Jornal de Negócios

01 agosto 2011

Assim não dá

(...) «Por agora o meu objectivo é simplesmente expressar o meu intuito de administrativamente me tornar pobre ou rica para assim deixar de fazer parte do grupo a quem o Estado manda aguentar e pagar os Estaleiros de Viana, os custos da insularidade, as televisões públicas e privadas.

As portagens das Scut, os espantosos contratos celebrados pelo Estado com os concessionários das Scut e os pórticos destruídos nas Scut. Os governadores civis, os maquinistas da CP, o Metro Sul do Tejo (com tanto milhão de prejuízo sairia mais barato oferecer um automóvel aos pouquíssimos utilizadores desse metro), os bairros sociais que em dois meses passam a problemáticos, o pessoal de cabina da TAP, os especialistas na acumulação do RSI com pensões, subsídios, abonos, apoios, complementos e bonificações.

Não quero mais fazer parte desse grupo que paga as hipotecas aos bancos e respectivas comissões mais as universidades onde estudam muitos daqueles que acham que o melhor será partir as montras dos bancos e, como não podia deixar de ser, ainda acaba a pagar também as montras partidas dos mesmos bancos.»

(...) «O Estado é em Portugal paternalista com os pobres, servil com os ricos, absolutamente indulgente consigo mesmo e de uma exigência sem limites para com aquele grupo a que põe ao peito a medalha da classe média mas em que na prática se incluem agregados familiares com rendimentos mensais a partir dos 2 mil euros.

Os jornalistas sonham com revoluções requentadas do marxismo, com muitas praças cheias de gente, montras partidas, acampamentos, capuzes e slogans. Mas aquilo que pode colocar literalmente o nosso mundo em causa não é essa gente. Tenhamos medo sim do dia em que a classe média perca não o medo mas sim a vergonha de não cumprir e ao anúncio de mais impostos responda "Assim não dá".» Helena Matos, Público 21 de Julho de 2011. Citado em O Povo.

31 julho 2011

Números

Sítio da Direcção Geral da Saúde: estatísticas de Portugal

- Taxa de Natalidade Bruta    (2009): 9,4 / 1000 habitantes
- Taxa de Mortalidade Bruta (2009): 9,8 / 1000 habitantes

Sem palavras ...

28 julho 2011

Desafios demográficos

(...) De acordo com o Eurostat há  «sete países onde a população está a diminuir em termos globais (incluindo Portugal e Alemanha) e oito onde nascem menos habitantes do que aqueles que morrem, número idêntico ao dos países com saldo migratório negativo.

Mas há países com saldo altamente positivo, «na esfera de influência da União (e potenciais futuros membros). Entre estes destaca-se a Turquia, país que apenas é superado em número de habitantes pela Alemanha e que regista taxas de crescimento populacionais impressionantes face ao contexto europeu. Em 2010, a Turquia aumentou a sua população em 1 161 700 habitantes, o que corresponde a 84,5% do crescimento registado em todos os 27 países da União Europeia. Este número é ainda mais significativo se considerarmos que o maior contributo para o crescimento foi endógeno, ou seja, fez-se por via de um número de nascimentos muito superior ao dos óbitos. 

De facto, o saldo natural turco correspondeu a 159,5% do crescimento populacional da globalidade da União Europeia.» (...)
(citado do jornal Economia & Finanças)

27 julho 2011

Mais resultados e menos promessas ...

Poderia ser uma espécie de apelo político, mas é apenas uma decisão técnica tomada pelo Instituto de Medicina Regenerativa da Califórnia.

Considerado durante anos como líder na investigação com células embrionárias, este Instituto decidiu passar a usar células estaminais adultas, a partir do momento em que os seus investidores declararam que queriam mais resultados e menos promessas.

Não foi por uma questão ética (deixar de manipular embriões humanos), mas por uma questão prática: é que as células adultas têm possibilitado tratamentos e resultados objetivos, enquanto as células extraídas à custa da morte de embriões não saem, há muitos anos, e apesar de muito dinheiro gasto, da fase de experimentação.

Em Espanha, o número de embriões humanos congelados continua a aumentar, como resultado das técnicas de procriação assistida.

Na Catalunha, a única Comunidade autónoma com registo, há 61.000 embriões congelados, quatro vezes mais que em 2001. O jornal El País (22de Abril), diz que os responsáveis das clínicas de fertilização se queixam que o número aumenta e que não sabem que fazer com estes embriões.

A lei espanhola (2006) previa quatro possíveis destinos para os embriões excedentários dos processos de fecundação in vitro. O casal podia escolher: guardá-los para uma futura utilização, doá-los para adopção, destiná-los à investigação,ou destruí-los.

A opção menos usada é a destruição, menos de 10%.

A adopção por casais também não é bem aceite, nem por parte dos pais, nem dos possíveis adoptantes.


A doação para investigação (com a consequência da destruição do embrião) foi o novo caminho aberto na reforma legal de 2006. Pensava-se que a ciência ganharia com isso e que, também, as clínicas resolviam um problema.

Julgava-se que os investigadores estavam ansiosos por dispor destas células.

Mas agora acontece que, contra todos os prognósticos, não há qualquer pedido de embriões para investigação, a julgar pelo que diz a citada reportagem.

"O entusiasmo pelas células estaminais embrionárias diminuiu, agora há outras opções", reconhece Joaquim Calaf, do Centro de Reprodução Assistida da Fundación Puigvert.

Podemos quase chegar a pensar que a investigação com células estaminais embrionárias deixou de ter interesse ou já não é prioritária, se se pode dispor de células adultas ou das adultas reprogramadas.

Em qualquer caso, a experiência destas clínicas é que, apesar de que, entre 5 % e 10 % dos casais estariam dispostos a doar os seus embriões para investigar, não há um interesse correspondente entre os cientistas.

20 julho 2011

Todos somos (um pouco) loucos ...

(...) «Procurando numa prateleira de um alfarrabista que oferecia livros a três e cinco euros, e nem sabendo que o Tartarin era do meu homónimo Afonso Daudet os meu dedos catam o Tartarin nos Alpes numa edição portuguesa. Que coincidência! Mas logo mais à frente, o que me interessou foi o Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão que logo agarrei por cinco euros.

E segui para outra editora. Estava eu muito concentrado a ler as lombadas de vários livros em saldo quando - de repente – um berro soprado como se fosse uma vuvuzela soou a vinte centímetros do meu ouvido, vindo por trás de mim: SOPA!

Com o susto, dei um salto para o lado com coração em arritmia e levantei o braço direito para me defender do ataque. O Elogio da Loucura era o meu escudo.

Os olhos pretos nas órbitas brancas de uma mulher louca fixavam-me com um brilho de animal selvagem e a boca desdentada e escura como um buraco voltou a berrar: SOPA! UMA SOPA!

As mãos da doida agarraram-me os braços como se ela se estivesse a afogar. Eu recuava e defendia-me com o Elogio da Loucura e perguntei: quanto custa uma sopa? A louca gritou: um euro e cinquenta!» (...) Ler mais no blogue de António Mexia Alves

18 julho 2011

Porque será que este diagnóstico é verosímil?

JPP, no Abrupto:

(...) «O PS abandonou o marxismo frentista com que vinha de antes do 25 de Abril, "meteu o socialismo na gaveta", virou católico envergonhado e depois voltou à Maçonaria, passou dos militantes históricos de 1974-6 para os ex-MES, tentou tirar o socialismo da gaveta e logo a seguir meteu-o ainda mais fundo na gaveta e fechou-a à chave, que Sócrates engoliu num acesso de fúria.

Criou uma central sindical e deixou-a ir a uma semivida própria, sem fulgor nem papel. Em todos estes casos, nem com Soares, nem Constâncio, nem Sampaio, nem Guterres, nem Sócrates, se discutiu nada sobre o que se passava dentro e fora de portas. Ficou-se preso, nos últimos anos, numa vulgata de "Estado" e "sector público" que permanecia como um retórica pobre e era contrariada em cada acção prática.

O PS já nem tem socialismo nem social-democracia, nunca teve reformismo nem se sobressalta quando a liberdade é ameaçada, na maioria dos casos por si próprio. Permaneceu anticomunista, mas namorou o Bloco de Esquerda, como antes tinha namorado todas as esquerdas "independentes", dos pintassilguistas aos antigos MRPP e aos ex-comunistas.

É hoje tão socialista como o PSD, que ainda há pouco tempo era mais socialista que o PS, mas agora já não é, sem por isso passar a ser liberal. O PS está numa confusão ideológica total, e ninguém quer saber disso para nada.» (...)

A UE existe? (2)

E também no Jornal de Negócios, Helena Garrido:

” (…) Os bancos portugueses tiveram de se sujeitar a um teste de resistência que é muitíssimo mais exigente do que o aplicado, por exemplo, aos bancos alemães. E, mesmo assim, um banco alemão chumbou, tendo-se dado ao luxo de não autorizar a divulgação dos seus resultados. Imagine-se o que não teria acontecido se alguma instituição financeira grega, irlandesa, portuguesa, italiana ou espanhola tivesse também recusado a publicação dos seus números. (…)

Os testes de stress somam-se às alterações das regras de contabilização das contas públicas ou às declarações autenticamente assassinas de alguns líderes europeus sobre os países em dificuldades, como a Grécia, Irlanda e Portugal. Com amigos assim, antes os ditos inimigos da teoria da conspiração. Afinal, Obama já diz que não é Portugal.(...) "

A UE (união) existe?

(...) «Querem toda a verdade? Cá vai ela, mas não se queixem se doer. É certo que os países sob ataque não podem permanecer no euro nem podem sair dele. Aí reside a esperança germânica de que a Zona Euro não se desmoronará.

Mas não é preciso que eles saiam do euro, basta que o euro saia deles. Um dia, todos entenderão que um euro depositado em Portugal, em Espanha ou na Itália não vale o mesmo que um euro depositado na Alemanha ou na Holanda.

As multinacionais que ainda não o fizeram, todas as grandes empresas e os cidadãos titulares de um património significativo carregarão num botão e, de um dia para o outro, secarão as tesourarias dos bancos locais. Nesse momento, vários países estarão na verdade fora da Zona Euro.» (...) (João Pinto e Castro, no Jornal de Negócios)

09 julho 2011

Que tipo de integridade moral exigimos aos nossos líderes

«Ninguém é perfeito. Todos podemos ser fracos quando a ocasião se apresenta. Mesmo os transgressores que regularmente infringem a moral vigente podem ser tratados com indulgência; afinal, eles são apenas humanos e, além disso, são geralmente divertidos ou admiráveis em certas facetas, ou tiveram um passado difícil, ou... 

Algumas pessoas pensam assim sobre o temperamental e eticamente instável Mel Gibson; bastantes californianos votaram em Arnold Schwarznegger para o fazerem governador, embora sabendo da sua abordagem hollywoodesca sobre o amor e a união; e Dominique Strauss-Kahn era reconhecido como um notório mulherengo muito antes dos chefões europeus o porem à cabeça do FMI.


Então porque é que os lapsos morais dos Gibsons, Schwarzneggers e Dominique Strauss-Kahns continuam a fazer manchetes de primeira página e causar debates públicos, investigações de alto nível e - muitas vezes - demissões? Estas figuras públicas estão a portar-se pior do que os inúmeros cidadãos comuns? O que se poderia esperar que eles fizessem?  (...) 

«Enquanto a tinta quase secou a escrever histórias sobre a suite do chefe do FMI no hotel de luxo em Nova York, os britânicos estão irados devido aos gastos perdulários da Comissão Europeia em jactos, festas, resorts e todo o tipo de despesas - 8 milhões de libras nos últimos anos -, tudo isto agravado pelo pedido de aumento do orçamento.

A mensagem desta indignação moral é que - à parte as celebridades - esperamos mais dos nossos representantes e funcionários públicos do que se fossem personagens de folhetins televisivos ou de filmes sobre ditadores obcecados pelo poder, e esperamos que se nivelem por padrões éticos. Mas quais são esses padrões?» (...)

«O resto da sociedade, no entanto, terá de dar uma ajuda a situações como a do FMI. As organizações (que se pressupõem democráticas) são pelo menos tão boas eticamente, como as pessoas que representam. Cada um de nós é capaz dos maiores males; da mesma maneira, os povos que elegem os Schwarzneggers e os Berlusconis, bem como os governos que apoiam os Strauss-Kahn. Tudo isto nos deve causar uma profunda preocupação. E nessa frente ética há muito trabalho a fazer.

Uma nova sondagem do instituto Gallup sobre as questões morais mostra que, embora a grande maioria dos americanos se oponha a relações extra-conjugais (o dano é demasiado pessoal para ignorar), há uma considerável tolerância de comportamento que prejudica o matrimónio e a família - incluindo pornografia, sexo e parentalidade fora do casamento. Além disso, a tolerância para essas matérias é maior entre os jovens adultos do que nos grupos etários mais velhos. É duvidoso que as coisas sejam muito diferentes nos outros países ricos.

Também é difícil ver como podemos ter líderes com altos padrões de ética, quando o terreno em que eles assentam se está a desmoronar»

06 julho 2011

coisas de pasmar

(...) «Entre 2003 e 2009, a RTP recebeu do Estado cerca de 2000 milhões de euros, o que dá cerca de 300 milhões por ano. 
Em 2010 recebeu 308 milhões de euros, muito mais do que recebe a CP, a Carris, a STCP, o Metro, a Refer, todos os teatros nacionais e todas as indemnizações compensatórias nos transportes locais, regionais, de barco, camionagem, avião, etc. (valores da Resolução do Conselho de Ministros n.º 96/2010). Só a RTP recebeu em 2010 mais de cinco vezes o que recebeu a CP.» (...)

uma questão de poder

Pedro Santos Guerreiro, no Jornal de Negócios:

(...) «Os mercados são um pagode, e nós as escamas dos seus despojos.

Isto não é uma reacção emotiva. Nem um dichote à humilhação. São os factos. Os argumentos. A Moody's não tem razão. A Moody's não tem o direito. A Moody's está-se nas tintas. A Moody's pôs-nos a render. E a Europa rendeu-se.

As causas da descida do "rating" de Portugal não fazem sentido. Factualmente. Houve um erro de cálculo gigantesco de Sócrates e Passos Coelho quando atiraram o Governo ao chão sem cuidar de uma solução à irlandesa. Aqui escrevi nesse dia que esta era "a crise política mais estúpida de sempre". Foi. Levámos uma caterva de cortes de "rating" que nos puseram à beira do lixo. Mas depois tudo mudou. Mudou o Governo, veio uma maioria estável, um empréstimo de 78 mil milhões, um plano da troika, um Governo comprometido, um primeiro-ministro obcecado em cumprir. Custe o que custar. Doa o que doer. Nem uma semana nos deram: somos lixo.

As causas do corte do "rating" não fazem sentido: a dificuldade de reduzir o défice, a necessidade de mais dinheiro e a dificuldade de regressar aos mercados em 2013 estão a ser atacadas pelo Governo. Pelo País.

Este corte de "rating" não diagnostica, precipita essas condenações. Portugal até está fora dos mercados, merecia tempo para descolar da Grécia. Seis meses, um ano.

Só que não é uma questão de tempo, é uma questão de lucro, é uma guerra de poder.» (...)

04 julho 2011

Marcados para morrer?

Uma das mais prestigiadas e lidas revistas de Medicina - o British Medical Journal - tem uma secção em que dá voz aos doentes e às suas experiências. Esta é uma delas. Pauline Thiele é uma enfermeira australiana que conta, em detalhe, a sua experiência de gravidez. ("A Patient’s Journey, Destined to die, por Pauline Thiele, grávida, Simon Blair, pediatra")
(...)
«Encostei o carro à berma para atender o telefonema do meu Obstetra. Estava a comunicar-me o resultado do "rastreio bioquímico": havia uma elevada probabilidade de que o meu bebé tivesse trisomia 18. 

Foi como se o meu mundo tivesse desabado e mal conseguia ouvi-lo a explicar-me que as probabilidades de sobrevivência eram muito poucas.
Atirei-me à Internet e descarreguei resmas de informação. 

No dia seguinte fiz uma amniocentese emergente. Vi os movimentos do meu filho no ecran do monitor e ouvi o ritmo rápido do seu coração.

O médico que fez a ecografia explicou-me que as notícias eram más: além de trisomia 18, o bebé também tinha espinha bífida na região lombar. Qualquer vestígio de esperança que eu tivesse estava aniquilado.

Passei um fim-de-semana tumultuoso a batalhar comigo mesma: o sonho de ver crescer esta criança não aconteceria nunca.
Senti-o mexer-se e fiquei encantada com ele: eu sabia que o  amava tanto que jamais lhe tiraria a vida - a ele ou a ela - com a tal "interrupção".»
(...) continua.

24 junho 2011

Produtividades

No Economia & Finanças:

«a diferença entre a produtividade laboral portuguesa e a alemã tem vindo a reduzir-se significativamente desde 1997.

Com base em dados do Eurostat actualizados a 21 de Junho de 2011
(...)

«em 1995 a índice português estava 45,3 ponto abaixo do alemão tendo essa diferença vindo a diminuir com particular intensidade entre 1997 e 2000 e, depois, entre 2005 e 2010. Para ajudar a visualizar melhor estes números apresentamos um gráfico.»

21 junho 2011

Quando ao problema se chama solução ...


(...) Não basta que «os economistas se limitem a propor: “É preciso incrementar o empreenderorismo, é preciso aumentar a produtividade!” Ou seja, devolvem-nos o problema intacto, mas chamam-lhe solução.

Não é possível entender-se a economia quando só se entende de economia. Porém, fazendo a síntese neoclássica ponto de honra de isolar a economia das restantes ciências sociais, os estudantes são estimulados a ignorar a história económica e política, a história das doutrinas económicas, a filosofia política, a sociologia e a antropologia.

Basicamente, o mundo caminhou desprevenido para a situação em que se encontra porque confiou ingenuamente nas doutrinas económicas dominantes. Por que raio deveria agora acreditar que essas mesmas ideias conseguirão tirá-lo do buraco em que se encontra, quando elas persistem num tão grande desconhecimento das realidades das economias contemporâneas? » (João Pinto e Castro, no Jornal de Negócios)