Jornal de Negócios

16 junho 2011

Malabarismo numérico

Num artigo publicado na Nature, o jornalista inglês Fred Pearce, especialista em temas de desenvolvimento, defende que a ONU está a fazer projecções de população ocultando os dados reais:

(...)
«Embora ainda não tenha sido tornado público o Relatório sobre a População que se realiza de dois em dois anos, as Nações Unidas avançaram alguns dos dados da última revisão. O que chamou mais a atenção dos especialistas foi a projecção demográfica para 2100: segundo a ONU, prevê-se que no final do próximo século a população mundial alcance os 10.100 milhões de habitantes.

Diversamente de outras revisões, na actual, a estimativa é feita para mais de 50 anos e é significativamente mais elevada do que a anterior, que previa um máximo de 9.150 milhões de pessoas até meados do século. Agora, para 2050, prevêem-se 9.300 milhões sem diminuição posterior.


Segundo Fred Pearce, a última revisão prevê uma nova "bomba demográfica" e obedece "mais a critérios políticos que a uma análise científica".


Com efeito, se "hoje as taxas de fecundidade são ligeiramente mais baixas que as estabelecidas nas anteriores estimativas", a pergunta é qual o motivo de "se projectarem agora taxas de crescimento significativamente mais elevadas do que há dois anos". À falta da publicação completa do relatório, a ONU veio a terreiro pronunciar-se sobre esta divergência, argumentando que se deve a "uma revisão em alta das previsões de fecundidade", embora, como se encarrega de recordar Pearce, essa revisão não tenha em conta que as taxas estão a baixar rapidamente.

A diferença entre as estimativas anteriores e a actual corresponde, segundo o autor, a uma decisão que não resiste a provas empíricas. Neste sentido, deve ter-se em conta que nas projecções demográficas a longo prazo, é utilizada uma variante média convergente. "Durante muitos anos -explica Pearce- os demógrafos pensavam que a fecundidade mundial se dirigia inexoravelmente para a taxa de substituição de gerações dos países desenvolvidos (2,1 filhos por mulher)".

No entanto, as taxas de fertilidade nos últimos trinta anos caíram em grande parte do mundo, sobretudo nos países desenvolvidos, o que obrigou a modificar o valor da média utilizada. Como indica Pearce, a divisão da ONU encarregada das análises demográficas decidiu em 2003 que a variante média deveria situar-se em 1,85. "Tratava-se de um compromisso -conta Pearce-. Alguns argumentavam a favor da manutenção de 1,6, enquanto outros queriam conservar 2,1. Este último grupo pensava que uma estimativa para a baixa enviaria a ‘mensagem errada' de que já não tínhamos que nos preocupar com o aumento da população".

Assim, enquanto nas últimas revisões demográficas se utilizou uma variante média convergente de 1,85, para a projecção demográfica de 2011, a ONU regressou a 2,1. Deste modo, prevê-se "que nos países com taxas de fecundidade mais elevadas, estas irão reduzir-se até 2,1, pelo menos, enquanto os países com níveis mais baixos irão aumentar o seu nível até chegar ao de substituição de gerações".


Para Pearce, todavia, não existe nenhum dado empírico que justifique a mudança de valor da variável. Apesar disso, a ONU insiste em que as suas novas previsões são mais verosímeis, pois se optou por um enfoque "mais probabilístico". A análise baseia-se na ideia de que a longo prazo, as taxas de fecundidade irão alcançar o nível de substituição das gerações, mas como as tendências demográficas desafiam esta suposição, Pearce conclui que se trata de uma decisão política.

Mas porque são tão relevantes em termos políticos estas estimativas? "Os planos para enfrentar uma série cada vez maior de problemas mundiais -concretamente, a mudança climática e a política alimentar- baseiam-se nas projecções demográficas que a ONU realiza". E se, tendo em conta os dados anteriores, os especialistas duvidavam da possibilidade de alimentar 9.000 milhões de pessoas, as dúvidas agora vão multiplicar-se. A existência de uma possível bomba demográfica justificaria em última análise algumas políticas anti-natalistas.» (...)

Em aceprensa.

18 maio 2011

Intolerâncias

«Colin Atkinson está a passar as passas do Algarve em terras da sua graciosa majestade britânica. Com efeito, foi-lhe instaurado um processo disciplinar pela Wakefield and District Housing, de que é, desde 2006, funcionário. 

O motivo é insólito, porque este electricista não falta ao trabalho, não é incompetente, não desrespeita os patrões, não implica com os colegas, não é indelicado com os clientes. O crime de Atkinson é ser cristão e ter o atrevimento de usar uma singela cruz no parabrisas do carro de serviço. Se fosse uma figa, uma ferradura ou um peluche, ninguém se incomodaria, mas uma cruz é, pelos vistos, intolerável e, por isso, Colin Atkinson corre sérios riscos de ser posto na rua, mas desta vez sem a viatura.

É da praxe, em certos veículos pesados, a exibição de «posters» de muito mau gosto, mas ninguém fica perturbado pelo facto, nem é razão para uma sanção laboral. Que uma pessoa ande escandalosamente trajada na via pública – seja uma mulher de barriga ao léu, ou um rapaz de cuecas à mostra – não é tido por indecente. Mas se um crente usar um discreto símbolo religioso, é logo acusado de agredir o próximo, nomeadamente quantos não professam a sua religião.

 Para a responsável Jayne O’Connell, a pequena cruz que Colin Atkinson usa no seu carro poderia ofender as pessoas e é política da Wakefield and District Housing «ser respeitosos com todas as confissões e pontos de vista». Menos o cristão, claro. 

Diga-se de passagem que tem o seu quê de absurdo este dogma laicista. Porque carga de água uma cruz há-de ser insultuosa para os não cristãos, se nenhum cristão se sente ultrajado por um crescente, ou por uma estrela de David? E porque não entender que um amuleto é também ofensivo, não apenas para a fé, mas também para a razão? E as orquestras, não serão acintosas para os surdos? E os museus, não são também, vistos por esse prisma, desrespeitosos para com os invisuais? Será que as fotografias dos familiares do anfitrião são indelicadas para os seus convidados, só porque não são os parentes deles? Ou seria desejável que o dono da casa retirasse todos os retratos de família, cada vez que recebe alguém?» (...
(Gonçalo Portocarrero, Público, 16 de Maio)

Semelhanças e diferenças

«Semana de trabalho lusa tem mais horas do que alemã ou finlandesa. Mas o que sai das empresas não tem o valor acrescentado de um BMW ou de um Nokia. Reside aqui a falta de competitividade portuguesa.»
(João Paulo Madeira, no Sol)

Aviso aos ingénuos

JPP, irritante e lúcido: 
 
«Existe com Louçã a deferência de que ele é quem mais sabe de economia, dadas as suas qualificações académicas, e por isso toma-se a sério o que diz quando fala de economia. 
 
É um erro considerável, dado que o problema com Louçã e o BE é político e não económico. As propostas do BE não mostram qualquer especial saber económico; se as pensarmos no quadro da economia de mercado, são pura e simplesmente estapafúrdias, irrealistas e absurdas. 
 
Nenhuma proposta do BE é exequível no quadro de uma economia de mercado ou, para usar as palavras como se deve, em capitalismo. 
 
Não é difícil fazer um exercício sobre o que aconteceria ao país se o BE pudesse governar em seis meses aplicando o seu programa: o que mudava era o regime político, sair-se-ia da democracia e entrar-se-ia numa variante qualquer de ditadura.»

17 maio 2011

"As causas não se devem à moeda única"

(...) «Jean-Claude Juncker considera que a crise económica da Grécia é mais difícil de resolver do que as de outros membros da Zona Euro. No entanto, considera incorrecto comparar os problemas económicos de Atenas com os de Lisboa ou de Dublin. “As causas, em cada um deles, são muito diferentes e não podem ser atribuídas à moeda única”, sublinhou.» (No Jornal de Negócios)

16 maio 2011

o elo mais fraco


(...) «Os direitos dos cidadãos estão consagrados na Constituição e em leis. Mas isso não impediu a redução desses direitos, mais ou menos disfarçadamente.

Qualquer um de nós, incluindo até quem trabalha na Administração Pública, sabe que o despedimento ou é ou pode ser a breve prazo muito mais fácil, que a saúde não é gratuita, que a pensão de reforma está muito longe de ser garantida, que o subsídio de desemprego vai emagrecer cada vez mais... Tudo direitos dados como adquiridos, consagrados na Lei e na Constituição, que facilmente vão desaparecendo.

Há notícia de alguém ter recebido alguma indemnização por ter visto os seus direitos reduzidos? Claro que não.

Em contrapartida, os contratos - meros contratos entre duas partes - apresentam-se com a força que a teoria dá à Lei e à Constituição. Não se consegue rever um contrato sem que o Estado (diga-se, os cidadãos e contribuintes) tenha de pagar uma indemnização. » (...)

«Os alertas começam a chegar. Os contratos, como contratos que são, têm de ser cumpridos, dizem. Rever os contratos das PPP? Isso vai custar uma fortuna, avisa-se. Rever os contratos que o Estado tem com a EDP? Mais outra fortuna.

O que é interessante nesta realidade é a sua dimensão de absurdo. O mundo em que pensamos que vivemos é, afinal, um outro mundo completamente diferente.» (...)


(...) « tirar a quem tem apenas a Lei e a Constituição do seu lado, para dar a quem tem contratos.

Eis uma abordagem a roçar o esquerdismo, dirão alguns. Pois não é. A democracia capitalista de mercado tem na liberdade, igualdade e no Estado de direito - e não dos contratos - os seus pilares fundamentais. O que temos hoje é tudo menos mercado. Porque uns são manifestamente mais iguais que outros, porque uns têm manifestamente mais poder sobre o Estado que outros. Terá a troika o poder de curar esta ferida do capitalismo?» (...) Helena Garrido, no Jornal de Negócios.

12 maio 2011

Quando a casa do vizinho arde ...

(...) «a experiência de países que legalizaram a eutanásia demonstra que assim que se admite a ideia de que há vidas que não merecem ser vividas, a voluntariedade do paciente passa a ser algo secundário.

Se a idade avançada, a doença ou a deficiência se consideram razão suficiente para ajudar alguém a morrer, a mensagem é que os velhos, os incuráveis e os deficientes são prescindíveis, quer o saibam ou não. Alguém decide por eles.

Assim o decidiu o encarregado do Lar de 3ª idade, "La Caridad" em Olot, Espanha, que confessou ter matado três idosas, porque "tinha muita pena delas", uma vez que viviam numas condições que ele "não poderia suportar". Para o ilibar, o seu advogado declara que o cuidador "pensou que tinha de o fazer porque lhes estava a fazer um bem e gostava delas". Enfim, um típico "anjo da morte" cheio de bons sentimentos. (...)

Esta pessoa confessou diante do juiz que num momento de "euforia" julgava "que era Deus" e que para ajudar as idosas as enviava "para a plenitude". Mas, considerando o que fez ao administrar-lhes lexívia e outros produtos corrosivos, falar de "boa morte" neste caso, não é senão um eufemismo. (...)

O estudo que está publicado no British Medical Journal, revela que, na Flandres, só 52,8% dos casos de eutanásia foram declarados às autoridades.

Nos outros casos, os médicos não consideraram que o acto cometido fosse eutanásia, preferiam não informar por causa da burocracia, temiam não ter cumprido todos os requisitos legais ou consideravam que a eutanásia é um assunto a resolver entre o doente e o médico. Em resumo, em quase metade dos casos não há registo de que a eutanásia tenha sido solicitada pelo doente.

Também na Holanda, na investigação da Comissão Remmelink, 27% dos médicos indicaram que tinham acabado com a vida de algum paciente por decisão própria, porque nem o paciente nem os familiares estavam em condições de o fazer.» (...)
(em aceprensa.pt)

30 abril 2011

"a desigualdade invisível"


No Correio da AESE, 19 de Abril de 2011:

(...) «Em grande parte, as desvantagens laborais das mulheres não se devem ao sexo, mas à maternidade.

Acontece em muitos países aquilo que se veio a comprovar nos Estados Unidos: as mulheres ganham em média 80% da média masculina em empregos a tempo inteiro; mas, se se compararem as jovens licenciadas solteiras com os homens de igual condição, a diferença desaparece.» (...)

28 abril 2011

Separar para poupar nos impostos


Notícia no Sol: «Casados chegam a pagar mais 800 euros por ano, em relação às uniões de facto»

De facto, isto não é novo. Mas pelos vistos, continua ... Não há simplex que nos valha, e a responsabilidade não é só do actual governo ...

27 abril 2011

Os tapumes da pobreza

No Economia & Finanças:

(...) «na pior conjuntura económica em muitos anos, se olhássemos apenas para a despesa do Estado em apoios sociais teríamos uma imagem completamente distorcida da realidade nacional.

Na altura em que mais era necessário o Estado estar presente, esse mesmo Estado sai de cena mais rapidamente do que em tempo de vacas menos magras. Esta é uma das perversões da má gestão da coisa pública.

Além de podermos discutir que o Estado não cortou primeiro onde devia, parece também evidente que os cortes terão de ser generalizados, limitando a possibilidade de ser o estabilizador social que se desejava.

Vale a pena ter em mente estes números sempre que algum grupo, corporação ou beneficiado vier apresentar as suas sãs razões para ser poupado à melhor gestão dos dinheiros públicos.

O referencial de comparação deve ser este: o dos portugueses que estão hoje em situação de penúria total ou muito próximo disso.» (...)

20 abril 2011

"PS afasta deputadas que queriam reduzir feriados e cortar salários dos gestores"

No Jornal de Negócios, de hoje: 
«PS afasta deputadas que queriam reduzir feriados e cortar salários dos gestores»
(...) Segundo disse Teresa Venda ao Negócios, o PS contactou o Movimento Humanismo e Democracia para comunicar que não será renovado o acordo que vigorava há 15 anos
(...) Nos últimos anos, estas deputadas foram duas vozes quase isoladas na bancada socialista contra iniciativas como a despenalização da interrupção voluntária da gravidez e, mais recentemente, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

(...)Ao longo da legislatura que agora termina, Teresa Venda e Maria do Rosário Carneiro obrigaram o Parlamento (e a bancada parlamentar socialista) a debater dois temas que causaram muita polémica. Um deles foi a redução do número de feriados e a programação dos outros junto ao fim-de-semana, que acabou por não ter o apoio da liderança do partido.

O outro diploma previa a redução do número de administradores, a limitação da remuneração base dos gestores ao salário do primeiro-ministro e a imposição de austeridade no sector empresarial do Estado, como a imposição de um tecto de 40 mil euros na aquisição de automóveis ou retirar o cartão de crédito aos gestores públicos. Para levar o projecto de resolução a plenário, o PS “obrigou” as duas deputadas a retirar a parte em que se impunham limites aos salários dos gestores.»

14 abril 2011

O presidente do FMI é socialista

(...) «O presidente do FMI, Dominique Strauss Kahn é um líder socialista, não é um conservador nem é um neoliberal.» (...)

Quem o disse foi Mário Soares: afinal está tudo bem, fica tudo em família :-( 
 
Só ainda não entendi como é que o malandro do líder da oposição que, segundo o PM foi o responsável pela vinda do FMI, foi buscar um socialista?! Ainda acabo a emigrar para a Madeira para poder votar no Dr. Jardim ("Tá tudo louco" no contnente)!

A ditadura mole

Henrique Raposo, no Expresso:
(...) «Portugal, 2011: uma jornalista da Lusa foi saneada depois de ter recusado cumprir uma ordem de um assessor de José Sócrates. 
O meu país em 2011: uma jornalista foi demitida por não ter noticiado uma coisa que, vejam bem, ainda não tinha acontecido. Este é o último episódio de uma longa lista que comprovam uma coisa: José Sócrates é um perigo para a liberdade de imprensa. 

Mas o que é ainda mais perigoso é o silêncio dos jornalistas em relação a estes casos. Ontem, os telejornais não colocaram este caso em destaque (e, se calhar, nem sequer falaram do caso), e os jornais de referência (no online) não falaram do assunto. O dito assunto só circulou nas redes sociais. 

Ora, uma jornalista é saneada por razões políticas, e os outros jornalistas não falam disto? O que se passa aqui? Expliquem isto como se eu fosse muito burro.» (...)