupo: queríamos defender a vida com absoluta clareza. Por isso insistimos na ideia de que há valores que não pertencem nem à direita nem à esquerda, mas sim à natureza humana e que se podem defender sem problemas num Estado laico.
- Dá a impressão que esse "bipolarismo simplista" esquerda-direita, de que fala, tem muito peso no debate sobre o aborto.
Parece-me que o problema está mal formulado. A esquerda não se inclina para o aborto, mas sim para os direitos individuais. E aqui há uma deformação: é um erro colocar o debate sobre o aborto na perspectiva exclusiva do direito da mulher a decidir. Há outra parte implicada e, por isso, o debate deve colocar-se tendo em conta o direito à vida de todos. Como o filho é tão pequeno, a sociedade deve protegê-lo e conservar o seu direito à vida.
A esquerda enganou-se ao apresentar o aborto como um símbolo dos direitos humanos. Não podemos limitar-nos a defender o direito à vida do mais forte (a mulher), enquanto anulamos o do mais fraco (o filho). Se se continua por este caminho, a esquerda acabará por se converter num movimento radical que não tem nada a ver com os ideais de inclusão, protecção do mais débil, luta contra a pobreza, promoção social... Esta contradição interna já está a passar a factura: não é por acaso que a esquerda perdeu eleições em toda a Europa.
- Amiúde diz-se que o debate sobre o aborto se trava nos parlamentos. Pelo contrário, a senhora propõe levá-lo para o terreno da cultura.
Na origem dos debates políticos sempre há uma ideia. Nestes momentos, a ideia que está a marcar grande parte da vida social é a concepção dos direitos individuais. Durante os últimos anos, tem-se exaltado tanto a autonomia individual que estamos prestes a transformar os desejos em direitos. É a lógica que leva a querer que se faça lei de tudo o que se deseja.
Esta ideia tem sido admitida noutros âmbitos como o direito, a economia, a política ou a ciência. É curioso: quando as pessoas simples vêem a mulher grávida em seguida reconhecem que aí há outra vida humana, a do filho. Pelo contrário, alguns cientistas envolvem-se em raciocínios retorcidos e introduzem a possibilidade de que essa vida não seja humana.
A essa distinção acrescentam outra perigosíssima: a diferença entre vida e "vida saudável". Enganam-se. O direito à vida não pode depender da saúde. Temos de aprender a defender a vida com capacidade técnica e científica, com solidariedade social e criativa.
-
E que propõe para mudar essa concepção dos direitos?
É certo que durante muito tempo se desvalorizaram os direitos individuais. Mas agora caímos no extremo oposto. Devemos voltar a uma posição de maior equilíbrio, onde o direito individual se confronte sempre com a responsabilidade social.
Paradoxalmente, o homem que coloca os direitos individuais no centro da sua existência acaba mergulhado numa enorme solidão, em conflito permanente entre os seus direitos e os dos outros.
Nós propomos uma visão antropológica e social do homem como sujeito de relações. A autonomia é só uma parte da nossa vida; no princípio e fim dela, dependemos sempre do cuidado dos outros. O que nos faz humanos não é a autodeterminação, mas sim a capacidade de dar e receber. A vida é sempre relacional.»
(publicado em aceprensa.pt)