Jornal de Negócios

12 março 2011

os 33

O jornalista (Jonathan Franklin) que esteve com os mineiros soterrados no Chile (no i), a propósito do seu relato no livro "Os 33" :
(...) «Eu sou muito optimista e acredito mesmo no altruísmo. Acredito que as pessoas fazem coisas boas não porque são pagas para isso, mas porque é a coisa certa para fazer. A maioria das pessoas faz coisas pelas razões certas e para mim, isto confirmou muitos dos sentimentos que eu tenho perante a vida no geral e perante a minha vida de jornalista. 
No Camp Hope [nome de baptismo para a zona da mina] não havia jornalistas neutros. Se o cabo se tivesse partido e aqueles dois mil jornalistas tivessem que ajudar, eles teriam agarrado no cabo e puxado os mineiros até à superfície. Para mim isto foi o anti-11 de Setembro. Como jornalistas, focamo-nos sempre nas guerras e nos tornados e as coisas más mas em todas as partes do mundo há voluntários, há gente que vai a escolas ensinar crianças ou a hospitais. 
Acho que há muito mais altruísmo no mundo do que as pessoas pensam e acho que isto foi um breve momento em que foi possível ver que as pessoas têm coisas boas dentro de si.  As pessoas esquecem-se disso. Pega-se no jornal e lê-se sobre as reservas de petróleo que o Kadhafi bombardeou, mas também há pessoas que estão com certeza a trabalhar como voluntárias num hospital de Trípoli. 
Para mim, isto confirmou que há muito mais boa vontade no mundo e que a imprensa não está a fazer um bom trabalho a ensinar isso.» (...)

09 março 2011

Para ler

JPP, no Abrupto, irritante como de costume, mas realista: 

(...) «As condicionantes que hoje existem para Sócrates serão as mesmas que terá Passos Coelho na governação, as mesmas ou piores. Basta pensar um pouco, exercício que não faz muita gente no PSD que acha que as portas dos ministérios estão escancaradas à sua frente a cada sondagem favorável e que não percebe por que é que não se entra já por aí dentro para ocupar os gabinetes e os carros do Estado e acrescentar um título pomposo aos cartões-de-visita novos em folha para distribuir na terra.
Pensando-se, chega-se à conclusão de puro bom senso que, mesmo que haja algum estado de graça num novo Governo e alguma distensão sem Sócrates, e, na possibilidade de haver uma maioria absoluta de dois partidos, um passo muito positivo para a governação, tudo o resto que condiciona a governação hoje continuará na mesma. 
Em particular continua na mesma a necessidade de fortes programas de austeridade, com as consequentes efeitos de agitação e perturbação social, potenciados por uma esquerda ainda mais enraivecida e um PS ressabiado pela queda. Ou será que alguém pensa, no PSD, que se vai mentir nas eleições, prometendo qualquer "esperança" virtual no fim próximo do túnel? Pelo contrário, a única linguagem séria é falar verdade aos portugueses, essa palavrinha que tanto irritava Sócrates e os seus aliados no PSD contra Ferreira Leite.

A única alteração qualitativa neste cenário seria um acordo consistente, duradouro, firmemente ancorado no voto popular e parlamentar, que comprometesse PSD, PS e CDS, algo hoje muito improvável, mesmo na situação desesperada actual. 
Por isso, este vosso autor que sempre se opôs a qualquer variante de "bloco central" (e que obviamente entende que não é isso que está a propor), tem poucas dúvidas de que, sem um entendimento desta natureza de boa-fé e sólido que compreenda questões constitucionais, de governação, de reorganização administrativa do país, de mudanças profundas na justiça, na legislação do trabalho, na fiscalidade e nos impostos, ou seja, em quase tudo o que pode ser bloqueado ou pelo PS ou pelo PSD na oposição, não vamos lá. Nem nós, nem eles, nem todos. 
Xeque-mate em meia dúzia de jogadas, ou alguém atira os tabuleiros ao chão e a parte democrática do jogo soçobrará na demagogia e depois na anarquia. Já estivemos mais longe»

Nem tudo vale no Carnaval

(...) »Na 2ª feira, confrontado com a entrada de um grupo de jovens da "geração à rasca" na sala onde decorria um encontro com militantes do PS, José Sócrates, surpreendido, ainda conseguiu dizer: "É Carnaval, ninguém leva a mal".

(...) revelam miopia face a problemas graves da sociedade. No caso da "geração à rasca", a tentação da classe política (não apenas o PS) tem sido para desvalorizar os protestos.

Com excepção do BE, que percebeu a oportunidade mas não tem sabido surfar a onda.Voltemos à "geração à rasca". A tentação é não ligar a uma força difusa, cuja "cola" que a une é a contestação aos políticos que construíram uma sociedade onde eles não têm emprego e onde vão viver pior que as gerações anteriores. O alheamento da classe política é preocupante. Porque aos poucos começa a notar-se um crescendo, acelerado pela canção dos "Deolinda".

E embora estejamos num país onde os jovens mais radicais são meninos de côro quando comparados com os seus congéneres franceses, gregos e até espanhóis, um dia a corda parte. Com estrondo. Porque o problema é tão grave que não há "quick fixes" que o resolvam.»

08 março 2011

Tratar diferente, o que é diferente

O Tribunal Constitucional francês e o Supremo Tribunal acabam de recusar a transformação de uma união civil (PACS) entre duas pessoas do mesmo sexo, num casamento, como tinha sido solicitado por considerar que "o princípio da igualdade não se opõe a que o legislador regule, de forma diferente, situações que são diferentes".


Já havia um precedente para este tipo de decisão quando o Supremo francês, em 2007, cancelou um casamento civil autorizado pelo Presidente da Câmara de Bègles, porque "segundo a lei francesa, casamento é a união entre um homem e uma mulher".
 
O Tribunal considera que o direito destes pares a ter "uma vida familiar normal" não implica que possam contrair casamento entre si, sublinhando que manTêm toda a liberdade de viver em união livre ou em fazer um contrato civil de união (PACS).
      
"ao manter o princípio de que o casamento é a união entre um homem e uma mulher, o legislador, no exercício da sua competência, estimou que a distinta  situação entre os pares do mesmo sexo e os casais compostos por homem e mulhera podem justificar uma diferença no tratamento dentro do Direito da Família."

 
Os grupos de militância pro-gay falam em discriminação, mas de facto, o que o Tribunal afirma é que não existe discriminação por se tratar de situações diferentes.

Comemos o que nos dão

JPP, no Abrupto
«Os jornais de hoje são um completo espectáculo da submissão acrítica às modas. Manifestam-se por um lado, como um excelente amplificador da moda que está; e por outro,  como um considerável obstáculo a que se pense para além da moda que está. Seguem sem hesitar todos os slogans, rodriguinhos, lugares comuns, "mensagens" que lhes aparecem em frente e, como nunca reflectem sobre o que estão a fazer, continuam na mesma até ao absurdo. Exemplos: a revolta árabe, o "deolindismo" militante, etc., etc.

Depois, muda a moda e tudo fica esquecido. Exemplos: a história do urânio empobrecido. Já ninguém se lembra...»

07 março 2011

Como previsto ...

 
«As crises têm afectado mais as mulheres e esta não é diferente. O aumento da precariedade laboral feminina está a verificar-se mais entre as contratadas a termo, sobretudo grávidas, puérperas ou lactantes, alerta a presidente da CITE.

As mulheres têm actualmente «uma taxa de desemprego superior» e «têm aumentado exponencialmente os casos de trabalhadoras que não veem os seus contratos renovados», sobretudo grávidas, puérperas e lactantes, denuncia Sandra Ribeiro, há um ano à frente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), organismo sob a tutela do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social. » (...)

Isto não é novo, como não é nova a passividade dos que criaram esta  nova forma de exploração da mulher.

27 fevereiro 2011

Rebeldias pouco rebeldes

(...) «Não há nenhum atavismo que impeça os países árabes muçulmanos de serem democracias plenas, mas existem enormes dificuldades de ordem social, cultural e religiosa que não podem ser ignoradas pelo bem-avontadismo multicultural ocidental, que é o pano de fundo de muitas das maiores asneiras desta narrativa comunicacional.

Uma delas, e talvez a maior de todas, é a da condição feminina. Pode parecer estranho que comece por aqui, mas a história mostra que em todas as genuínas tentativas de modernização quer autocráticas (como a do Xá do Irão) ou a de Atatürk, ou protodemocráticas, vindas de movimentos de opinião laicos, nacionalistas ou influenciados por eventos internacionais (por exemplo, a influência considerável da Revolução Francesa no império otomano e no Egipto), a condição da mulher foi o ponto limite, que barrou qualquer desenvolvimento e motivou o retrocesso de movimentos reformistas. A situação da mulher como património dos homens, tanto do pai, dos irmãos, como do marido, e a sua real submissão a um mundo masculino, torna impossível uma democracia, porque, mesmo que muitas feministas o esqueçam em nome da multiculturalidade, não há democracia sem igualdade entre homens e mulheres.» (...)

23 fevereiro 2011

financiamento da saúde

Um tema pouco falado, a necessitar de ampla discussão de todos os cidadãos.

Aqui, um texto do actual Director-Coordenador de Financiamento e Contratualização da ACSS: 

(...) « entre o ano 2000 e 2008, verificamos que todos os Países da OCDE viram a despesa em saúde crescer a um ritmo superior ao seu crescimento económico.

   Em alguns Países, como Portugal, o recente abrandamento ou recessão económica, com a descida do PIB e o crescimento da despesa em saúde, implicou um crescimento da despesa em saúde como parte do PIB.

   Face a este crescimento acentuado da despesa, nas duas últimas décadas, as políticas públicas no campo da saúde tiveram como objectivo a contenção de custos e a redefinição dos limites da prestação de cuidados de saúde. As reformas variam entre os diferentes países, mas todas reflectem uma cada vez maior percepção da realidade de mercado e necessidade de justificação das intervenções médicas com base na efectividade e eficiência, bem como a redefinição do papel dos serviços de saúde e da forma como os cuidados são prestados às populações.

(...)  a forma como oferecemos os serviços de saúde ao cidadão. Ou seja, importa discutir para além do financiamento, do pagamento, e da propriedade dos prestadores. Até porque, a forma de organização da prestação pode-nos elucidar sobre os caminhos a seguir nestas matérias.

   Comummente, têm sido propostos três pilares para a redefinição da prestação de cuidados com vista à melhoria da sua efectividade:

Planeamento de cuidados e gestão da doença crónica na comunidade;
Racionalização e especialização nos cuidados agudos;
Melhoria da experiência do cidadão pela gestão mais efectiva dos cuidados.
   
Esta alteração à prestação de cuidados apenas é conseguida através de alavancas, nomeadamente:

mais informação clínica e melhor utilização das tecnologias;
recursos humanos mais flexíveis e eficientes;
reconfiguração dos cuidados agudos;
novos contratos (incentivos) à deshospitalização”, e alocação de recursos de base populacional.

   Neste último ponto, importa entender os diferentes efeitos das modalidades de pagamento, e promover o desenvolvimento da compra de cuidados de saúde qualificada e estratégica. (...)

14 fevereiro 2011

Weimar

JPP no Abrupto
 
(...) «o ar começa a ser o mesmo, mais moderno e tecnológico, mas o mesmo. Como nos anos de Weimar, os grandes partidos moderados estão muito fragilizados, PS e PSD alimentam-se cada vez mais das suas oligarquias internas e menos da influência pública. "Eles são todos iguais". Como nos anos de Weimar, a democracia e as suas instituições estão desgastadas e impotentes, a começar pelo Parlamento. Existe a percepção (e a realidade) que o país é mandado do exterior, seja por "agiotas", na versão do BE, seja pelos "mercados" na versão da direita. A crise económica e social não se revela nas notas de 1.000.000 de marcos, nem nos selos com sobrecargas sucessivas para resistir à inflação galopante, mas num euro cada vez mais forte para o cidadão comum.

A prostituição cresce nas páginas dos jornais e nos espíritos. A fome é muita, os bens são escassos, os empregos não abundam, e somos todos primos uns dos outros. O reino das cunhas mantém-se intacto. Cunhas, patrocinato, obediência, silêncios, respeitinho, "gestão de carreiras". Nos partidos políticos que têm lugares para oferecer, é a lei de ferro. As oligarquias partidárias e os grandes interesses estão demasiados habituados ao tráfico de influências e à corrupção, que arrastam atrás de si a imagem da gente honesta para a mesma lama. "Eles são todos uns ladrões".» (...)

iliteracia científica

Leio no semanário Sol, que "um inquérito" na Rússia revelou que cerca de um terço "acreditam" que o sol gira em torno da Terra. A notícia continua afirmando que esta sondagem dá destque às "superstições científicas" do povo russo.
Mas ... não existiu um senhor chamado Albert Einstein? Não é verdade que o movimento dos astros é RELATIVO?!

 Não me ensinaram que tanto gira a Terra à volta do Sol, como o contrário e que afirmar uma coisa, ou outra, é uma questão de referencial? Ou seja, depende onde o observador estiver colocado ...

Este inquérito (se existiu) é, ele próprio, uma boa amostra de iliteracia científica ..

07 fevereiro 2011

sexos há 2, "géneros", 5

No Público de sábado, 5 de Fevereiro, Pedro Vaz Patto:

(...) «O sexo representa a condição natural e biológica da diferença física entre homem e mulher. O género representa uma construção histórico-cultural. Há apenas dois sexos: o masculino e o feminino. Há cinco géneros (ou até mais, de acordo com outras versões): o heterossexual masculino e feminino, o homossexual masculino e feminino e o bissexual. 

O sexo é um facto empírico, real e objectivo que se nos impõe desde o nascimento. A identidade de género constrói-se através de escolhas psicológicas individuais, expectativas sociais e hábitos culturais, e independentemente dos dados naturais. Para estas teorias, o género assim concebido deve sobrepor-se ao sexo assim concebido. 

E como o género é uma construção social, este pode ser desconstruído e reconstruído. As gender theories sustentam a irrelevância da diferença sexual na construção da identidade de género e, por consequência, também a irrelevância dessa diferença na relações interpessoais, nas uniões conjugais e na constituição da família. 

Daqui surge a equiparação entre uniões heterossexuais e uniões homossexuais. Ao modelo da família heterossexual sucedem-se vários tipos de "família", tantos quantas as preferências individuais e para além de qualquer "modelo" de referência.» (...)

«Pretende-se impor esta ruptura desde cima, desde as instâncias do poder. Ela não surge espontaneamente da sociedade civil e da mentalidade corrente. 

Pretende-se transformar através da política e do direito essa mentalidade. E o que está em causa não é um aspecto secundário, mas referências culturais fundamentais relativas à relevância da dualidade sexual. 

Admitir que a Lei sirva propósitos destes, numa pretensa engenharia social, revela tendências mais próprias de um Estado totalitário do que de um Estado respeitador da autonomia da sociedade civil.» (Público, 5 de Fevereiro)

06 fevereiro 2011

Baixar salários pode ser uma má ideia?

Entrevista no i a Keith Wade (Schroeders´s) em Novembro de 2010:
(..) «A possibilidade de redução de salários é uma discussão que está a ser tida em Portugal. Essa estratégia não resulta?

Há o perigo de se entrar num ciclo vicioso. A competitividade que se ganha por reduzir os custos de produção pode não chegar suficientemente depressa para cobrir os resultados negativos. Pode-se cortar nos salários, mas a economia vai atingir um novo equilíbrio, muito fraco, com taxas de desemprego elevadas e sem voltar necessariamente ao pleno emprego. Esta era uma das teorias de Keynes. Algumas pessoas acham que o poder de reconquistar competitividade é tão forte que se esquecem da importância do consumo interno. O problema é que a economia global não está suficientemente forte, caso contrário levantaria toda a gente. Enfraquecer o consumo interno não resolve o problema e, se resolver, demora muito tempo. Pode demorar até cinco anos.


E não é garantido que funcione?
Não. Pode ajudar, mas numa altura de fraco crescimento é perigoso e pode criar problemas de desemprego estrutural e défice estrutural.


Os países periféricos acabarão por ter de sair do euro para resolver os seus problemas estruturais e afastar as pressões do mercado?
A questão é se estes resgates vão continuar com base em vontade política. Agora há um ponto de interrogação em relação à vontade da Alemanha de continuar a fazer estas transferências. E países como a Grécia e Portugal vão aceitar a perda de soberania de ver o seu orçamento controlado? Isto pode levar os países a abandonarem o euro.


Mas acha que na prática isso vai mesmo acontecer?
Pode muito bem acontecer. A ideia de aumentar a competitividade através da deflação é um caminho muito difícil e não estou convencido que resulte. No final de tudo isto, o povo português pode dizer: “Tivemos cinco anos de austeridade e ainda não controlamos o nosso orçamento, então para quê estar no euro?”


É possível ter dois euros? Um para o Norte e outro para o Sul?
É possível. Mas já não seria uma zona euro. Seriam precisos dois bancos centrais para duas moedas.


Mas a solução seria melhor para os periféricos do que voltar às suas moedas?
Não sei. De certa forma é a mesma coisa. Seria uma moeda fraca, cuja desvalorização poderia ajudar a competitividade. Seria complicado, porque seria necessário organizar toda uma estrutura institucional.


Acha que o euro vai acabar?
Não consigo responder a isso com sim ou não. Mas há uma forte probabilidade de a composição do euro ser diferente daqui a alguns anos.» (...)

Uma esquerda que defende a vida

Entrevista a Paola Binetti, do Partido Democrático (centro-esquerda) italiano:

(..) «- A experiência dos teodem é muito parecida com a dos Democrats for Life nos Estados Unidos: crentes que iniciaram um movimento em defesa da vida dentro de um partido de esquerda. A que corresponde a esta tendência?

Nestes momentos em que o Ocidente está amarrado a um bipolarismo simplista, é difícil encontrar um partido que represente todos os nossos valores. Por isso é tão importante que cada parlamentar, seja de que partido for, possa actuar em consciência. A Constituição italiana prevê que nenhum parlamentar seja submetido à disciplina de voto; com isso garante que cada um decida, em primeiro lugar, de acordo com a sua consciência, e depois segundo a posição concertada por todos os da coligação ou do partido a que pertence.

A verdadeira batalha em democracia está em defender a liberdade de consciência de cada deputado. Que todos possam decidir livremente o que, em consciência, crêem que é o melhor para o seu país. E que todos possam exprimir e promover os seus valores no seio do partido, e fora dele através de políticas transversais. Um país tem de ter a garantia de que cada deputado vota em consciência.

Este é o contexto em que nasceu o nosso grupo: queríamos defender a vida com absoluta clareza. Por isso insistimos na ideia de que há valores que não pertencem nem à direita nem à esquerda, mas sim à natureza humana e que se podem defender sem problemas num Estado laico.  

- Dá a impressão que esse "bipolarismo simplista" esquerda-direita, de que fala, tem muito peso no debate sobre o aborto.

Parece-me que o problema está mal formulado. A esquerda não se inclina para o aborto, mas sim para os direitos individuais. E aqui há uma deformação: é um erro colocar o debate sobre o aborto na perspectiva exclusiva do direito da mulher a decidir. Há outra parte implicada e, por isso, o debate deve colocar-se tendo em conta o direito à vida de todos. Como o filho é tão pequeno, a sociedade deve protegê-lo e conservar o seu direito à vida.

A esquerda enganou-se ao apresentar o aborto como um símbolo dos direitos humanos. Não podemos limitar-nos a defender o direito à vida do mais forte (a mulher), enquanto anulamos o do mais fraco (o filho).
 
 
Por este caminho, a esquerda acabará por se converter num movimento radical que nada tem a ver com os ideais de inclusão e protecção dos mais débeis.

Nestes momentos em que o Ocidente está amarrado a um bipolarismo simplista, é difícil encontrar um partido que represente todos os nossos valores. Por isso é tão importante que cada parlamentar, seja de que partido for, possa actuar em consciência. A Constituição italiana prevê que nenhum parlamentar seja submetido à disciplina de voto; com isso garante que cada um decida, em primeiro lugar, de acordo com a sua consciência, e depois segundo a posição concertada por todos os da coligação ou do partido a que pertence.

A verdadeira batalha em democracia está em defender a liberdade de consciência de cada deputado. Que todos possam decidir livremente o que, em consciência, crêem que é o melhor para o seu país. E que todos possam exprimir e promover os seus valores no seio do partido, e fora dele através de políticas transversais. Um país tem de ter a garantia de que cada deputado vota em consciência.

Este é o contexto em que nasceu o nosso grupo: queríamos defender a vida com absoluta clareza. Por isso insistimos na ideia de que há valores que não pertencem nem à direita nem à esquerda, mas sim à natureza humana e que se podem defender sem problemas num Estado laico.

- Dá a impressão que esse "bipolarismo simplista" esquerda-direita, de que fala, tem muito peso no debate sobre o aborto.

Parece-me que o problema está mal formulado. A esquerda não se inclina para o aborto, mas sim para os direitos individuais. E aqui há uma deformação: é um erro colocar o debate sobre o aborto na perspectiva exclusiva do direito da mulher a decidir. Há outra parte implicada e, por isso, o debate deve colocar-se tendo em conta o direito à vida de todos. Como o filho é tão pequeno, a sociedade deve protegê-lo e conservar o seu direito à vida.

A esquerda enganou-se ao apresentar o aborto como um símbolo dos direitos humanos. Não podemos limitar-nos a defender o direito à vida do mais forte (a mulher), enquanto anulamos o do mais fraco (o filho). Se se continua por este caminho, a esquerda acabará por se converter num movimento radical que não tem nada a ver com os ideais de inclusão, protecção do mais débil, luta contra a pobreza, promoção social... Esta contradição interna já está a passar a factura: não é por acaso que a esquerda perdeu eleições em toda a Europa.


- Amiúde diz-se que o debate sobre o aborto se trava nos parlamentos. Pelo contrário, a senhora propõe levá-lo para o terreno da cultura.

Na origem dos debates políticos sempre há uma ideia. Nestes momentos, a ideia que está a marcar grande parte da vida social é a concepção dos direitos individuais. Durante os últimos anos, tem-se exaltado tanto a autonomia individual que estamos prestes a transformar os desejos em direitos. É a lógica que leva a querer que se faça lei de tudo o que se deseja.

Esta ideia tem sido admitida noutros âmbitos como o direito, a economia, a política ou a ciência. É curioso: quando as pessoas simples vêem a mulher grávida em seguida reconhecem que aí há outra vida humana, a do filho. Pelo contrário, alguns cientistas envolvem-se em raciocínios retorcidos e introduzem a possibilidade de que essa vida não seja humana.

A essa distinção acrescentam outra perigosíssima: a diferença entre vida e "vida saudável". Enganam-se. O direito à vida não pode depender da saúde. Temos de aprender a defender a vida com capacidade técnica e científica, com solidariedade social e criativa.

- E que propõe para mudar essa concepção dos direitos?

É certo que durante muito tempo se desvalorizaram os direitos individuais. Mas agora caímos no extremo oposto. Devemos voltar a uma posição de maior equilíbrio, onde o direito individual se confronte sempre com a responsabilidade social.

Paradoxalmente, o homem que coloca os direitos individuais no centro da sua existência acaba mergulhado numa enorme solidão, em conflito permanente entre os seus direitos e os dos outros.

Nós propomos uma visão antropológica e social do homem como sujeito de relações. A autonomia é só uma parte da nossa vida; no princípio e fim dela, dependemos sempre do cuidado dos outros. O que nos faz humanos não é a autodeterminação, mas sim a capacidade de dar e receber. A vida é sempre relacional.» (publicado em aceprensa.pt)