Jornal de Negócios

30 março 2011

Ainda a tempo

«Portugal vive a maior crise económica e social das últimas décadas. E não é verdade que na sua génese esteja essencialmente uma crise internacional perante a qual pouco ou nada podíamos fazer. Nas próximas semanas não é sequer certo que consigamos fugir ao pedido de ajuda internacional.
 
De qualquer modo, este é o momento para fazer exame de consciência colectivo com um forte propósito de emenda de vida. É inútil pensar que o faremos sozinhos ou uns contra os outros. Ou nos mobilizamos todos para uma acção comum, dispondo-nos a escutar e aprender até dos adversários ou, em democracia, talvez já não tenhamos uma segunda oportunidade. Os totalitarismos os populismos e os anarquismos espreitam. E todos eles proliferam com o caos. É mentira que 48 anos nos tenham vacinado.» (...)

«Na campanha eleitoral de 2009 à esquerda e à direita foram muitas as vozes independentes que chamaram a atenção para a necessidade de conter, enquanto ainda era tempo, o rolo compressor da dívida (pública e externa), alertando para a necessidade de pôr travão aos planos megalómanos dos grandes investimentos públicos devoradores do pouco crédito ainda disponível para a economia. Não as quisemos ouvir.» (...)

«A máquina de propaganda governamental conseguiu, com inegável sucesso e profissionalismo, fazer da mentira um sonho que o povo preferiu escutar como o canto da sereia em alternativa ao apelo à mudança de vida» (...)

«Acresce a perigosa crise social traduzida num disparo da taxa de desemprego para mais de 11 por cento fazendo que o balanço da promessa eleitoral de 2005 (criação de mais 150 mil postos de trabalho) se tenha traduzido numa fatídica criação de mais 180 mil novos desempregados. E cresceu também, de forma exponencial, a precariedade do emprego. Hoje 55 por cento do emprego abaixo dos 24 anos é precário.» (...)

«Nos últimos dias , como Mário Soares no DN, Maria João Rodrigues, no i , e João Carlos Espada no Público (a quem roubei a ideia inicial deste texto) foram muitas as vozes a apelar ao bom senso e à VERDADE, e a uma cidadania activa e não resignada, vale a pena por uma vez ouvi-las. Se não for agora não nos poderemos queixar de já não ir a tempo.» 
Graça Franco, na RR.

Pátio dos gentios

(...) «Fala-se muito em manifestações, mas a mais poderosa que vi, nos últimos anos, em Lisboa, foi quando esteve cá Bento XVI. Costumo dizer aos meus amigos católicos: “Se vocês estão em crise, deixem-se estar em crise… Porque se isso é a vossa crise – meio milhão de pessoas na baixa de Lisboa – eu não vos quero ver com força”» (Henrique Raposo, politólogo, no Pátio dos gentios)

28 março 2011

Abissus abissum

(...) «José Sócrates e o PS foram os grandes escavadores do abismo. Não fizeram outra coisa nos últimos seis anos, com ajuda de outros escavadores nos últimos quinze. 
O gigantesco buraco que escavaram ficou a olhar para cima com uma pantagruélica, incomensurável boca, na qual um dente de falso ouro, engana os que o olham de cima, atraídos pela luz escassa, que ilude o escuro das profundezas. Luz que parece prometedora, a luz do poder. T
ambém já foi dito: quando alguém olha para o abismo, o abismo olha também de volta. Invocat. Chama. E O PSD atirou-se, iludido pelo falso ouro, e pelas vozes. Duvido que alguém saiba muito bem o que está lá no fundo. » (...) (JPP, no Abrupto)

23 março 2011

Crescer ou desaparecer (mesmo a propósito)

Alfonso Aguiló, professor, artigo em Hacer Familia:

«W. Shakespeare escreveu que o único caminho para chegar à maturidade, é aprender a aguentar os golpes da vida.

Porque a verdade é que a vida, gostemos ou não, dá-nos sempre alguns golpes. Dá egoísmo, maldade, mentiras, faltas de reconhecimento; assistimos com assombro ao mistério da dor e da morte; verificamos os defeitos e limitações dos outros, e também os verificamos em nós, todos os dias..

Toda esta experiência, dolorosa, pode fazer-nos crescer e amadurecer, se o soubermos assumir. A chave da solução é saber aproveitar as pancadas para lucrar com o valor - oculto - que encerra tudo aquilo que nos contraria; conseguir que a nós nos melhore, aquilo que a outros provoca desalento e tristeza.

E porque será que aquilo que afunda algumas pessoas, faz outras crescer e amadurecer? Depende de como se recebem estes revezes. Quando não se consegue reflectir sobre eles, ou se reflecte sem senso, sem os abordar correctamente, não só se perde uma excelente ocasião para crescer, como até pode ter o efeito contrário.


A falta de auto-conhecimento ou de capacidade de reflexão, o vitimismo, a revolta inútil, tornam as pancadas da vida mais dolorosas e delas não retiramos nenhuma aprendizagem, apenas más experiências.


A experiência de vida é inútil, se não soubermos como aproveitá-la. Só a mera passagem do tempo não transforma ninguém em sábio.  (...)


Aprender a enfrentar a realidade pressupõe aprender que há coisas que nos frustram, desejos intensos que nunca se cumprirão, amigos que são desleais, tristezas que nos caiem em cima por causa dos nossos defeitos e limites, ou dos defeitos alheios.


Por mais que os outros nos ajudem, é a nós que cabe suportar a dor destas situações e produzir o esforço necessário para superar estas frustrações.


Uma típica manifestação de imaturidade é o desejo descompensado de ser admirado. A pessoa que tem como objectivo de vida receber demonstrações de apreço, que faz disso o centro, e a angústia, dos seus dias, torna-se num dependente psicológico, cada vez mais afastado do sentido real do afecto e da amizade.


(...) Saber encaixar as pancadas da vida não significa ser insensível. Tem a ver com a aprendizagem de saber não pedir à vida mais do que ela pode dar, de saber respeitar os outros, estimando aquilo que os torna diferentes de nós, em saber ceder, e ser paciente. Isto não significa ser conformista, ou abdicar das nossas convicções. (...) 
Simplesmente é preciso ter os pés na terra para entender quer tudo o que tem valor resulta de um esforço continuado, que demora tempo. Temos que ter paciência também connosco, porque senão nunca amadureceremos. 


Mas sobretudo é preciso desenvolver uma paciência muito especial para com com o atrito da realidade que nos cerca. Se queremos que à nossa volta as coisas melhorem, precisamos se suportar muitos contratempos, sem cair na amargura. É pela paciência que nos tornamos donos de nós próprios, que conseguimos permanecer serenos, porque temos visão de futuro e conseguimos manter a alegria no meio das tempestades.»

21 março 2011

Tecnoleitura

O armário

(...) «Louçã e companhia, na sua falta de gratidão e respeito pelo passado, gostariam de esconder os antigos combatentes, fechá-los num armário para que eles não apareçam, porque são a memória de um tempo iníquo. E dizem-se eles democratas e liberais. Não vejo onde.» (Pedro Lomba, no  Público, de 17 de Março)

18 março 2011

«Sair do socialismo com dor»


No Jornal de Negócios, Fernando Braga de Matos:

«este socialismo de ventre mole que não compete com o capitalismo de Estado da China, nem com a social democracia de mercados altamente competitivos, nem com o liberalismo americano»

(...) «Sabemos agora, de maneira extremamente penosa mas definitiva, que este modelo esclerótico não funciona e que já caminhava para a ruptura há 15 anos, como demonstrava o famoso gráfico de Medina Carreira, exibido vezes sem conta pelo ecrã de TV para todos verem o despudor: economia catatónica + despesa em crescimento anual de vários pontos percentuais = falência.

Para sair dolorosamente da nossa cruz, ouço falar de novos paradigmas salvadores, mas como já estão todos vistos ao longo da História do mundo, muito em particular nos últimos 200 anos, deve tratar-se de alguma religião nova, tipo Cientologia, trazida do espaço sideral por seres verdes, mas não necessariamente ecologistas.

Para mim, cidadão monótono e pouco dado à fantasia, basta-me a evidência empírica para assegurar que resulta o que resultou, falha o que falhou, arranja-se o que é susceptível de arranjo, e o resto são fantasias.


Querem saber quais são os nove países mais avançados do mundo, no Índice do Instituto Legatum (citado por Fareed Zacaria, na Time), o qual considera a riqueza material e a qualidade de vida? Noruega, Dinamarca, Finlândia, Austrália, Nova Zelândia, Suécia, Canadá, Holanda e Suíça , por esta ordem (1).

Em todos eles há mercados fortemente competitivos, intervenção mínima do Estado na economia, cheques-ensino, estímulo a sistemas mistos de saúde, sistemas de Segurança Social com base também na capitalização, a chamada flexisegurança, horrores a que aqui chamam neoliberalismo. (...)
(1) Os EUA são o 10º.

«Só as ditaduras se justificam pelo "conteúdo"» ...

«O eng. Sócrates comprometeu Portugal em Bruxelas com o PEC IV, sem comunicar coisa alguma ao Parlamento, ao Presidente da República, aos partidos da oposição e aos parceiros sociais.

Quando umas tantas pessoas protestaram, o eng. Sócrates respondeu, indignadamente, que o que lhe importava não era a "forma", era o "conteúdo" do que fizera.

Só em Portugal esta explicação poderia ter passado sem um escândalo maior, ou mesmo sem a demissão imediata do primeiro-ministro. (...) A democracia é "forma". Só as ditaduras se justificam pelo "conteúdo".» (...) Vasco Pulido Valente, no Público.


17 março 2011

"Portugal é o país da europa onde os homens se reformam mais tarde"

«Portugal é o país da Europa onde os homens se reformam mais tarde, aos 67 anos e dois anos depois da idade legal de reforma, segundo o relatório da OCDE 'Pensions at a Glance', hoje divulgado.

Para este cálculo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) utilizou a idade média de reforma efectiva entre 2004 e 2009 dos 30 países que integram a organização.» (...) No Sol.

14 março 2011

12 março 2011

os 33

O jornalista (Jonathan Franklin) que esteve com os mineiros soterrados no Chile (no i), a propósito do seu relato no livro "Os 33" :
(...) «Eu sou muito optimista e acredito mesmo no altruísmo. Acredito que as pessoas fazem coisas boas não porque são pagas para isso, mas porque é a coisa certa para fazer. A maioria das pessoas faz coisas pelas razões certas e para mim, isto confirmou muitos dos sentimentos que eu tenho perante a vida no geral e perante a minha vida de jornalista. 
No Camp Hope [nome de baptismo para a zona da mina] não havia jornalistas neutros. Se o cabo se tivesse partido e aqueles dois mil jornalistas tivessem que ajudar, eles teriam agarrado no cabo e puxado os mineiros até à superfície. Para mim isto foi o anti-11 de Setembro. Como jornalistas, focamo-nos sempre nas guerras e nos tornados e as coisas más mas em todas as partes do mundo há voluntários, há gente que vai a escolas ensinar crianças ou a hospitais. 
Acho que há muito mais altruísmo no mundo do que as pessoas pensam e acho que isto foi um breve momento em que foi possível ver que as pessoas têm coisas boas dentro de si.  As pessoas esquecem-se disso. Pega-se no jornal e lê-se sobre as reservas de petróleo que o Kadhafi bombardeou, mas também há pessoas que estão com certeza a trabalhar como voluntárias num hospital de Trípoli. 
Para mim, isto confirmou que há muito mais boa vontade no mundo e que a imprensa não está a fazer um bom trabalho a ensinar isso.» (...)

09 março 2011

Para ler

JPP, no Abrupto, irritante como de costume, mas realista: 

(...) «As condicionantes que hoje existem para Sócrates serão as mesmas que terá Passos Coelho na governação, as mesmas ou piores. Basta pensar um pouco, exercício que não faz muita gente no PSD que acha que as portas dos ministérios estão escancaradas à sua frente a cada sondagem favorável e que não percebe por que é que não se entra já por aí dentro para ocupar os gabinetes e os carros do Estado e acrescentar um título pomposo aos cartões-de-visita novos em folha para distribuir na terra.
Pensando-se, chega-se à conclusão de puro bom senso que, mesmo que haja algum estado de graça num novo Governo e alguma distensão sem Sócrates, e, na possibilidade de haver uma maioria absoluta de dois partidos, um passo muito positivo para a governação, tudo o resto que condiciona a governação hoje continuará na mesma. 
Em particular continua na mesma a necessidade de fortes programas de austeridade, com as consequentes efeitos de agitação e perturbação social, potenciados por uma esquerda ainda mais enraivecida e um PS ressabiado pela queda. Ou será que alguém pensa, no PSD, que se vai mentir nas eleições, prometendo qualquer "esperança" virtual no fim próximo do túnel? Pelo contrário, a única linguagem séria é falar verdade aos portugueses, essa palavrinha que tanto irritava Sócrates e os seus aliados no PSD contra Ferreira Leite.

A única alteração qualitativa neste cenário seria um acordo consistente, duradouro, firmemente ancorado no voto popular e parlamentar, que comprometesse PSD, PS e CDS, algo hoje muito improvável, mesmo na situação desesperada actual. 
Por isso, este vosso autor que sempre se opôs a qualquer variante de "bloco central" (e que obviamente entende que não é isso que está a propor), tem poucas dúvidas de que, sem um entendimento desta natureza de boa-fé e sólido que compreenda questões constitucionais, de governação, de reorganização administrativa do país, de mudanças profundas na justiça, na legislação do trabalho, na fiscalidade e nos impostos, ou seja, em quase tudo o que pode ser bloqueado ou pelo PS ou pelo PSD na oposição, não vamos lá. Nem nós, nem eles, nem todos. 
Xeque-mate em meia dúzia de jogadas, ou alguém atira os tabuleiros ao chão e a parte democrática do jogo soçobrará na demagogia e depois na anarquia. Já estivemos mais longe»