Jornal de Negócios

14 abril 2011

A ditadura mole

Henrique Raposo, no Expresso:
(...) «Portugal, 2011: uma jornalista da Lusa foi saneada depois de ter recusado cumprir uma ordem de um assessor de José Sócrates. 
O meu país em 2011: uma jornalista foi demitida por não ter noticiado uma coisa que, vejam bem, ainda não tinha acontecido. Este é o último episódio de uma longa lista que comprovam uma coisa: José Sócrates é um perigo para a liberdade de imprensa. 

Mas o que é ainda mais perigoso é o silêncio dos jornalistas em relação a estes casos. Ontem, os telejornais não colocaram este caso em destaque (e, se calhar, nem sequer falaram do caso), e os jornais de referência (no online) não falaram do assunto. O dito assunto só circulou nas redes sociais. 

Ora, uma jornalista é saneada por razões políticas, e os outros jornalistas não falam disto? O que se passa aqui? Expliquem isto como se eu fosse muito burro.» (...)

13 abril 2011

Existir

Pascal afirmava, em estilo de provocação, que o ser humano é tão idiota que, se lhe repetirmos que é idiota, ele acabará por acreditar nisso ...

 Podemos dizer o mesmo de muitas outras etiquetas com que podemos rotular, não só os outros, como a nós próprios.

Olhando os últimos cem anos de história, veremos que houve quem se atrevesse a dizer que havia seres humanos "superiores" e "inferiores", e que, desgraçadamente, houve quem acreditasse. O desprezo pelas outras "raças" levou a guerras suicidas, na Alemanha e no Japão, e a derrotas terríveis.

Outros, com mais refinamento, e sem usar altifalantes para agitar as massas, convenceram os intelectuais, os médicos e os psicólogos, de que o homem não passava de uma estrutura com apenas dois instintos básicos: a morte e o sexo. Freud arrebanhou milhões de homens e mulheres que aceitaram ser apenas indivíduos fragmentados entre o Eu, o Inconsciente e o Super Eu, e que procuraram com determinação a "unificação" destas partes na libertação do sexo e do oculto que se escondia neles.


Outros ainda, com o volumoso livro de "O Capital" de Marx debaixo do braço, convenceram massas imensas de gente de uma única "grande verdade": a economia é o que determina todas as formas de pensamento, da arte à religião, passando pela política. Com este dogma procuraram criar um paraíso na terra e acabaram a semear o planeta de milhões de mortos,  entre guerras absurdas e assassinatos para eliminar os "reaccionários", ou simplesmente mortos de fome pelo mau funcionamento da economia comunista.

Houve ainda quem se empenhasse em exaltar a liberdade. Liberdade que, por si mesma, traria um maior poder de aquisição porque o que de melhor o homem poderia fazer - dizem eles - é consumir e desfrutar. Os defensores do liberalismo inundaram o mundo de ilusões, mas não eliminaram as enormes injustiças com que o novo século se continua a defrontar. Também não conseguiram saciar este ser humano inquieto que, contra todas as previsões, se mantém insatisfeito, caindo no desespero e até no suicídio, mais frequentes nos países ricos, carregados de prazeres e liberdades.


A neste momento, como nos vemos a nós próprios? O que é que nos dizem sobre o ser humano aqueles que carregam consigo a cultura, a ciência e os meios de comunicação de massas?

É difícil fazer uma síntese de todas as vozes que pretendem ter descoberto o segredo do nosso misterioso existir. Para alguns, somos simplesmente como um cancro do planeta que seria preciso eliminar (não falta quem esteja disposto a isso em muitas maternidades do mundo).

Para outros, somos apenas sedentos de prazer, e não faltarão cada vez mais produtos, novos e sofisticados (drogas incluídas) para nos satisfazer em tudo quanto peçamos (desde que tenhamos dinheiro, claro).

Há até quem diga que somos apenas um sistema computorizado que caiu na esparrela de julgar que pode decidir livremente. Por isso, para nos "corrigir" deste "erro", eles terão que nos ajudar (isto é, terão que nos programar) para que passemos a ser "bons", isto é, a obedecer ao programa e aos programadores.

Há ainda quem ache que somos apenas um absurdo: como dizia Sartre, nascemos por erro, vivemos por inércia e morremos de aborrecimento ...
 
Para a maioria das pessoas, somos um mistério, mas um mistério impossível de decifrar. Um mistério que começou porque um homem e uma mulher se amaram; que continuou, porque houve outros que nos acolheram e nos aceitaram. E agora continua. Continua, não porque o mero peso dos anos nos empurre para sobreviver, ou  apenas a ir e vir do emprego, ou a gastar tempo com a tv. Continua e caminha porque ama os que dele dependem, pais, filhos, mulher, marido, amigos, colegas de trabalho ... Só o amor consegue extrair o sentido de tantos momentos de cansaço, e de dor, que só valem na medida em que nos fazem crescer na capacidade de dar aos outros.

Às pessoas do milénio que acabou, e às do milénio que começou, é preciso repetir - hoje como sempre - que  o seu valor tanto quanto o amor que tiverem.

Se o repetirmos (aos outros, e a nós próprios), talvez consigamos entender que não somos apenas uns pobres idiotas, mas alguma coisa mais. 

Talvez então tenha, finalmente, aquele brilho que permite acolher todos os outros que, também, começaram a viver a partir do amor, e para o amor.»

.Comentarios para o autor fpa@arcol.org, do livro "Abrir Ventanas al Amor", de Fernando Pascual.

"Mudar de vida"

Público, João Carlos Espada, 11-04-2011:

«O pedido de ajuda de Portugal à União Europeia acabou por acontecer, como era de esperar. Também era de esperar o frenesim de comentários e debates sobre o tema, a atribuição de responsabilidades, e as acusações mútuas. O apelo de 47 personalidades a um compromisso nacional, divulgado no passado sábado, foi uma excepção inspiradora no actual clima nacional.

Não creio que haja muito mais a dizer sobre tudo isto. A trajectória que nos conduziu à humilhação presente não começou com a queda do Governo, nem com esta ou aquela peripécia. Começou na última "década perdida" - como justamente tem sido chamada -, em que Portugal não teve praticamente crescimento económico e voltou a afastar-se da média europeia.

Não haverá qualquer solução duradoura para a nossa aflição orçamental, se não forem enfrentadas as causas da estagnação económica da última década. Essas causas são relativamente simples e têm sido mencionadas pela generalidade da imprensa de qualidade internacional, com particular destaque para The Economist e The Wall Street Journal. No entanto, elas não parecem dominar a nossa atenção. (...)

Portugal tem o mercado de trabalho mais rígido do mundo desenvolvido, como vem repetindo The Economist, e não tem um mercado de arrendamento. Em contrapartida, tem uma burocracia pesada que dificulta qualquer movimento, um Estado intrometido que favorece uns e desfavorece outros, uma carga fiscal ridiculamente elevada, um sector empresarial público totalmente desnecessário e perdulário. Numa palavra, somos uma democracia política europeia e ocidental com hábitos económicos orientais (...)

(... ) o meio mais efectivo de melhorar as condições de vida de todos reside uma vez mais na concorrência. É esta que introduz uma pressão constante para a baixa dos custos de produção e melhoria da qualidade de bens e serviços. É esta pressão para a baixa dos custos que torna acessíveis ao maior número de pessoas bens e produtos que outrora só eram acessíveis a poucos. 
 
Este foi o motor do crescimento das classes médias no Ocidente nos últimos dois séculos, e este tem sido o motor que nas últimas três décadas tem retirado da pobreza milhões de pessoas na Índia e na China, bem como, em regra, nos países pobres que abriram os seus mercados à troca global.

Porque negámos estas observações elementares, tivemos na última década um crescimento irrelevante. Vamos agora pagar essa audácia, já começámos a pagá-la, com programas de austeridade que a década perdida tornou incontornáveis. Mas a austeridade não resolverá os problemas do país, se não for acompanhada de reformas estruturais que permitam a criação de riqueza.
Numa palavra, precisamos, como se costuma dizer, de mudar de vida.» (...)

12 abril 2011

Quem nos avisa ...

No i (entrevista a um professor de economia, grego, da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa):

(...) «Mesmo que tudo corra bem, e no melhor dos cenários, em 2013 a Grécia terá uma dívida de 160% do PIB. É impossível que isto funcione.

Por isso eu acho que a Grécia a certa altura vai ter de restruturar a dívida. A questão é perceber se é melhor reestruturar agora ou mais tarde. O que mais me preocupa é que os cortes salariais e o aumento de impostos lançaram o país numa recessão mais profunda que o esperado.

As receitas fiscais e as contribuições sociais baixaram e é preciso pagar mais em benefícios para o desemprego. Isto criou mais pressão para conseguir mais dinheiro, o que leva a um novo aumento de impostos e a mais recessão.

É um círculo vicioso. Falta um incentivo para a promoção de crescimento.» (…)

11 abril 2011

psicose colectiva

Pedro Afonso, médico psiquiatra, no Sol (8-04-2011):

(...) «Sou de uma geração de psiquiatras que, devido aos avanços farmacológicos, ao longo dos últimos anos tem assistido com entusiasmo à diminuição dos internamentos de doentes com patologias psiquiátricas mais graves.

Simultaneamente presencio, com perplexidade e impotência, ao aumento de internamentos de indivíduos com "doenças sociais", para as quais os psicofármacos não têm solução. Mas como é que se promove a alienação de uma sociedade?

As enfermarias psiquiátricas enchem-se quando se transmite aos portugueses a ideia delirante de que o trabalho não é o único meio para alcançar a riqueza e o progresso; ou seja, quando se divulga a ideia de que o dinheiro se pode multiplicar indefinidamente, desligado de uma riqueza de índole natural.

Com esta mensagem, arrojada e moderna, gerou-se uma ânsia facilitista, alimentada por um consumo crescente e um crédito fácil. O indivíduo inconformado com a sua pobreza, foi instigado a lutar contra a injustiça capitalista, endividando-se compulsivamente, sem compreender que, com este acto irreflectido, estava a destruir-se a si mesmo.

O consumo serviu, durante algum tempo, para anestesiar a dor e o sentimento de revolta de quem sempre trabalhou muito e enriqueceu pouco. Portanto, foi-se mantendo o povo, absorto e adormecido, nesta frivolidade materialista. O Estado, indolente e anafado, aparentemente nada fez para contrariar esta alienação, parecendo até que desejava mantê-la. E o atrevimento foi grande. Recorrendo a uma máquina de propaganda bem montada, multiplicaram-se as cerimónias faustuosas de consagração pública de um paraíso e bem-estar que, na verdade, nunca existiram.

E foi neste ambiente tresloucado que surgiram dois tipos de posturas políticas: os que procuravam defender a realidade e os que promoviam a alienação. Enquanto os primeiros mostravam-se abertos a reavaliar as suas opiniões, à medida que se confrontavam com a consistência dos factos, os segundos apresentavam a extraordinária capacidade de perseverar na fantasia e de incorporar no discurso político todas as contradições que inevitavelmente acabavam por surgir.

Curiosamente, foram "os mercados" (os mesmos que meses antes se dedicavam a alimentar a ilusão da nossa falsa riqueza) que terminaram com a disputa entre as duas visões políticas.

Convém reconhecer que os urdidores da política fantasmagórica, que grassou entre nós, deram provas de uma grandiosa perícia: fizeram crer que Portugal necessitava urgentemente de um "homem novo", preferencialmente laico, doutrinado pelo Estado, desvinculado da família, relativizando o valor da vida humana e defendendo com ardor uma moral subjectiva. Foi com a alegria própria de um sábio e a segurança de um déspota que nos disseram que o país necessitava de grandes reformas, já que estava dominado por um enorme atraso social e submetido a um feroz pensamento retrógrado. Mas em vez de destruírem o atraso, destruíram as mentes sadias de muitos portugueses.» (...)

05 abril 2011

Diagnóstico e prognóstico imediato

No Jornal de Negócios, Pedro Santos Guerreiro:


«Santos Ferreira, na
 TVI, deu em dez minutos um banho de realidade a Portugal. José Sócrates, na RTP, deu uma hora de banhada. O primeiro-ministro descolou da realidade, zarpou para dentro de um cubo caleidoscópico onde só ecoa a sua voz. Vê-se e dá pena. Pena de nós.» (...)

O Estado faliu (já se sabia)

No Sol:  
(...) «de acordo com o Jornal de Negócios, agora são os bancos nacionais que estão indisponíveis para comprarem mais dívida.
Os líderes dos maiores bancos portugueses reuniram ontem no Banco de Portugal e decidiram que não vão emprestar mais dinheiro ao Estado.

(...) A banca apresenta, contudo, uma alternativa: nos próximos dias, o Estado deverá pedir um empréstimo intercalar de 15 mil milhões de euros à Comissão Europeia.

Este auxílio será suficiente até ao fim de Junho, altura em que o Governo que sair das próximas legislativas deverá solicitar a ajuda do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (ao qual o Fundo Monetário Internacional está associado).» (...) 

Os super-pais existem :-)

Aqui. (10 min, TVI)

04 abril 2011

Eleições: campanha custo zero


«O Movimento Esperança Portugal (MEP) anunciou hoje que vai apresentar listas às próximas legislativas em todos os círculos eleitorais e que lançou uma petição para que os partidos prescindam da subvenção pública para a campanha eleitoral.» (...) No i.

Projecto "Cérebro Feliz"

O que acontece no cérebro quando nos rimos ...

Realidades

Silva Peneda, ao Diário Económico: 

(...) «O presidente do Conselho Económico e Social (CES) considerou hoje "erradas" as políticas de redução da procura interna da UE e do FMI.

"Não concordo com as políticas de redução da procura interna, que é receita da União Europeia (EU) e do Fundo Monetário Internacional (FMI)", já que "a pressão sobre o desemprego será enorme", afirmou Silva Peneda, na Conferência 'Novas Vestes da União Europeia?', na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

"A redução da procura interna será irresponsável", frisou.

Para o responsável a disciplina orçamental de cada Estado-membro tem de ser feita com alguns cuidados: "Sendo necessária uma forte disciplina orçamental, não pode ir ao ponto de impedir o crescimento económico", afirmou Silva Peneda, que se mostrou preocupado com a situação que vive Portugal mas também a União Europeia.

"O meu 'rating' passou de preocupado a desesperado", garantiu.

Para o responsável, a saída para a crise que o país atravessa passa pelo impulso à produção de bens e serviços transaccionáveis, o que deve mesmo passar pela concessão de benefícios. »(...)

Portáteis - cuidados preventivos

30 março 2011

Ainda a tempo

«Portugal vive a maior crise económica e social das últimas décadas. E não é verdade que na sua génese esteja essencialmente uma crise internacional perante a qual pouco ou nada podíamos fazer. Nas próximas semanas não é sequer certo que consigamos fugir ao pedido de ajuda internacional.
 
De qualquer modo, este é o momento para fazer exame de consciência colectivo com um forte propósito de emenda de vida. É inútil pensar que o faremos sozinhos ou uns contra os outros. Ou nos mobilizamos todos para uma acção comum, dispondo-nos a escutar e aprender até dos adversários ou, em democracia, talvez já não tenhamos uma segunda oportunidade. Os totalitarismos os populismos e os anarquismos espreitam. E todos eles proliferam com o caos. É mentira que 48 anos nos tenham vacinado.» (...)

«Na campanha eleitoral de 2009 à esquerda e à direita foram muitas as vozes independentes que chamaram a atenção para a necessidade de conter, enquanto ainda era tempo, o rolo compressor da dívida (pública e externa), alertando para a necessidade de pôr travão aos planos megalómanos dos grandes investimentos públicos devoradores do pouco crédito ainda disponível para a economia. Não as quisemos ouvir.» (...)

«A máquina de propaganda governamental conseguiu, com inegável sucesso e profissionalismo, fazer da mentira um sonho que o povo preferiu escutar como o canto da sereia em alternativa ao apelo à mudança de vida» (...)

«Acresce a perigosa crise social traduzida num disparo da taxa de desemprego para mais de 11 por cento fazendo que o balanço da promessa eleitoral de 2005 (criação de mais 150 mil postos de trabalho) se tenha traduzido numa fatídica criação de mais 180 mil novos desempregados. E cresceu também, de forma exponencial, a precariedade do emprego. Hoje 55 por cento do emprego abaixo dos 24 anos é precário.» (...)

«Nos últimos dias , como Mário Soares no DN, Maria João Rodrigues, no i , e João Carlos Espada no Público (a quem roubei a ideia inicial deste texto) foram muitas as vozes a apelar ao bom senso e à VERDADE, e a uma cidadania activa e não resignada, vale a pena por uma vez ouvi-las. Se não for agora não nos poderemos queixar de já não ir a tempo.» 
Graça Franco, na RR.